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Friday, October 30, 2009

Mulher




PARA RELEMBRAR...

Quando Deus fez a mulher
Em hora de inspiração
Não a fez, como se quer,
De uma costela de Adão.

Quem poderá entender
Que obra perfeita, tão bela,
Tem alguma coisa a ver
Com uma feia costela?

Que rostos tão rosadinhos,
Aveludados, sedosos,
Não sejam botões formosos
A reflorir entre espinhos?

Que perna e coxa não sejam
Níveos caules de vidoeiros
Ainda moços, que vicejam
Pelas margens dos ribeiros?

E no peito almofadado
Há um ninho de duas rolas
Que são duas aves tolas
Num inocente noivado.

E os olhos - que coisa linda!
São como duas estrelas
Que podemos ou não vê-las
Perto ou a distância infinda.

Com olhos de olhar profundo,
Com lábios de tal frescura,
Deus fez esta criatura
Do mais belo que há no mundo.

Com boca de tal sorriso,
Com rosto de tanta graça,
Nada no mundo ultrapassa
Quem tanto nos tire o juízo.

(João Marcos)


"Quanto mais inteligente a mulher, tanto mais se afasta o homem."(Nietzche)

"Os homens trataram até agora as mulheres como pássaros que, vindos das alturas, perderam-se e vieram refugiar-se ao pé deles.Enfim, como algo mais delicado, mais vulnerável, mais selvagem, mais esquisito, mais doce, com mais alma.mas algo que se deve engaiolar, para que não fuja." (Nietzche)

My Sleep

In the middle of the night
I go walking in my sleep
From the mountains of faith
To the river so deep
I must be lookin' for something
Something sacred I lost
But the river is wide
And it's too hard to cross
even though I know the river is wide
I walk down every evening and stand on the shore
I try to cross to the opposite side
So I can finally find what I've been looking for
In the middle of the night
I go walking in my sleep
Through the valley of fear
To a river so deep
I've been searching for something
Taken out of my soul
Something I'd never lose
Something somebody stole
I don't know why I go walking at night
But now I'm tired and I don't want to walk anymore
I hope it doesn't take the rest of my life
Until I find what it is I've been looking for
(Two beat Pause)
In the middle of the night
I go walking in my sleep
Through the jungle of doubt
To the river so deep
I know I'm searching for something
Something so undefined
That it can only be seen
By the eyes of the blind
In the middle of the night (break)

I’m not sure about a life after this
God knows I've never been a spiritual man
Baptized by the fire, I wade into the river
That is runnin' to the promised land (Long Five beat Pause)

In the middle of the night
I go walking in my sleep
Through the desert of truth
To the river so deep
We all end in the ocean
We all start in the streams
We're all carried along
By the river of dreams
In the middle of the night



(Celinha)

A CEREJEIRA DA LUA


A Lua fita-nos quando a fitamos? Não. Nunca. Se a chamarmos, deste canto da Terra, a Dama Toda Branca embuça-se de mistério e faz de conta que é a Bela Adormecida. Presunçosa.
Como se toda a gente não soubesse que a Lua deixou de ser inacessível. Botas memoráveis pisaram-lhe a superfície desolada. Satélites zumbem à sua volta. Telescópios potentíssimos perscrutam-lhe todos os socalcos, rugas e verrugas.
A Lua é a nossa vizinha defronte. E, ao perto, nada bonita, por sinal.
Quem se atreve a dizer-lho? Não contem comigo.
Aliás, pouco importa. Ela que nos ignore. Que dirija a atenção para a distância azul da noite. Que recorde outros tempos, antigas glórias. Que sonhe. Deixem-na sonhar.
Entre muitas evocações mimosas, a Lua sonha com o imperador Meng Uóng, que dela se enamorou. Onde isso vai.
 
Numa das varandas do palácio imperial, ornamentada de gaiolas de ouro, Meng Uóng, tocado pela tristeza do crepúsculo, dá de comer às cotovias.
O sábio Tien-O-Tzê segue-o em silêncio como uma sombra protectora. Foi seu aio, depois seu mestre.
Introduziu-o no segredo dos cultos, interpretou, um por um, para ilustração do jovem imperador, todos os conselhos do livro dos veneráveis e pacientemente guiou-lhe a mão inábil de menino sobre o desenho das primeiras letras gravadas em tabuinhas de sândalo.
Brilha o esmalte das colunas à luz dos archotes. Criados de sandálias sussurrantes varrem com leques de penas de pavão o fumo do ar à roda do imperador. Um perfume adocicado de ervas preciosas evola-se dos turíbulos mansamente agitados pela brisa do princípio da noite.
Uma pena cinzenta de cotovia esvoaça e como que hesita entre a varanda e o escuro do jardim. Tocada por um raio do luar parece de prata.
 
Isto mesmo diz o imperador, pensativo, enquanto acompanha o devanear da pena que, depois, se perde por entre a ramagem dos sicómoros.
– Tudo à nossa volta aspira à perfeição – comenta o sábio Tien-o-Tzê.
O imperador suspira:
– Até uma pena de cotovia...
– Até uma pena de cotovia – repete o sábio.
– Não será um sinal, um aviso da Lua? – pergunta o imperador, subitamente ansioso.
O sábio permite-se sorrir.
– Se Vossa Majestade assim o quer, será – diz, cofiando a barbicha branca e encerada que lhe escorrega até à cintura.
Descem da varanda ao jardim alumiado por grandes lanternas de pétalas roxas. Suspensas, rente ao chão, as lanternas tudo convertem à cor dos sonhos mais imprevisíveis. A relva, as ramagens baixas dos arbustos e os pés do imperador e do mestre ficam aureolados de roxo e lilás. Parece que caminham sobre nuvens.
Porque o sábio não desaproveita uma oportunidade sem retirar um ensinamento que sirva de alimento espiritual ao jovem imperador, logo acrescenta mais esta fala:
– Um vosso antepassado, o erudito e judicioso imperador La-Long, escreveu na base de uma estatueta de jade, que representava um monge de pálpebras descidas, um luminoso pensamento: O inatingível está à tua mercê. Queres que os teus desejos aconteçam? Fecha os olhos.
Proferidas estas palavras graves, o sábio Tien-o-Tzê, apoiado a um tronco nodoso de cerejeira que lhe serve de bordão, suspende os passos. Fecha os olhos.
Encara-o, surpreendido o imperador.
– Estás a desejar alguma coisa? – pergunta.
O sábio abre os olhos:
– Os meus desejos são os vossos, Majestade. Procurava apenas adivinhá-los.
– E descobriste-os?
Tien-O-Tzê, em resposta, ergue o bordão e aponta-o à Lua, redonda e enorme, que subia ao céu, logo por trás dos últimos sicómoros do jardim.
– Tens razão, genial amigo – exclama, entusiasmado, o imperador. – Quero ir à Lua.
– Pois irá – proclama o sábio. – Segure, Vossa Majestade, o arrocho de cerejeira a que me arrimo para as pequenas e grandes caminhadas da vida... Cerre os olhos.
O imperador, habituado a confiar no mestre, corresponde ao mandado.
– Este bordão, que ambos seguramos, há-de levar-nos à Lua –brada, num acesso de inesperada força, o sábio ou mago Tien-O-Tzê. – Não abra os olhos, Majestade, que eu vou lançar o bordão ao céu.
O imperador Meng Uóng, de pálpebras apertadas, sente, num arrepio, que os pés, calçados com finas babuchas escarlates debruadas a pérolas, se soltam do solo e divagam no vazio como se os tivesse suspensos de um baloiço.
– Não abra os olhos, Majestade – torna a recomendar-lhe Tien-O-Tzê.
A voz dele ressoa em eco, repercutida por toda a abóbada celeste:
– Não abra… não abra… não abra os olhos, Majestade…
Vão longe? Vão perto? Por onde voga o bordão a que sábio e imperador se fincam como náufragos que rodopiassem no turbilhão de uma tempestade silenciosa? O imperador pergunta e não quer achar resposta.
Um vento ciclónico e cada vez mais frio encortiça-lhe o rosto crispado. É insuportável. Manter os olhos fechados, agora, não custa. Mais custaria abri-los.
O vento pacifica-se em aragem. O frio em amenidade.
 
