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Wednesday, August 15, 2007

HOLOCAUSTO EM ANGOLA I E II

Muito Bom dia aos leitores do Blogger Mutango

Estava a fazer buscas de noticias na Net, procurando noticias de como morreu o Sr.Pe Dtt. Leonardo Sikufinde, com finalidade de elaborar um artigo sobre ele, encontrei este artigo de Rubellus Ptrinus com o titulo Holocausto em Angola, com alguma noticia sobre o Santo Sikufine, nao condivido de tudo que este articolista escreveu, mas achei por Bem transladar para o meu Blogger para partilharmos. Eis o artigo:

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"O MPLA é o Povo...e o Povo é o MPLA"

Com a subida de Neto ao poder, espalhou-se a retórica do partido: "O MPLA é o Povo. O Povo é o MPLA" — era o "unanimismo" a ferro e fogo ancorado numa série de forças repressivas que tinham como única missão sustentar o poder de Neto. Retenha-se este fragmento do discurso de Paiva Domingos da Silva, Comandante-Geral da ODP, proferido nas comemorações do 3.° aniversário da fundação daquela força paramilitar:

Quem nega a ODP está a negar o próprio Presidente doutor Agostinho Neto, porque ele é que deu esta parte. Mas como é que ele deu esta parte? Ele viu que os que abriram a ODP não eram iniciadores da luta e ele para fazer um exemplo ao povo pegou num grupo de sobreviventes do 4 de Fevereiro, deu para dirigir a ODP de Cabinda ao Cunene. Daí tem partido a cabeça de muitos lacaios dos imperialistas. Porque muitos não gostam que os sobreviventes do 4 de Fevereiro dirijam a ODP [...]. Mas é necessário ultrapassarmos esta fase e vamos fazer uma vida que necessita o Camarada Presidente. Porque o Camarada Presidente quer portanto que o seu Povo viva livre. Como? Mobilizando as massas todas, sermos como por exemplo como o país socialista que é soviético, Hungria, Berlim, Jugoslávia e mais países socialistas.

Camaradas, bons militantes do MPLA-Partido do Trabalho:

Dia 13 de Setembro é o dia em que o Camarada Presidente deu esta farda da ODP. Porque a ODP é paramilitar, em conjunto com as FAPLA, DISA, Marinha e outros. Só assim é que poderemos fazer uma limpeza geral. Mas eu gostaria de explicar que entre esses órgãos não deve existir o eu pessoal. Devemos trabalhar todos em conjunto. Sabermos que temos um único pai que é o Presidente doutor Agostinho Neto, um único avô o Presidente doutor Agostinho Neto. Porque se criarmos aquela divisão, eu sou da ODP não sou das FAPLA, estamos a fazer aquela divisão. O Paiva se comete que é da ODP, tem que ser chamado a atenção e dar-lhe um conselho. Porque, por vezes, ser do Paiva ainda está cheio do lodo da escravatura, o lodo, isso quer dizer aquela doutrina que implantou o fascismo português. E aqueles que têm os conhecimentos políticos são as pessoas que devem ser mais pacíficas para poder chamar a atenção a esses que cometem os erros difíceis. Porque um filho, se lhe bate quatro vezes, à quinta já não vai obedecer porque já sabe, o seu corpo já está habituado com porrada. Ele não pode obedecer [...].

Nós, em Angola, temos uma arma branca à nossa frente: é o tribalismo, o racismo e o regionalismo. Isso é a arma branca que temos porque o Macedo, quando matou o Virgílio Sotto Mayor, disse que quem começou com a luta é o Catete, quem mata é o Catete, quem assume as responsabilidades é o Catete. Hoje, portanto, 26 de Agosto, amanhã 27, vocês têm de ser mortos. Oh Paiva! Eu vou já entregar o documento ao Presidente para assinar. Esses amanhã têm de ser mortos porque não se pode admitir matar logo quatro famílias. Foi um erro militar. Porque se nós reconhecemos que era um erro militar eram chamados à pedra, porque nós, portanto, da luta em que estávamos a fazer, a FNLA estava a trezentos metros do prédio onde vivíamos e nós conseguimos expulsar a FNLA e continuamos até que se retirou o inimigo.

Logo depois deste discurso, o MPLA mobilizou os recursos necessários para um "julgamento popular" no campo da Académica, em Luanda. Mas o "povo" não iria julgar coisa nenhuma, pois, como é fácil de perceber, as sentenças daqueles que viriam a ser executados na unidade militar do Morro da Luz eram, na véspera do julgamento, já certas.

A ideologia dos tribunais populares imperava. Alguns tinham a ingenuidade de pensar numa espécie de constituição universal de tribunais populares, como concretização da internacionalização comunista. Segundo as minhas notas de cativeiro, aquele que ao tempo era Ministro da Justiça — de nome Diógenes Assis Boavida — fez uma afirmação curiosa na televisão angolana: "Vamos instalar tribunais populares em todos os países". A afirmação foi objecto de gozo por parte dos presos que a ouviram. Mas esse lapso denunciava um substrato ideológico claro: o internacionalismo comunista agora na versão de uma hegemonia soviética que se queria cada vez mais à escala do mundo. Essa hegemonia era afirmada à custa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, como bem ilustram as afirmações desse Ministro, no mesmo discurso, a propósito da advocacia privada, instrumento ao serviço da burguesia. Na sua óptica, só os defensores oficiosos garantiriam os direitos do povo. Com um sistema judicial e prisional, como aquele de que estas memórias dão testemunho, não é preciso acrescentar qualquer comentário a este programa político do Ministro angolano.


Dr.Diógenes Assis Boavida
(foto Net)

Neto e a DISA

O ordenamento jurídico era claro no tocante à estrita dependência da DISA em relação ao Presidente da República. Em termos operacionais, a DISA era superiormente orientada pela Comissão Nacional de Segurança do MPLA, órgão que, naquelas circunstâncias, era um parente muito chegado da Presidência da República. Isto é importante para que se perceba que o genocídio que manchou o solo angolano não poderia ter aquela dimensão sem o empenhamento de Agostinho Neto.

