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Monday, December 29, 2008

HOJE É NATAL

O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu. O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? – perguntava a mim próprio. Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.

— Ó avô, o que é que trazes?

— Tem calma, tem paciência, que logo te mostro! – aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.

— Anda lá, diz-me só a mim, que eu não digo a mais ninguém!

— As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia. Não sejas chato!

— Diz-me, que eu prometo guardar segredo! – insisti.

Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que de lá de dentro saísse qualquer coisa de mágico: um avião que voasse – vrrruuum, vrrruuummm – ou uma coisa assim... capaz de fazer pasmar os meus amigos.

Mas não. Apareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarrados com fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.

— Avô, que prenda me vais oferecer?

— Que prenda me vais dar a mim?

Não lhe respondi. A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.

— E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?

— Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não, nunca mais te calas. Isso é uma luz para o Natal!

— É de ligar à electricidade? É de acender? É uma estrela para pôr no presépio? – perguntei, agitado.

— Não. Isto é o Espírito do Natal! – exclamou o meu avô, com mistério na voz.

— Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar, sai um génio que faz tudo o que a gente quer? Ó avô és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!

Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado, quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe:

— Venham para a mesa!

O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos.

O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.

As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:

— Te te te tzzéééé! ! ! – e abriu a porta e as luzes.

Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhoses, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.

A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espectáculo, a lareira soltava línguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.

Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e ao canto construiu uma Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro, porque pensava ele que as árvores não se deviam abater.

Disse-me uma vez:

— Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!

O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:

— Que engraçado! Nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia. Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!

Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.

E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocado azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.

Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.

Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções como se fosse um rei.

Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.

Mas não, para mim, aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.

— Ah, já me esquecia... Olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito do Natal, mas trá-lo com cuidado, não lhe mexas, ouviste? – pediu-me o avô Fernando.

O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.

Subi a correr as escadas que davam para o meu quarto e senti que os bichos carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:

— O que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira ou uma história do meu avô? Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.

E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse: "Diz-me, Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!"

Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:

— Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!

Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:

— Então, vens ou não?!

Desci as escadas a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.

Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal. Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.

Desenrolou, desenrolou, até que… apareceu uma simples vela de cera branca.

— Oooohhhh! Uma vela! – disse de mim para mim, muito desiludido.

Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela e colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:

— Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para mim estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua... está a tua... avó que Deus tenha...

O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.

O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.

Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:

— Então, então, pai, hoje é Natal! – falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.

— Vamos à ceia! – disse, por fim, o avô, ainda com a coragem engasgada.

Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.

O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.

Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizessem roer de inveja os colegas da rua. O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.

Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre, "cabisbundo" e "meditabaixo", ria-se, ria-se até mais não. A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:

— Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês? Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lenta mente, ora para um lado, ora para o outro.

— Vês alguma coisa?

— Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!

— Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a saudade do amor, da amizade e da partilha das coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal. Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e se cruzaram comigo ao longo dos anos.

Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida. Queres que te conte?

— Conta, avô, conta!

— Mas olha que é uma história triste! Mas verdadeira!

— Não faz mal! Mesmo assim, conta!

A minha mãe e o meu pai aproximaram-se do sítio onde nós estávamos. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e, com uma voz quente e pausada...

— No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina. Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.

Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:

— Hoje é Natal!

A pouca distância de minha casa, havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha e o chão de terra batida.

O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado.

Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.

E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos: a Rosa e o Domingos.

Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada foi, um dia, transformada em pássaro negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte de D. Luís para o rio Douro.

Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda e um barqueiro que por ali andava viu-a e, remando rapidamente, retirou-a do rio, ainda com vida.

Da segunda vez que se quis matar estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma rajada empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrodilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito.

Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu duas vezes.

E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.

Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda da lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas "almas caridosas" lhe davam.

Passavam muito mal e, quando se vive assim, nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falar de prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristecer a vida de quem tem pouquinho.

— Natal é um dia como os outros! – dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.

Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, já fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves-galegas.

Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada, por lhe gastarmos da mercearia.

Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.

Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal...

— E se fôssemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos para cearem com a gente? – propôs o meu pai.

