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Saturday, June 27, 2009

A menina que não conseguia levantar-se de manhã


Era uma vez uma menina que fazia todas as manhãs uma grande birra para se levantar. Quer dizer, não era ela que fazia a birra, eram os seus dois olhos, as suas duas orelhas, as suas duas mãos e, mais do que todos os outros, os seus dois pés.
Quando a mãe ia acordá-la, ela queria acordar, mas as orelhas não deixavam entrar a voz da mãe a chamá-la:
— Ela fica sempre furiosa com quem a deixa ouvir a voz a mãe a acordá-la; por isso, dá-lhe tu o recado — dizia a orelha direita.
— Essa é que era boa, já ontem fui eu — dizia a outra.
— Olha, eu é que não deixo a voz da mãe dela entrar, porque não estou para levar uma sapatada.
E continuavam assim durante muito tempo, até que a mãe da menina a abanava, já furiosa, e as orelhas assustadas deixavam a voz dela passar.
Depois de a menina ter ouvido a mãe a chamar, queria mesmo acordar, mas os seus olhos começavam a discutir:
— Abre tu primeiro — dizia o da direita.
— Era o que faltava! Ontem fui eu, hoje abres tu — respondia o outro.
— Ai isso é que não abro — dizia o primeiro.
— Olha... e a mim faz-me uma diferença... estou a dormir muito bem.
E só quando a mãe da menina dava o grito: «Olhos, abram-se, porque senão, zango-me mesmo!», é que eles piscavam muito, mas lá abriam.
A mãe da menina sentava-a então ao colo, agarrava-a com muita força para ela continuar quentinha e começava a querer vestir-lhe a roupa. Só que os braços e as mãos queriam voltar para a cama e, além disso, andavam sempre à luta, como muitas vezes os irmãos andam. O braço do lado esquerdo não se esticava para a mãe enfiar a camisa e dizia, a rosnar, ao irmão:
— Por que é que há-de ser sempre pelo meu lado que ela começa a vestir as camisas?... Já ontem foste tu a dormir mais um bocadinho. Eu não me mexo.
A mãe, como não conseguia pôr aquela manga, tentou a outra, mas o braço do lado direito não queria perder a guerra com o irmão e, por isso, também ficou muito mole... e a camisa escorregava outra vez.
A boca da menina, que estava muito contente por não ter nenhuma gémea com quem discutir, quando viu que a mãe estava a ficar mesmo zangada, disse:
— Ó mãe, a culpa não é da menina, é dos braços.
E a mãe zangou-se com os braços. E sabem como é que conseguiu que eles parassem de discutir sobre qual é que ia primeiro e qual é que ia a seguir? Mandou-os aos dois esticarem-se muito e vestiu as duas mangas ao mesmo tempo. Os braços ficaram com pena de não terem mais motivos para discutir, porque gostavam muito de discutir de manhã.
Mas, como vos disse, os piores de todos os irmãos eram os pés. De manhã acordavam sempre muito rabugentos mas, ao contrário dos outros, estes queriam ser os primeiros em tudo. E o pé direito esticava-se todo para a mãe e dizia (usando a boca):
— Sou eu, sou eu, sou eu... Hoje sou eu... Ponha-me meia a mim primeiro...
E o do lado esquerdo dava-lhe pontapés, caneladas mesmo, e tentava pôr-se mais perto da mãe.
— Ontem foi ele... Hoje sou eu, sou eu, sou eu!
E o pior é que depois começavam mesmo à luta e ficavam cheios de nódoas negras.
Então a mãe lembrou-se de uma coisa – porque também se não se lembrasse, a menina nunca mais chegava à escola. Lembrou-se de dizer:
— Ponho primeiro a meia a um... e depois a outro; mas quando chegar aos sapatos, ponho o primeiro sapato ao último em que pus a meia.
Os pés ficaram quietos um bocadinho, só porque não perceberam lá muito bem o que a mãe lhes tinha dito. E a mãe aproveitou esse bocadinho para lhes enfiar as meias e depois os sapatos.
A menina estava, por esta altura, sentada ao colo da mãe, já toda vestida. E ria-se muito com a discussão das suas orelhas, olhos, braços e pés. Pareciam ela e o irmão dela, que estavam sempre a discutir assim. A menina sabia que era muito irritante para os pais ouvirem aquelas lengalengas, mas achava que para as suas orelhas, para os seus braços e pés, era muito divertido.
E, além disso, assim, a menina ficava mais tempo ao colo da mãe!
 
 
Isabel Stilwell
Histórias para contar em 1 minuto e ½
Lisboa, Verso da Kapa, 2005
Adaptação