Aos ouvidos do jovem imperador soam, primeiro indistintamente depois mais nítidos, os acordes de guitarras e vozes femininas, numa fresca melopeia de boas-vindas. De súbito, os pés encontram chão.
– Pode abrir os olhos, Majestade – comanda o sábio numa entoação de riso.
Ah! eis a Lua! A seu lado, Tien-O-Tzê recupera só para ele a vara de cerejeira e enterra-a no musgo esbranquiçado do solo lunar, fofo e macio, que dá a cada passo uma cadência de dança.
Talvez por isso as jovens que acorrem a receber os visitantes, vestidas com túnicas de cores celestes, têm um andar precioso de dançarinas rituais. Agitam leques, cantam e riem como sinos de porcelana.
– Para onde nos levam? – pergunta, aturdido, o imperador, que pela primeira vez sente o peso da sua túnica de brocado azul onde fulgem dois dragões de oiro.
Elas rodeiam-nos e empurram-nos brandamente enquanto tangem alaúdes.
Levados pelo redemoinho da festa, o imperador e o sábio distanciam-se do lugar onde tinham poisado. Sobem agora uma escadaria de marfim onde, no alto, luminosa, os espera...
– Seong-Ngó, a castelã da Lua – exclama Tien-O-Tzê, reconhecendo-a ao primeiro relance.
 
O sábio não errara. Seong-Ngó reina sobre as selenitas. Ela, que se refugiara na Lua enquanto o seu esposo, Hau-Ngai, se exilara no palácio do Sol, ora toma a configuração de uma rã de três pernas, ora se ostenta em toda a sua beleza de imortal.
Felizmente que, para receber as visitas, não apareceu sob a forma de batráquio, o que seria deselegante. Sentada num trono de coral, rodeada de fadas dançarinas, Seong-Ngó não profere uma única palavra, mas eles percebem pelo brilho dos seus olhos maliciosos tudo o que ela tem para lhes contar.
Com um gesto insinuante, rodopiando o leque, Seong-Ngó aponta para o cimo de uma colina próxima onde o coelho de jade, diante do almofariz, prepara incansavelmente o remédio contra todos os males. É o elixir da imortalidade. A guardiã da Lua parece dizer: “Querem provar? Apressem-se...”
Sábio e imperador descem, em corrida, a escadaria e precipitam-se para a colina. Esquecidos das regras de reverência, nem agradeceram a generosidade do convite.
Antes de alcançarem o coelho, na sua oficina de alquimista, têm de passar por um desfiladeiro obscuro. Cessaram os cânticos de saudação. Sábio e imperador vão sós e estremecem quando lhes chega às narinas um odor áspero de animal feroz, no seu refúgio.
Logo em seguida um rugido e, após este, outro e outro ainda, todos assustadores. Um tigre cinzento e branco assoma ao outro extremo do desfiladeiro. Revira os olhos rancorosos e vai saltar sobre os dois viajantes.
– Fujamos – grita, apavorado, o imperador Meng Uóng. – O teu bordão, onde o deixaste?
– Longe – responde-lhe o sábio, que já corre à frente do príncipe.
Tien-O-tzê, pela primeira e única vez na vida olvidou, naquele transe, as precedências da etiqueta e o comedimento a que a sua provecta idade obrigaria.
Os pés afundam-se no musgo como na neve, o que lhes prejudica o despacho da corrida. Sentem sobre as costas o hálito em fogo do tigre implacável...
– Feche os olhos, Majestade. O sonho mau vai passar.
À voz entrecortada do sábio responde o imperador, aflito:
– E aonde me agarro desta vez?
O sábio, sem parar de correr, grita num assomo de impaciência:
– Agarre-se à minha mão – enquanto lha estende. – Acabo de descobrir a raiz de um raio de luar que nos levará até à Terra.
– Aguentará o nosso peso? – teme o imperador.
O sábio repete, soluçando de cansaço, a máxima de La-Long:
– Queres… que os teus desejos… aconteçam? Fecha… os olhos. Acredite… acredite, Majestade!
Mas o imperador duvida:
– E o tigre? O tigre não virá atrás de nós?
– O tigre não conhece a máxima e não fecha os olhos – exaspera-se Tien-O-Tzê. – O tigre tem medo de cair. Nós não!
De olhos fechados, escorregam pelo raio de luar que se arqueia e alarga até parecer uma estrada de descida suave.
Assim, sem sobressalto, chegam ao jardim imperial. A Lua escondeu-se. Os archotes da varanda ardem, inúteis, à luz da madrugada.
 