A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca da Ti Adelaide Tintureira.

Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.

Sem saber o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da minha cozinha.

Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes, acesos de alegria.

Eram os da Ti Adelaide Tintureira que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.

Quando acabámos de comer e de jogarmos o rapa a pinhões, vim cá fora e, pelo intervalo das folhas de uma laranjeira, vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.

Agora, quando olho para o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.

Quando o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.

O fantasma do Natal

Os meus pais tinham o seu ritual de leitura na cama antes de apagarem a luz. Se encontrassem alguma coisa de particularmente interessante, partilhavam-na um com o outro. Uma noite, a minha mãe encontrou uma história maravilhosa sobre uma família que fora abençoada com o «Fantasma do Natal». Gostaria de recordar esta história e como ela se tornou o Fantasma do Natal.

 

Passava pouco das 21:00, e tudo estava silencioso na casa dos Markley. Todos os filhos estavam aconchegados nas camas e Mary acabava de lavar os pratos e de limpar a cozinha. Dan estava sentado à secretária, a verificar as contas. Estava-se de novo próximo do Natal e, como sempre, o monte de contas era cada vez maior. Dan não gostava daquilo que o Natal fazia ao orçamento familiar durante esta época do ano. Tornava-se quase avarento.

Quando era rapazinho, as coisas eram muito mais fáceis e custavam muito menos. O Natal era um tempo de alegria para todos e a maioria dos presentes era feita à mão. Desde esse tempo, as coisas tinham mudado muito.

Quando Dan olhou pela janela uma neve fina começara a cair. Era 14 de Dezembro, faltavam apenas onze dias para o Natal. Uma pancada leve na porta trouxe Dan de volta ao presente, e foi abrir. Não havia ninguém, mas nos degraus, na neve que caíra, encontrava-se um pequeno pacote embrulhado em papel dourado. Mary foi ter com ele, perguntando a si mesma quem poderia ser àquela hora. Maravilhados, olharam fixamente para a pequena oferta. Descobriram um pequeno cartão, que dizia apenas «No primeiro dia de Natal».Depois de uma breve discussão, decidiram abri-lo e ver se haveria algum cartão lá dentro. No interior da caixa descobriram um ornamento, um menino com um tambor, e nada mais. O pequeno tocador de tambor foi ocupar um lugar proeminente na árvore de Natal e o incidente foi esquecido.

Na noite seguinte, por volta da hora do jantar, Brad, de 6 anos, foi abrir a porta. Uma vez mais, não se viu ninguém, mas no degrau estava outro pacote com um cartão que dizia «No segundo dia de Natal». Lá dentro havia dois rebuçados. «No terceiro dia de Natal»chegaram três anjos de forma semelhante; todos tomaram os seus lugares na árvore de Natal.

Ao quarto dia, a curiosidade foi mais forte, e Dan e Mary começaram a espreitar pela janela quase de minuto a minuto, na esperança de verem o portador furtivo. Mary tinha a certeza de que era a amiga, Tracy. Dan pensava que deviam ser Sam e Kate, da casa ao lado, e era por isso que desapareciam tão depressa. Mas deram as nove e depois as dez horas e Dan e Mary acabaram por desistir e foram-se deitar. Às onze horas soou uma pancada leve na porta da casa adormecida. Dan foi rápido e correu para a porta, enquanto Mary espreitava pela janela. Nenhum dos dois viu nada. Quando Dan voltou para o quarto, trazia um grande embrulho nas mãos. «No quarto dia de Natal», eram quatro canecas para o chocolate quente.

«No quinto dia de Natal», com uma pancada forte, um estranho apareceu na porta com um pacote nas mãos. Disse que tinha jurado não revelar a ninguém os nomes dos dadores. Desta vez, cinco bolas douradas foram juntar-se aos outros presentes na árvore.

«No sexto dia...», seis pacotes de chocolate quente.

«No sétimo dia...», sete velas brancas presas com fio dourado.

«No oitavo...», oito pinheirinhos dourados num cesto.