Friday, June 12, 2009

A Criança Misteriosa

A Criança Misteriosa
 
… continuação
 
– Viva, viva! O Príncipe Faisão deu bicadas em Master Inkspot até morrer!
– Oh, mãe! – choramingou Christlieb. – Oh, Master Inkspot não é na realidade Master Inkspot. Ele é Pepser, o Rei dos Duendes. Ele é uma mosca grande e horrível, usa cabeleira postiça e calça sapatos e meias!
Os pais iam ficando cada vez mais espantados com aquilo que as crianças lhes contavam sobre a história da mãe da criança misteriosa, que era a rainha das fadas, sobre Pepser o Rei dos Duendes, e sobre o Príncipe Faisão.
– Quem vos terá contado tamanho disparate? Ou será que sonharam? – perguntou Sir Thaddeus. Mas depois ficou muito sério e pensativo.
– Félix! Félix! – disse por fim. –Tu és um rapaz sensato e também posso dizer-te que, desde o princípio, achei este tutor uma pessoa esquisita: A tua mãe também não gosta dele. Diz que é muito guloso, sempre à volta de coisas doces, sempre a resmungar e a praguejar de uma forma muito desagradável. Portanto, não ficará por muito mais tempo connosco. Mas, meu rapaz, suponhamos que realmente existem coisas como duendes: mesmo assim, poderia um tutor ser uma mosca?
Félix olhou fixamente para Sir Thaddeus e disse:
– Nunca tinha pensado nisso, pai, e atrevo-me a dizer que eu próprio nunca o suporia se a criança misteriosa não mo tivesse contado – e se eu não o tivesse visto com os meus próprios olhos. Mas agora sei que Pepser é uma mosca nojenta e fingia apenas ser o tutor Inkspot! Acho que uma pessoa não pode mudar a sua natureza! E pensa ainda como ele é guloso. Sempre atrás de coisas doces, tal como diz a mãe! Não é exactamente como uma mosca? E o seu praguejar e zumbir constante?
– Silêncio! – disse Sir Thaddeus de Brakel, quase zangado. – O que quer que seja Master Inkspot, uma coisa é certa: nenhum Príncipe Faisão lhe deu bicadas até à morte, pois aí vem ele, a chegar da floresta!
Nesse mesmo instante, as crianças gritaram e correram para dentro, à procura de segurança. Era mais do que certo que Master Inkspot regressava da floresta. Vinha com um olhar muito zangado, com os olhos a brilharem imenso e a peruca mal posta. Zumbia e praguejava, cambaleando pelo caminho e sempre a bater com a cabeça nas árvores. Chegou à porta de casa e atirou-se avidamente à tigela do leite. Esta entornou-se e ele sugou o leite, fazendo um barulho horrível.
– Santo Deus, Master Inkspot! – disse a mulher de Sir Thaddeus de Brakel. – O que está a fazer?
– Está louco, senhor? – perguntou Sir Thaddeus. – Vem o Diabo atrás de si, ou quê?
Sem lhe dar importância, o tutor bebeu o leite todo e atirou-se ao pão e à manteiga, afastando as abas do casaco das suas magras pernas. Depois, resmungando mais alto do que nunca, atirou-se contra a porta, mas não conseguiu entrar em casa. Cambaleava como se estivesse bêbedo, indo contra os vidros das janelas, fazendo-os estalar.
– Então, então! – exclamou Sir Thaddeus. – Isso não é maneira de se comportar! Arrepender-se-á por isto! Espere e verá!
Tentou apanhar o tutor pelas pontas do casaco, mas ele fugiu. Depois, Félix saiu a correr de casa com um grande mata-moscas e entregou-o ao pai.
– Pega, pai! – gritou. – Pega nisto e mata aquele horrível Pepser!
E foi o que Sir Thaddeus tentou fazer, indo atrás do tutor! Félix, Christlieb e a mãe abanavam panos, fazendo o tutor andar às voltas, enquanto Sir Thaddeus tentava acertar-lhe. Infelizmente todos falharam, uma vez que Master Inkspot, zumbindo de uma forma selvagem, não ficou quieto um único momento.
Finalmente, Sir Thaddeus conseguiu agarrar o tutor pelas abas do seu casaco, e ele caiu resmungando. Quando Sir Thaddeus estava quase a bater-lhe pela segunda vez, ele levantou-se, mais forte do que nunca, e fugiu para a floresta, a zumbir e a resmungar. E nunca mais foi visto.
– Estamos todos livres daquele desagradável Master Inkspot! – disse Sir Thaddeus. – Jamais voltará a nossa casa!
– Estou certa que não! – concordou a mulher. – Um tutor com maneiras tão rudes, tão fanfarrão em relação aos seus conhecimentos, e a saltar para dentro de uma tigela de leite... Que lindo tutor, devo dizer!
Félix e Christlieb gritaram de alegria.
– Hurra! O pai atingiu o Master Inkspot com o mata-moscas e agora ele foi embora de vez! – Hurra, hurra!
Todos pareciam estar bem, mas, apesar das crianças esperarem voltar a ver a criança misteriosa, esta não voltou a aparecer. E, quando iam para a floresta, esta parecia estar assombrada pelos brinquedos estragados que tinham deitado fora. Todos aqueles brinquedos eram criaturas e servos do Duende Pepser (ou Master Inkspot, o tutor), que ainda se ouvia zumbir pela floresta. Félix e Christlieb desistiram de passear, e o pai, Sir Thaddeus, não se sentia bem.
– Não sei o que se passa – disse ele um dia à mulher – mas quase me atrevo a dizer que foi o maldito Master Inkspot a causa de tudo isto. A partir do momento em que o atingi com o mata-moscas e o afugentei, os meus braços ficaram pesados como chumbo.