Desde essa noite inesquecível que o imperador Meng Uóng tange o alaúde evocando as melodias que ouviu das selenitas. E entusiasmado pelos bailados e cânticos das fadas lunares criou uma escola, num pavilhão, no meio de um pomar de pereiras. Aí, os jovens do palácio foram industriados na arte de dançar e cantar como os habitantes da Lua.
Assim é justificada a origem do teatro chinês e o nome de lei-un-tchi-tâl, “discípulos do pomar das pêras”, como são designados os seus actores.
Quanto ao bordão de cerejeira que o sábio Tien-O-Tzê plantara na superfície musgosa da Lua, conta a lenda que ganhou ramos, folhas, flores...
Quem quiser ver a cerejeira, que olhe para a lua na noite que precede o décimo quinto dia do oitavo mês lunar, segundo o calendário chinês.
Se não conseguir ver, feche os olhos. No espelho da imaginação tudo acontece como queremos…
 
 
 
 
António Torrado
A cerejeira da Lua
Instituto Cultural de Macau, Editorial Pública, Lda, 1990
 

Thursday, October 29, 2009

Eccos do projecto lei de base presidencial



Prevê eleições directas, autarquias, eleição dos juízes pela AN e regiões metropolitanas e autónomas



Com um mandato de quatro anos, o draft presidencialista preconiza a eleição do PR por voto universal, directo e secreto, assim como a Assembleia Nacional, que é escolhida um mês antes do chefe de Estado.
Para os angolanos de origem reserva os cargos de Presidente da República, vice-presidente, juízes do Tribunal Constitucional, dos Supremos Tribunais de Justiça, Eleitoral, e Militar, assim como o procurador-geral, os chefes do Estado Maior general das FAA e dos seus três ramos, Comandante geral da Polícia, deputado à assembleia nacional e ministros.
Os símbolos nacionais serão encontrados por meio de um concurso público e estes não poderão apresentar semelhanças gráficas, sonoras ou de outra natureza com os dos partidos políticos. A base dos direitos civis e sociais são alargados ao nível da preservação ambiental. A terra é declarada como sendo propriedade originária do povo angolano.
ELEIÇÃO DO PR E PODERES
A eleição do Presidente da República deverá ser feita através de sufrágio universal, directo e secreto dos cidadãos angolanos eleitores residentes em Angola e no estrangeiro, se for aprovado o draft intitulado “Projecto A de base Presidencial”.
De acordo com esta proposta a que O PAIS teve acesso, para esse efeito considera-se como círculo eleitoral único o território angolano e o estrangeiro onde residam angolanos capazes de exercerem o direito de voto.
“A eleição do Presidente e do Vice-Presidente da República realiza-se simultaneamente no primeiro domingo de Setembro, em primeira volta, e no último domingo de Setembro, em segunda volta, se houver, do ano em que termina o mandato presidencial vigente”, lê-se no documento que comporta 368 artigos.
Entretanto, o número 4 do artigo 136, realça que a eleição do Presidente da República importa a do vice-presidente com ele registado e vence a candidatura que obtiver a maioria absoluta de votos, não contados os votos nulos e em branco.
Na impossibilidade de algum candidato alcançar a maioria requerida, haverá lugar a uma segunda nos vinte dias subsequentes ao dia do anúncio dos resultados entre os dois candidatos mais votados e será vencedor aquele que obtiver mais votos válidos.
No caso de haver morte antes da segunda volta, desistência ou impedimento legal de candidato, convoca-se de entre os remanescentes, o de maior votação, mas se em segundo lugar ficarem dois candidatos com a mesma votação qualificar-se-á o mais idoso.
CANDIDATURAS
Quanto às candidaturas, um tema polémico, por alegadamente deixar de fora as de pessoas independentes, o ponto 2 do 139º do mesmo título diz expressamente que “podem apresentar candidaturas para Presidente da República, os partidos políticos legalmente constituídos, as coligações de partidos políticos, ou um mínimo de cinco mil e um máximo de dez mil cidadãos”.
Esta matéria que vem tratada na página 65 no seu título II referente ao Poder Executivo, expressa que esse poder é exercido singularmente pelo Presidente da República que será auxiliado por ministros de Estado, as duas figuras com uma mandato de quatro a iniciar no dia 11 de Novembro do ano em que for eleito.
MANDATO DOS ÓRGÃOS EXECUTIVOS
Todos os órgãos executivos que, além do Presidente da República, incluem os titulares de órgãos executivos de entidades autónomas e os presidentes de câmaras municipais, só poderão ser reeleitos para mais um mandato imediatamente a seguir.
Comparativamente com os dois outros projectos este é o mais volumoso contendo ao todo 368 artigos onde estão plasmados os mais variados direitos, deveres e princípios estruturantes do Estado organizado com base na proposta presidencial, que traz bastantes inovações em relação à actual lei Constitucional.
Apesar de não apresentar uniformidade nos termos para designação dos cidadãos angolanos que são tratados como populares ou povos de Angola, esta proposta dispõe que o exercício da soberania será exercido directamente e através de órgãos estatais soberanos, especiais ou auxiliares nos termos da constituição.
Dispõe como mecanismos à mão do cidadão para o exercício da sua soberania, além da eleição dos seus representantes pelos mecanismos tradicionais, o plebiscito, o referendo, a iniciativa e a revogação de mandato.
OS ÓRGÃOS DE SOBERANIA
No capítulo reservado aos órgãos e funções do Estado está disposto que estes são os de soberania, onde se inclui o Presidente da República, a Assembleia Nacional e os Tribunais; considerando-se órgãos especiais o Tribunal de Contas, o Conselho de Estado, o Banco de Angola, a Alta Autoridade para a Comunicação Social, o Procurador-Geral Eleitoral e o Procurador-Geral da Liberdade de Imprensa.
Enquanto isso, “são órgãos auxiliares o Ministério Público, o Conselho Nacional de Justiça, a Advocacia Pública dos Cidadãos, as entidades territoriais, as autarquias, as autoridades tradicionais e outros órgãos, cujas competências de funcionamento, composição e formação são definidos na Constituição”.
RESPONSABILIDADE CRIMINAL DO PR
O estatuto dos titulares destes cargos, de acordo com o artigo 114º, respondem política, civil e criminalmente pelas acções e omissões que pratiquem no exercício das suas funções. Ao Presidente da República são imputados crimes que atentem, nomeadamente, contra a existência da República, o livre exercício dos poderes legislativo, judicial, do Ministério Público e dos poderes constitucionais dos órgãos locais.
É também responsabilizado quando atentar contra o exercício dos direitos, individuais e sociais; o regime democrático e a soberania popular; a probidade na administração; a lei orçamental e o cumprimento das leis e das decisões judiciais, cabendo à Assembleia Nacional a iniciativa do processo que é julgado no Supremo Tribunal de Justiça.