Ao nono dia de Natal, todas as crianças se tinham envolvido e tentavam estar de atalaia para descobrir quem fazia aquilo. Todas as noites alguém ficava de vigia à espera da pessoa misteriosa, e todos tentavam adivinhar quem estaria por detrás de tudo aquilo. Por fim, Dan concluiu que talvez nunca viessem a saber quem era. Talvez a pessoa não quisesse que lhe agradecessem e apenas pretendesse partilhar um pouco do espírito de Natal. Todos concordaram que estava a ser muito divertido, com a expectativa do momento em que chegaria um outro presente. Mary tinha a certeza de que os cartões viriam assinados na décima segunda noite.

«No nono dia de Natal» chegaram nove beijos.

«No décimo dia de Natal», um outro desconhecido entregou dez folhas de papel de embrulho.

«No décimo primeiro dia...», onze laços vermelhos.

«No décimo segundo dia de Natal», era quase meia-noite quando soou uma pancada na porta da casa silenciosa dos Markley. Sobre o degrau, numa pequena caixa de metal, encontravam-se doze bombons com um cartão por assinar. O Fantasma do Natal permaneceria anónimo. Mary ficou um pouco desapontada, mas Dan estava feliz. Encontrara alguém que partilhava verdadeiramente o espírito de Natal, sem esperar um presente em troca ou sequer um agradecimento. Não era esse o verdadeiro espírito de Natal? Talvez no próximo ano o Fantasma do Natal volte... ou talvez Dan e Mary partilhem o seu amor desta forma especial, oferecendo o Fantasma do Natal aos amigos.

 

A minha mãe leu esta história e decidiu tornar-se o Fantasma do Natal de 1985 para os amigos. Os filhos e a filha participaram e acabaram por se tornar Fantasmas do Natal para os seus amigos. Durante mais de uma década, mantivemos a tradição de sermos o «Fantasma do Natal» para muitos amigos e estranhos. No ano passado a minha mãe perdeu a sua batalha com o cancro nos ovários. Um dos seus últimos desejos foi que mantivéssemos esta tradição. Espero que também adopte esta tradição, tornando-se o «Fantasma do Natal» para tantas pessoas que perderam o espírito de Natal.

Shawn Melissa Pittman

 

Jacob conversa com o pai

— Pai — diz Jacob — o nosso professor de religião diz que todos os homens são filhos de Deus.

— Tem razão o teu professor — diz o pai.

— Mas se tu és filho de Deus e eu sou filho de Deus, então somos ambos irmãos?

— Vendo assim, somos irmãos.

— Mas, como irmãos, não temos o mesmo valor?

— Claro que sim — responde o pai. — Pergunta à mãe qual de nós tem mais valor para ela. Aposto como lhe vai ser fácil responder…

— Mas tu sabes fazer muitas coisas melhor do que eu — diz Jacob. — Fazer contas e engraxar os sapatos, por exemplo.

— Por outro lado, tu consegues fazer outras coisas melhor do que eu — diz o pai. — Desenhar, fazer o pino, convencer a avó… isso nunca hei-de conseguir fazê-lo tão bem como tu.

— Mas os irmãos não têm os mesmos direitos? — pergunta Jacob.

— Claro que sim — responde o pai. — Mas, sabes… isso também depende…

— Tu podes mandar-me para a cama, mas eu não posso fazer o mesmo — diz Jacob.

— Quando à noite te mando dormir, é porque me preocupo com a tua saúde — diz o pai. — Eu sou responsável por ti e não posso permitir que fiques acordado até muito tarde.

— E eu, também sou responsável por ti? — pergunta Jacob.

— Todos somos responsáveis uns pelos outros — diz o pai. — E agora, marcha para a cama!

Jacob acorda a meio da noite. O quarto está às escuras mas, por debaixo da porta, vê-se uma réstia de luz. No quarto ao lado ouve-se um zunido. Jacob sai da cama, abre a porta e vê o pai na poltrona em frente da televisão. No ecrã, dois ladrões transportam uma caixa. O pai está a dormir.

Jacob sacode o braço do pai e acorda-o.

— Agora, é a tua vez de marchar para a cama! — diz Jacob.