Na verdade, Sir Thaddeus de Brakel andava cada vez mais pálido e cansado. Já não ia trabalhar para o campo como costumava fazer. Sentava-se durante horas, perdido nos seus pensamentos, e depois pedia a Félix e Christlieb que lhe contassem tudo o que sabiam sobre a criança misteriosa. Eles falavam com entusiasmo, e ele sorria melancólico, enquanto os olhos se lhe enchiam lágrimas.
Félix e Christlieb estavam tristes por nunca mais verem a criança misteriosa, e tinham medo de entrar na floresta por causa dos bonecos sinistros. O pai apercebeu-se disso.
– Venham, vamos todos juntos à floresta, e as criaturas diabólicas de Master Inkspot não lhes farão mal! – disse-lhes, numa bela manhã. Levou as crianças pela mão e entraram na floresta. Estava mais bela do que nunca, com um cheiro doce, o chilrear dos pássaros e um lindo sol. Sentaram-se na relva, por entre flores perfumadas.
– Queridos filhos – disse Sir Thaddeus – devo dizer-vos agora, uma vez que o não posso esconder por muito mais tempo, que eu próprio sabia que uma estranha e maravilhosa criança vos mostrava coisas espantosas aqui na floresta. Quando tinha a vossa idade, essa criança também me apareceu e passámos bons momentos juntos. Não me lembro como foi que ela me deixou, nem tão-pouco como não me lembrei dela quando vocês me contaram a história e eu não acreditei. Contudo, sempre tive a sensação de que falavam a verdade. Mas agora tenho recordado aqueles dias felizes da minha infância e aquela querida e misteriosa criança. Sinto um aperto no peito que, decerto, destruirá o meu coração! Pressinto que é a última vez que me sento debaixo destas árvores. Queridos filhos, em breve vos deixarei. Quando eu morrer, recordem sempre a criança misteriosa!
Félix e Christlieb ficaram assustados. Soluçavam e choravam:
– Oh não, pai, tu não vais morrer! Vais ficar connosco por muito, muito tempo, e também brincarás com a criança misteriosa!
Contudo, no dia seguinte, Sir Thaddeus ficou na cama doente, e um homem alto e magro veio tirar-lhe as pulsações e dizer que tudo iria ficar bem. Mas, ao terceiro dia, Sir Thaddeus estava morto, e a mulher e os filhos choravam-no.
Não muito depois, quando ele foi enterrado, dois homens horríveis, parecidos com Master Inkspot, bateram à porta e disseram à mulher de Sir Thaddeus que iriam tomar posse da propriedade. O Conde Cyprian emprestara ao seu primo afastado mais do que a propriedade valia e queria o seu dinheiro de volta. Assim, a pobre mulher, agora sem nada, teve de deixar a bonita propriedade de Brakelheim. Decidiu ir para casa de uns parentes que não viviam muito longe. Os três embrulharam as poucas roupas com que lhes permitiram ficar, e deixaram a casa, banhados em lágrimas.
Quando caminhavam há algum tempo na floresta, ouviram o murmúrio do ribeiro, que em breve teriam de atravessar. Subitamente, a pobre mãe das crianças caiu sob o peso amargo das suas mágoas. Félix e Christlieb ajoelharam-se, a chorar.
– Oh, que pobres crianças somos! Será que ninguém tem pena de nós?
Ao longe, o murmúrio do rio transformou-se numa agradável melodia, os arbustos abanaram com um misterioso ruído e, em breve, toda a floresta estava banhada por uma luz cintilante. A criança misteriosa saiu das folhas perfumadas, rodeada por uma luz tão brilhante que as crianças tiveram de fechar os olhos. Depois, sentiram um toque suave e ouviram a sua voz dizer:
– Não se aflijam, queridos amigos! Acham que já não gosto de vocês ou que vos deixarei? Podem não me ver com os vossos olhos, mas estarei sempre convosco e farei tudo para vos tornar felizes. Mantenham-me no vosso coração, tal como têm feito até agora,  e nem  o maquiavélico Pepser nem outro inimigo poderão magoar--vos! Gostem sempre de mim e gostem profundamente!
– Assim faremos, assim faremos! – disseram Félix e Christlieb. – Nós amamos-te do fundo do nosso coração!
Quando puderam voltar a abrir os olhos, a criança misteriosa tinha desaparecido, mas deixara todo o seu aroma e alegria dentro deles. Devagar, a mãe levantou-se.
– Oh, queridos filhos! – disse.– Sonhei convosco!  Pareceu-me ver-vos em frente de uma luz dourada e cintilante, o que me reconfortou profundamente!
Havia alegria no olhar das crianças e as suas faces estavam rosadas. Elas disseram à mãe como a criança misteriosa ali aparecera para os reconfortar, e ela disse:
– Não sei porquê, mas hoje acredito na vossa história. Não sei como ela consegue aliviar a minha dor, mas de facto assim é! Vamos ter coragem e continuar.
A sua parente recebeu-os muito amavelmente, e tudo se passou como a criança misteriosa prometera! Tudo o que Félix e Christlieb faziam corria tão bem, que a mãe se enchia de felicidade.
Continuaram a brincar em sonhos com a criança misteriosa, e esta nunca deixou de partilhar com eles as coisas extraordinárias da sua terra.
 