ORGANIZAÇÃO DO PODER JUDICIAL
Esta proposta traz muitas novidades em relação ao sistema judicial, onde dispõe no capítulo do estatuto da magistratura, que os juízes dos tribunais judiciais formam um corpo único e regem-se por um só estatuto, devendo o seu ingresso ser feito por meio de um concurso público com a participação da Ordem dos Advogados em todas as fases, exigindo-se do licenciado em direito especialização prática e três anos de experiência jurídica.
A composição dos juízes dos Tribunais angolanos será feita por escolha entre cidadãos com mais de 35 anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada. Em qualquer um dos tribunais, esses juízes serão eleitos pela Assembleia Nacional por voto secreto, a partir de listas apresentadas e avaliadas pelos grupos parlamentares. Os juízes têm mandato vitalício e o seu presidente é eleito pelos juízes. Excepção será o tribunal eleitoral que não terá o mesmo tratamento.
ENTIDADES METROPOLITANAS E AUTARQUICAS
O draft também contempla um articulado sobre as entidades autónomas que, neste caso, não são soberanas, embora exerçam o poder político-administrativo do estado em regiões específicas do território nacional com base no princípio constitucional da descentralização nos termos desta Constituição.
Assim, as actuais províncias de Luanda e Cabinda poderão beneficiar dos estatutos de Região Metropolitana, para a primeira, e Autónoma para a segunda. Estas duas regiões se vão organizar e reger pelos estatutos constituintes e leis próprias que vierem a adoptar em observância dos princípios do Estado democrático de direito, do pluralismo político e os valores sociais da paz, trabalho, justiça e prosperidade.
À região Metropolitana de Luanda, entretanto, será reservado o direito de instituir cidades satélites e outras unidades administrativas periféricas, constituídas por agrupamentos de autarquias ou outras unidades territoriais, para integrar a organização, o planeamento e a execução de funções públicas de interesse comum.
Em cada uma dessas entidades autónomas, o Presidente da República será representado por um Ministro da República, com mandato de quatro anos caso não seja exonerado, que goza da faculdade de assinar e mandar publicar os decretos legislativos e os regulamentares regionais e facilitar a cooperação institucional.

Wednesday, October 28, 2009

FALCONE E EX-MINISTRO FRANCÊS CONDENADOS A PRISÃO EFECTIVA

jpg_angolagate-4de75.jpg (300×459)O escândalo “Angolagate” julgado há meses em Paris conheceu a sentença esta terça-feira. O “ emissário” do Governo de Luanda, Pierre Falcone, foi condenado a seis anos de cadeia e preso imediatamente na sala do Tribunal, que não aceitou a sua imunidade diplomática.

Pierre Falcone tinha sido nomeado Embaixador de Angola junto da Unesco, em Paris, para escapar à Justiça francesa, mas o tribunal considerou que este caso da venda de armas russas a Angola, nos anos 1990, que ficou co nhecido por Angolagate, não está abrangido pela imunidade diplomática, por ser posterior aos factos.

Falcone fora ainda declarado "emissário oficial" do Governo angolano para dirigir todo o processo de compra de armas.

O seu sócio no negócio de venda de armas, Arcadi Gaydamak, de nacionalidade israelo-franco-russo-canadiano, foi condenado à revelia a seis anos de prisão. O seu advogado, bem como o de Pierre Falcone, anunciaram que vão recorrer da sentença.

Prisão para Charles Pasqua

Além destes dois arguidos, foi igualmente condenado a um ano de prisão efectiva Charles Pasqua, antigo ministro do Interior. O gaulista foi sentenciado com três anos de prisão, dois dos quais com pena suspensa.

O tribunal deu como provado o "tráfico de infuência" e aplicou-lhe também uma multa de 100 mil euros.

Jean-Cristophe Mitterrand , filho do ex-Presidente socialista, François Mitterrand, foi condenado a dois anos de prisão com pena suspensa e 375 mil euros de multa.

O tribunal deu como provado o envolvimento de Jean-Cristophe neste caso de venda de armas russas, que deu origem à distribuição de comissões ocultas a diversas personalidades influentes francesas e angolanas.

O filho de François Mitterrand terá recebido 2,6 milhões de dólares para facilitar contactos em França de Pierre Falcone e de Arcadi Gaydamak.

Jean-Charles Marchiani foi condenado a 15 meses de prisão efectiva. Jacques Attali e Georges Fenech foram ilibados.

Luanda acusada de pressões


Depois de cinco meses de audiências, até Março deste ano, e sete meses de interrupção, até à leitura, hoje, das sentenças, o mega processo do caso Angolagate, envolvendo 42 arguidos, chegou pois ao fim. Nenhum dos 30 angolanos citados durante a investigação compareceu perante a Justiça francesa.
Angola foi acusada pelo juiz que presidiu ao julgamento de ter efectuado pressões durante as audiências.
Fonte: Expresso