O testemunho de Carlos Macedo, ex-Presidente do Tribunal Militar, é a este respeito eloquente. Confessou-me que Neto e Onambwe discutiram com ele muitas vezes acerca do modo mais eficaz de realizar as execuções sumárias. Ambos dispensaram as suas próprias assinaturas para que tudo fosse mais rápido (e certamente para se livrarem de qualquer vestígio indesmentível). Aqui se terá enraizado o conflito entre Macedo e Neto. É que o Presidente do Tribunal Militar sabia que, sem a assinatura de Neto, não tardaria que aquele tribunal se visse obrigado a carregar a culpa daqueles autênticos crimes de guerra. Nestes jogos políticos muitas vezes se pretende que a culpa morra solteira ou caia sobre a cabeça de algum bode expiatório. Outra coisa não fez Neto quando a situação angolana foi referida na Conferência Africana de Monróvia: apressou-se a dar seguimento a uma daquelas vulgares operações de cosmética política, demitindo a Direcção da DISA e nomeando uma comissão de inquérito, como se ele não soubesse da natureza e extensão dos crimes de guerra que eram perpetrados em terras de Angola.


Onambwe carrasco da DISA (foto Net)

De facto, muitos comentavam que a DISA era o suporte principal da acção de Neto. Mesmo no que toca às deslocações pelo país. Sempre que Neto projectava uma viagem a determinada cidade ou um certo percurso numa das províncias, pedia à DISA um sumário da situação. O cálculo da proporção de descontentes era realizado a partir do número de presos e da estimativa de mortos sob o fogo das forças governamentais. Assim se previa uma visita mais demorada, uma visita-relâmpago, ou se suspendia pura e simplesmente uma deslocação para evitar constrangimentos ao Presidente.

Os Ministros do governo do MPLA reafirmavam pública e frequentemente a sua confiança nessa força sempre leal ao poder do MPLA. Talvez fosse essa confiança que legitimava os agentes quando proclamavam, por tudo e por nada, que tinham ordem do Presidente para matar.

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Mendes Carvalho outro carrasco da DISA (foto Net)

Foi a propósito de discursos como este que ouvi falar do caso de Nzambi (que, eloquentemente, quererá dizer "Deus"), o condutor daquela ambulância que nós sabíamos ser o carro da morte, que outras vezes será referida noutros passos destas memórias. Contava-se que, passando por Miramar, zona chique onde a Diamang possuía várias moradias, disparou sobre um angolano por causa de uma futilidade qualquer. O agente resolveu a situação com as costas protegidas. Foi à Casa de Reclusão buscar uns homens que o ajudaram a colocar o cadáver no carro e a depositá-lo, sem qualquer explicação satisfatória, na Casa Mortuária de Luanda. O caso foi muito falado na Casa de Reclusão. Os disas aprovavam o sucedido porque a vítima era certamente um burguês explorador do povo. Mas os presos estavam convencidos de que eles não conheciam sequer a identidade daquele que foi baleado.

A DISA encontrou um precioso auxiliar no sistema de vigilância da opinião e da propaganda noticiosa. Controlada por manobras de propaganda, a imprensa angolana é um bom espelho do regime de repressão que foi implementado em Angola:

Foi necessário extirpar o fraccionismo dentro do MPLA para que a revolução continuasse. Não houve tolerância em relação aos criminosos, e foi impedido o desenvolvimento da sua desagregadora acção.

No discurso de 12 de Junho de 1977, em Luanda, Neto observava:

O fraccionismo não começou a existir ontem, nem na semana passada. O fraccionismo existe desde a fundação do MPLA. Tivemos que combater vários grupos fraccionistas, que hoje estão totalmente entregues ao imperialismo. Em 1962/63, Viriato da Cruz conduziu uma ala fraccionista, ainda quando nós nos encontrávamos no exílio no Congo Kinshasa .


Viriato Cruz (foto Net)

Frequentemente a imprensa era o palco dos recados do regime para as nações inimigas — mesmo servindo-se das referências aos direitos humanos. Em Angola, a retórica dos Direitos Humanos servia para agredir as nações "inimigas" e não para corrigir as práticas políticas internas. O Jornal de Angola, de 6 de Agosto de 1982, dá conta de uma reunião de uma equipa de peritos da Comissão para os Direitos do Homem, na sede do MPLA, na "Assembleia do Povo". Os jornais dos dias seguintes abriram as suas páginas às acusações de muitos dos que ali ouvidos se insurgiam contra as iniciativas da África do Sul. Mas nem uma palavra sobre as constantes violações dos direitos humanos dentro das fronteiras de Angola. Não que isto nos espante, mas recorde-se que já em 1978 a República Popular de Angola fez correr um selo postal que comemorava, precisamente, o trigésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem . Entre os angolanos abundavam comentários acerca deste gesto — num país onde as violações destes direitos se repetiam diariamente..

"Camarada presidente, quando acaba a independência?"

Os agentes da segurança que vinham parar à laje das prisões angolanas — muitos deles formados na ex-URSS, em Cuba e na antiga RDA — eram uma voz subterrânea de revolta, sempre pronta a confessar o horror semeado por terras de Angola.

Eles exprimiam a convicção clara de que o MPLA tinha falta de apoio popular. Os seus simpatizantes ficavam-se pela margem sul do Cuanza-Norte, pela margem norte do Cuanza-Sul, nas províncias de Luanda, Lunda e Malange. Todas as outras províncias, exceptuando Benguela, eram feudos de implantação de outros movimentos. Em particular, todo o centro e sul de Angola garantiam à UNITA um vasto apoio. Cada uma das deslocações de Neto pelo país era precedida de um relatório que avaliava com rigor a situação. Dois soviéticos dirigiam tais estratégias de segurança — e não era difícil medir o descontentamento e a revolta que tal gerava. Frequentemente, Neto tinha, pois, de se sujeitar a visitas-surpresa para que a população descontente não tivesse tempo de se organizar.

Aqueles agentes referiam, ainda, que Agostinho Neto, depois de semeado o medo e a morte por todo o país, era alvo de ódio em qualquer das províncias angolanas; ódio surdo às vezes, verbal outras. Só com a ajuda das forças estrangeiras, cubanas e soviéticas, pôde Agostinho Neto silenciar aquela raiva que tinha no rosto a memória de tantos desaparecidos, de tantos extermínios na calada da noite e no despudor da luz do dia. O silêncio sobre essa barbárie foi certamente favorecido pelo êxodo da maior parte dos estrangeiros em Angola. Era o terror sem o olhar do testemunho estrangeiro. Estou convicto de que esse êxodo não foi apenas uma consequência da conjuntura, mas, também, uma maquinação estratégica de Agostinho Neto.

