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Friday, January 01, 2010

A história da Baixa de Kassanje


O trabalho forçado também era abominado pela população local


A incursão aos meandros do município do Quela, referenciado como o berço da revolta da Baixa de Kassanje, trouxe a lume revelações que contrariam, de certa forma, as informações correntes sobre o massacre ali ocorrido em Janeiro de 1961.
Contam os mais velhos e sobreviventes à chacina, que tudo começou às primeiras horas da manhã de quatro de Janeiro, 5, 6 horas, quando camponeses se rebelaram contra o esquema de escravidão implantado pela Cotonang, um consórcio luso-belga da área do algodão, na província de Malanje que ocupava uma vasta zona de cultivo.
Os soldados que dispararam as balas mortíferas naquela manhã tinham acampado desde as 17 horas do dia 3 de Janeiro, num domingo, na sede municipal do Quela e saíram de lá às primeiras horas de 4 de Janeiro.
As fontes do jornal não se lembram do número exacto de militares do exército colonial português, mas se recordam que eram 35 as viaturas que transportaram os soldados mobilizados para a operação, quando encontraram uma barreira em Khuia Makudi, próximo de uma aldeia, cujo soba se chamava Teca dya Kinda.
Segundo o regedor do Quela, Lucas Sokola, de 88 anos de idade, na manhã em que os soldados sairam da sede do Quela tinham como destino o município de Kunda dya Base de onde chegaram, às autoridades coloniais, informações da ocorrência de uma rebelião dos camponeses locais que se recusavam a obedecer a autoridade colonial, vigente em Angola.
O esquema de exploração, um dos leitmotiv do episódio, incluía até a entrega de animais exóticos da fauna angolana como papagaios, jacarés, veados, macacos, corças, jibóias e peixes dos rios, na sequência de qualquer incumprimento de uma demanda colonial.Qualquer falta levava o prevaricador a apanhar entre cem e cento e vinte palmatórias nas mãos.
“Quando eles chegaram, encontraram a população agrupada aqui no Teca dya Kinda sentada na estrada para impedir que os carros passassem.
A população tinha flechas e canhangulos, mas estes não estavam carregados”, disse Lucas Sokola.
O trabalho forçado também era abominado pela população local que não encontrou outra via senão afrontar o poder explorador colonial, personificado na exploração dos camponeses que trabalhavam na cultura do algodão.
“Eles disseram, quando chegaram, que não queriam nada connosco, mas sim com os do Kunda, mas nós dissemos que tanto eles, os do Kunda, como nós éramos iguais, éramos angolanos e o que eles, queriam tratar com os do Kunda, podiam tratar connosco”, revelou Sokola.
Depois de o comandante das tropas ter travado uma discussão inconclusiva a contento com os revoltados, ordenou a abertura de fogo na área onde hoje foi construído o monumento em homenagem às vítimas da repressão colonial.

TIROS DE ÁGUA
Na discussão havida entre os militares portugueses e os sublevados, estes ainda disseram que das armas dos agressores sairiam água e não balas.
Na verdade, os camponeses haveriam de ser assassinados sem apelo nem agravo e com histórias por contar.
As razões do episódio não são bem claras, mas há a reter dos depoimentos dos mais velhos que a situação vivida no então Congo Leopoldville, marcada pela independència deste pais, activou o sentimento de revolta contra os colonalistas portugueses.
Viajantes que cruzavam a fronteira traziam novidades sobre a situação no Congo.
“Quando o povo do Quela se preparava para a revolta, houve um homem chamado Vuvu que veio na direcção de Kunda dya Base a instigar os angolanos a não obedecerem os portugueses, porque o Congo já estava livre e nós angolanos tinhamos de tomar idêntica atitude”, sublinhou um dos sobreviventes.
Juntamente com o nome de Vuvu eram referenciados os de Lumumba, Kasavubu e Maria, figuras não conhecidas fisicamente pelas fontes de O PAÍS como sendo os libertadores das terras angolanas do jugo colonial português. Este terá sido o lado político da revolta dos camponeses do algodão cujo epicentro esteve no município de Kunda dya Base.
Depois do episódio do que hoje viria a ser conhecido como o início do massacre da Baixa de Kassanje, a onda de violência espalhou-se por toda a área de cultivo de algodão controlada pela Cotonang.
As vítimas Dados sobre a chacina indicam que terão sido sepultados no local do massacre perto de cinco mil pessoas, segundo informações fornecidas no local por responsáves da administração actual do município do Quela, mas existem dados que apontam para para outros números.
Informações sobre uma monografia a ser elaborada pela administração municipal local indicam que terão sido mortos em Teka dya Kinda 680 pessoas, dado atestado por um antigo funcionário da administração colonial do concelho do Quela.
Este mesmo documento a que O PAÍS teve acesso revela que a data provável do massacre terá sido o 6 de Janeiro, uma segunda-feira.
Bernardo Famorosa, um dos sobreviventes daquela manhã, ainda traz as marcas das balas disparadas contra si e conta como foram os momentos seguintes aos disparos.
“Depois de terem disparado, eles perguntaram quem estava vivo e pediram para se levantarem. Depois disso deram pão, cigarros e outros meios que eles traziam e levaram os feridos para o hospital do Quela onde foram tratados”, disse Bernardo Famorosa.
Também conta que as vítimas mortais foram enterradas no local com ajuda da população que lá acorreu depois do incidente. A escalada de violência estendeu-se a todas as áreas de cultivo com a caça às bruxas também.
As fontes disseram ter visto um avião a sobrevoar a região sem, no entanto, ter lançado qualquer engenho explosivo.
“O avião sobrevoou aqui e desapareceu sem disparar ou descarregar uma única bomba aqui no Quela”, disseram as fontes que admitiram no entanto a possibilidade de a violência ter recrudescido noutras áreas da Baixa de Kassanje.


Disparidades
O novo elemento introduzido pela administração local que avança o 6 de Janeiro como o da ocorrência do massacre, traz consigo também a polémica em relação à precisão se teria sido numa segunda feira.
De acordo com um calendário perpétuo, o 4 de Janeiro foi numa quarta-feira e a agora também avançada hipótese de 6 de Janeiro foi numa sexta-feira.

Desencontro com a História O primeiro presidente de Angola, António Agostinho Neto visitou o local, a 20 de Agosto de 1979, onde foi erigido um monumento em homenagem às vítimas da Baixa de Kassanje, descerrando uma placa onde se podia ler “Honremos os heróis da Baixa de Kassanje” e, ao lado, deveria ser construída uma aldeia piloto que não passou do papel, pois os materiais de construção foram usados para benefício das entidades que superintendiam na província o Ministério da Construção e Habitação.

Na área cercada existem cinco montes de terra que simbolizam cada um mil pessoas, presssupondo que ali estejam enterradas 5 mil pessoas.
O reconhecimento, de facto, da data que já fora feito por Agostinho Neto, só teve lugar depois que a FNLA se bateu por ela no primeiro parlamento, embora as pessoas contactadas por este jornal não pudessem falar da direcção política da revolta por parte desta partido político.

Eugénio Mateus

Governo português não quer indemnizar sobreviventes da Baixa de Kassanje

A União Europeia alega que o massacre aconteceu antes da sua fundação. Por isso, não pode intervir no assunto


O Governo português recusa-se indemnizar os familiares e sobreviventes do massacre da Baixa de Kassanje, perpetrado contra camponeses nesta região, há 48 anos, após uma petição feita pela Associação de Apoio para o Desenvolvimento da Baixa de Kassanje (AADBK), ao primeiroministro José Sócrates, aquando da sua visita oficial a Angola em Janeiro de 2009.
O facto foi anunciando ao jornal O PAÍS pelo presidente desta associação, José Fufuta, por ocasião de mais um aniversário do massacre da Baixa de Kassanje que se assinala a 4 de Janeiro.
José Fufuta revelou que a resposta veio da União Europeia (EU), a quem a agremiação recorreu depois de um silêncio sepulcral das autoridades portuguesas, a quem foi remetido o pedido, por Portugal fazer parte desta instituição.
Segundo o presidente da AADBK, a União Europeia que é presidida por Durão Barros alega que a indemnização não pode ser feita porque quando ocorreu a carnificina contra os camponeses indefesos que reivindicavam os seus direitos ainda não existia este organismo, que reúne 27 Estados. Por esta razão, não há qualquer intervenção da União Europeia para uma abordagem do assunto.
“Esta foi a resposta lacónica que recebemos das autoridades da União Europeia, em resposta a carta que a gente enviou àquele organismo, já que o silêncio do Governo português estava a nos preocupar” afirmou José Fufuta, reforçando que a sua associação “não vai cruzar os braços sem que se encontre uma solução plausível que possa ajudar a superar mágoas daqueles que continuam a viver as agruras daquele fatídico dia”.
A sua cruzada para encontrar uma resolução com o Governo português a favor dos desfavorecidos da Baixa de Kassanje contará com a contribuição das autoridades angolanas e de outros parceiros sociais, a quem a AADBK tem estado a solicitar apoio.
“ Não vamos parar, a nossa caminhada tem de continuar até encontrar uma solução”, disse o presidente da AADBK.
Fufuta, que dirige uma das muitas associações que zelam pelos interesses da BK, defende que Portugal tem a obrigação moral de ressarcir, com ou sem vontade, os familiares e os poucos sobreviventes que escaparam do bombardeamento aéreo, que por essa altura poderia ser considerada também de crime de guerra e contra a humanidade, justificado pela forma cruel com que foram assassinados centenas e centenas de camponeses.
Ele sublinhou que o Governo português não pode olhar de ânimo leve o que a sua tropa fez contra aquele humilde povo, que por reivindicar os seus direitos teve a pior sanção contra um ser humano, ao sentenciá-los de morte por defender uma causa justa que é consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

INDIGÊNCIA DOMINA ENTRE A POPULAÇÃO
A BK engloba 11 municípios de dois territórios: Malanje e da Lunda Norte. Seis situados na terra da “Palanca Negra”, designadamente; Quela, Kunda dya-Base, Marimba, Cahombo, Massango e Kiwaba Nzogi, e os restantes na região da LN, destacando-se o Cuango, Kapenda Kamulemba, Caungula, Lubalo e Xá-Muteba.
“Xá-Muteba é uma região onde tudo falta e a sua população vive numa autêntica miséria”, informou o presidente da AADBK.
Para sustentar a sua tese, Fufuta disse que as dificuldades começam nas vias de comunicação que dão acesso à região, porque as estradas que ainda resistem às intempéries do tempo estão totalmente esburacadas. “ Aí falta quase tudo. O maior problema está nas vias de acesso que inviabilizam o progresso da região”, apontou.
Para contornar a situação, o primeiro passo passa necessariamente pela reabilitação das rodovias, permitindo atingir a região sem muitos percalços como tem sido até agora.
“Tem de se começar por aí, se não a situação vai prevalecer como está”, frisou o nosso interlocutor, para quem a iniciativa tem que ser do Governo, porquanto as associações que se identificam pela causa da Baixa de Kassanje estão desprovidos de recursos para materializar um projecto desta dimensão.
Para lá das vias, há também há falta de centros de saúde, escolas, comércio e outros meios indispensáveis para a vida humana.
No que se refere à saúde, segundo depoimentos de José Fufuta, a população trata-se à base da medicina tradicional, recorrendo a ervas, raízes e tubérculos, porque a preventiva não existe, daí o surgimento de muitas doenças que deveriam ser evitadas ou combatidas. Para minimizar a situação, a AADBK vai instalar 30 latrinas nas comunidades
ireneu Mujoco

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