Saturday, October 24, 2009

Os pequenos acrobatas do rio

Na aldeia de Sakata, os meninos brincam à volta da árvore. Mas isso não os impede de estarem atentos a qualquer pequeno ruído que venha do Congo, o grande rio que corre perto dali. Estão à espera de que o barco passe.
— Ei! Olha o barco! Já lá vem o barco-correio!
Para Kembo é um dia importante. Quando o barco que transporta tantas mercadorias maravilhosas abrandar a velocidade, ele vai aproximar-se e pôr as mãos no casco. Até há-de subir a bordo. A manobra é arriscada, mas Kembo está decidido.
— Mido, Eloni, vamos! Temos de ser os primeiros a acostar!
Enquanto Mido e Eloni pegam nos remos do pangaio, Kembo grita:
— Cuidado! A piroga vai meter água! Olhem que tem um buraco à frente!
Kembo tapa o buraco com um pouco de barro.
— Agora podemos ir. A minha mãe quer que lhe traga sabão e uma t-shirt.
As folhas dos nenúfares agitam-se à passagem deles. Escondido debaixo da umbela de um cogumelo, um sapo está quase a apanhar um insecto. Que sossego! Mas, de repente, o sapo esconde-se, e os pássaros levantam voo com grande alarido. O que terá causado toda aquela agitação, pregando um susto de morte às crianças? A serpente negra que assombra o rio. Ela acaba de escapulir-se por entre as ervas altas. Kembo começa então a entoar a canção de Sakata, a Nossa Aldeia, uma canção que dá coragem.
No rio agitado, eh! eh!
É preciso remar com força, eh!
No rio agitado
É preciso remar com força.
Ao longe, outras crianças pescadoras retomam o refrão. Kembo e os amigos voltam a subir a corrente com mais vigor. Em breve, a piroga sai das águas calmas da floresta e entra nas do rio. No sítio em que os dois braços de água se encontram, as ondas fervilham, formam um turbilhão. Mido e Eloni gritam:
— Kembo, temos medo! Vamos voltar para trás!
— Nem pensar — diz Kembo. — Não vamos desistir!
Um vento forte arrasta a piroga. O pânico apodera-se dos amigos de Kembo. Mas Kembo sabe desviar-se dos perigos, ultrapassar as armadilhas da água, e diz:
— Quietos! Nada de fazer força. Temos de nos deixar levar pela corrente.
A piroga é sacudida por todos os lados. E depois, de repente, ei-la que sai do turbilhão.
Kembo e os amigos esperam com impaciência a aproximação do barco, que abranda mas não pára.
Os passageiros olham para as crianças, admirados. Alguns gritam:
— Afastai-vos! Os redemoinhos são perigosos!
À primeira onda, a piroga sobe até à crista. Os passageiros do barco ficam embasbacados perante a destreza de Kembo e dos amigos, que, certos do sucesso da sua proeza, cantam com toda a força.
Da margem, os pais seguem o espectáculo.
— Oh! Que habilidade! Que acrobatas corajosos! Será que vão conseguir encostar o barco? Eu nem quero ver!
Alguns pais gritam, manifestando o seu medo.
— Os nossos filhos trazem os amuletos, consigo ver daqui as fitas vermelhas!
Os rapazes não conseguiram a acostagem. O choque contra o flanco do barco foi duro e a emoção forte quando as crianças ouviram rebentar o pedaço de barro que tapava o buraco da piroga. Mas Kembo e os amigos mantiveram o sangue-frio.
— Depressa, a outra piroga! — grita Kembo.
A outra piroga pertence, seguramente, a um pescador que já entrou no barco-correio.
Kembo salta para dentro, pega numa amarra e atira-a para as mãos que se agitam acima dele. De repente, a corda estica.
— Consegui! — grita Kembo, que já está a bordo.
Mas Eloni e Mido têm menos sorte, a piroga volta-se e ei-los na água. Falharam.
A bordo do barco-correio era um autêntico mercado. Vendia-se lá de tudo. Vê-se uma coisa amarela e preta a brilhar na penumbra. Será um brinquedo? Kembo aproxima--se. O produto à venda é uma jibóia.
— Nioka! Nioka! (Serpente! Serpente!) — grita Kembo, cheio de medo. E foge a correr.
Cheira muito bem debaixo do tejadilho de madeira. Os passageiros saboreiam mandioca que as mulheres acabam de fritar em óleo de palma. Fazem-se trocas e conversa-se.
Os habitantes ribeirinhos acabam de acostar, trazem peixe e banana para fritar. Mas Kembo não pode atrasar-se, tem compras a fazer.
Kembo escapa-se por entre as mercadorias. Chega diante da exposição de conservas, de vestidos e de tangas, onde, finalmente encontra o que procurava. Enquanto espera que o sabão e a t-shirt sejam embrulhados, Kembo vê, ao fundo do barco, um carro carregado de caixotes.
São medicamentos para um hospital da Cruz-Vermelha, explica o comerciante.
— Pega! Aqui estão as compras para a tua mãe!
A sirene apitou. Rápido, rápido! Temos de sair depressa, que o barco vai ganhar velocidade! Kembo esconde o embrulhinho com segurança dentro do calção e, splash!, mergulha. Nada como um peixe até chegar junto de Eloni e Mido, que estão na água.
O barco afasta-se. Baloiçados pelo turbilhão dos remoinhos, os rapazes disputam entre si a piroga virada, tentando alcançá-la com agilidade. Mido e Eloni estão desiludidos. Mas não passa de uma oportunidade perdida. Da próxima vez que o barco-mercado passar, subirão a bordo com Kembo. Dessa vez, é certo que vão conseguir.
Dominique Mwankumi
Les petits acrobates du fleuve
Paris, l’école des loisirs, 2000

Saturday, October 17, 2009

Sommario del Notiziario Strategico N°29 del Bollettino Aurora:

b2a.jpg (320×196)
Federazione Russa
- La Russia potrebbe rivedere la una nuova dottrina sull'uso delle armi nucleari
- La Russia invia più truppe in Kirghizistan
- La Russia lavora su un aereo spia `stealth'
- La Georgia si sta riarmando per preparare una nuova aggressione
- La Russia costruisce nuovi missili anti-'guerre stellari'
- La Russia rafforza il diritto di utilizzare militari all'estero
- Progettista di Sottomarini russo è certo che i missili Bulava avranno successo
- La Russia affronta il problema della produzione di missili
- I Sauditi guardando oltre agli elicotteri russi
- La Russia conferma trattative per la consegna di MiG-31 alla Siria
- La Russia consegna SAM alla Siria
- Russia e Bielorussia avviano l'esercitazione militare Zapad 2009
- Le forze missilistiche strategiche della Russia svolgono esercitazioni di guerra per l' 8-11 settembre
- Chavez annuncia l'acquisto di missili russi
- 3 Stati ex sovietici creano una reti di difesa aerea comune
- La Russia sta completando lo sviluppo del nuovo sistema di difesa aerea
- La Russia favorisce solo una difesa antimissile in comune
- La Russia dice che il nuovo piano missilistico Usa solleva nuovi interrogativi
- Troppo presto 'per concentrarsi sulle sanzioni all'Iran: afferma la Russia di Putin

Repubblica Popolare di Cina
- La Cina lancia una massiccia esercitazione militare
- La Cina esortagli Stati Uniti a por fine alla sorveglianza marittima militare
- La Cina presenta il nuovo ICBM DF-41
- Cina e Serbia rafforzano i legami
- La Cina sosterrà il programma spaziale per raggiungere l'occidente
- La potenza militare della Cina farà un 'salto di qualità'
- Il nuovo premier del Giappone propone la comunità asiatica alla Cina
- La Cina costruisce un satellite per il Laos
- Il PLA della Cina mostra il suo nuovo materiale nella parata nazionale
- Cina, Giappone, e Korea del Sud concorde per una più profonda cooperazione

Unione Indiana
- La Russia equipaggia quattro sottomarini indiani con nuovi missili da crociera
- Varato Caccia Stealth Indiano
- L'India testa il missile nucleare Prithvi-II
- L'India discute la revisione dei suoi caccia Su-30 con la Russia

Pakistan
- Gli Usa accusano il Pakistan di modificare illegalmente missili
- Il Pakistan in polemica con gli USA per i missili

Repubblica Islamica dell'Iran
- L'Iran cerca il divieto dell'ONU ad attacchi ai siti nucleari
- Iran-Venezuela stringono legami dagli obiettivi strategici
- L'Iran ha rallentato la produzione di uranio, secondo le Nazioni Unite
- Ahmadinejad dice che l'Iran pronto ad altre sanzioni
- L'Iran sviluppa un sistema anti-missile cruise
- Ahmadinejad esclude colloqui sugli innegabili diritti nucleari dell'Iran
- Chavez difende la cooperazione nucleare venezuelana con l'Iran
- La Russia accoglie le nuove proposte sul nucleare dell'Iran
- L'Iran sfida sul diritto al nucleare
- L'Iran non intende tollerare minacce durante i colloqui
- L'Iran lancia missili durante le esercitazioni
- Ahmadinejad respinge le contestazioni sul nuovo sito nucleare
- L'Iran promette di mantenere basso il livello di arricchimento nucleare
- L'Iran testa due missili a lungo raggio
- L'Iran migliora le versioni coi test missilistici controversi
- L'Iran propone l`acquisto di un terzo dell'uranio arricchito
- L'Iran farà `esplodere il cuore di Israele' se attaccato
- L'Iran arricchirà l'uranio ad alto grado, se i nuovi colloqui falliscono

