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Thursday, February 05, 2015

O PRÍNCIPE DAS BORBOLETAS

Dois dias após o décimo primeiro aniversário de John Farrington, uma migração de borboletas-monarca pousou na sua casa.
Quando John saiu nessa manhã, viu que as borboletas cobriam a parede lateral, como se fossem um tapete vivo. As asinhas cor-de-laranja abriam e fechavam, e o padrão do tapete estava sempre a mudar. Pequenos cachos de borboletas decoravam o peitoril do patamar, as cadeiras de encosto, o carro e parte do pátio.
John nunca vira nada mais belo. Ficou em silêncio para não as assustar. Embora sentisse um formigueiro nas mãos, mortas por pegar num dos bichinhos, retraiu-se com medo de que o bando levantasse voo. Mal se atrevendo a respirar, foi-se afastando da casa. Finalmente, sentou-se na relva, o mais devagar que conseguiu.
Toda esta tranquilidade não se coadunava muito com ele. John era um rapaz impulsivo por natureza, e preferia correr e gritar a estar quieto. Só que agora estava determinado a abrir uma exceção. O seu autocontrolo foi então recompensado por uma borboleta que veio pousar na ponta da sua sapatilha. Abriu e fechou as asas uma vez e, depois, começou a subir pela perna do rapaz.
Entretanto, outras borboletas vieram na sua direção e aterraram no seu ombro esquerdo. Uma, particularmente ousada, veio mesmo pousar-lhe na mão. John engoliu em seco, nervoso, e tentou dominar o medo. Afinal, o que haveria de mais inofensivo do que uma borboleta? No entanto, o rapaz sentia que algo de estranho estava para acontecer. Algo de pouco natural
Foi então que as borboletas começaram a falar com ele. Milhares de vozes sussurravam na sua mente, tão delicadas como um roçar de asas na sua face. As vozes pediam ajuda. Faziam-no sem palavras mas de forma clara.
Uma sensação de pânico percorreu a espinha de John, que teve sérios problemas em ficar quieto. Fechando os olhos, pensou: Como? Porquê?
Mais borboletas aterraram no seu corpo imóvel: havia borboletas nas suas pernas, nos seus braços, nos seus ombros. Eram criaturas frágeis, delicadas e… assustadas. Enquanto se dirigiam a ele, a imagem de um prado, verde e tranquilo, tomava forma na sua mente. “Perdemo-nos no caminho”, sussurraram as borboletas. “Que caminho?”, pensou John. “O caminho que conduz a casa. Existe um lugar verde aqui perto, onde costumamos parar para comer e descansar. Só que agora não conseguimos encontrá-lo. Era um espaço tão grande… Para onde terá ido?”
John percebeu que se referiam ao prado, um lugar onde brincara com frequência. No último setembro, porém, uma construtora tinha começado a transformá-lo em centro comercial. A mente do rapaz reproduziu, sem querer, a imagem que o prado apresentava agora e o desespero das borboletas inundou-lhe o coração. “O que havemos de fazer? Este era o último santuário que conhecíamos nesta etapa do nosso percurso até casa. Para onde iremos agora?”
A pergunta foi feita, simultaneamente, por milhares de borboletas e trazia consigo os pensamentos de muitas outras, acabrunhadas pela tristeza. Uma voz ergueu-se e ressoou clara: “Ajuda-nos!”
“Mas, o que posso eu fazer?” pensou John, cuja alma se debatia entre o medo e o deslumbramento. “Será que existe um outro local verde aqui perto?”
O rapaz lembrou-se que, num dia do início desse mês, tinha ido vender revistas para angariar fundos para o recreio da escola. Tinha ido de bicicleta até um local distante e tinha-se perdido. Nesse mesmo local, existia ainda um oásis de verdura que os bulldozers não tinham destruído. Mal a imagem do local se formou na sua mente, as borboletas pediram, excitadas e aliviadas: “Leva-nos até lá.” “Mas como?” perguntou John.
 
