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Friday, December 01, 2006

Angola agora é um bom negócio


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Durante muito tempo, Angola foi dada por analistas internacionais como um caso perdido. Não por acaso. Uma guerra civil entre tropas rebeldes e as forças fiéis ao governo prolongou-se durante quase três décadas, provocando a morte de mais de 1 milhão de pessoas e a destruição quase completa de um país já suficientemente castigado pela miséria e pelo subdesenvolvimento.

Diferentemente dos prognósticos pessimistas, porém, Angola vem-se reerguendo nos últimos anos. A paz entre as facções antagónicas foi selada em 2002 e, desde então, não há sinais de novos distúrbios. O clima de calmaria abriu espaço para a reconstrução do país.

O trabalho encontra-se agora numa fase acelerada e inclui a recuperação de prédios públicos, estradas, ferrovias, usinas hidroeléctricas e redes de esgoto e de telecomunicações, entre outras coisas.

Esse monumental esforço produziu um efeito que parecia improvável: Angola virou um bom negócio. Não que o país africano se tenha transformado em uma nova China, é óbvio, mas o fato é que a ex-colónia portuguesa tornou-se uma ilha de oportunidades comerciais num continente marcado por guerras e estagnação económica.

Considerando-se apenas o pacote das maiores obras em andamento, o governo local deve investir perto de 2 biliões de dólares nos próximos anos. Estão a ser construídos 28 hospitais, 40 escolas e quase 30 mil moradias.
ImageEm termos de infra-estrutura, encontram-se entre as prioridades nacionais a reconstrução de 17 000 quilómetros de estrada e a recuperação de boa parte da malha ferroviária do país. Os tempos de paz também abriram espaço para investimentos em outras áreas.

Embora continue sendo um dos países mais pobres do mundo, cresce em Angola o número de projectos voltados para atender uma emergente classe média, que já corresponde à fatia de cerca de 10% do total de 4 milhões de habitantes da capital, Luanda. Exemplo disso é a proliferação de condomínios residenciais erguidos para essa fatia da população. Como resultado dos investimentos nas mais diferentes áreas, o país encontra-se em franca expansão - o PIB deve crescer acima de 20% neste ano.

Esforço de reconstrução
Aqui mostra-se alguns dos principais projectos em andamento ligados à recuperação de Angola para os próximos anos.

Obras municipais: 738 milhões de dólares
Recuperação de ruas, construção de sedes de prefeituras, saneamento básico de Luanda e programas para evitar erosão.
Transporte: 476 milhões de dólares
Recuperação de ferrovias e estradas, aumento da frota de transporte rodoviário e modernização de aeroportos.
Electricidade: 409 milhões de dólares

Ampliação da hidroeléctrica de Capanda e recuperação e ampliação das redes de distribuição de energia em Luanda, N’Dalatando, Caxito e Malange.
Água: 264 milhões de dólares

Construção de um novo sistema de abastecimento integrado das cidades de Benguela, Lobito, Catumbela e Baía Farta.


Angola não é o primeiro país devastado por uma guerra que experimenta um ‘boom’ de negócios no seu período de reconstrução. Processo semelhante está a ocorrer no Iraque.

O caso do país africano, porém, tem algumas peculiaridades. Poucas outras nações que se encontram na mesma situação possuem tantas riquezas naturais. Isso garante os recursos financeiros necessários para financiar as obras. Angola é o quarto maior produtor de diamantes do mundo e tem uma das maiores reservas de petróleo da África.

A escalada no preço internacional do ouro negro ocorrida nos últimos anos fez com que o volume de dólares a entrar no país desse um salto inédito na história recente. O ambiente agora pacífico também colabora para atrair o dinheiro de grandes empresas, como a americana Exxon Mobil. Em 2004, a petrolífera investiu 3,5 biliões de dólares no país num dos maiores projectos de extracção de petróleo em águas profundas da África.

ImageAssim como Angola, os outros países produtores de petróleo também estão a “nadar em dinheiro”. O que parece estar a fazer a diferença é uma surpreendente capacidade dos angolanos de aproveitar o bom momento. O governo tem feito sua parte. Iniciou nos últimos anos um processo de redução do deficit orçamentário e da inflação, que caiu de 325% em 2000 para 18% no ano passado. O processo veio acompanhado de um pacote de incentivos fiscais.