Repubblica Democratica Popolare di Korea
- Un ufficiale della Korea del Nord, in una intervista, difende le armi nucleari
- La Corea del Nord mette in allerta le truppe per le esercitazioni
- La Corea del Nord ha detto di essere nella fase finale dell'arricchimento dell'uranio
- Le minacce degli Stati Uniti escludono la pace in Corea
- Wen incontra Kim nel tentativo di riavviare i negoziati nucleari con la Korea del Nord
- La Korea del Nord lancia cinque missili a corto raggio

LatinoAmerica
- Il Brasile favorevole allo sviluppo di armi nucleari
- La Bolivia acquista aeromobili cinesi
- Il Venezuela punta sui sistemi d'arma del Belarus

Saluti
Alessandro Lattanzio

Friday, October 16, 2009

Flor de Água


Havia outrora, na região vietnamita de Anam, um belo porto onde as embarcações vinham abrigar-se após as longas travessias do Mar da China.
Numa das ruelas do porto, situava-se a modesta loja de uma família de artesãos, na qual estes confeccionavam lampiões multicolores há já muitas gerações.
Nela viviam o jovem Oceano, a sua mulher, Reflexo da Lua, e a mãe desta, Dona Ameixa. Viviam os três em harmonia e apenas uma nuvem toldava o céu da sua felicidade.
Casados há bastante tempo, o jovem casal sonhava com um bebé de quem cuidar. E Dona Ameixa ansiava por conhecer as alegrias de ser avó. Porém, a criança tardava…
A afeição desta humilde gente recaía, então, num pássaro cor de fuligem, um animal quase mágico. Chamava-se Glu-Glu, porque imitava com perfeição o gorgolejar de Oceano quando este lavava os dentes.
Quando lhe apetecia, Glu-Glu falava. Ou seja, repetia palavras e ruídos que ouvia em seu redor. E diga-se de passagem que conhecia algumas palavras bastante desagradáveis: “Estúpida!”, “Palerma!”, “Gordo!” e “Cocó!”
Certa manhã, Reflexo de Lua pôs ao ombro uma canga carregada de lampiões que ia vender no mercado da aldeia vizinha. Glu-Glu, que gostava de passear, acompanhou-a, repetindo as suas palavras favoritas sempre que cruzava alguém na estrada. Todos se riam.
Durante a sua caminhada, Reflexo de Lua olhava as jovens mães com pena. À saída do porto, parou diante de um pequeno altar, dedicado a Quan Âm, a Deusa Celeste. Com pauzinhos de incenso entre as mãos unidas, murmurou esta oração: “Suplico-te, Deusa Celeste, concede-nos a alegria de acolher uma criança no nosso lar!” Enquanto murmurava estas palavras, o incenso ascendia ao céu em espirais perfumadas…
No mercado, havia muita gente. Os lampiões de Reflexo de Lua vendiam-se bem. Glu-Glu fazia o seu número e a bolsa da dona enchia-se depressa.
A dois passos de ali, dois malfeitores planeavam um golpe, sentados num banco da vendedeira de chá verde.
— Já viste a massa que ela juntou? E o que podemos ganhar com aquele pássaro esperto? — dizia um.
— Vamos preparar-lhe uma bela surpresa — sugeriu o outro.
Quando Reflexo de Lua empreendeu o caminho de regresso a casa, já a lua estendia o seu leque de lantejoulas sobre o mar.
— Vamos depressa! — disse a Glu-Glu, que repetiu “Vamos depressa, palerma!”
No meio do caminho deserto, duas sombras precipitaram-se sobre a mulher e atiraram-na ao chão. Um dos homens roubou-lhe a bolsa, enquanto o outro enfiava o pássaro num saco de juta. Uma voz metálica ergueu-se do fundo do saco bradando “Seu cocó!”
Os dois ladrões desapareceram na noite. Reflexo de Lua levantou-se e viu a gaiola vazia.
— Esperem! Levem ao menos a gaiola! O pássaro vai sentir-se mal dentro do saco!
Mas os bandidos fizeram ouvidos de mercador e mesmo a voz metálica de Glu-Glu deixou de ouvir-se.
A vida continuou o seu ritmo na loja. Oceano e Dona Ameixa ficaram felizes por ver que Reflexo de Lua não tinha sido ferida, mas a loja estava demasiado calma sem o incessante palrar de Glu-Glu…
Algumas semanas mais tarde, Oceano e Reflexo de Lua viajaram até à velha cidade imperial, Hué. Junto do Rio dos Perfumes, ficava o pagode da Deusa Celeste, que operava grandes milagres. Quem sabe se lhes concederia o desejo de um filho…
Enquanto isto, numa velha casa arruinada, no meio dos arrozais, os dois malfeitores estavam exasperados com o pássaro e gritavam insultos um ao outro, que Glu-Glu se encarregava de repetir, o que aumentava ainda mais a confusão.
 
Depois de uma viagem de vários dias, o jovem casal, envolto numa nuvem de incenso, pôde enfim suplicar:
— Deusa cheia de bondade, concede-nos a felicidade de acolher uma criança na nossa humilde casa.
E a Deusa pareceu sorrir para eles…
Deixaram o pagode, cheios da esperança que o sorriso da Deusa lhes transmitira. No caminho de regresso a casa, ouviram uma voz familiar que dizia:
— Cabeça de burro! Estúpido! Palerma! Gordo!
As exclamações vinham de dentro de uma loja de pássaros. Um velho barbudo gesticulava e ameaçava a ave:
— Ou te calas ou prego-te o bico!
O casal aproximou-se e Glu-Glu, cheio de alegria porque os reconhecera, saltou no poleiro.
Ao ver que o casal se interessava pelo pássaro, o velho exclamou:
— Como ele parece gostar de vós, levai-o convosco. É um favor que me fazeis…
O vendedor abriu a gaiola e deu o animal a Oceano. Tinha-o comprado a dois meliantes que tinham pressa em desembaraçar-se dele. Como os compreendia agora!
Os esposos agradeceram e libertaram Glu-Glu, que lhes fez uma festa.
Alguns meses após a peregrinação ao santuário, o ventre de Reflexo de Lua ficou redondinho como um lampião. O marido e a mãe cumularam-na de atenções. Até o pássaro se calava sempre que percebia que ela precisava de repousar.
Quando caiu a chuva das primeiras monções, nasceu uma menina na loja dos lampiões. A Dona Ameixa coube a honra de escolher um nome para a criança.
— Esta criança foi-nos dada pelo céu como se fosse uma flor das monções. Chamar-lhe-emos Flor de Água. Louvemos a Deusa Celeste pela sua infinita bondade!
— Flor de Água! Flor de Água! — repetiu Glu-Glu, encantado.
E desde esse dia que todos viveram felizes no meio dos lampiões e das lanternas.
 