FIM
E.T.A. Hoffmann
A criança misteriosa
Porto, Edinter, 1991
texto adaptado
 

Wednesday, June 10, 2009

A história da criança e do desenho

Certa vez, uma criança fez um desenho. Demorou muito tempo a terminá-lo e usou todos os lápis de cor que tinha. Depois foi ter com a avó e mostrou-lho.
— O que é isto? — perguntou à avó.
— É um desenho muito bonito e cheio de cor — respondeu a avó.
— Mas o que é? — insistiu.
A avó não soube responder.
A criança foi perguntar ao avô.
— Isto é quase um Picasso — respondeu o avô a rir.
— E o que é “quase um Picasso”? — perguntou a criança.
— Um pintor — foi a resposta do avô.
— Eu também sou um pintor — disse a criança.
De seguida foi ter com a irmã mais velha.
— Usaste mesmo as cores todas! — disse ela.
— Pois foi. Mas o que é isto?
— Uma gatafunhada colorida!
A criança tirou-lhe o desenho e foi ter com o pai que estava à mesa a ler o jornal. A criança pôs o desenho em cima do jornal e não disse nada.
— Oh! — disse o pai. — Mas isto é um arco-íris todo colorido muito bonito! Vai de uma ponta à outra. Vai de mim até ti.
— Exactamente — disse a criança.
Em seguida, a criança e o pai penduraram o desenho precisamente no local onde a luz do sol se reflectia na parede.
 
 
Rolf Krenzer
Freue Dich auf jeden Tag
Würzburg, Echter Verlag, 1996
Traduzido e adaptado
 

