Total Pageviews

There was an error in this gadget

Friday, November 27, 2009

Álcool só depois dos 18, mas…


A medida foi tomada, mas o cenário das conhecidas “Janelas Abertas” demonstra o contrário. Os menores são os principais clientes


O Governo Provincial de Luanda proibiu os estabelecimentos comerciais de venderem bebidas alcoólicas a menores de 18 anos de idade.
Mas os adolescentes com idades compreendidas entre os 14 e 17 anos são os principais clientes das casas de vendas de bebidas alcoólicas. O fenómeno mantém-se apesar de as autoridades provinciais terem implementado a lei que proíbe os menores de comercializarem e consumirem tais bebidas. Um grupo de nove alunos encontrados pela nossa reportagem, na manhã de Segundafeira, 23, na famosa janela aberta do bairro Popular, a maioria dos postos de venda de cerveja e vinho não está a respeitar a medida do GPL.
“As cantinas não estão a rejeitar os menores de idade, porque só querem dinheiro”, gabaram-se confiantes, porque acham-se os principais fregueses destes estabelecimentos, que existem em todos os municípios da cidade capital. Os rapazes contaram que frequentam regularmente a loja da Jú. Aparecem no local pelo menos três vezes por semana, para poderem garantir uma “rodadas”, como é conhecido o ciclo de compra de bebida que contempla todos elementos do grupo com a mesma quantidade do produto. Aos 17 anos de idade, Alex, morador do bairro Terra Nova, município do Rangel, está a frequentar a 10ª Classe.
Ele confessou que ingere bebidas alcoólicas há dois anos e seus pais só descobriram este ano, porque uma das suas namoradas resolveu informar-lhes.
O adolescente considera-se cliente habitual da janela aberta do Popular.

Não consegue ficar dois dias sem ingerir álcool, daí que subtrai até os tempos de aula para poder satisfazer o vício. Mais velho do grupo, Alex contou ainda que na última semana de aula, ele e os seus amigos decidiram passar todos os dias no botequim, para compensarem as faltas dos professores. “Estamos na última semana do ano lectivo e já não estamos a ter aulas, para não ficarmos só na escola resolvemos vir aqui todos os dias beber. Assim não voltamos muito tristes à casa”. O seu companheiro, Dilson, de 16 anos, morador do bairro Golfe 2, disse que gosta de consumir e pensa que a lei decretada pelo Governo Provincial de Luanda devia ser para impedir aqueles adolescentes que ainda não bebem.
“Acho que a ideia do Governo foi boa, mas penso que a nós que já bebemos deviam deixar, porque o tempo vai passar e vamos fazer 18 anos”, ironizou o garoto, realçando que ”o tempo que vamos fazer para deixar, é o mesmo para completarmos 18 anos”.
Dilson lembrou que começou a beber ao mesmo tempo que o seu amigo Alex, quando no final de 2006, ficou aprovado da 7ª para a 8ª Classe. Um resultado que pouco esperava. Os dois comemoraram a passagem de um modo diferente e a sugestão foi acrescentar algumas cervejas na dose normal. E foi desse jeito que começou a aventura no mundo da bebida.
«PROVA DOS NOVE»

O grupo dos petizes é conhecido como «Prova dos Nove» por ser composto por nove adolescentes, que granjearam uma fama no Popular, devido ao consumo de álcool. O mais novo tem apenas 14 anos de idade e bebe à mesma medida dos seus companheiros, a julgar pela constatação da nossa equipa de reportagem no local, onde registou que, em pouco menos de 20 minutos, já ia na quarta Nocal. “Isso ainda é pouco Kota”, reagiu à intervenção do nosso colega, que lhe perguntou se ia para a quinta.
O iniciado não aceitou ser entrevistado, mas deixou escapar que “comecei a beber aos 13 anos como o meu pai”.
Interrogados sobre os meios em como adquirem dinheiro para sustentar o vício, os Nove salientaram a O PAÍS que, apesar de não trabalharem, têm negócios que dão muito