Desde 2003, vigora em Angola uma lei que garante isenção de impostos industriais de até 15 anos para as empresas que realizarem investimentos nas cidades do interior. Os bons resultados dessa política ficam evidentes nas estatísticas oficiais: segundo a agência estatal que regula investimentos privados no país de até 5 milhões de dólares, o número de projectos aprovados cresceu de 95 em 2003 para 290 em 2005.

Esse ambiente favorável tem beneficiado muitas empresas brasileiras.

Há mais de 20 anos em Angola, a construtora Odebrecht viu o número de projectos de que participa aumentar constantemente nos últimos quatro anos. Além de construir hidroeléctricas, linhas de transmissão de energia e canais de irrigação, a empresa é uma das responsáveis pelo ‘shopping center’ Belas, o primeiro do país, que está a ser erguido em parceria com o grupo angolano Hogi. Localizado na capital, Luanda, o centro de compras deve abrir as portas em Dezembro.

Na disputa entre empresas do mundo inteiro interessadas em financiar os projectos em andamento, os investidores brasileiros contam com algumas vantagens. A mais óbvia é o idioma. Há vários dialectos em Angola, mas a língua oficial, falada em todas as grandes cidades, é o português. Há também uma grande comunidade de brasileiros a viver lá, muitos deles remanescentes das primeiras levas de trabalhadores levados pelas grandes construtoras.

Apesar das muitas oportunidades oferecidas, investir em Angola não é tarefa das mais simples. A capital, Luanda, está cheia de favelas e muitas pessoas ainda não têm acesso a água potável e saneamento básico. Falta de electricidade ocorre duas ou três vezes por semana na capital. A guerra também deixou outro legado problemático. Há entre 5 milhões e 10 milhões de minas terrestres ainda não desactivadas espalhadas por todo o país. Por muito tempo, o único transporte seguro foi o avião.

ImageAs poucas estradas asfaltadas ainda se encontram intransitáveis. A construtora Camargo Corrêa está prestes a assinar um contrato para iniciar obras no valor de 85 milhões de dólares para recuperar uma rodovia com 84 quilómetros de extensão no interior do país. Outro projecto da construtora que deve começar até Novembro é a remodelação do acesso ao porto de Luanda, extremamente congestionado. Hoje, leva até 90 dias para retirar mercadorias importadas.

A lentidão no porto é um reflexo de outro problema crónico: a burocracia. Vistos de trabalho chegam a levar quase um ano para ser expedidos. Toda essa barreira burocrática cria um terreno fértil para a praga da corrupção. Segundo o mais recente ranking da ONG Transparência Internacional, que lista os países dos menos corruptos para os mais, Angola está na 151.ª posição entre o total de 159 países.

O Brasil, com todos os seus ‘mensalões’ e sanguessugas, está em 62.º lugar. Um empresário que trabalha em Angola há mais de dez anos diz que subornos, popularmente conhecidos no país como "gasosas", são essenciais para agilizar processos.

Os governantes locais, como era de esperar, dizem estar empenhados em reduzir a burocracia para facilitar os investimentos. Outro desafio é a manutenção da estabilidade política. Apesar da paz reinante, há mais de uma década não são realizadas eleições - desde o fim da guerra civil que são prometidas e sempre adiadas. O pleito mais recente foi marcado para ocorrer até o fim de Setembro, mas, sob a alegação de que grande parte da população não tem título de eleitor, foi novamente postergado, agora para 2007.

O espectro político é semelhante ao da época do conflito. O grupo de oposição Unita faz parte da Assembleia Nacional, dominada por seu antigo adversário, o MPLA, que também detém a Presidência. Embora os dois grupos tenham deposto as armas, o sentimento de afastamento mútuo ainda domina as relações. Pelo menos por enquanto, essas incertezas políticas não têm sido suficientes para abalar a crença de que a retomada de Angola, desta vez, pode ser para valer.

Fonte: Exame por Denise Dweck - Editado por Angola Digital
Friday, 01 December 2006

Saturday, November 11, 2006

MÁRIO PINTO DE ANDRADE

MÁRIO PINTO DE ANDRADE
Escritor e político angolano: 1928 - 1990

Fernando Correia da Silva

Mário Pinto de Andrade, Abril 1971 (site da Fundação Mário Soares)