O Minorca - Igual aos Outros

Queria tanto ser como os outros! Roubar compotas e biscoitos, ser comilão e travesso, intrépido e endiabrado. Esta ideia tornou-se uma obsessão para mim. Ao acentuar permanentemente as diferenças entre mim e os outros, os adultos só reforçavam o meu desgosto.
Um dia, quando íamos às compras, a minha mãe parou a falar com uma vizinha, no passeio estreito da padaria. Uma daquelas “cavaqueiras amenas” que eu detestava e que duravam horas.
Armado de toda a paciência, começava por admirar a montra. Mas uma pessoa cansa-se rapidamente dos croissants, dos pães com chocolate e dos palmiers. Se ao menos tivéssemos parado em frente da loja de brinquedos da rua da República! Puxei pela mão da minha mãe, que fez de conta que não era nada com ela, tão absorta na conversa que estava.
— O seu filho tem um ar tão bem-comportado! — admirou-se a vizinha, que recusava aperceber-se da minha impaciência. — Não é como o meu, um verdadeiro tornado! Não consegue estar quieto um segundo. Tem de estar sempre a correr e a saltar. Vê-se logo que é um rapaz!
“Também sou um rapaz”, pensei, enquanto olhava as nuvens a fazerem uma corrida no céu, para ver qual delas seria a primeira a tapar o sol. Tinha de me ocupar enquanto elas conversavam.
Finda a conversa, a minha mãe conduziu-me na direcção do talho, enquanto concluía:
— É verdade, o Éric é muito calmo.
O talhante, achando-se muito esperto, interpelou-me:
— Um bife para o nosso jovem? A carne vermelha é boa para os músculos e ajuda-te a ser homem.
Olhei para os meus pulsos magros e suspirei. Seria algum dia um homem? Tinha as minhas dúvidas. Quando tinha distribuído os músculos, a natureza esquecera-se de mim.
Alguns passos mais e, diante da mercearia, uma senhora fez-me uma festa na cara:
— É tão gentil este menino. Tão doce. O meu mais velho é terrível. Só aprecia os desportos violentos. Vai ser como o pai, forte e desportivo.
Detestava estas ternuras falsas. Não era um animal que se elogia. Às vezes, virava a cabeça para escapar à mão enluvada que aprisionava as minhas narinas num odor de perfume enjoativo ou recuava a cara para escapar à marca que uns lábios carmesins iriam deixar-lhe e que nem com saliva sairia.
Já devia estar habituado a estas situações. Era sempre a mesma coisa. A minha candura, a minha doçura e a minha pele aveludada atraíam as carícias.
— O Éric é muito dócil, é um sonhador. Nunca será um desportista — defendia-me a minha mãe, algumas lojas à frente, onde parara para conversar com alguém que não via há uma eternidade.
As mulheres são tão faladoras! Para comprar pão, carne, esparguete ou manteiga têm de estar sempre a falar: da ementa da véspera, das doenças dos filhos, das plantações do jardim ou das asneiras do cão.
— Que elegante que ele está, de calças e casaco. Nunca posso vestir o meu filho como deve ser, porque se enfia na lama mal sai de casa. É um lutador. Os rapazes são terríveis. Enfim, mostram que têm carácter.
O orgulho destas mães em relação aos seus rebentos insuportáveis exasperava-me. As suas reflexões insinuavam-se na minha mente e provocavam verdadeiros estragos. Para agradar às mães, era preciso gostar de andar à pancada! Eis uma conclusão catastrófica.
A minha mãe reiterou:
— O Éric não é endiabrado.
Acaso haveria uma certa pena na sua voz? Decepção? Estava farto de ser diferente. As mães davam-me como exemplo para fazerem boa figura, mas nas minhas costas chamavam-me medroso, ou pior, “um betinho”.
Mas que culpa tinha eu de gostar de jogos calmos? De estar quase sempre na lua? De não me divertir a sujar-me de propósito?
Até agora tinha vivido feliz no meu casulo de miúdo sonhador, mas, de repente, via-me obrigado a colocar-me certas questões desagradáveis. Será que devia comportar-me como os outros? Parecer-me com eles? Decalcar as minhas atitudes nas deles? Será que não tinha direito à diferença?
Era impossível forçar-me a ser o que não era ou a provocar uma luta. Mas, e se a mamã se sentisse decepcionada por não ter como filho um verdadeiro rapaz, um desportista? Ela tinha o direito de se sentir orgulhosa de mim. Se ter carácter era gostar de se sujar e andar à pancada, havia de lhes mostrar que também eu tinha carácter.
Da próxima vez que a minha mãe se cruzasse com uma vizinha, levantaria a cabeça com orgulho e diria:
— O Éric também tem uma personalidade forte. Ontem veio coberto de nódoas negras…
Durante alguns dias, dediquei-me à resolução deste dilema delicado: como obter um ar de “verdadeiro” rapaz. Não era fácil: é preciso ter nódoas, arranhões, canelas esfoladas, ossos partidos, cabelos hirsutos, ranho no nariz, dedos sujos, palavrões prontos a sair.
Um rapaz é um durão. Eu era um mole, conhecia os meus limites. Era inútil provocar um grandalhão sempre pronto para a bulha: deitava-me ao chão com uma estalada. Mas também estava fora de questão atacar um rapaz mais fraco: era ir contra o meu código de honra.
Eu tinha sentido moral. O sentido moral impede-nos de nos tornarmos uns crápulas, mesmo que isso signifique a nossa salvação. É uma barreira que quereríamos transpor, mas não o fazemos porque não é correcto. Bastava-me atacar o pequeno Marc para me sentir um fortalhaço. Porém, o meu sentido moral opunha-se a tal. Tinha de encontrar outra solução. Pela minha mãe.
Subitamente, tive uma ideia. Lutaria contra mim mesmo. Só tinha de pensar como o faria.
Era uma forma de me assegurar de que não faria mal a ninguém e de que não receberia muitos sopapos.
Delineei um plano.
Às quatro e meia, à saída das aulas, fiquei para trás. Dirigi-me, num passo decidido, para uma poça de lama que rodeava a caixa de areia. Saltei para dentro dela e depois, para tornar o resultado mais espectacular, atirei-me ao chão e chafurdei à vontade. Que horror! A lama colou-se-me ao blusão, penetrou-me nos sapatos, salpicou-me a cara e empastou-me os cabelos.
Quem diz luta diz golpe. Puxei pelo tecido dos calções. Com não conseguia rasgá-lo, agarrei numa pedra pontiaguda e rompi-os.
Faltava o mais difícil. Arranjar algumas mossas. Reflecti longamente neste problema, mas não havia soluções ideais. Era mesmo preciso levar pancada.
Escalei um muro de pedra e atirei-me para o chão. Que queda! Vieram-me as lágrimas aos olhos. Nada de choradeiras. Limpei a face com os dedos sujos de terra. Tinha dores. Um dos meus joelhos sangrava, o outro estava bem esfolado. Coxeava e apertava a ferida para tentar parar as fisgadas de dor que sentia.
Para compor o quadro, decidi roçar o pulover vermelho que a minha avó Marie me tinha oferecido no meu aniversário na roseira da entrada da escola. Arranhei as mãos e estraguei a camisola. Estava num lindo estado!
Será que devia aplaudir a minha transformação? Não sabia. Sentia-me infeliz. Mas não podia lamentar a minha sorte, já que outros faziam isto por prazer. Era, finalmente, um verdadeiro rapaz!
Saí a correr da escola: estava sujo, roto, pisado, ensanguentado, mas tinha o aspecto do macho, do herói, do justiceiro.
Quando entrei em casa, gritei:
— Olha, mamã, andei à pancada como os outros!
A minha mãe não me felicitou. Antes me agrediu com palavras:
— Quem te pôs nesse estado? É uma vergonha. Vou falar com a mãe desse brutamontes. Não precisas de provocar os grandalhões… O pulover da avó está bom para o lixo… E os calções também… Vem cá, vou tratar do teu joelho. Assoa-te e lava a cara.
Nem uma só palavra para dizer que apreciava o meu novo estado de arruaceiro. Fiquei decepcionado.
O que iria ela contar à vizinha quando nos cruzássemos no passeio? As mulheres são complicadas. Como lhes agradar? Desisto. Eu nunca seria um durão!
 
