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Friday, December 01, 2006

Angola agora é um bom negócio


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Durante muito tempo, Angola foi dada por analistas internacionais como um caso perdido. Não por acaso. Uma guerra civil entre tropas rebeldes e as forças fiéis ao governo prolongou-se durante quase três décadas, provocando a morte de mais de 1 milhão de pessoas e a destruição quase completa de um país já suficientemente castigado pela miséria e pelo subdesenvolvimento.

Diferentemente dos prognósticos pessimistas, porém, Angola vem-se reerguendo nos últimos anos. A paz entre as facções antagónicas foi selada em 2002 e, desde então, não há sinais de novos distúrbios. O clima de calmaria abriu espaço para a reconstrução do país.

O trabalho encontra-se agora numa fase acelerada e inclui a recuperação de prédios públicos, estradas, ferrovias, usinas hidroeléctricas e redes de esgoto e de telecomunicações, entre outras coisas.

Esse monumental esforço produziu um efeito que parecia improvável: Angola virou um bom negócio. Não que o país africano se tenha transformado em uma nova China, é óbvio, mas o fato é que a ex-colónia portuguesa tornou-se uma ilha de oportunidades comerciais num continente marcado por guerras e estagnação económica.

Considerando-se apenas o pacote das maiores obras em andamento, o governo local deve investir perto de 2 biliões de dólares nos próximos anos. Estão a ser construídos 28 hospitais, 40 escolas e quase 30 mil moradias.
ImageEm termos de infra-estrutura, encontram-se entre as prioridades nacionais a reconstrução de 17 000 quilómetros de estrada e a recuperação de boa parte da malha ferroviária do país. Os tempos de paz também abriram espaço para investimentos em outras áreas.

Embora continue sendo um dos países mais pobres do mundo, cresce em Angola o número de projectos voltados para atender uma emergente classe média, que já corresponde à fatia de cerca de 10% do total de 4 milhões de habitantes da capital, Luanda. Exemplo disso é a proliferação de condomínios residenciais erguidos para essa fatia da população. Como resultado dos investimentos nas mais diferentes áreas, o país encontra-se em franca expansão - o PIB deve crescer acima de 20% neste ano.

Esforço de reconstrução
Aqui mostra-se alguns dos principais projectos em andamento ligados à recuperação de Angola para os próximos anos.

Obras municipais: 738 milhões de dólares
Recuperação de ruas, construção de sedes de prefeituras, saneamento básico de Luanda e programas para evitar erosão.
Transporte: 476 milhões de dólares
Recuperação de ferrovias e estradas, aumento da frota de transporte rodoviário e modernização de aeroportos.
Electricidade: 409 milhões de dólares

Ampliação da hidroeléctrica de Capanda e recuperação e ampliação das redes de distribuição de energia em Luanda, N’Dalatando, Caxito e Malange.
Água: 264 milhões de dólares

Construção de um novo sistema de abastecimento integrado das cidades de Benguela, Lobito, Catumbela e Baía Farta.


Angola não é o primeiro país devastado por uma guerra que experimenta um ‘boom’ de negócios no seu período de reconstrução. Processo semelhante está a ocorrer no Iraque.

O caso do país africano, porém, tem algumas peculiaridades. Poucas outras nações que se encontram na mesma situação possuem tantas riquezas naturais. Isso garante os recursos financeiros necessários para financiar as obras. Angola é o quarto maior produtor de diamantes do mundo e tem uma das maiores reservas de petróleo da África.

A escalada no preço internacional do ouro negro ocorrida nos últimos anos fez com que o volume de dólares a entrar no país desse um salto inédito na história recente. O ambiente agora pacífico também colabora para atrair o dinheiro de grandes empresas, como a americana Exxon Mobil. Em 2004, a petrolífera investiu 3,5 biliões de dólares no país num dos maiores projectos de extracção de petróleo em águas profundas da África.

ImageAssim como Angola, os outros países produtores de petróleo também estão a “nadar em dinheiro”. O que parece estar a fazer a diferença é uma surpreendente capacidade dos angolanos de aproveitar o bom momento. O governo tem feito sua parte. Iniciou nos últimos anos um processo de redução do deficit orçamentário e da inflação, que caiu de 325% em 2000 para 18% no ano passado. O processo veio acompanhado de um pacote de incentivos fiscais.