Entre esta população prisional tornou-se proverbial o relato daquela visita que Neto fez à província de Malange, algum tempo antes de conhecer a morte. Aí encontrou a face da desolação e da destruição, da qual ele era o principal responsável. A sua intenção era, talvez, persuadir a população de que se tratava de um sacrifício necessário para que a revolução prosseguisse. Isso mesmo deve ter querido dizer aos sobas que com ele se reuniram — as testemunhas disseram-me que esses chefes locais se apresentaram perante o Presidente sujos e rotos, emblema da pobreza extrema em que viviam. Mas depois das suas palavras encorajadoras, prenhes de ideologia, veio a palavra alimentada de sabedoria. Um dos sobas, mais velho, não pôde conter a pergunta: "Camarada Presidente, quando acaba a independência?". A sabedoria desarmou a ideologia. Os comentários sublinhavam que esta visita de Neto a Malange correu tão mal que cancelou a viagem que se seguiria até à província do Zaire. E regressou a Luanda.

Fundadores do MPLA e heróis da independência

Conversas com Marciano Pinto de Andrade

Sobrinho de Mário Pinto de Andrade, um dos fundadores do MPLA, Marciano Pinto de Andrade foi meu companheiro, em São Paulo, durante uns três anos. Com ele tinham sido presos, também, dois irmãos seus, hoje professores universitários, e o Gentil Viana. Um deles, o Marciano, já faleceu. Ele conhecia muitos dos recompensados pela violência do regime. Acerca de Kito dizia-me Marciano Pinto de Andrade que, antes do 27 de Maio, era um "zé-ninguém". No entanto, devido aos prestimosos serviços nos massacres que se seguiram à intentona, o tenente-coronel Kito viria a alcançar o cargo de Ministro do Interior.

Neste, como noutros casos, as convulsões político-militares conduzem às chefias incompetentes que passam a agir em função da mais descarada guarda dos seus privilégios. A violência que praticam não é senão uma iníqua estratégia para manterem a salvo o lugar que conquistaram.

Nas nossas conversas cruzaram-se muitas histórias de vidas, prematuramente ceifadas, como a de Gêgé, jovem de dezoito anos com o qual convivi na cela C. Cada uma daquelas noites de fuzilamentos era para ele uma verdadeira antecâmara da morte. Acabaram por o chamar numa dessas noites. Desatou num pranto irreprimível, num desnorte ingovernável — acabando por cair por cima de mim e do Antonino Rodrigues. Os militares ficaram furiosos com o aparato do desespero. Titubeante, Gêgé fez menção de recolher as suas biquatas, mas os carcereiros atalharam: "Ó fantoche... para onde vais não precisas de levar nada". Saiu aos empurrões, por entre gritos e coronhadas, na direcção da ambulância que o conduziria à morte. Os seus despojos permaneceram durante muito tempo na cela sem que ninguém ousasse tocar-lhes. Quando deixei esta cela, ainda lá estavam aqueles restos da memória de Gêgé. A acumulação desses rastos, numa mesma cela, fazia-me lembrar aqueles depósitos de roupas e sapatos, que as imagens dos campos de concentração para os judeus perpetuaram.

O irmão deste jovem, o Gentil, já tinha sido fuzilado. Diziam-se filhos do Vice-Ministro Gamaliel Martins (e sobrinhos do Ministro Ismael Martins). Muitos comentavam negativamente o facto de Gamaliel Martins ter aceitado aquele cargo sabendo o que tinham feito aos seus filhos. Também o nome de José Eduardo dos Santos passou pela nossa tertúlia. Marciano Pinto de Andrade considerava-o com grande suspeição. José Eduardo dos Santos tinha-se formado na área dos petróleos, na URSS. Casou mesmo com uma engenheira soviética, mas desentendimentos posteriores conduziram à separação. Tomou, depois, para mulher a viúva do Dr. Mendonça, médico psiquiatra que tinha sido fuzilado.

Pedro Santos juntou-se, algumas vezes, à nossa conversa. Fora comissário político de São Paulo, mas, ainda antes do 27 de Maio, viu-se transferido para Cabinda. Agora, junto de nós, tornou-se mais uma testemunha dos massacres que vitimaram as gentes de Cabinda — quem pôde fugiu por qualquer meio para o Zaire e para o Congo (os barcos de transporte de madeiras foram frequentemente usados para as fugas ao horror). Foi ele quem nos falou pela primeira vez do campo do Moxico, notícia que foi confirmada por outras testemunhas. Pedro Santos conheceu o fim, também ele, numa dessas noites de fuzilamentos.

Estas conversas conheceram, ainda, a memória de Virinha e Nandy, duas mulheres que tinham sido responsáveis pelo destacamento feminino de Luanda. Nandy era irmã do comandante Kassange, o que não a livrou de ser fuzilada, tal como Virinha. Nandy esperou ainda algum tempo pela execução pois estava grávida, mas, assim que deu à luz, a morte revelou-se inescapável.

Marciano Pinto de Andrade pensa que esta série ininterrupta de execuções acabará por se tornar, no futuro, um sério problema para o MPLA: como responder a todas as famílias que quererão conhecer o destino dos seus familiares e amigos, saber por que foram executados e onde estão enterrados os corpos dessas vítimas?

Posteriormente, algumas vozes se têm levantado denunciando alguns jogos de bastidores que vitimaram alguns ilustres do MPLA. Veja-se a entrevista que Paulo Anunciação fez a Kenneth Kaunda na edição de 21 de Março de 1997 do semanário "O Independente". Ou ainda a obra do historiador Carlos Pacheco sobre as origens do MPLA — refira-se, como exemplo, as alusões ao assassínio de José Miguel e Joaquim José Migueis. O próprio Marciano Pinto de Andrade me havia falado destes casos, em São Paulo, bem como de Viriato da Cruz que só escapou porque fugiu in extremis para a China. O extermínio de alguns históricos do MPLA era, nas conversas da cadeia, inequivocamente atribuído a forças internas do próprio MPLA. A polícia, criada por esta força política, tinha, antes de mais, a missão de expurgar o partido de todos os opositores à linha política vigente.