 
 
Anne-Marie Desplat-Duc
Le Minus
Toulouse, Éditions Milan, 2002
 

Amor com amor se paga

Ia um Cágado para casa com um saco de milho às costas.
A dada altura encontrou um grande tronco de árvore atravessado no caminho. Deitou o saco para o outro lado do tronco e foi dar a volta para pegar de novo no saco.
Um Lagarto viu o saco de milho e pensou para consigo:
«Um saco de milho! Que sorte!»
O Cágado entretanto chegou ali e disse:
— O saco é meu.
— O saco é teu? Achei-o. É meu — afirmou o Lagarto.
Mas o Cágado insistiu:
— Fui eu quem o deitou para aí e venho buscá-lo. Dá-mo.
O Lagarto não estava pelos ajustes:
— Ah, isso é que não dou. Achei-o, é meu.
O Cágado acompanhou o Lagarto até casa deste, sempre na esperança que ele lho devolvesse. Mas, por mais que teimasse, não conseguiu.
Quando chegou a casa não havia nada para comer. Disse aos filhos:
— O Lagarto roubou-me o saco de milho. Vamos ao mato apanhar ratos, se não morremos aqui de fome.
Foram caçar ratos e nisto encontraram um rabo de lagarto fora da toca. O Cágado logo reconheceu que era o rabo do Lagarto que lhe havia roubado o saco de milho.
— Dai-me cá a faca para eu lhe cortar o rabo — disse o Cágado aos filhos.
O Lagarto pediu ao Cágado:
— Não me cortes o rabo que eu ainda estou vivo.
O Cágado não fez caso. Cortou-lhe o rabo, levou-o para casa e comeu-o com os filhos. O Lagarto foi queixar-se ao Leão:
— Leão, venho queixar-me do Cágado. O Cágado cortou-me o rabo e quero que ele mo pague.
O Leão mandou chamar o Cágado e perguntou-lhe:
— Cágado, é verdade que tu roubaste o rabo ao Lagarto?
— Não.
O Lagarto emendou:
— Cortou, sim senhor. Eu disse-lhe que estava vivo e não fez caso.
O Cágado disse:
— Eu não roubei o rabo ao Lagarto. Achei o rabo fora da toca, levei-o para casa e comi-o com os meus filhos. Foi apenas isto e nada mais.
O Leão pensou e deu a sentença:
— Terás que pagar o rabo ao Lagarto.
O Cágado, firme na sua, contou como as coisas se haviam passado e concluiu:
— Se o Lagarto achou o meu saco de milho, também eu achei o seu rabo. Agora não devemos nada um ao outro.
E assim ficou resolvida a contenda. Manuel Ferreira
 
 
Quem pode parar o vento?
Porto, Edições Asa, 1987
 

A Flor da Alegria

A Flor
 da
Alegria
 
 
 