A resposta das borboletas não surgiu sob a forma de palavras, imagens ou sentimentos. Cercaram o rapaz, roçando nele as asas, e derramaram as suas escamas minúsculas nos seus olhos, braços e pernas.
Então, abrindo as asas inesperadas que pendiam dos seus ombros, John levantou voo.
O seu coração quase rebentou de felicidade por poder deslizar pelo ar ameno. Flutuando ao sabor de brisas suaves e acompanhado por milhares de seres cintilantes e coloridos, aos quais agora se assemelhava, o rapaz sentia-se acompanhado de uma forma que nunca antes experimentara.
“Conduz-nos ao prado”, pediu o bando.
Abanando as suas asas delicadas, John ergueu-se no ar de forma a ver o rumo que deviam seguir. Mal o encontrou, logo guiou as borboletas por sobre as casas. Voaram a manhã toda, ora descansando numa sebe, ora repousando numa árvore. “Só falta mais um bocadinho”, prometeu-lhes. Quando, por fim, alcançaram o prado, as borboletas repousaram na sua verdura bravia com um tal sentimento de alívio que John se sentiu bafejado por um vento cálido.
 
O rapaz passou a manhã toda com elas, rastejando ao longo de caules verdes e esguios, desenrolando a língua em busca de néctar, apreciando o sol a bater nas suas asas. Por volta do meio-dia, sentiu que estava em apuros. “Será que me podem enviar de volta? A minha mãe vai ficar furiosa comigo, porque não lhe disse onde ia.”
“Fica connosco”, sussurraram as borboletas. “Fica connosco.”
John sentiu o sol nas asas, asas que poderiam erguê-lo até ao céu, conduzi-lo para longe dali, e desejou permanecer borboleta para sempre. Mas lembrou-se de que os pais estariam em cuidados e de que sentiriam a sua falta. E de que ele sentiria a falta deles.
“Não posso ficar”, disse com tristeza. “Tenho de ir para casa.”
Então, as borboletas juntaram-se todas e tudo voltou a ser como antes. Como uma borboleta que se transforma de novo em lagarta, John perdeu as asas e voltou a ser um rapaz, encandeado pela luz do sol. Tinha os pés cheios de bolhas quando chegou a casa, e estava de facto em apuros. Mas não se importou: trocaria sempre, de bom grado, uma semana no chão por um dia com asas.
A partir dessa altura, todas as primaveras John esperava pelas borboletas, que não tardavam a vir. Pediram-lhe ajuda por duas vezes mais. E, das duas vezes, o rapaz transformou-se em borboleta e conduziu-as a um lugar seguro. No ano em que fez dezassete anos, o bando deixou de aparecer. O coração de John doía de tantas perguntas. Será que ficara velho demais? Será que o tinham esquecido? Ou será que algo pior tinha acontecido? Fosse qual fosse a razão, este foi o período mais doloroso da sua vida. Mas nunca conseguiu explicar à mãe porque se sentia tão desesperado, ou porque chorava na cama à noite.
No ano seguinte, entrou para a faculdade, onde se especializou em estudos sobre borboletas. Mas, embora os professores o tenham achado um aluno brilhante, John passou um mau bocado. Não conseguia colecionar borboletas e colocá-las em caixas com alfinetes espetados. Preferia estudá-las no seu habitat natural. Ficava doente só de ver coleções de borboletas. Acabou por ter de abandonar os estudos e continuar a trabalhar por conta própria.
 
Trinta anos mais tarde, John persuadiu o Congresso norte-americano a aprovar a lei do “Trilho das Borboletas”, uma lei que consagra a preservação de uma série de espaços verdes para que as borboletas-monarca possam efetuar a sua migração anual em paz.
A maioria dos investigadores considera que foi John Farrington quem salvou estas borboletas da extinção.
Um dia, quando John já era velho, e deixou de poder andar, a enfermeira que tomava conta dele levou-o até um lugar ensolarado.
 Acha que fica bem aqui?  perguntou-lhe, aconchegando-lhes as pernas com um cobertor, antes de se ausentar.
John acenou afirmativamente e a enfermeira foi para dentro de casa, deixando-o a gozar o calor e o silêncio daquele espaço.
Alguns minutos depois dela se ter ido embora, uma nuvem de borboletas rodeou-o. Milhares de asas roçaram a sua face e escamas minúsculas caíram sobre os seus olhos, braços e pernas.
Com o coração cheio de alegria, John Farrington esticou as suas asas pretas e laranja… e voou dali para sempre.
 