Em muitos dos presos informados que contactei se encontrava a convicção firme de que o próprio Agostinho Neto manteve grande proximidade com todas as acções repressivas que fui conhecendo naquele fórum de discussão sobre Angola: a Cadeia de São Paulo e Casa de Reclusão. Talvez por isso, numa das conversas com Marciano, fui surpreendido pela sua fúria. O móbil era a notícia de que iam erguer um monumento ao camarada Agostinho Neto: "só se for em memória de todos os seus crimes". (...)

A Igreja Católica denuncia o holocausto angolano

A profecia de Agostinho Neto

Numa coluna, de 19.12.00, no jornal Público, Frei Bento recordava: "Agostinho Neto enganou-se na profecia ao declarar em 1977: Talvez daqui a 50 anos não haja nenhuma Igreja em Angola". O MPLA encontrou sempre na Igreja Católica uma barreira à sua política marxizante das consciências. As crónicas acerca dos ataques militares às missões católicas e às igrejas contavam-se entre aquelas que preenchiam copiosamente o testemunho dos angolanos vindos do centro e sul do país.

Obtive algumas notícias sobre a frequente intromissão do poder arbitrário do MPLA no normal desenrolar da vida religiosa do povo. É disso exemplo o que se passou em 1977 com o Almirante Dias, comissário da Sazaire, no norte de Angola. Nesse dia, este mpla, feito autoridade, entrou por uma igreja católica dentro e, do alto do seu desdém, perguntou ao padre: "Com que autorização é que estás a dizer missa? Não sabes que não podes dizer missa sem a minha autorização?". Isto acontecia mesmo quando o MPLA proclamava pública e institucionalmente o seu respeito pela Igreja Católica.

Germano Pereira contava-nos o que havia acontecido próximo da Kaala, província do Huambo. Germano passava por aquelas paragens com a camioneta que conduzia, permutando os produtos que trazia de Luanda com os que aquelas terras produziam, prática necessária para minimizar carências deixadas pela destruição das redes de abastecimento.

Ali, numa elevação sobre Kaala, existia uma capela dedicada a Nossa Senhora do Monte, lugar de peregrinação e romaria a que acorriam milhares de pessoas. Aí era celebrada uma festa popular religiosa que tinha um assinalável prestígio entre a população. Mas, lida na cartilha de certo marxismo-leninismo, aquela manifestação de religiosidade popular não passava de uma torpe obstrução ao progresso de Angola.

Não tardaram as ameaças. Já em 1976, as faplas haviam assassinado alguns dos populares que viviam na sanzala contígua à capela, pensando assim disseminar um medo dissuasor (havia sempre a desculpa de que se tratava de simpatizantes da FNLA e da UNITA). A violência intensificou-se. Só de uma vez foram encontrados trinta corpos dentro da própria capela, terror que rapidamente foi levado de boca em boca pelos populares que faziam a limpeza daquele espaço.

A proibição de frequentar o local, que abrangia o próprio padre responsável, acabou por cair sobre a população, sustida por um muro de medo e imposta pelas armas. Quando fui transferido da Casa de Reclusão para a Cadeia de São Paulo, o infortúnio deu lugar à satisfação possível: encontrei aí, também encarcerados, dois amigos, o economista Rui Castro Lopo e o médico Manuel Videira, ambos com cargos de direcção na Diamang. Ainda as minhas atenções estavam presas ao desejo de trocar impressões com estes dois amigos quando a estranha circulação de um certo preso suscitou a minha curiosidade. Notando que a sua passagem provocava sempre um burburinho procurei indagar o motivo. Soube então que se tratava de um padre angolano que era chamado constantemente ao Comando, onde lhe eram servidas doses bem munidas de perguntas e torturas.

Vim a saber que era Pró-Vigário Geral na sua Diocese e que trabalhava na Missão de Omupanda quando, no dia 12 de Novembro de 1976, o prenderam. Entre os meus interlocutores ouvi várias referências ao facto de este padre se ter tornado um adversário corajoso das políticas de combate à religião promovidas pelo MPLA, concretizadas sobretudo, entre outras ilegalidades, em formas de ocupação e apropriação dos bens das igrejas.

Entretanto, fui transferido para a cela do são-tomense Lourenço de Vasconcelos, enfermeiro-chefe do Hospital do Lubango, homem bem conhecedor da história pessoal deste padre. Foi da boca deste enfermeiro que, pela primeira vez, ouvi o nome do padre, Sikufinde: "Ele está aqui em segredo, para ninguém lhe poder falar, deixam-no sem comida, andrajoso, sem assistência de ninguém. O tenente Miranda diz que já o deviam é ter matado".

A certa altura interromperam-se as costumeiras deslocações do padre ao Comando. Chegou-me também a notícia da recusa à entrada a uma freira que pretendia assisti-lo. Decorreram vários dias de isolamento até que, a dada altura, o vimos passar de novo na direcção do Comando. As notícias correram depressa: "Está um Bispo na prisão, é o Bispo da terra dele". Devia ser coisa nunca vista. Entre os agentes e os soldados a agitação era grande. A presença do prelado católico tinha trazido um desconforto grande tanto à direcção da cadeia como aos serviços de segurança do Estado, pois sabia-se das ligações internacionais que um Bispo católico tem. Vim a saber que se tratava de D. Eurico Dias Nogueira, Bispo da diocese onde o padre que agora ali estava nos calabouços de São Paulo desenvolvia o seu ministério.

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D. Eurico Dias Nogueira (foto Net)

Perante a inconveniência que lhes trazia a possibilidade de o Bispo vir a saber com pormenor o que se passava dentro daquela cadeia, as autoridades resolveram transferi-lo para o campo da Sapu. Foi no dia 25 de Maio de 1977 — escapou por pouco aos acontecimentos ao 27 de Maio, particularmente os que afectaram a Cadeia de São Paulo. O padre Leonardo Sikufinde foi para ali desterrado, incumbido de tratar dos porcos e das galinhas, acompanhado de instruções muito precisas acerca dos cuidados a ter com o caso, uma vez que o Bispo estava no seu encalço. Talvez por isso, permitiram-lhe as visitas.

Mas também ali, no Campo da Sapu, começaram a crescer as hostilidades. É que o padre Sikufinde não prescindia de dar assistência religiosa aos outros presos e não deixava de levantar a voz contra o regime de condições desumanas que ali era imposto. Desabrida era também a sua palavra com todas as visitas que ali o procuravam, narrando com desassombro o que se estava a passar no centro e no sul, onde o MPLA e os cubanos se apropriavam dos bens das Missões.