 

 

 

Lene Mayer-Skumanz (org.)

Jakob und Katharina

Wien, Herder Verlag, 1986

Tradução e adaptação

 

Júlia e as luzes da vida

— Avó?

Júlia abre devagarinho a porta do quarto da avó. Já é meio-dia e a avó ainda está na cama. Nem sequer abriu as cortinas. Júlia entra no quarto em bicos de pés. A avó está com os olhos fechados. A cabeça escorregou um pouco para o lado como se tivesse torcido o pescoço. Júlia nunca tinha vindo da escola e encontrado a avó a dormir!

— Avó, porque é que não dizes nada?

Júlia assusta-se com a sua voz no quarto silencioso e mergulhado na penumbra.

— Avó, não estás doente, pois não?

Mas a avó não responde.

De repente, Júlia sente medo, medo de que alguma coisa horrível tenha acontecido à avó. Corre para a sala e disca o número de telefone da mãe.

— Júlia? Já sabes que não deves telefonar-me para o escritório!

A voz da mãe soa impaciente e irritada.

— Sim — Júlia engole em seco. — É por causa da avó — diz muito baixinho. — Ela está na cama e não responde.

— A avó ainda está na cama? E não responde?

A mãe respira rápido e com força.

— Espera, eu vou para casa! — diz, e desliga.

Júlia fica sentada na sala. Não se atreve a ir outra vez junto da avó adormecida, que está tão diferente, tão estranha. E sente uma saudade muito grande da avó, com os olhos a piscar afavelmente por detrás dos óculos, e com a barriga redonda, contra a qual Júlia tanto gostava de se encostar.

Assim que ouve os passos da mãe, levanta-se de um salto, mais aliviada.

— Mamã!

Júlia quer abraçá-la mas a mãe afasta-a e corre para o quarto da avó. Depois é tudo muito rápido, como num sonho mau. A mãe telefona para o hospital, uma ambulância chega e dois homens vestidos de branco levam a avó. A mãe também vai e Júlia fica sozinha.

Quando a mãe regressa, já está escuro lá fora. Pendura o casaco no bengaleiro e senta-se à mesa da cozinha. Parece estar com a cara pálida e cansada.

— Agora tens de ser muito forte, Júlia — diz ela.

Júlia não percebe o que ela está a dizer.

— E a avó? — pergunta. — O que se passa com ela?

— A avó adormeceu para sempre — responde a mãe.

— Não é verdade! — exclama Júlia.

— É, Júlia — diz a mãe. — A avó nunca mais vai poder regressar.

— Não acredito! — grita Júlia.

— A avó já era velha — diz a mãe. — No próximo ano ia fazer setenta anos.

— A avó não era velha… para mim, não.

Saltam-lhe lágrimas dos olhos e rolam-lhe pela face.

— E o coração da avó também já estava velho — continua a mãe. — Já não trabalhava muito bem e agora parou. Como um relógio que parou.

— Não, não, não!

Júlia tapa os ouvidos.

Não é possível que a avó esteja morta! A avó não pode estar morta. Olha por entre as lágrimas para a mãe. Porque é que ela está tão calma? Porque é que não está a chorar? Não gostava da avó?

— Júlia! — diz-lhe a mãe. — A vida continua. E acredita no que te digo: não vais ficar sempre triste.

— Vou! — grita ela. — Sempre!

A mãe suspira.

— Júlia, tudo isto também não é nada fácil para mim. Não piores ainda mais as coisas.

Levanta-se e deixa a cozinha.

Júlia ouve a porta do quarto de banho bater atrás da mãe, depois a água corre durante muito tempo. Quando sai do quarto de banho, a mãe tem o mesmo aspecto de sempre. Escovou os cabelos, a pele brilha, rosada e até sorri um pouco.

— Vou fazer agora alguma coisa para comermos — diz. — De certeza que estás com fome.

— Fome? — Júlia abana com a cabeça. — Não!

A mãe tira farinha e ovos do armário e começa a fazer uma massa. Já não estará a pensar no que aconteceu à avó?

Os olhos de Júlia voltam a encher-se de lágrimas.