Bruce Coville; John Clapp
The Prince of Butterflies
Orlando, Voyager Books, 2002
(Tradução e adaptação)

Não posso adiar o amor... 
         Não posso adiar o amor para outro século
não posso                                                                                                                      
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa
Viagem Através de uma Nebulosa Ed. Ática, 1960
 Biblioteca verde
Papai, me compra
a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora.
É em percalina verde, só 24 volumes.
Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente
sua Biblioteca bem acondicionada,
não quero defeito.
Se vier com arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro. 
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo.)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passar a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não. 
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas, Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vénus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas? 
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente.

Carlos Drummond de Andrade
   OS LIVROS
 
 
 
Os livros. A sua cálida
Terna, serena pele. Amorosa
Companhia. Dispostos sempre
A partilhar o sol
Das suas águas. Tão dóceis
Tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua branca e vegetal cerrada
Melancolia.
Amados
Como nenhuns outros companheiros
Da alma. Tão musicais
No fluvial e transbordante
Ardor de cada dia.
 
 
Eugénio de Andrade
 

O Astrónomo

                                      


À sombra de um templo
o meu amigo e eu
vimos um cego
sentado, solitário.
  
O meu amigo disse:
— Olha que esse
é o homem mais sábio da nossa terra.
  
Então, deixando o meu amigo,
aproximei-me do cego,
saudei-o e começámos a falar.

Pouco depois disse-lhe:
— Desculpa a pergunta,
mas há quanto tempo estás cego?

                                                                                                                Ele respondeu:
— Desde que nasci.
  
Perguntei então:
— E que caminho de sabedoria escolheste?
  
Ele respondeu:
— Sou astrónomo.

 Em seguida
levou a mão ao peito e disse:
— Sim, observo todos estes sóis,
estas luas e estas estrelas.


Khalil Gibran
O Profeta
 Mulheres à Beira-Mar
 
 
Confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento,
têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena
liberdade.
 
Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos seus
pulsos penetra nas espumas.
 
Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos
prolonga o interminável rastro no céu branco.
 
Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente
a virgindade de um mundo que nasceu.
 
O extremo dos seus dedos toca o ponto de espanto e de
vertigem onde o ar acaba e começa.
 
E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.
 
 


Sophia de Mello Breyner Andresen 
Antologia 
Porto, Liv. Figueirinhas, 1985

O melhor presente do mundo
 
                                                                     
 
A todos quantos, de ambos os lados do conflito,  
 
tomaram parte na trégua de Natal de 1914.
 
 
 
Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça em carvalho do início do século XIX. Há já anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa tinha várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e havia marcas de queimaduras por todo o lado.
 Não era cara, e pensei que poderia tentar restaurá-la eu mesmo. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de ter uma escrivaninha assim. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que havia em casa. Faziam muito barulho e eu queria ter algum sossego.
 Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas prenunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude. 
Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito “A última carta de Jim, recebida a 25 de janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.” 
Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre. Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs Jim Macpherson, 12 Copper Beeches, Bridport, Dorset. Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de dezembro de 1914.  
 