Desde 2003, vigora em Angola uma lei que garante isenção de impostos industriais de até 15 anos para as empresas que realizarem investimentos nas cidades do interior. Os bons resultados dessa política ficam evidentes nas estatísticas oficiais: segundo a agência estatal que regula investimentos privados no país de até 5 milhões de dólares, o número de projectos aprovados cresceu de 95 em 2003 para 290 em 2005.

Esse ambiente favorável tem beneficiado muitas empresas brasileiras.

Há mais de 20 anos em Angola, a construtora Odebrecht viu o número de projectos de que participa aumentar constantemente nos últimos quatro anos. Além de construir hidroeléctricas, linhas de transmissão de energia e canais de irrigação, a empresa é uma das responsáveis pelo ‘shopping center’ Belas, o primeiro do país, que está a ser erguido em parceria com o grupo angolano Hogi. Localizado na capital, Luanda, o centro de compras deve abrir as portas em Dezembro.

Na disputa entre empresas do mundo inteiro interessadas em financiar os projectos em andamento, os investidores brasileiros contam com algumas vantagens. A mais óbvia é o idioma. Há vários dialectos em Angola, mas a língua oficial, falada em todas as grandes cidades, é o português. Há também uma grande comunidade de brasileiros a viver lá, muitos deles remanescentes das primeiras levas de trabalhadores levados pelas grandes construtoras.

Apesar das muitas oportunidades oferecidas, investir em Angola não é tarefa das mais simples. A capital, Luanda, está cheia de favelas e muitas pessoas ainda não têm acesso a água potável e saneamento básico. Falta de electricidade ocorre duas ou três vezes por semana na capital. A guerra também deixou outro legado problemático. Há entre 5 milhões e 10 milhões de minas terrestres ainda não desactivadas espalhadas por todo o país. Por muito tempo, o único transporte seguro foi o avião.

ImageAs poucas estradas asfaltadas ainda se encontram intransitáveis. A construtora Camargo Corrêa está prestes a assinar um contrato para iniciar obras no valor de 85 milhões de dólares para recuperar uma rodovia com 84 quilómetros de extensão no interior do país. Outro projecto da construtora que deve começar até Novembro é a remodelação do acesso ao porto de Luanda, extremamente congestionado. Hoje, leva até 90 dias para retirar mercadorias importadas.

A lentidão no porto é um reflexo de outro problema crónico: a burocracia. Vistos de trabalho chegam a levar quase um ano para ser expedidos. Toda essa barreira burocrática cria um terreno fértil para a praga da corrupção. Segundo o mais recente ranking da ONG Transparência Internacional, que lista os países dos menos corruptos para os mais, Angola está na 151.ª posição entre o total de 159 países.

O Brasil, com todos os seus ‘mensalões’ e sanguessugas, está em 62.º lugar. Um empresário que trabalha em Angola há mais de dez anos diz que subornos, popularmente conhecidos no país como "gasosas", são essenciais para agilizar processos.

Os governantes locais, como era de esperar, dizem estar empenhados em reduzir a burocracia para facilitar os investimentos. Outro desafio é a manutenção da estabilidade política. Apesar da paz reinante, há mais de uma década não são realizadas eleições - desde o fim da guerra civil que são prometidas e sempre adiadas. O pleito mais recente foi marcado para ocorrer até o fim de Setembro, mas, sob a alegação de que grande parte da população não tem título de eleitor, foi novamente postergado, agora para 2007.

O espectro político é semelhante ao da época do conflito. O grupo de oposição Unita faz parte da Assembleia Nacional, dominada por seu antigo adversário, o MPLA, que também detém a Presidência. Embora os dois grupos tenham deposto as armas, o sentimento de afastamento mútuo ainda domina as relações. Pelo menos por enquanto, essas incertezas políticas não têm sido suficientes para abalar a crença de que a retomada de Angola, desta vez, pode ser para valer.

Fonte: Exame por Denise Dweck - Editado por Angola Digital
Friday, 01 December 2006