"Avó!", soluça ela e corre para o quarto. Atira-se a chorar para cima da cama e esconde a cara na almofada. A mãe devia vir agora consolá-la, como a avó sempre costumava fazer! Mas a mãe não vem e Júlia acaba por adormecer.

Dois dias mais tarde, tem lugar o enterro da avó. Júlia queria ir ao cemitério. Gostava de ver o caixão e a sepultura onde a avó vai ser enterrada ao lado do avô, mas a mãe não deixa.

— Um enterro é uma coisa muito, muito triste — diz. — Demasiado triste para uma criança.

"Mas o que é que ela percebe de estar triste?", pensa Júlia. Nem no enterro a mãe chora. Parece só muito pálida e magra com o fato preto, as meias de vidro e os sapatos pretos. E está cansada, muito mais cansada do que de costume. Deita-se imediatamente no sofá e sacode as perguntas de Júlia com um seco "Agora não, Júlia, por favor!"

Na manhã seguinte, a mãe não tem tempo nenhum para Júlia. Tem de estar no escritório mais cedo do que o costume, porque a espera um trabalho urgente.

— O teu pequeno-almoço está em cima da mesa. Promete-me que comes alguma coisa! — diz ela da porta.

Júlia promete. Mas quando se vê sozinha em frente do prato com as sandes, não consegue comer nada. Vai ao quarto da avó. Tudo parece triste e abandonado: a cama por usar, a cadeira vazia, o robe da avó no armário, dependurado numa cruzeta.

— Avó! — diz baixinho.

Se a avó aqui estivesse…

Mas Júlia podia ir visitar a campa da avó!

Apressa-se a ir buscar o casaco e põe-se a caminho.

A porta do cemitério não está trancada. Júlia abre-a e entra. Como tudo, de repente, ficou silencioso! E ninguém está ali, só ela. Sente-se um pouco perdida.

Além, junto do salgueiro grande, está a lápide do avô. Júlia pára em frente do pequeno monte ao lado da lápide do avô. É por debaixo daquele monte, por debaixo de todas aquelas flores e coroas que a avó está agora?

Júlia não acredita. Mas lá está o nome da avó na fita presa à coroa.

PARA A QUERIDA AVÓ, COMO ÚLTIMA LEMBRANÇA DA JÚLIA, lê ela num dos laços.

Foi a mãe que fez isto? Para a avó como última lembrança…

As lágrimas vêm-lhe aos olhos.

— Avó, porque estás tão longe? — soluça ela. — Volta! Eu gosto tanto de ti!

As folhas do salgueiro sussurram levemente. Júlia levanta a cabeça. Um sopro de vento acaricia-lhe a face – muito suavemente. A avó acariciava-a sempre assim!

— Avó, estás aqui? — pergunta.

As folhas voltam a sussurrar, baixinho e misteriosamente, como se tivessem uma mensagem para Júlia.

Em seguida, os ramos afastam-se e aparece uma figura. É uma criança com uma cara pálida, quase transparente.

— Quem és tu? — pergunta Júlia.

A criança sorri e começa a sussurrar uma melodia. É a melodia da caixa de música da avó!

— Conheces a minha avó? — a voz de Júlia treme.

— Sim — responde ela. — E vim até aqui porque quero ajudar-te.

— Ajudar-me? — pergunta Júlia.

— Eu sei que perdeste a tua avó — responde a criança. — Mas se quiseres muito, posso mostrar-te que, apesar disso, ela ainda está contigo.

— Oh, sim! — exclama Júlia.

— Então fecha os olhos!

Júlia fecha os olhos e ouve uma música suave: a melodia da avó.

— Abre agora os olhos — diz a criança.

Júlia pestaneja. Tudo ficou diferente. O céu tornou-se negro e, à sua frente, está um lago onde ardem inúmeras velas. As velas bóiam na água como ilhas de cera branca.

— Onde é que eu estou? — pergunta.

— Estás no Lago das Luzes da Vida — responde a criança.

— E a avó? Onde é que está a avó?

— Aqui só está a sua luz da vida — diz a criança.