SOU DESCENDENTE DE NEGROS CALÇADOS...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1928: A 21 de Agosto Mário Pinto de Andrade nasce no Ngolungo Alto (Angola). - 1929/1947: Estudos primário e secundário em Angola. - 1948: Viaja para Portugal; matricula-se no curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa. - 1949/52: Juntamente com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo, na Casa dos Estudantes do Império, no Clube Marítimo e no Centro de Estudos Africanos promove actividades culturais visando a redescoberta de África. - 1953: Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. - 1954: Vai viver em Paris. - 1955: Redactor da revista Présence Africaine, é também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros; acabará por se formar em Sociologia, na Sorbonne. - 1960: Com a prisão de Agostinho Neto pela PIDE, Mário assume a presidência do recém fundado MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA (MPLA); Mário como presidente e Viriato da Cruz como secretário-geral transferem a direcção do MPLA de Luanda para Conakry. - 1961: Após a independência do Congo Belga, Mário e Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville. - 1962: Mário entrega a presidência do MPLA a Agostinho Neto, que acabara de fugir de Portugal. - 1965/67: Mário coordena a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP). - 1973: É mandatado pelo Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA, para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral. - 1974: Mário, com o seu irmão Joaquim funda a “Revolta Activa”, corrente que se opõe à liderança de Agostinho Neto no MPLA, exigindo a democratização do regime; os dois irmãos Pinto de Andrade e outros militantes são muito perseguidos e têm que abandonar Angola. - 1976/8: Após a independência de Angola, Mário exila-se na Guiné-Bissau e ocupa o cargo de coordenador-geral do Conselho Nacional de Cultura. - 1978/80: Mário é o Ministro da Informação e Cultura da Guiné-Bissau. - 1980: Golpe de “Nino” Vieira na Guiné; Mário desloca-se para Cabo Verde. - Anos 80: Mário colabora na “História Geral da África” - 1990: A 26 de Agosto Mário falece em Londres.


CAFÉ CHIADO

Chiado, Lisboa. Meados do Séc. XX.

Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da

estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?

- Ontem fui à Feira Popular.

- Fazer o quê?

- Fui à montanha russa.

- E depois?

- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.

- E depois?

- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.

- E depois?

- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.

- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...

- A ver vamos se é mania ou intuição...



NEGROS CALÇADOS

Ainda no Café Chiado pergunto ao Mário por que não fez curso superior em Angola e ele responde-me que em Angola não há cursos superiores, por isso veio para Portugal.

- Mas isso, ó Mário, deve custar um dinheirão...

- Não te esqueças que eu sou descendente de negros calçados.

Fico atordoado com a resposta.

- De um lado pés descalços, do outro negros calçados? É isso?

- Sim, Fernando, é mais ou menos isso. Mas calçados, antes de tudo, porque faziam o comércio de longa distância, desde o Ngolungo Alto até Luanda. Os Andrade acabaram por ir viver em Luanda, embora mantivessem sempre o comércio com Ngolungo Alto. Assim capitalizámos recursos, não só económicos, mas também culturais. Somos dos primeiros a ser alfabetizados pelos padres católicos. A propósito: o meu irmão Joaquim já decidiu estudar para padre. Sim, Fernando, somos uma burguesia mas também somos os representantes do primeiro nativismo angolano.


PRAÇA DAS FLORES

Praça das Flores, Lisboa. Foto actual.

Em minha casa, no bairro Alvalade, em Lisboa, mostro ao Mário alguns dos poemas que tenho escrito. Ele declara gostar dos versos porque mantêm uma estrutura tradicional apesar de abordarem temas sociais e políticos. Contudo, aconselha-me a ler os poetas medievais portugueses (que eu mal conheço...). Digo-lhe que vou comprar uma antologia. Ele acha bem, mas antes convida-me a ir a sua casa e eu vou. A sua “casa” é um quartinho numa rua que desagua na Praça das Flores. E o Mário lê-me, interpretando com gestos largos, poemas do Rei Sancho I, de Juan Zorro, de Torneol, de Codax, de Meogo, de Charinho, do Rei Afonso X, do Rei D. Diniz. Praça das Flores? Seja! Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?

Na minha vida o vento sopra sempre às avessas. Um africano (tinha que ser um africano?) é quem me ensina a palmilhar as veredas do Cancioneiro Medieval Português...


CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO

Cartão de Identidade da Casa dos Estudantes do império, pertencente a Mário Pinto de Andrade (site da Fundação Mário Soares)

Para mais facilmente vigiar os africanos que estudam em Lisboa, a ditadura salazarista funda uma associação: Casa dos Estudantes do Império. Tiro pela culatra! Assim concentrados, para os africanos mais evidentes se tornam as diferenças entre colonizadores e colonizados. Intervenções culturais, debates sucessivos, o nacionalismo negro a levantar fervura. Diz Amílcar Cabral, o guineense estudante de Agronomia:

- Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. É necessário o regresso a África. Eis a razão de ser da minha vida.