Querida Connie
 Escrevo-te, feliz, porque acaba de acontecer algo de maravilhoso que quero contar-te já. Ontem de manhã, estávamos todos nas trincheiras. Era Dia de Natal e estava uma das manhãs mais bonitas que vira até então, tranquila e gelada como uma manhã de Natal deve ser.
 Gostava de poder dizer-te que fomos nós que tivemos a iniciativa. Mas a verdade, envergonho-me de to dizer, foram os Alemães a fazê-lo. Primeiro, alguém viu uma bandeira branca a ondular nas trincheiras do inimigo. Depois, ouviu-se gritar:
 — Feliz Natal! Feliz Natal!
 Quando nos tínhamos recomposto da surpresa, alguns de nós retribuíram:
 — Feliz Natal para vocês também!
 Pensei que tudo ficaria por ali. Todos pensámos. Mas, de repente, vimos um deles, no seu sobretudo cinzento, a agitar uma bandeira branca.
 — Não atirem, rapazes! — alguém gritou.
 E logo vimos mais Alemães, uns a seguir aos outros, a aproximarem-se da nossa trincheira.
 — Mantenham-se em baixo — ordenei aos meus homens. — É uma armadilha.
 Mas não era. Um dos Alemães agitava uma garrafa no ar.
 — É Dia de Natal. Temos cerveja e salsichas. Querem encontra-se connosco?
 Por esta altura, já dezenas deles se dirigiam até nós, atravessando a terra de ninguém que nos separava. Nenhum deles transportava armas. O soldado Morris foi o primeiro a mexer-se.
 — Vamos lá, rapazes! De que estamos à espera? 
 Ninguém os conseguiu impedir. Eu era o oficial e devia ter travado aquilo imediatamente. Mas nem me ocorreu. Homens de ambos os lados, vestidos com sobretudos cinzentos ou com uniformes caqui, caminhavam em direção uns dos outros, e eu era um deles. Fazia parte daquilo. No meio da guerra, celebrávamos a paz.
 Não podes imaginar, querida Connie, o que senti, quando olhei, nos olhos, o oficial alemão que se aproximava de mim, com a mão estendida.
 — O meu nome é Hans Wolf — disse, segurando a minha mão com firmeza e afabilidade. — Sou de Dusseldorf e toco violoncelo na orquestra da cidade. Feliz Natal!
 — Sou o Capitão Jim Macpherson — respondi. — Sou professor em Dorset, no leste de Inglaterra. Feliz Natal para si, também!
 — Dorset — repetiu. — Conheço muito bem esse lugar.
 Partilhámos a minha ração de aguardente e a excelente salsicha dele. E falámos, falámos sem parar. O inglês dele era excelente, mas acontece que nunca tinha posto os pés em Dorset. Tudo o que sabia sobre Inglaterra tinha-o aprendido na escola e nos livros que lia em inglês. O seu escritor favorito era Thomas Hardy, e o seu livro preferido Far from the Madding Crowd.
 Naquela terra de ninguém, conversámos sobre Bathsheba, Gabriel Oak, Sergeant Troy e Dorset. Tinha mulher e um filho, com seis meses de idade. Enquanto olhava à minha volta, só via manchas de cor cinzenta e caqui a fumarem, a rirem, a comerem e a beberem. Hans Wolf e eu partilhámos o que restava do teu ótimo bolo de Natal. Segundo ele, o teu maçapão era o melhor que alguma vez provara. Concordei. Concordávamos em tudo, Connie, e ele era meu inimigo . Nunca tinha havido festa de Natal assim!
 Alguém trouxe uma bola de futebol. Os sobretudos foram despidos e transformados em postes de balizas. O jogo começou. Hans Wolf e eu assistimos e encorajámos os jogadores, batendo palmas e batendo com os pés no chão, para afastarmos o frio. Houve um momento em que vi a nossa respiração misturar-se. Ele viu o mesmo e sorriu.  
 — Jim Macpherson — disse, passado um bocado — penso que é assim que esta guerra devia ser resolvida. Como um jogo de futebol. Ninguém morre num jogo de futebol. Ninguém fica órfão. Nenhuma mulher fica viúva.
 — Prefiro o críquete — disse-lhe. — Assim, os Ingleses ganhariam.
 Rimo-nos da minha piada e assistimos ambos ao jogo. Pena-me dizer que os Alemães ganharam 2-1. Mas Hans Wolf comentou, com generosidade, que o nosso golo fora mais bem marcado do que o deles.
 Quando o jogo acabou, já há muito tinham desaparecido a cerveja, o bolo, a aguardente e as salsichas. Desejei felicidades a Hans e fiz votos de que voltasse a ver a família em breve, de que a guerra acabasse depressa, e de que todos regressássemos a casa, sãos e salvos. Respondeu-me:
 — Penso que é o que todos os soldados querem, sejam Alemães ou Ingleses. Tome cuidado consigo, Jim Macpherson. Nunca o esquecerei nem esquecerei este momento. 
 Fez-me continência e afastou-se, devagar, como que a contragosto. Virou-se para acenar, uma vez mais, e logo se transformou em mais um, por entre as centenas de homens vestidos de cinzento que regressavam às suas trincheiras. Nessa noite, ouvimo-los entoar um belo cântico de Natal, “Noite Feliz”. Os nossos rapazes responderam com “Enquanto os pastores vigiam”. Trocámos cânticos durante mais algum tempo e, depois, calámo-nos. Foi um momento de paz e boa vontade, que recordarei com carinho enquanto viver.
 Querida Connie, no Natal do ano que vem, esta guerra não será mais do que uma recordação vaga e terrível. Sei, por tudo o que aconteceu hoje aqui, o quanto ambos os exércitos desejam a paz. Em breve estaremos de novo juntos, tenho a certeza.

  
O teu querido Jim