O João e a Rosalinda viviam na mesma cidade, na mesma rua e em casas mesmo encostadinhas. Tão encostadinhas que só um muro separava os dois quintais – o quintal do João e o quintal da Rosalinda. Mas como os dois amigos passavam o tempo a saltar o muro – ora salto eu para o quintal da Rosalinda, ora salto eu para o quintal do João – os pais de ambos resolveram deitar abaixo o muro e ficaram com um grande e belo quintal para todos.
E era no quintal, debaixo da laranjeira grande, que os dois amigos mais gostavam de brincar. E que brincadeiras! Ele eram corridas, ele eram gargalhadas, ele eram cantigas! Até a D. Gertrudes, avó da Rosalinda, dizia rindo também:
— Ai, estes risos! Como eles me fazem bem!
Mas um dia... a Rosalinda não apareceu debaixo da laranjeira grande. Preocupado, João foi logo a correr a casa da amiga. Estaria doente?
Foi a mãe de Rosalinda que abriu a porta e disse:
— A Rosalinda está na sala. Já chamámos o médico. Não tem febre, não tem dores, parece que nem tem nada, mas está tão triste! É que, sabes, a tristeza pode ser uma doença.
Então João entrou na sala e encontrou a amiga sentada numa cadeira, com a cabecinha muito direita, as trancinhas negras caídas nos ombros, os olhos parados, as mãos imóveis... e caído aos seus pés o Bebé, seu boneco preferido, com uma lágrima redondinha como uma pérola a deslizar nas suas bochechas rosadinhas.
Era isso, então, concluiu o João. A Rosalinda estava doente de tristeza.
Nessa noite, João deitou-se, muito triste também, a pensar na amiga. Os seus olhos fecharam-se e ele ouviu, vinda não sabia de onde, uma voz misteriosa que dizia:
— Só tu podes salvar Rosalinda. Sobe ao pico mais alto das Montanhas da Neve e lá encontrarás a Flor da Alegria. Colhe-a e trá-la contigo, pois só ela pode salvar a tua amiga.
Então João pôs-se a caminho das Montanhas da Neve. Quando se preparava para começar a subida, apareceu-lhe no caminho um dragão, com a sua cauda de serpente e as suas asas a vibrar de fúria:
— Não sabes que eu sou o guardião destas Montanhas? Não sabes que nunca ninguém por aqui conseguiu passar?
— Mas eu tenho de subir ao pico mais alto das Montanhas da Neve para colher a Flor da Alegria e salvar a minha amiga Rosalinda que está doente de tristeza — explicou o João.
O dragão, indeciso, coçou com as suas fortes garras a cabeça coberta de escamas e, mais brando, disse:
        — É bonito isso da Amizade! Olha, poderás subir ao pico mais alto das Montanhas para colheres a Flor da Alegria, mas terás de vencer três provas muito difíceis para mostrares que és mesmo amigo da Rosalinda. É que a Amizade não é coisa fácil, sabes?
E João, ao recordar a carinha triste da amiga, encheu-se todo de coragem e prometeu ao dragão:
— Faço tudo, mesmo tudo o que for preciso, para salvar Rosalinda.
— Isso que disseste é bonito também. Agora vou dizer-te as três provas que terás de vencer para chegares ao pico mais alto das Montanhas da Neve: entrar na Caverna dos Leões Ferozes; trazer a coroa de diamantes da Rainha das Fadas que está no ramo mais alto da mais alta árvore do Bosque dos Abetos; e, por fim, atravessar o Lago das Águas Verdes. Então encontrarás a Flor da Alegria — e o dragão desapareceu numa nuvem de fogo.
E o João continuou a caminhar.
Numa clareira, encontrou um leão bebé, de pêlo dourado, que brincava, pulava e rebolava sobre um tapete macio feito de musgo verde e folhas caídas das árvores.
João parou um bocadinho a olhar encantado o leãozinho quando ouviu, atrás de si, um barulhinho leve. Era um tigre felino, de pêlo amarelo e pescoço listrado de preto, que se preparava para atacar o leão bebé. Então, sem pensar no perigo, João deu um salto, agarrou o leãozinho e escondeu-se com ele numa caverna escura que se abria mesmo ao lado da clareira. Do lado de fora, o tigre bem tentava atacá-los, mas a entrada da caverna era estreita e ele não conseguia entrar. Por fim, foi-se embora, rugindo um forte rugido de cólera.
Quando o nosso herói se preparava para partir, apareceram, vindos do outro lado da caverna, o Pai Leão, a Mãe Leoa e, pulando à volta deles, três filhotes, irmãos do leão bebé.
— Obrigada por salvares o nosso filho — disse a Mãe Leoa, aconchegando a si o leãozinho, com a sua pata macia.
— Ele é muito desobediente. Saiu sozinho da caverna e só a tua coragem o salvou — disse o Pai Leão, agitando a sua farta juba, em sinal de agradecimento. Que podemos fazer por ti, amigo?
E o João falou:
— Eu tenho de entrar na caverna dos Leões Ferozes para subir ao pico mais alto das Montanhas da Neve e aí colher a Flor da Alegria para salvar a minha amiga Rosalinda que está doente de tristeza.
— Mas a caverna dos Leões Ferozes é esta. E, olha, nós não somos ferozes. Só atacamos os outros animais para nos defendermos ou quando temos muita fome. Agora vamos contigo até ao outro lado da caverna. É lá que fica o caminho para o pico mais alto das Montanhas da Neve.
E os leões acompanharam o João até à saída da caverna e despediram-se com grande amizade.
João olhou para o alto pico coberto de neve e, enchendo-se de força, começou a subida. Ia a atravessar um bosque muito verde e cerrado quando ouviu lá do cimo:
— Ai! Ai! Ui! Ui! Ai! Ui!
Olhou e viu um macaquito muito aflito com o rabito enrolado no ramo de uma árvore.
— Ajuda-me cá! Ajuda-me cá! — pediu o macaquito. — Estava aqui a ensaiar saltos mortais para a grande Festa dos Macacos que é já amanhã quando o meu rabo (sabes, o rabo dos macacos é muito importante) se me enrolou neste ramo. E agora aqui estou preso. Achas que podes libertar-me?
O João que, como já adivinharam, era muito amigo dos animais, não se fez rogado. Trepou até ao ramo onde estava o macaquito e desenrolou com todo o cuidado o seu rabito.
— Ora aqui estou eu livre de novo. E com o meu rabinho inteiro! Estou-te muito agradecido. O que posso fazer por ti, amigo?
— Eu tenho de ir buscar a coroa de diamantes da Rainha das Fadas que está no ramo mais alto da mais alta árvore do Bosque dos Abetos.
— Mas o Bosque dos Abetos é aqui. E a mais alta árvore do bosque é esta mesma onde nós estamos. Espera um instantinho que eu sou um macaquito ágil e bom trepador e vou retribuir-te o teu favor.
E o macaco subiu ao ramo cimeiro da árvore e voltou com uma coroa de diamantes que brilhavam como mil estrelas acesas. E, com muitos abraços e agradecimentos, despediram-se e cada um seguiu o seu caminho.
E João andou, andou, andou, já muito cansado, mas com os olhos pregados no pico mais alto das Montanhas da Neve onde crescia a Flor da Alegria que iria salvar a sua amiga Rosalinda que estava doente de tristeza.
Até que chegou às margens do Lago das Águas Verdes. E, no meio dos altos arbustos, foi encontrar, ferida, uma Águia Real que em vão tentava voar, batendo as suas enormes asas, aflita e sofredora.
— Águia Real, está sossegada. Eu vou tratar de ti e poderás voar de novo.
E João ficou nas margens do Lago das Águas Verdes durante três dias e três noites para tratar a Águia Real. Por fim, ela conseguiu erguer-se e ensaiou um pequeno voo.
— Já posso voar de novo! Como te estou agradecida! Que posso fazer por ti, amigo?
— Eu tenho de atravessar o Lago das Águas Verdes, subir ao pico mais alto das Montanhas da Neve e colher a Flor da Alegria para salvar a minha amiga Rosalinda que está doente de tristeza.
— Nada mais fácil. O meu ninho é mesmo lá no pico mais alto das Montanhas. Sobe para cima de mim sem medo. Nós, as Águias Reais, somos as mais fortes e as mais corajosas das aves.
E João, agarrado ao pescoço da sua amiga, voou muito alto, sobre o lago das Águas Verdes. E todos os animais do bosque levantaram para o céu uns olhos redondos de espanto. E até os peixinhos do lago puseram de fora as cabecinhas curiosas. É que nunca ninguém tinha visto um rapazinho voar montado numa Águia Real!
A Águia pousou no pico mais alto das Montanhas da Neve, despediu-se do amigo e voou para o seu ninho.
E ali mesmo, no meio da neve, abrigada de todos os ventos por um rochedo, João encontrou a Flor da Alegria. O seu pé era delicado e frágil, as suas folhas tinham a forma de um coração e as suas pétalas tinham a cor quente da amizade. Então, com muito cuidado, João colheu a Flor, apertou-a contra o coração, desceu as Montanhas da Neve a correr e a correr entrou na casa de Rosalinda.
Já ela estava sentada na sua cadeira, com a cabecinha muito direita, as trancinhas negras caídas nos ombros, os olhos parados, as mãos imóveis... e caído aos seus pés o Bebé, seu boneco preferido, com uma lágrima redondinha como uma pérola a deslizar nas suas bochechas rosadinhas.
João colocou a Flor da Alegria nas mãos de Rosalinda. Então uma estrelinha, muitas estrelinhas começaram a brilhar nos olhos da amiga. Ela sacudiu a cabeça e as suas trancinhas negras começaram a bailar para um lado, para o outro. Depois as suas mãos apanharam o Bebé e secaram a lágrima-pérola das suas bochechinhas rosadas.
E virou-se para o João a rir. E o seu riso era tão alegre, tão claro, tão cristalino que ele começou a rir também.
E a partir desse dia voltaram as brincadeiras debaixo da laranjeira grande. E que brincadeiras! Ele eram corridas, ele eram gargalhadas, ele eram cantigas! Até a D. Gertrudes, avó da Rosalinda, dizia rindo também:
— Ai, estes risos! Como eles me fazem bem!
E a Flor da Alegria?
Essa não morreu nunca. Ficou a morar para sempre no coração do João e no coração da Rosalinda.
 