Avança Agostinho Neto:

- É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena.

E afirma o Mário Pinto de Andrade:

- Em contexto colonial, a assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, das trevas da sua ignorância para entrar no santuário do saber. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel. O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com as luzes brilhantes da civilização? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de mestiço cultural?. Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação.

Concentrados, os africanos agora querem “redescobrir” a África que era deles e deles deixou de ser...

CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS

Amílcar Cabral e Mário Pinto de Andrade (site da Fundação Mário Soares)

Em 1950 um grupo de estudantes oriundos das colónias portuguesas funda um Centro de Estudos Africanos (CEA). Entre eles estão Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto, os poetas são-tomenses Alda do Espírito Santo e Francisco José Tenreiro, e a poeta moçambicana Noémia de Sousa. Diz o Mário:

- Os objectivos do Centro de Estudos Africanos são os de racionalizar os sentimentos de se pertencer a um mundo de opressão e despertar a consciência nacional através de uma análise dos fundamentos culturais do continente.

O mesmo grupo, com os mesmos objectivos, profere idênticas palestras no Clube Marítimo.



CADERNO DE POESIA NEGRA

Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia negra de Expressão Portuguesa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA.

Em 1953 Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade organizam e editam um Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Curiosamente, essa Caderno é dedicado a Nicolás Guillén. Porquê? Não tenho a certeza mas parece-me que foi por ter o cubano conseguido criar ritmos e sonoridades que infiltraram de negritude a língua castelhana. Portanto, bom exemplo para os africanos de língua portuguesa...

Ó Mário, entre os vários poemas reunidos no Caderno, escolho um teu em que se evidencia o drama do negro submetido ao colonialismo, o “contratado” para S. Tomé, drama que é preciso denunciar e expurgar.

CANÇÃO DE SALABU

Nosso filho caçula

Mandaram-no pra S. Tomé

Não tinha documentos

Aiué!

Nosso filho chorou

Mamã enlouqueceu

Aiué!

Mandaram-no pra S. Tomé

Nosso filho partiu

Partiu no porão deles

Aiué!

Mandaram-no pra S. Tomé

Cortaram-lhe os cabelos

Não puderam amarrá-lo

Aiué!

Mandaram-no pra S. Tomé

Nosso filho está a pensar

Na sua terra, na sua casa

Mandaram-no trabalhar

Estão a mirá-lo, a mirá-lo

- Mamã, ele há-de voltar

Ah! A nossa sorte há-de virar

Aiué!

Mandaram-no pra S. Tomé

Nosso filho não voltou

A morte levou-o

Aiué!

Mandaram-no pra S. Tomé

PRÉSENCE AFRICAINE

Em Janeiro de 1954, antes que a PIDE me deite a mão, dou o salto para o Brasil. E tu, Mário, dois ou três meses depois, suponho que pelos mesmos motivos, dás o salto para Paris.

Perco o contacto directo contigo mas, por vias terceiras, vou sabendo da tua vida.

Em 1955, sei que és redactor da revista Présence Africaine, e também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros. Também sei que estás a estudar e te vais formar em Sociologia, na Sorbonne.

TASCHKENT

Ó Mário: em 1958, juntamente com Viriato da Cruz, tu representas Angola na I Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, em Taschkent, na URSS.

MPLA

Mário Pinto de Andrade. Verso: carimbo do Departamento de Informação e Propaganda Mário Pinto de Andrade. Verso: carimbo do Departamento de Informação e Propaganda do MPLA (DIP) - site da Fundação Mário Soares

Com outros angolanos, em 1960 és um dos fundadores do clandestino Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de raiz marxista. Transferes a direcção do Movimento de Luanda para Conakry e levas os teus camaradas a votarem no Agostinho Neto (então preso em Portugal) para presidente honorário do MPLA. Presidente efectivo és tu e secretário-geral é o Viriato da Cruz.

Em 1961, depois da independência do Congo-Belga, tu e o Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville, porque assim ficam mais perto de Angola.

Em 1962 Agostinho Neto consegue fugir de Portugal e, em Leopoldville, assume a direcção do MPLA. Mas o seu autoritarismo, a sua mania de ser presidente, a sua rigidez, levam-te a pedir a demissão, ó Mário...