 
Marcelino Truong
Fleur d’eau
Paris, Gautier-Languereau, 2003
(Tradução e adaptação)
 

Tuesday, October 13, 2009

O Príncipe e os seus ventríloquos


Já era de prever: José Eduardo dos Santos não iria aceitar aparecer como o mau da fita. Como aquele que contra a vontade nacional, impôs um modelo bizarramente atípico de legitimar a continuidade do seu poder vitalício. Afinal ele, falando sobretudo para o interior do seu grupo, já nos tinha intimidado a todos, quando disse, num contexto em que tinha que usar uma linguagem moderada e diplomática, que ele era o Presidente de um partido que goza de uma maioria (abusiva) e, por isso, não iria permitir que a sua vontade “atípica” não se tornasse lei.
Perante a reacção da opinião pública, a instabilidade nas suas hostes, lançou os seus ventríloquos para nos convencerem que essa sua anormalidade política é uma normalidade jurídico-doutrinária. Antes, chamou dois “evangelistas” para nos explicarem o “novo evangelho”, nem que para isso tivessem que dizer uma coisa e o seu contrário, tivessem que desdizer tudo o que tinham dito até então. Pouco importava para ele que estes “evangelistas”, para atingir o seu desiderato, tivessem que empenhar os seus créditos políticos, académicos e pessoais, degradando-se aos nossos olhos. A primeira acção era drenar a hemorragia provocada pelas suas declarações, par aque ele não aparecesse como o responsável da destabilização, da incerteza e do descrédito do processo constituinte que estava em curso. Não podendo reerguer a árvore, então que se escondesse o machado que a tinha derrubado e, sobretudo, a mão que tinha guiado a acção do machado. O mais importante é que a imposição do chefe aparecesse, no final, como a decisão de todos. Então, havia, primeiro, a necessidade de dizerem todos a mesma coisa. Começando por dizer que sempre estiveram de acordo com o que chefe, que já o tinham dito antes e que não havia falta de “sintonia” entre eles e a pretensão bizarra (= atípica) do chefe. Mas, acontece que alguns estavam de acordo com o que chefe tinha dito mas não sabiam bem o que ele tinha dito. Havia que dizer que todos já tinham discutido, antes, no interior do grupo mas não tinham escrito na sua proposta de Constituição porque queriam fazer prova de “evolução do pensamento”. Perante um tal estado de desarrumação, o chefe apercebeu-se que era preciso um maestro para os ensaiar, para que todos eles pudessem dizer, uns com maior acerto, outros com menos, a mesma coisa, mesmo porque a primeira tentativa pública de salvar a loiça partida pelo chefe tinha metido muita água.
Assistimos então a uma coisa fenomenal (=atípica) que foi a “escolarização” do bureau político de JES para que o seu “esperto” explicasse aos seus membros a posição do partido. Para que depois estes fossem, pelo país, num esforço coordenado centralmente, “explicar aos militantes do Mpla a posição do partido”. Para depois “o partido”, reunido em Congresso, sufragar a vontade bizarra (= atípica) do chefe como linha programática, em nome da “estabilidade política extraordinária” do país. No fim das contas, JES aparece não como o político que não consegue controlar a sua libido dominandi, tornando-se politicamente cada vez mais autista, mas como o “esforçado cidadão” que faz o favor à Nação de garantir a estabilidade ao país. Uma estabilidade que pelos vistos só pode ser garantida pela ditadura autocrática. E, portanto, como em todos os partidos autoritários, “os militantes”, não sendo eles próprios o “partido”, devem colocar-se ao serviço do partido do Chefe. E, por isto, não há nada de incoerente em tudo isto, pois a vontade do “partido” não é (nem pode ser) o resultado da vontade dos militantes. Ela é expressão do chefe iluminado e é transmitida de cima para baixo, no bom estilo corporativo.
É essa vontade do partido-chefe que tem que ser explicada “as tropas de choque”, pelos ventríloquos do chefe (e suas declinações instrumentais). O chefe não queria a eleição do Presidente da República por “sufrágio universal directo”, em eleição própria, a duas voltas, para que a escolha dos cidadãos seja a mais próxima possível da vontade dele, como prescreve a Constituição actual, como está no programa eleitoral de todas as formações políticas angolanas (incluindo o partido do chefe), como está na proposta de Constituição que o partido de poder apresentou à Comissão Constitucional e à opinião pública.
Depois, o chefe mudou de opinião, “evoluiu” no pensamento, a caminho do reforço da ditadura e, então, mandou construir uma “teoria” para legitimar todas estas suas pretensões. A vinda de Jacob Zuma precipitou as coisas e ele anunciou o “novo evangelho”, ainda com imprecisões, o que deu lugar a um apuramento em função da denúncia e da reacção da opinião pública.
Agora é  a vez dos ventríloquos do Príncipe explicarem, primeiro aos “militantes” e depois a toda a sociedade como o chefe quer ser visto na lei como chefe. Políticos, técnicos e técnicos-políticos todos se misturam para aparelhar o partido do chefe para defender a sua vontade e para que esta apareça como sendo a vontade de todos nós ou, pelo menos, da maioria, depois de um “amplo debate”. Mas, por um momento, as instituições públicas envolvidas no dito processo constituinte fazem um parêntese e ficam à espera que o chefe arrume a sua própria casa para depois então cumprirem o seu papel legitimador. A linguagem utilizada, e particularmente as inflexões operadas, apelam ao não dito, a uma língua subliminar que entende que a estabilidade do país (a dita “estabilidade politica extraordinária”) está, não no fortalecimento das suas intuições mas na continuidade do poder do Príncipe. 
Os meus leitores habituais hão de se lembrar do que escrevi nos meus textos, nomeadamente, “Viva la Muerte”, “O leão e as cabras” e “As glórias do general – já vi este filme”. Desenganem-se! Tudo segue uma linha coerente de perpetuação do poder autocrático.
Nelson Pestana (Bonavena)*
*Cientista político
AGORA

Friday, October 09, 2009

Amanha começa hoje...