 
                                                                                                                                     Manuela Monteiro
A flor da alegria
Porto, Campo das Letras, 2006
 

A Criança Misteriosa

A Criança Misteriosa
 
 
Era uma vez um senhor do campo chamado Thaddeus de Brakel. Tinha herdado do pai a pequena propriedade de Brakelheim e aí vivia muito sossegado, amado por todos, numa casa pequena mas confortável, com a mulher, o filho Félix e a filha Christlieb.
Uma certa manhã, a família levantou-se muito cedo. A mulher de Sir Thaddeus fez um grande bolo cheio de amêndoas e uvas. Sir Thaddeus vestiu o seu melhor casaco verde, e Félix e Christlieb vestiram as suas melhores roupas, pois iam chegar uns nobres visitantes: o Conde Cyprian de Brakel, primo de Sir Thaddeus, mais a sua mulher e filhos.
Estava um dia lindo, e Félix e Christlieb tinham pena de não poderem ir brincar para a floresta. Em vez disso, tinham de ficar em casa à espera dos visitantes.
Chegaram por fim, numa carruagem luxuosa. O Conde e a sua família tinham maneiras polidas e vestiam roupas caras: o pequeno Hermann usava calças compridas, um chapéu com uma pena e trazia consigo uma curta e cintilante espada, e a saia da irmã Adelgunde tinha muitos laços e fitas.
Infelizmente, os quatro primos não se entendiam muito bem. Os filhos do Conde eram atrevidos e arrogantes. Sabiam tudo sobre história, geografia, zoologia e até sobre astronomia, e gostavam de exibir os seus conhecimentos, enquanto Félix e Christlieb, que tinham crescido livres na floresta, sentiam-se desajeitados e constrangidos diante deles. A Condessa ficou espantada com tal ignorância, e o Conde prometeu a Sir Thaddeus e à mulher enviar um tutor para transmitir um pouco de saber aos seus filhos, dizendo-lhes que tal não lhes custaria absolutamente nada.
Em seguida, o cocheiro entrou com duas grandes caixas. Adelgunde e Hermann entregaram-nas a Christlieb e Félix.
– Aqui tens alguns brinquedos, meu querido primo! – disse Hermann ao primo, fazendo-lhe uma vénia.
Félix ficou atrapalhado, sem saber o que dizer, assim como a irmã, que estava mais perto do choro do que do riso. Apesar disso, a caixa que Adelgunde lhe oferecera cheirava tão bem, que parecia estar cheia de guloseimas. Sultão, o fiel cão de Félix, começou a ladrar e a saltar, e Hermann, que estava muito amedrontado, correu até à outra ponta da sala e começou a soluçar.
– Ele não te faz mal! – disse Félix ao primo. – Não é preciso gritares dessa maneira. – É só um cão e, mesmo que ele te atacasse, tens uma espada, não tens?
Mas Hermann continuou a soluçar até à chegada do cocheiro, que pegou nele ao colo e o levou para a carruagem. Adelgunde também começou a chorar sem razão aparente. Depois, o mesmo fez a pobre Christlieb, e foi ao som de três crianças a chorar que os nobres visitantes partiram.
Mal a carruagem partiu, Sir Thaddeus despiu o seu belo casaco verde e vestiu o de todos os dias. Passou um pente sobre o cabelo e deu um grande suspiro.
– Meu Deus, obrigado por tudo! – disse.
As crianças também despiram os seus belos fatos, sentindo-se libertas e felizes.
– Vamos até à floresta! – gritou Félix.
– Não querem ver os presentes? – perguntou a mãe. Christlieb, que estivera a observar curiosamente as caixas, achou boa ideia, mas Félix não estava assim tão certo.
– Huh! – disse. – Como é que o primo pode ter trazido alguma coisa engraçada? Ele só fala de leões, ursos, elefantes, e depois tem medo do Sultão! A chorar e a soluçar escondido debaixo da mesa, e com uma espada!
– Oh, Félix, meu querido, vamos dar uma espreitadela às caixas! – disse Christlieb.
Félix, que fazia tudo para lhe agradar, concordou. A mãe abriu as caixas e – bem, queridos leitores, só desejo que todos tenham a sorte de ter tantos presentes maravilhosos da vossa família e amigos, no Natal ou no vosso aniversário! Lembram-se de como gritaram de alegria ao verem uns lindos soldadinhos ou os divertidos bonecos mecânicos com um realejo? As bonecas bem vestidas e os coloridos livros de desenho? Pois foi como Félix e Christlieb se sentiram diante daquelas caixas a abarrotar de brinquedos maravilhosos e de guloseimas.
– Oh, que maravilha! – gritavam eles, batendo palmas.
O brinquedo de que Félix mais gostou foi de um forte caçador que levantava a espingarda e apontava para um alvo, quando se lhe tocava nas costas do casaco. A seguir, o melhor foi um pequeno boneco que se inclinava e tocava uma linda melodia numa harpa. Havia uma pistola, uma faca de caça, ambas feitas de madeira e pintadas de prateado, assim como um boné de hussardo e um cartucho de uma pequena espingarda. Quanto a Christlieb, estava fascinada com uma linda boneca e um conjunto de panelas e sertãs. As duas crianças esqueceram-se completamente da ida à floresta e brincaram com os brinquedos novos até serem horas de deitar.
No dia seguinte, tiraram novamente os brinquedos das caixas para brincarem. Lá fora, na floresta, o sol brilhava, os pássaros cantavam e, de repente, Félix gritou:
– Oh, Christlieb, lá fora é mais divertido! Podemos levar os brinquedos!
No entanto, os brinquedos, comparados com as belezas da Natureza, não eram tão interessantes, e as crianças ficaram impacientes e brincaram tão desajeitadamente com eles, que alguns se partiram, incluindo o caçador e o tocador de harpa.
– Vamos fazer uma corrida! – disse Félix.
– Oh sim! – exclamou Christlieb. – E a minha boneca também vai!
E assim, cada um agarrou num braço da boneca e desataram a correr pelo meio dos arbustos, descendo a colina até chegarem a um lago rodeado por altos juncos, onde Sir Thaddeus por vezes caçava patos bravos.
– Porque não paramos um pouco? – perguntou Félix. – Talvez eu mate um pato, como o pai. Afinal até tenho uma pistola!
Mas Christlieb gritou:
– Oh, a minha boneca! O que aconteceu à minha boneca?
Claro que a boneca estava em mau estado. Durante a corrida, as crianças tinham-se descuidado. As roupas estavam espalhadas pelos arbustos e a boneca tinha as pernas partidas. A sua bonita cara de cera estava feita em pedaços.
– A minha boneca! – gemeu Christlieb. – A minha boneca!
– Bem, já vês as coisas estúpidas que os primos nos deram! – disse Félix.
– A tua boneca nem serve para fazer uma corrida connosco. Vá lá, dá cá a boneca!
Triste, Christlieb entregou-lhe a boneca toda estragada, e não conseguia parar de chorar.
– Oh, não! – disse, quando ele a atirou para o lago.
– Anima-te! – consolou-a Félix. – Não chores por causa de uma boneca tão estúpida! Se eu apanhar um pato, dou-te as penas mais bonitas das asas!
Nesse momento surgiu um ruído vindo dos juncos e Félix apontou a sua pistola de madeira, mas baixou-a quase de imediato.
– Sou maluco – disse. – É preciso pólvora e balas para carregar uma pistola e eu não tenho nem uma coisa nem outra, e mesmo que tivesse, como é que ia carregar uma pistola de madeira? A faca de caça também não serve. Não corta! Digo-te uma coisa – o Primo Baggy Breeches está a gozar comigo! Os brinquedos parecem muito bons mas não prestam para nada!
E dizendo isto, Félix atirou ao lago a pistola, a faca e os cartuchos. Quando regressaram a casa, a pobre Christlieb ainda chorava pela boneca e Félix estava de muito mau humor. Quando a mãe lhes perguntou:
– Mas onde estão os vossos brinquedos, meninos?
Félix contou como ele e Christlieb tinham sido enganados pelo caçador, pelo tocador de harpa, pela pistola, a faca e a boneca.
– Meu Deus! – disse a mãe pausadamente. – Vocês não sabem brincar com coisas tão bonitas e frágeis como aquelas!
Contudo, Sir Thaddeus disse:
– Deixa as crianças. Fico contente por vê-las livres daqueles brinquedos que só as baralhavam!
E nem a mãe nem as crianças perceberam o que é que Sir Thaddeus pretendeu dizer!
No dia seguinte, Félix e Christlieb foram bem cedo para a floresta. A mãe disse-lhes que não regressassem muito tarde, pois tinham de estudar alguma coisa, para não se sentirem tão envergonhados quando o tutor chegasse.
– Vamos brincar enquanto podemos! – disse Félix e, começaram a brincar às caçadinhas. Pouco tempo depois, estavam cansados e mudaram de brincadeira. Nada corria bem. O boné de Félix voou e ele apanhou-o com agilidade e endireitou-o. Christlieb tirou alguns espinhos da saia e deu um pontapé num tronco.
– É melhor irmos para casa – disse Félix, de mau humor. Mas, em vez disso, sentou-se à sombra de uma grande árvore e a irmã fez o mesmo. Aí ficaram ambos a olhar tristemente para o chão.
– Oh, mano – suspirou Christlieb – se ao menos ainda tivéssemos aqueles brinquedos tão bonitos!
– Não serviriam para nada – murmurou Félix. – Íamos partir os bonecos outra vez! A mãe tinha razão, Christlieb. Não havia nada de errado com aqueles brinquedos. Nós é que somos tão ignorantes que nem soubemos brincar com eles!
– Sim – concordou Christlieb. – Se fôssemos espertos como os nossos primos, tu ainda tinhas o caçador, o tocador, e aquela linda boneca não estaria agora no fundo do lago! Oh, por que é que somos tão desajeitados e ignorantes?
Começou a soluçar e Félix juntou-se a ela. Choraram ambos bem alto, lamentando-se:
– Se não fôssemos tão ignorantes!
De súbito, pararam de chorar e entreolharam-se espantados.
– Estás a ver aquilo, Christlieb? – perguntou Félix.
– Estás a ouvir aquilo, Félix? – perguntou Christlieb.
 
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria - Baltar