MAIS TRABALHOS

Mário: entre 1965 e 69 coordenas a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); e de 1971 a 72 integras o Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA na Frente Leste. Em 1973 és mandatado pelo mesmo Comité para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral.

REVOLTA ACTIVA

Mário Pinto de Andrade toma posse como Comissário da Cultura da Guiné-Bissau, 1980 - site da Fundação Mário Soares

Em 1974 tu, o teu irmão Padre Joaquim e muitos outros intelectuais angolanos opõem-se à liderança de Agostinho Neto dentro do MPLA, exigindo a democratização do regime. Esse movimento fica sendo conhecido como Revolta Activa. Em consequência, vocês todos são perseguidos ferozmente por Agostinho e seus fiéis.

- Batatada, mania ou intuição? - hei-de voltar a perguntar ao Alexandre O’Neill.

Mário: acabas por te exilar na Guiné-Bissau, onde assumes as funções de coordenador do Conselho Nacional de Cultura. Mais tarde serás até o próprio Ministro da Informação e Cultura, com a aprovação do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

REENCONTRO

Ilha de Santiago, Cabo Verde, entre a cidade da Praia e a Prainha

Depois do 25 de Abril, já em 1975, sou incumbido de ir a Cabo Verde e Guiné-Bissau para tentar armar um esquema de cooperação com o meu condiscípulo e velho amigo Vasco Cabral, o homem da Economia da nova República.

O Vasco está provisoriamente instalado numa vivenda na marginal entre a cidade da Praia e a Prainha. Diz-me que ali também está instalado o Mário Pinto de Andrade. Ele a dizer-me isto e o Mário a aparecer. Olha para mim, hesita, sabe que me conhece mas não é capaz de me reconhecer. Compreende-se, já se passaram mais de 20 anos e as nossas feições, até o físico, mudaram, eu engordei e ele emagreceu. Ajudo, assopro:

- Um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela rua Garrett...

Desmanchas-te a rir, corres para mim, dás-me um grande e apertado abraço.

NINO VIEIRA

Na Guiné-Bissau, em 1980, João Bernardo “Nino” Vieira dá um golpe que depõe o presidente Luís Cabral (irmão de Amílcar). Consequências: Luís Cabral segue para Lisboa e o PAIGC cinde-se em dois, o PAICV (cabo-verdeano) e o PAIG (guineense). Tu, Mário, tal como muitos outros companheiros de luta, deixas a Guiné e aderes ao PAICV.

HISTÓRIA GERAL DE ÁFRICA

Durante toda a década de 80 tu, Mário, circulas entre Paris (a tua base), Lisboa, Moçambique e Cabo Verde. Trabalhas na pesquisa e elaboração de artigos e capítulos para a História Geral de África, obra em oito grossos volumes, projecto editorial de UNESCO. Trabalho colectivo a contribuir para uma melhor compreensão das sociedades e culturas africanas. Obra realizada por 350 autores sob a direcção de um comité científico integrado por 39 especialistas, dos quais 2/3 são africanos. Dada a sua importância para a humanidade, a obra é editada em inglês, em francês, em árabe e também em algumas línguas africanas.

NATIVISMO E ERRÂNCIAS

Mário Pinto de Andrade com Samora Machel em Moçambique - site da Fundação Mário Soares

Dentro do espírito unitário da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas) também pesquisas o nativismo e o proto-nacionalismo na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, em S. Tomé e Príncipe e Moçambique. A tua pesquisa não é concluída mas será postumamente editada com revisão do texto por José Eduardo Agualusa.

Um, dois, três apartes: a convite do Governo de Moçambique ali permaneces entre fins de 83 e princípios de 84. Voltas ao Maputo em Abril de 85 para, juntamente com a socióloga Maria do Céu Carmo Reis, dares um curso de 3 meses na Universidade Mondlane sobre Ideologias da Libertação Nacional. Entre 87 e 89 permaneces em Moçambique por períodos intermitentes.

DOENÇA E MORTE

Mário Pinto de Andrade - site da Fundação Mário Soares

Problemas de saúde provocam o teu internamento no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Por decisão tua, do teu irmão Joaquim e da tua cunhada, em busca de melhoras segues depois para Londres. É tarde, nada a fazer. Ali morres a 26 de Agosto de 1990.

Ó Mário, saudades já tenho da tua forma de ser e estar!


Fonte: http://www.vidaslusofonas.pt