O mês de setembro que findou foi marcado, no nosso país, por um debate muito animado. Ao centro deste debate, o modelo das eleiçôes presidenciais. Uma proposta do Presidente da república que surpreendeu toda a classe política, e apesar das justificaçôes e explicaçôes nâo fez consenso.As divergências sobre esta proposta sâo tanto profundas que qualquer acordo é praticamente impossível.
A oposiçâo e alguns membros do Mpla consideram inoportuna a proposta do camarada presidente e o « timing » utilizado, suspeito. O que de facto, contribuiu para instalar no país um clima de desconfiança.
E, pela primeira vez desde lustros, tem-se realmente a certeza de que o Presidente da república quer confiscar definitivamente o poder em favor do seu partido, e nâo só. Ameaçando, desta forma, o processo de democratizaçâo em curso no país e lançando sementes da discordia, motivador de conflitos.
Se o Mpla, partido maioritário na AN, já depositou o seu ante-projeto da Constituiçâo junto da comissâo constitucional , qual é a razâo que justifica a alteraçâo proposta pelo camarada presidente?Interesses materiais pessoais ou medo de perder o poder?
Segundo observadores da política angolana, a proposta do Presidente da república é produto de uma análise madura. Nâo é fruto de uma divagaçâo. É análise de um homem político com muita experiência que concluiu, após uma longa e profunda reflexâo, que os 81% obtidos pelo seu partido nas legislativas podem ser-lhe nocivos se aceitar organizar eleiçôes presidenciais com a Constituiçâo em vigor no país. Porque, qualquer seja o cenário, nâo poderá melhor fazer que o seu partido. A barra dos 81% foi colocada demasiado alto. O excesso de zelo da CNE foi, finalemente, um erro grave. Pois, com um candidato tímido de natureza, mau orador, muito afastado do povo, incapaz de galvanizar as massas populares e gozando de uma popularidade decadante, a aposta parece arriscada. Nâo é certo, apesar da dimensâo política do homem, que o camarada presidente possa obter, às eleiçôes presidenciais, se forem organizadas em qualquer altura, um resultado superior ao do Mpla. O que logicamente colocá-lo-ia numa posiçâo incômoda no seio do seu partido e fragilizá-lo-ia no exercício das suas funçôes de presidente do partido e de Presidente da república. Um cenário deste genero necessita naturalmente de uma soluçâo radical. Uma Constituiçâo à medida do inquilino do Palacio-Alto resolveria o problema. Uma constituiçâo que consagra a supressâo pura e simples das eleiçôes presidenciais em Angola. A missa é dita. Porque velar-se a face e procurar subterfúgios quando todos sabem que a campanha de justificaçâo orquestrada pelo Mpla é enganosa? Na realidade, o modelo proposto pelo camarada presidente marca o fim definitivo das eleiçôes presidenciais. A cabeça de lista do partido vencedor das eleiçôes legislativas é de facto o Presidente da república e Chefe de Estado. Desta forma, o partido e o presidente obtêm a mesma percentagem de sufrágio. A honra é salva. Adeus o sistema que consiste a pedir ao povo que escolha, em toda liberdade e consciência, entre varios candidatos, o que merece a sua confiança. Candidatos independentes às eleiçôes presidenciais em Angola, esta possibilidade é excluida do sistema. Que tipo de democracia quer o Mpla impor em Angola?
A reacçâo da oposiçâo e da sociedade civil à situaçâo criada voluntariamente pelo Presidente da república está à medida do acontecimento. Samakuva, Maluka, Sakala, Chivukuvuku da Unita,Marcolino Moco do Mpla, Kanguana do Prs, entre outros, condenaram com veemência a posiçâo partidária do Presidente da república neste assunto. Nem o Bornito de Sousa, nem o Feijó Araujo, dois eminentes juristas, conhecidos para a sua devoçâo indestrutível ao camarada presidente e nomeados para defender o indefensível, nâo convenceram a opiniâo pública. Nas massas populares, grande é a surpresa dos militantes de base do Mpla que escondem mal a sua admiraçâo. Alguém falou da sintonia?
O camarada presidente preocupado pelos estragos colaterais eventuais que podiam causar a sua proposta no seu partido, tentou, para minimizar o seu alcance, desviar, sem sucesso, a atençâo do público orientando o debate sobre a proliferaçâo das seitas religiosas no país. A maka das atípicas parece-me mais importante que qualquer outro debate.
A elaboraçâo de uma Constituiçâo é uma etapa importante na história de uma naçâo. De ela depende todo o futuro institucional do país. É por esta razâo que a oposiçâo, apesar das suas divergências, e a sociedade civil nâo podem cruzar os braços e esperar que o Mpla controla tudo. Um presidente da república em fim de carreira nâo suscita muita confiança. O Togo e o Gabâo sâo dois exemplos que devem chamar a atençao. O laxismo da oposiçâo fez eleger nestes paises « candidatos » indesejáveis impostos pelos regimes totalitários.
Em Angola, a história recente do nosso país nâo dispôe a arranjos de palácio do mesmo genero. Ninguém deseja reviver as atrocidades vividas durante 27 anos de guerra civil. Excepto se o egoísmo e o enriquecimento ilícito de uns, a miseria e a pobreza de outros, conduzem o povo, por razôes de sobrevivência, à extremidades deploráveis. Ninguém o deseja, mas é muito perigoso tentar o diabo. Salazar e os seus amigos tinham um comportamento similar ao dos actuaisdirigentes angolanos. No dia 4 de Fevereiro de 1960, o povo de Luanda decidiu pôr fim à sua hegemonia. É uma recordaçâo. Se a história repete-se e que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, a sabedoria recomenda moderaçâo nos actos.
O mundo nâo é mundo para ter sido feito por homens; nâo se tornou mundo porque a voz do homem ressoa nas suas entranhas mas apenas quando tornou-se um objeto de diálogo (H.Asendt). Angola deve tornar-se também um objeto de diálogo de modo que o seu futuro seja construido por todos. Nesta construçâo, a Constituiçâo é um elemento fundametal. Nâo pode ser assunto de um homem nem de um partido. É assunto de todos.
Da Constituiçâo dependerá a viabilidade das instituiçôes do país, o respeito dos mecanismos da democracia e dos cidadôes. Uma Constituiçâo nâo partidária é a garantia de um futuro institucional estável para o país. Amanha começa hoje dizem os sábios. O que se constroi hoje é para garantir um amanha estável. Alguém tem dùvidas?
A tempestade acalmou-se, me diz o meu kamba Kibuba a respeito desta maka das atípicas, mas o céu continua a bramir.
Um forte abraço.
Eduardo M.Scotty