dinheiro. Quem confirmou o poderio financeiro dos Nove é Judite Antónia da Cruz, Jú, a funcionária que atendia no dia da nossa reportagem. Judite certificou que os miúdos são clientes habituais da casa, desde 2007. Na altura, os dois mais novos ainda não bebiam. Questionada sobre a medida tomada pelo GPL, a senhora respondeu dizendo que só começou a ouvir sobre a lei há coisa de sete dias.
Por esta razão, ela não se considera uma cúmplice que alimenta o vício de bebidas a menores. Valendo-se da clientela que todos os dias o seu bar regista, Jú afirmou que o seu estabelecimento é o mais famoso do bairro Popular. Descartou mesmo a possibilidade de haver concorrência das outras janelas no seu bairro, porque no seu estabelecimento nunca falta produto. “Estamos próximo da loja que vende a grosso, por isso temos sempre bebida fresca, ainda que falte energia em Luanda durante um mês e os nossos clientes sabem disso”, assegurou. A taberna Jú é frequentada por muitos rapazes, mas a vendedora confessou que tem sido difícil detectar a idade dos adolescentes entre os 15 e 17 anos, devido à corpulência que eles apresentam. Eles chateiam-se quando lhes é dito que não podem ser atendidos. “Há vezes que somos ofendidas por mantermos essa postura disciplinar”, contou a senhora, frisando que os meninos arranjam outras manobras para poderem obter as bebidas.

Os riscos são graves
A psicóloga clínica Susana Manfuta considera que uma criança que faz uso de bebidas alcoólicas está sujeita a riscos graves, ao nível da saúde física e mental, porque ela está em fase de crescimento. “Numa fase de crescimento, a bebida impede o desenvolvimento normal de uma criança, porque afecta o processo cognitivo do indivíduo”, salientou a psicóloga, tendo explicado que, nessas condições, “a maturação não é devida, porque a bebida chega a ser uma droga que afecta o cérebro e o fígado”.  Segundo a especialista, o adolescente que ingere álcool pode não atingir a inteligência média, porque durante o crescimento o seu coeficiente de inteligência (QI) se revela bastante deturpado.
Isso se explica pelo facto de o consumidor estar sujeito a um tipo de comportamento que se revela por atitudes agressivas, para além de acusar uma memória deficiente.
Maria Manfuta salientou que uma criança que bebe não consegue concentrar-se na aula e está quase sempre sem disposição para fazer as tarefas da escola. “Nessas circunstâncias o sono e a preguiça tomam conta da criança, ao ponto de influenciar nela uma descoordenação nos movimentos do corpo”, exemplificou.
A psicóloga recomenda os encarregados de educação a prestarem mais atenção aos seus educandos nessa fase em que eles sofrem de grandes transformações psico-somáticas e lutam pelas suas ambições e afirmação social.
Quanto à recente lei implementada pelo GPL, a docente universitária ressaltou que o governo tornou pública uma lei que se acha com fins repreensivos, quando o importante era ver primeiro o problema do ponto de vista biológico, psicológico e social.