Entra para um barco que está na margem do lago e faz sinal a Júlia.

— Anda!

Júlia segue-a, hesitante.

O barco desliza pelo lago, junto às velas, sem lhes tocar. Júlia olha em volta admirada. Algumas das velas bóiam na água sozinhas, outras estão todas juntas. E todas têm tamanhos diferentes: algumas parecem acabadas de acender, outras já arderam muito e outras já estão apagadas.

— Cada luz é a vida de uma pessoa — diz a criança. — Quando uma pessoa morre, a sua luz também morre.

— Então, todas as velas que já não estão a arder são… pessoas que morreram? — pergunta Júlia.

— Sim — responde a criança.

— E a luz da avó?

— Também já não está a arder.

O barco continua a vogar.

Júlia quase não se atreve a respirar com medo de apagar uma das luzes da vida.

— As chamas não se apagam — diz a criança suavemente.

— Apagam! — exclama Júlia. — Uma acabou agora mesmo de se apagar!

— Sim, mas não foi por nossa causa.

— Então ela não se apagou porque… a pessoa morreu?

— Sim.

— E as outras luzes que estão a tremer… Essas pessoas também vão morrer?

— Talvez sim, talvez não — responde a criança. — Quando uma pessoa adoece gravemente ou quando tem muitas aflições… então a sua luz começa a tremer.

— A luz da avó também tremeu?

— Sim. E até a tua!

— A minha luz também?

— Sim, ora olha: ainda está a tremer!

O barco pára.

— Como é que tu sabes qual é a minha luz? — pergunta Júlia.

— É a minha tarefa — responde a criança.

Aponta para uma ilha com quatro velas.

— Aquela ilha além é a tua ilha da vida. E a luz que está a tremer é a tua luz da vida.

Júlia sente um calafrio.

Na ilha, só há uma vela a arder calmamente e com força. Duas já se apagaram e a maior, a luz da vida de Júlia, tremula como numa corrente de ar.

— Está a tremer desde que a luz da vida da tua avó se extinguiu — diz a criança.

— É porque estou tão triste! — responde Júlia com a voz a tremer. — Porque tenho tantas saudades da avó!

— Mas a tua avó ainda está à tua beira — diz a criança. — A luz da vida dela ainda está ao lado da tua na ilha da vida.

— Avó! — murmura Júlia.

— Enquanto a amares, a sua luz da vida nunca se vai afundar — diz a criança.

— Afundar? — pergunta Júlia, assustada.

— Sim. Quando não houver ninguém que ame a tua avó… a luz da vida dela vai para o fundo do lago.

— Mas eu continuo a gostar da avó! — exclama Júlia.

— Eu sei — diz a criança. — Só porque gostas dela de todo o coração é que tive autorização para trazer-te até aqui e mostrar-te a ilha da vida e as luzes da vida.

— E a avó? — diz Júlia. — Levas-me até ela?

— Ainda não — responde a criança.

— Porque não?

— Só posso fazer isso quando a tua luz da vida também se tiver apagado.

— Então tu és… a morte? — pergunta Júlia.

— Tenho muitos nomes — diz a criança.

— Mas és uma criança!

— Apareço aos homens sob muitas formas.

Olha para Júlia e sorri.

— Não preciso de ter nenhum medo de ti! — diz Júlia.

Calam-se as duas por um momento.

— Ora olha! — diz a criança. — A tua luz da vida já não está a tremer!

E é verdade: a luz de Júlia arde calma e claramente como a da mãe. Júlia olha para as chamas.

De repente, começa a soar uma música. É a música da caixinha da avó.

— Agora fecha os olhos — disse a criança.

Júlia fecha os olhos. A música vai soando cada vez mais baixinho até que pára.

Volta a abrir os olhos. Está sozinha.

As flores e as coroas na campa cheiram bem – um cheiro doce e pesado, como o perfume da avó.

— Agora sei que continuas ao meu lado — diz Júlia baixinho.

Depois volta-se e vai embora.

 

Angela Sommer-Bodenburg

Julia bei den Lebenslichtern

München, C. Bertelsmann, 1989

Tradução e adaptação