A sua peregrinação pelos lugares de reclusão não ficava por ali. No dia 22 de Agosto, foi transferido para a Kibala, mais precisamente, para Tari. Lugar diferente, o mesmo infortúnio: o trabalho no campo, de joelhos, as mãos em sangue, com ferramentas velhas e inadequadas. Pensava-se que ele não resistisse. Mas no dia 9 de Setembro de 1977 acabou por ser entregue no Paço de Luanda às autoridades eclesiásticas (os poucos interlocutores que encontrei, com algum conhecimento do sucedido, diziam que as pressões da Igreja Católica terão continuado depois daquela visita do Bispo do Lubango à Cadeia de São Paulo).

Sob a protecção do Cardeal Alexandre do Nascimento, regressou à Província do Lubango onde continuou a desenvolver a sua actividade pastoral. Algum tempo depois, enviaram-no para Roma com o intuito de desenvolver os seus estudos, esperando que as forças repressoras angolanas se esquecessem dele. Quando regressou, anos depois, pôde continuar no Lubango as suas tarefas pastorais.

Note-se que os Bispos recorriam, por vezes, ao expediente das nomeações para salvar alguns padres do degredo e do destino da execução. Recolhi notícias, também, acerca do P.e Pedro Luís António, cujas raízes se encontravam no Caconda-Lubango. Preso e enviado para São Nicolau, que mais do que prisão era já um verdadeiro necrotério, foi salvo in extremis pelo Arcebispo do Lubango, D. Manuel Franklin da Costa. Este alto dignitário da Igreja católica angolana, que chorou a prisão e temeu a morte do seu padre, nomeou-o Vigário-Geral do Huambo. Assim criou novas dificuldades ao poder dizimador do MPLA, uma vez que politicamente não era a mesma coisa matar um padre ou matar o Vigário-Geral de uma Diocese. Libertaram-no, mas mantiveram-no sob pressão. O Papa acabou por o nomear Bispo do Kuito Bié, avolumando assim o impacto de qualquer violência que viesse a ser exercida sobre aquele angolano.

O episódio trágico em que o padre Sikufinde perdeu a vida aconteceu em Agosto de 1985. Nessa altura deslocava-se com alguma frequência ao hospital de Chiulo para visitar uma missionária, a irmã Filomena. Numa dessas ocasiões, foi abordado por uma família que lhe falou da sua aflição e da necessidade de levar ao hospital uma parturiente. Preparou a viatura e assim que tudo se aprontou fez-se ao caminho — para estas viagens obtinha a necessária licença das autoridades militares.

Era o dia 15 de Agosto de 1985. No carro, além do padre angolano, faziam-se transportar a parturiente, o marido, uma freira chamada Luzia e mais três jovens — um deles seria catequista. A vinte e dois quilómetros de Lahama, ouve-se um tiro. Os militares do MPLA impedem que a viatura avance. Apontam as armas de forma certeira e, sob a violência dos disparos, caem mortos o padre Sikufinde, a freira, a mulher e o marido, e ainda o jovem catequista. Apenas conseguiram escapar para a mata os outros dois moços, sorte que lhes conferiu a missão de dar testemunho da infeliz ocorrência. A consternação foi pungente, como impressionante foi a veneração que imediatamente começou a crescer em torno da sua memória. Foi sepultado no cemitério da Missão de Môngua. A Igreja católica angolana introduziu, já, a causa de Beatificação do padre Leonardo Sikufinde, contando com a referência a um alegado milagre que beneficiou Filomena Lilano — paralítica há três anos, voltou a andar.

Gentil Viana: o preço da divergência

Conheci o Dr. Gentil Viana — um dos fundadores do MPLA — na Cadeia de São Paulo. Estávamos em sectores diferentes da cadeia, mas, a partir de um contacto fortuito no posto de socorros, a 2 de Março de 1978, iniciámos uma relação de partilha e solidariedade que me apraz, ainda hoje, recordar.

Ele sabia já da minha presença nas prisões de Angola e conhecia os gestos e lugares de tortura por onde eu havia passado. Ele próprio era peregrino na mesma viagem de violências gratuitas. Naquele momento, a sua tristeza era maior porque o estado de saúde dos seus olhos tinha piorado, em consequência das agressões cubanas, e temia o abismo da cegueira. Contou-me, aliás, num dos encontros posteriores, que era um amante do desporto, mas que naquele estado nada feito... "quando a bola está a uns três metros, vejo-a com o olho direito, mas o esquerdo apenas vê uma sombra".

Este primeiro encontro ficou-se pela timidez que a presença vigilante dos carcereiros impunha. Ainda teve tempo de me contar que havia sido, em Portugal, Delegado do Ministério Público; a partir de Portugal iniciou uma travessia exílica até à independência de Angola. A conversa não podia ir muito mais longe. Deixei-lhe o Paris Match e o desejo de outro encontro.

O dia 4 de Março deu-nos uma nova oportunidade de encontro, oportunidade que se repetiu frequentemente durante o ano de 78. Apesar da situação dos seus olhos pediu-me algumas revistas para tentar ler. Ofereci-lhe o Lê Nouvel Observateur, o L 'Express e o Paris Match. Apercebi-me então de que este membro-fundador do MPLA havia perdido já a vista esquerda em consequência das agressões de que tinha sido vítima, sobretudo aquelas que tiveram lugar no comboio. Quando lia algum tempo com continuidade era atacado por espasmos que o obrigavam a largar a leitura de imediato.

No dia seguinte encontrámo-nos num lugar discreto, na hora do sol. Foi um diálogo cheio de interesse. Falou-me da sua estadia, durante dez anos, na China, e das traduções para português dos pensamentos de Mão que aí realizou. Pude saber que Gentil Viana tinha chegado a fazer uma "greve de fome" em protesto contra as agressões, acto que o conduziu moribundo ao Hospital Militar. Ficou na enfermaria-prisão, junto do combatente americano Marcello Grillo. Este mesmo me deu testemunho da situação humilhante e desmoralizante em que o deixaram na enfermaria — a soro e com as mãos atadas à cama. Só o desamarravam para comer e ir à casa de banho. O estado de debilidade era tal que os seus passos, quando se deslocava à casa de banho, não ultrapassavam uns dez centímetros. Ali permaneceu seis meses. Proibiram-lhe toda a leitura e privaram-no das visitas da esposa.

Fora um confidente e um conselheiro de Agostinho Neto, mas assumiu perante este uma divergência fundamental. Gentil Viana era partidário de uma independência angolana que reunisse todas as forças políticas; de forma diversa e antagónica, Neto pretendia liderar o processo a ferro e fogo, sob o signo único do marxismo do MPLA. O próprio Kilombelombe, quando partilhou comigo a cela, me confirmou que a prisão de Gentil Viana se efectuou em Abril de 1976, por ordem de Agostinho Neto, e em razão do ódio que este alimentava por aquele. Segundo me testemunharam alguns elementos da Revolta Activa, em finais de Maio de 78, este ódio de Neto era incompreensível pelo próprio facto de Gentil Viana ter sido um esteio fundamental no seu percurso político. Foi ele quem redigiu, por exemplo, alguns dos discursos mais importantes de Neto.

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Lisboa 1999. Gentil Viana, Mário Pinto de Andrade e Adolfo Maria (foto Net)

Em São Paulo, a sua relação com os outros presos era amistosa. Muitos o procuravam por questões de saúde. É que, durante a sua estadia na China, adquiriu algumas noções e práticas de acupunctura. Mesmo depois de terem ido ao Hospital Militar, o único remédio era recorrerem ao Dr. Gentil Viana. Que o diga, por exemplo, o português Oliveira — cumpria tarefas de electricista na prisão — que já mal conseguia andar; os médicos não tinham, ainda, alcançado qualquer resultado notoriamente positivo. As melhoras conheceu-as por meio da assistência de Gentil Viana.

Da relação que a direcção da cadeia tinha com ele não se pode dizer o mesmo. Sentiam um gozo especial em exercer sobre ele as mais diversas represálias. Concretizavam-se, por vezes, em coisas muito simples mas capazes de imprimir grandes privações e sofrimentos como retirarem da sua cela todas as cadeiras ou objectos que a isso se assemelhassem, remetendo-o para o segundo piso de um beliche. Dado o seu estado de saúde, esta era uma privação que lhe causava bastante sofrimento. Devido à humidade sofria muito com o reumatismo.

Mas, segundo me foi contado por Justino Pinto de Andrade, os cubanos agravavam a situação atirando latas de água por baixo da porta de ferro para que a cela permanecesse permanentemente molhada. Eu próprio, a 26 de Junho de 1978, pude entrar na sua cela e testemunhar a insustentável desumanidade das condições em que este homem vivia, na companhia de Vicente Pinto Andrade, Justino e Marciano. A viola que o acompanhava era a única réstia de entretenimento, pálida sombra de uma alegria que se vai esquecendo, mas que, mesmo assim, constituía uma ameaça à mesmice cinzenta da prisão — não tardou que lha confiscassem. Valeu-lhe a solidariedade de um outro preso, o sul-africano Harold do ANC, que logo lhe emprestou uma viola legada por alguém que havia sido fuzilado.

Apenas a 7 de Setembro de 1978, quase três anos depois de o terem detido, Gentil foi ouvido em auto. Mas não foi desta vez que o libertaram. Ficou para conhecer ainda outros padecimentos. Não tinham passado muitos dias, quando o tornei a ver, afectado por uma infecção nos olhos. Pediu para ir ao hospital, mas, como noutros casos, responderam-lhe com a indiferença. Foi mesmo falar com o Oliveira da FNLA, de origem portuguesa, que, sendo mecânico dos carros do Comando, tinha com ele uma relação privilegiada. Nada feito. Acabou por melhorar um pouco com o medicamento que mandei vir de Lisboa, receitado pelo meu sogro, o Dr. Anacleto de Miranda, oftalmologista.

A retoma da esperança começou a ser um pouco mais consistente quando Gentil começa a aperceber-se de que estão a libertar os seus companheiros da Revolta Activa. O pior era o estado dos seus olhos. Foi, pois, por entre a esperança e o medo, que recebeu, da parte do Comando, a notificação de que seguiria para fora do país para ser submetido a tratamentos do foro oftalmológico.

Marciano Pinto de Andrade confirmou-me que Gentil Viana seguiria, à guarda de um agente, para a antiga Jugoslávia, a fim de ser tratado. A saída de Viana era assunto de muitas conversas na prisão. A apreensão era indesmentível. Quando o foram buscar, a noite ia já adiantada, tal como aquelas outras noites trágicas, noites de interrogatórios e fuzilamentos. Gentil Viana quis saber o nome do disa que, nessa noite, recebeu a missão de o ir buscar à cela. A resposta provocada pretendia informar os seus companheiros da identidade daquele que o acompanhava na saída da cadeia. O disa evitou comprometer-se, referindo, apenas, o seu nome de guerra. Mas Gentil Viana resistiu à saída, insistindo na identificação do agente. E conseguiu o que queria. O seu apelido era Jesus.

Na Jugoslávia, segundo as informações que recolhi, os problemas avolumaram--se. As autoridades não viam com bons olhos a presença obsessiva do agente angolano junto do doente, e não queriam comprometer-se no tratamento de um preso político. Acabou por ser remetido, sucessivamente, para Espanha e Portugal. Em Lisboa, necessitou de trabalhar com outros advogados, com uma das vistas irremediavelmente perdida, para conseguir viver e efectuar os tratamentos de que estava necessitado. Entre nós, ficou a memória e a saudade.(...)

Irmanados na tortura

O historiador angolano Carlos Pacheco escreveu numa obra publicada em 2000:

Com efeito, no campo da Kibala, no Kuanza-Sul, chegou a preparar-se naquele ano [1977] com valas previamente abertas, o extermínio de quadros técnicos angolanos médicos, engenheiros, professores, entre outros —, todos partidários activos do MPLA. Outros jovens passaram também por esse campo, alguns deles portugueses, que não sendo embora militantes daquela facção política, tomaram partido por outros grupos de esquerda, aparentemente autónomos. Também eles suportaram sofrimentos indescritíveis até serem libertados em 1980, sem que jamais as autoridades portuguesas tivessem esboçado qualquer gesto para os resgatar ou minorar a sua situação.

Conheci-o num calabouço infernal angolano. Falei com ele num dos piores períodos da minha permanência nas prisões angolanas, aquele em que fui violenta e repetidamente interrogado e torturado. Recordo bem aquele dia em que estava a conversar com Carlos Pacheco à porta da cela quando apareceu um grupo de soldados gritando com ar de gozo o meu nome. Pensei tratar-se de uma brincadeira, mas o Carlos Pacheco avisou-me de que aquilo era para ser tomado a sério.

Fui levado para uma sala de interrogatório onde estava o agente Carmelino e o torturador Limão. O cenário era brutal. Ainda estavam lá o Manuel Campos e o Fernando Correia. O calibre da pancadaria era tal que as suas cabeças feridas pareciam agora ter o dobro do tamanho. Tinha chegado a minha hora. Foi uma hora eternizada de agressões múltiplas com um cano estriado. Cada golpe inundava o meu corpo de sangue e hematomas — a camisa azul que o Costa Martins me tinha dado ficou em farrapos.

Fiquei em tal estado que já só pude voltar a falar com o Carlos Pacheco no dia seguinte. A propósito do que me tinha acontecido, Carlos Pacheco referiu-se a um episódio da sua estadia ali na Cadeia de São Paulo. Foi um dia à noite (aliás estas coisas eram quase sempre à noite). Chamaram-no ao comando. O capitão Carlos Jorge estava lá para o receber. Carlos Pacheco pensou que a gentileza do acolhimento o livrasse do pior, mas bastou uma resposta não esperada para o verniz estalar. Carlos Jorge ordena a violência. Os torturadores de serviço despejaram-lhe nas nádegas e nas costas violentos golpes com uma barra de ferro. Deixaram-no descansar um pouco, para depois avançarem com um cavalo-marinho, vergastando todo o seu corpo.

Estas narrativas de violência, mesmo se as razões da nossa prisão correspondiam a histórias diversas, irmanavam-nos no juízo de que estávamos perdidos nas entranhas de um regime que repetiu durante anos crimes contra a humanidade.

O Natal de 1978 coincidiu com um período de encruamento das acções repressivas. O famigerado Pitoco veio a São Paulo tratar, pessoalmente, do caso de alguns ocas. Soube que nesses interrogatórios estiveram presentes: o Pereira, o Gunga, o Inácio e Onambwe. O insuportável começou no dia 23 de Dezembro, mas a noite de 24, véspera de Natal, foi a das maiores barbáries. Vi regressarem às celas corpos de jovens com o tronco cilindrado pela mais indescritível violência, a carne viva, banhada em sangue; os rostos amassados pela violência torpe dificilmente se podiam identificar; alguns traziam os testículos com marcas de queimaduras.

E ali ficavam pelas celas, gritando as suas dores, sem qualquer auxílio. Da vizinhança não podiam esperar ajuda pois, em muitos casos, os próximos padeceriam do mesmo. Aos outros, situação em que estava incluído, estava vedada a possibilidade de entrar naquele corredor de morte. Como tinha a porta da minha cela aberta (Vasconcelos, enfermeiro que dormia ao meu lado, tinha convencido o Comando de que sofria de claustrofobia) pude, no entanto, ver as vítimas carregadas pelos "conduzes". Vasconcelos, ao meu lado, não se atrevia sequer a voltar a cabeça na direcção da porta da cela, paralisado de medo.(...)

Castro em Angola, a humilhação em casa

Fidel Castro visitou Angola em 1977. A Diamang foi chamada a fornecer serviços vários ao Palácio Presidencial para o banquete de homenagem ao Chefe de Estado cubano. Da parte dos serviços da Diamang tudo correu como era habitual nestes momentos solenes. O pessoal tinha um conjunto de compensações extraordinárias que o motivava para um serviço empenhado. Todos tinham muita curiosidade em conhecer tão célebre figura, embora não faltasse quem se dissesse desiludido perante o comportamento de Fidel Castro: os seus comentários, os seus gestos, a sua conversa... quase como se de um discurso se tratasse.

A segurança foi preparada com muito cuidado — como aliás sucedeu, mais tarde, aquando da visita do seu irmão, Raul de Castro. Mobilizaram todos os dispositivos de segurança: os cubanos, as FAPLA, mas também a DISA. Objectivo: garantir a máxima segurança. O aeroporto estava, assim, invadido de militares e agentes para que nada acontecesse aos dois Presidentes.

Fidel Castro em Angola e África

Quando se preparava já o cortejo presidencial, que atravessaria algumas das principais artérias da cidade de Luanda, os cubanos desautorizaram e humilharam as forças de segurança angolanas, impedindo que seguissem no cortejo, argumentando que dada a estatura política de Castro era necessária uma segurança competente.

De acordo com os testemunhos que ouvi, esta atitude foi recebida pelos angolanos como se de uma bofetada se tratasse. E não era para menos, pois tinha sido acordado que ambas as forças de segurança seguiriam no cortejo para, mais facilmente, se evitar a infiltração de quaisquer outras viaturas.

Mas esta não seria a única bofetada. Quando tudo estava a ser preparado para o inevitável comício, Didi, agente angolano que ali, de altifalante em punho, coordenava a segurança daquele local, foi também desautorizado por um oficial cubano que acabou por o proibir de ali ficar.

Os amigos cubanos demonstravam assim não confiar nos seus camaradas angolanos; o momento de glória que seria a visita deste mítico presidente comunista tornou-se um pesadelo de humilhações. E isto não se passava apenas com subalternos. Os angolanos que se tinham sentido desautorizados pediram mesmo a presença do Chefe de Departamento, José Vieira Dias Rodrigues Mingas, "Jaloma". O próprio me contou que se teve de render também às exigências dos cubanos.

Este Chefe de Departamento — irmão de Rui Mingas, que foi Embaixador de Angola em Portugal — esteve preso ao meu lado, na cela C. O cacau que ambos preferíamos à comida da cadeia foi ocasião propícia para algumas trocas de impressões sobre a situação dos cubanos em Angola. Essas conversas cessaram, abruptamente interrompidas, quando, certa noite, foi transferido para a SIGA, para junto de algumas dezenas de disas. Também para ele chegou a hora em que saiu sob uma escolta de pancadaria, que lhe deve ter causado fracturas graves, a caminho do fuzilamento. Segundo o testemunho do motorista, ele seguiu numa noite em que as sessões de fuzilamento foram particularmente bárbaras.

Conversas sobre cubanos

Ainda antes de ser preso, conheci esse particular gozo angolano em fazer circular pequenas anedotas da vida real. Os cubanos eram, regra geral, um dos assuntos apetecidos. Falavam deliciados de um cubano que, em Luanda, proclamava aos quatro ventos ter matado na estrada do Nordeste um "burro com cornos". Quem conhecia minimamente a fauna angolana depressa percebeu que se tratava do chifembe, também chamado burro-boi (Kobus-defassa é a designação científica).

Acrescentavam-se a descrições como esta muitas conversas sobre a situação de Cuba, com notícias em primeira-mão, pois alguns dos presos tinham passado por Cuba. Destacavam tudo aquilo que punha a nu a pobreza do país, fazendo dela uma espécie de colónia soviética empobrecida, exactamente o que não queriam que acontecesse a Angola.

Não se admiravam pois que os soldados cubanos enviados para Angola avistassem a cidade de Luanda com ar de espanto. Não esperavam encontrar uma cidade tão bela onde o progresso mostrava ainda traços evidentes. Aliás, era interessante observar que os estudantes que regressavam dos países de Leste ou de Cuba mostravam um orgulho redobrado quando falavam das possibilidades do seu país. Talvez ficassem desiludidos com o paraíso soviético, e mais cientes do valor do seu próprio país.

Não admira, pois, que estes agora prisioneiros políticos, jovens na sua grande maioria, exprimissem a sua indignação quanto à recepção heróica que Luanda preparou a Fidel Castro. Aliás, já quando o seu irmão Raul de Castro visitou o centro de Angola, foi mobilizado tudo o que girava em torno do MPLA.

Essa disposição crítica em relação à presença cubana ganhava corpo em pequenas histórias, verdadeiras larachas que coloriam os dias cinzentos da reclusão. Neste caso a pequena narrativa dizia respeito aos comboios de Benguela. Depois da independência, os caminhos de ferro de Benguela, que faziam a ligação do porto do Lobito à fronteira com o Zaire, começaram a apresentar sinais preocupantes de degradação. A direcção deste empreendimento tinha sido tomada pelo MPLA, que lá colocou alguns cubanos e, de entre eles, a mando do Ministro dos Transportes, Manuel Pakavira, um director geral da sua confiança.

Segundo os meus informadores, ao engenheiro cubano em causa pesou-lhe o medo de assumir aquela responsabilidade, conhecida que era a dificuldade de impor chefias cubanas aos quadros angolanos. Não deu resposta imediatamente, quis conhecer o terreno que ia pisar.

Ora, foi durante essa visita que aconteceram os factos anedóticos que se espalharam de dito em dito por muitas cadeias angolanas. O engenheiro cubano pretendeu percorrer a via férrea em toda a sua extensão para se inteirar do seu estado. A viagem ficou marcada para as oito da manhã. À hora marcada lá estava, mas foi recebido por uma discussão bem acesa que envolvia responsáveis cubanos e maquinistas. Estes repetiam que as máquinas necessitavam de um aquecimento prévio de pelo menos trinta minutos, para que a pressão fosse a indicada; os cubanos ripostavam que isso era um desperdício, "treta ensinada pelos colonialistas". Certo é que a força venceu — as armas que os cubanos carregavam eram um argumento eficaz — e o comboio lá partiu contrariando os maquinistas.

Mas foi uma vitória curta. Um pouco mais à frente, a composição teve de avançar por uma subida um pouco pronunciada. Até metade do percurso ainda a máquina se aguentou, para regozijo dos cubanos, mas depois veio a crise. Ao chegar a uma zona de maior declive, o comboio foi perdendo a força que o tinha sustentado até ali e acabou por parar.

Mas o pior veio a seguir. O sistema de freio não suportou o peso e a composição acabou por começar a recuar numa marcha cada vez mais furiosa. O comboio levava bastante gente. O medo, o pânico tomou conta da razão e das emoções; uns tentavam agarrar-se a algo que julgavam seguro, outros tentavam o salto para o exterior do comboio. Foi este o caso do engenheiro visitante, que terminou esta epopeia no hospital, e com o desejo peremptório de não aceder ao convite do Ministro Pakavira.(...)

O medo da memória ou a memória do medo para não concluir

O processo da minha libertação só conheceu um decisivo impulso a partir da já narrada visita de Kundi Payama, na altura Ministro do Interior, à Cadeia de São Paulo, no dia 15 de Dezembro de 1979. Ainda tive de esperar mais de oito meses para que esse processo fosse concluído. Está bem viva a memória do dia 7 de Agosto de 1980 em que me deslocaram, com mais três portugueses, de São Paulo para a Casa de Reclusão. Revistaram-me e retiraram-me os poucos haveres que me acompanhavam. Fiquei com a roupa do corpo e os sapatos, veículo das últimas anotações recolhidas. De seguida, levaram-me para o aeroporto de Luanda, onde segui de avião para Lisboa. À chegada, esperavam-me mulher, filhos e amigos — à volta de cinquenta pessoas. Já não conhecia os meus dois filhos mais novos, passados aqueles cinco anos. Por pudor, não me atrevo a descrever as emoções desse momento.

O tempo de adaptação à liberdade retomada não foi fácil. Era-me penoso viver as condições de comodidade banal de todos os dias, encontrar-me com conhecidos, vestir-me de acordo com as exigências sociais. Passados alguns meses, ainda o meu corpo não tolerava uma simples calça, exigindo o hábito prisional, a blusa e os calções. O trabalho já referido de transcrição de todas as informações recolhidas no inferno prisional angolano ocupou os meus dias, devolvendo-me progressivamente à normalidade das minhas relações familiares, empresariais e sociais.

Dias de grande consolo foram aqueles em que recebi companheiros de degredo. Certos factos que me foram referidos nos diálogos da prisão vieram a ser confirmados ainda por alguns depoimentos que pude recolher junto de amigos que me visitaram, em Lisboa, logo após a minha libertação. Serve de exemplo o colóquio que, no dia 21 de Agosto de 1982, em minha casa, me foi proporcionado pela visita do meu amigo Gamboa. Este, agora piloto da TAAG, era em 1975-76 Inspector da Inspecção-geral de Abastecimentos em Luanda, e nessas funções visitou comigo as trinta e três cantinas da Diamang espalhadas pela Lunda. (..)