MANOBRA NO CASSENDA
Conscientes de que não devem fazer uso do álcool, os adolescentes usam várias artimanhas para conseguirem a bebida. Ana Silva, uma das atendedoras da “Janela aberta” do Cassenda, sita nas imediações da Administração Municipal, lamentou o facto de serem os próprios adultos a facilitarem a compra de bebida para os menores.
“É triste saber que os próprios mais velhos é que vêm comprar cerveja para as crianças, porque eles pagam uma Cuca por cada cinco que recomendam ao adulto”, assegurou Ana Silva. A gerente aponta os alunos dos colégios da cercania como sendo os que mais se envolvem nessas manobras. Como a Jú do bairro Popular, Ana disse também que tem sido difícil descobrir a idade verdadeira dos rapazes.
Segundo ela, há crianças de 16 anos que aparentam ter 20 ou mais anos de idade. Recentemente, Ana contou que duvidou da idade de um jovem, que logo a seguir lhe exibiu o Bilhete de Identidade, onde se lia nascido no ano 1989. “Ele era muito pequeno e havia outros mais altos do que ele, que, se calhar, deviam ser mais novos”, comparou a jovem, prognosticando a difícil tarefa que lhes impõe o decreto do GPL. A mais conhecida e frequentada Janela Aberta do Cassenda tem uma carteira de clientes que integra funcionários do aeroporto, ardinas, militares e kínguilas. Mas, nos últimos dias, estão a ser superados por pedreiros e alunos. O PAÍS visitou também duas “janelas abertas”, uma no município do Rangel e outra na Samba. A primeira situa-se na rua do Lar da Terceira Idade, vulgo Beiral, enquanto a segunda se localiza na avenida 21 de Janeiro, defronte à Shoprite, no bairro Morro Bento ou Morrão, como também é conhecido.
Nos dois postos de vendas encontramos algumas crianças que dividiam a sua atenção, ora para a cerveja, ora para o churrasco. “Não vale a pena implementar lei, se o pai vai continuar a mandar o filho tirar a cerveja da geleira para com ele beber”, começou por dizer José Bernardo, licenciado em Educação Moral e Cívica, pelo Instituto Superior João Paulo II. O especialista queixou-se que se debatem com certas situações em que mandam chamar os pais para intervirem e colaborarem com a escola contra atitudes negativas dos seus filhos.
“O nosso espanto é que, às vezes, os encarregados encaram o problema como algo normal”, lamentou José Bernardo. Ele acha que a medida devia ter mais peso se se pusesse em conta o factor consciência. Por causa disso, defende que devia haver um trabalho de consciencialização na família e nas escolas. Ainda assim admitiu que a medida do governo é boa, embora sublinhe que a lei exista há muito tempo.
O professor de Educação Moral e Cívica adverte que o cumprimento dessa lei por parte dos petizes ainda vai durar tempo. “Porque quando se trata de mudar a consciência, o estilo ou forma de pensar, bem como hábitos e costumes, isso leva tempo”, acredita o nosso interlocutor. Para sustentar o seu argumento, José Bernardo considerou o facto de os rapazes não terem adquirido esses vícios de forma repentina. Outra preocupação levantada pelo docente tem a ver com o facto de a implementação ter surgido no fim do ano lectivo. Para ele, era bom que a implementação acontecesse no primeiro ou no segundo trimestre, porque assim responsabilizava mais os professores da cadeira de moral a precaverem os alunos no sentido de evitarem tais práticas.
ESCOLAS CONVIVEM COM O FENÓMENO
Viegas Silveira, subdirector pedagógico da escola São José nº 1030, na Samba, defende que se proíba também a venda de bebidas alcoólicas nas lojas que ficam próximo das escolas, para que as crianças não experimentem situações tentadoras e se deixem levar pelas emoções do momento.
“Muitas vezes, a criança não pensa em beber ou fumar, mas se o momento lhe apresentar um desafio, como conquistar uma colega, ela vai-se embebedar ou fumar para ter coragem para tal”, defendeu o subdirector, que sugere o fim das lojas ilegais próximas das escolas.
Para ele, são estas cantinas que não obedecem os decretos, visto que não estão comprometidas com o Governo. Viegas Silveira disse que a escola ainda convive com o fenómeno do uso de bebida alcoólicas por parte dos alunos e a sua instituição de ensino não é uma excepção. Quando detecta casos do género convoca os pais com quem a escola se compromete a combater o mal.
Os alunos do S. José Aguinaldo da Cunha e Jepa Vanda, respectivamente da 7ª e 9ª Classes contaram a O PAÍS que é quase constante a vinda de alunos de 14, 15 e 16 anos em estado de embriaguês. Aguinaldo e Vanda alegaram também que os outros alunos acabam por sofrer as consequências dos actos dos colegas, quando os professores os descobrem. “Normalmente, ficamos sem aulas ou sofremos outras retaliações colectivas”, queixaram-se os meninos, sugerindo a suspensão ou expulsão dos “Amigos da cerveja”.

Mães choram pelos filhos


À semelhança de muitos encarregados, Edna Teixeira e dona Lina, moradoras do bairro da Gamek à direita, na Samba, mostram-se preocupadas com o novo estilo de vida que os seus filhos adoptaram. Edna Teixeira é mãe de João, e declarou que ficou muito constrangida quando ouviu que o seu filho estava a fazer uso de bebida alcoólica. “Fiquei muito triste e admirada, quando as vizinhas me disseram que ele começou a beber, porque aqui em casa ele é um rapaz bem comportado”, contou a mãe, acrescentando que nunca tiveram qualquer sinal que indicasse desobediência ou atitudes negativas da parte do garoto.
A mãe de João anunciou que todos os sinais que agora vêm da rua justificam que o filho está pouco preocupado com os estudos. Edna não acredita que só as influências levaram o seu filho a mudar de comportamento, porque, segundo ela, a pessoa não faz o que não quer fazer. “Mas eu gostaria de ter a colaboração dos vizinhos e amigos, no sentido de nos informarem sobre as coisas que o meu filho faz na rua, a fim de não enfrentarmos no futuro situações piores”, suplicou Edna.
O filho, por seu lado, disse apenas a O PAÍS que nem se recorda como começou a beber. O jovem promete deixar o vício da bebida, para não ver os seus sonhos atrapalhados. João começou a cantar no ano passado e pensa prosseguir com a carreira. “Já tenho 10 músicas com um amigo e descobrimos que o vício da bebida vai-nos roubar o mesmo tempo que precisamos dedicar ao novo talento”, reconheceu o jovem.
Às portas dos 18 anos, João está a repetir a 8ª Classe e propõem-se a não reprovar mais, devido à idade. Como João, Jovani, 16 anos, confessou estar a consumir bebidas alcoólicas, tendo recordado como adquiriu o vício. “Isso começou no ano passado, quando nos encontrávamos numa festa onde a gasosa acabou e só havia cerveja. Nem sequer havia água mineral no banquete”, lembrou. E Jovani continuou: “não tivemos outra escolha, senão pegar nas cervejas e começar a beber, como faziam outras crianças da nossa idade”. O adolescente contou que no dia seguinte, despertou com a garganta muito seca e o corpo enfraquecido. “Experimentei comer e beber gasosa que tinha em casa, mas o meu corpo reagiu mal. Só encontrei tranquilidade quando ingeri uma cerveja ”, disse Jovani. A partir daí, começou um vício que hoje admite ser difícil deixar.
Mesmo assim, o rapaz confessou que quer deixar o hábito de beber. Para tal, quer que as pessoas entendam que não é possível deixar a bebida de repente.
“Todo mundo sabe que esse vício não se adquire só num dia, mas todos querem que a pessoa deixe já hoje. Já comecei a fazer exercícios físicos e até já retomei a igreja universal”, disse o miúdo. Sua mãe, Dona Lina, demorou quatro minutos para começar a falar sobre o seu filho.
Quase chorava, mas ganhou força para dizer que receia um dia ver o seu filho a se envolver em crimes que considera maiores, como violações, roubos e tentativas de homicídios. “Não gostaria de ver o meu filho na cadeia ou morto porque violou, roubou ou matou. Por isso, peço a todos aqueles que nos querem ajudar, para fazerem qualquer coisa para ajudá-lo a sair dessa vida”, desabafou Dona Lina. A progenitora confessou ter negado o patrocínio do curso de petróleos que o seu filho lhes pedira, em 2008. Por isso, desconfiam que o rapaz tenha adoptado esse tipo de atitude para se vingar dos pais. Dona Lina foi mais longe, dizendo que teme ver o seu filho a sofrer de uma doença infectocontagiosa como a tuberculose, devido ao consumo regular do álcool.
Alberto Bambi

No comments: