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Saturday, January 16, 2010

O fim dos mercenários na rota da Damba


Angola foi o primeiro Estado soberano do mundo a julgar e condenar, com pesadas penas, as actividades mercenárias. Capturados em Fevereiro de 1976, entre a Damba e Maquela do Zombo, na província do Uíje, os “soldados da fortuna”, como também são conhecidos, foram julgados em Julho de 1976 e condenados, em Luanda, pelo então Tribunal Popular Revolucionário.
Entre os condenados, destaca-se o tristemente célebre cidadão grego-britânico Costas Georgio (Capitão Calan), Barcker, Meckenzie, Grillo, Mendonza e Arturo Ortega. Às portas do 34º aniversário da captura e julgamento em Angola dos primeiros “soldados da fortuna”, Jornal de Angola traz à estampa a conversa com um dos participantes directos nos combates que culminaram com a captura do capitão Calan.
Aos 61 anos, Garcia Monteiro Camacho (na foto), ex-oficial das FAPLA, tem bem presente na memória os momentos trágicos por que passou antes da captura, a 9 de Fevereiro de 1976, do grupo de mercenários que no Norte do país, coligado às forças zairenses, procurava criar uma zona tampão entre o desvio do Kusso Pete e Soba Nanga para travar o avanço das forças governamentais durante a segunda guerra de libertação nacional.
Comandante do 4º Batalhão das FAPLA, assessorado pelo comandante Veiga Bayer, de nacionalidade cubana, Garcia Camacho recorda que Calan era extremamente violento e um frio assassino.
“Para ele, a vida humana não tinha qualquer importância”, disse, contando o trágico episódio de uma jovem paralítica, morta friamente por Calan com um tiro de pistola na cabeça, por se ter recusado a dar informações sobre a presença de tropas governamentais, junto da sua aldeia, em Soba Nanga.
O antigo comandante das FAPLA conta que as forças governamentais tomaram conhecimento da presença de Calan e companheiros na região, às 17 horas do dia 9 de Fevereiro de 1976, através de um grupo de mulheres.
“Nós libertámos a Damba das forças inimigas no dia 8 de Fevereiro e no dia seguinte, quando avançávamos para Quibocolo (Maquela do Zombo), fomos alertados por um grupo de mulheres que voltava para casa, para a presença entre Kusso Pete e Soba Nanga de soldados brancos, que falavam uma língua estrangeira e que estavam a matar civis e as tropas da FNLA que se recusavam combater”, disse.
Diante dessa informação, um grupo de infantaria foi enviado para actuar a partir da retaguarda das linhas de defesa do inimigo, enquanto os mercenários avançavam com a ilusão de que as tropas governamentais eram apenas aquelas que tinham sido divisadas na sua frente de ataque. “Porque era mês de Fevereiro, com o capim bastante alto e chovia torrencialmente, a nossa penetração em dois flancos na retaguarda do inimigo foi bem sucedida”, recorda o velho comandante das FAPLA.
Meia hora depois, o comando do batalhão dá ordens para o início do ataque. As forças comandadas por Calan, atentas às forças na sua frente de ataque, foram surpreendidas com o fogo cruzado de artilharia e de infantaria dos dois lados de ataque das forças governamentais.
Ante o forte poder de fogo das forças governamentais, quando eram 18H30, Calan e companheiros não tiveram outra alternativa senão recuar. “Quando eles procuravam recuar, num Land Rover descapotável de caixa comprida munido de uma Breda com potentes holofotes, nós começámos a atirar com canhões de 75 mm e 76 mm, descomandando o inimigo, que depois foi completamente desarticulado pelas nossas tropas que se tinham colocado na retaguarda das suas linhas de defesa”, disse.
Como resultado deste ataque, disse Garcia Camacho, vários soldados inimigos são aniquilados, Georges Calan é atingido na rótula e o Land Rover destruído. Eram então 19 horas e continuava a chover torrencialmente. Mas, Calan, mesmo ferido, conseguiu fugir.
“Porque chovia torrencialmente, decidimos passar ali a noite e no dia seguinte, às seis da manhã, averiguar os resultados do combate e depois prosseguir a marcha”, disse Garcia Camacho.
O dia seguinte
Garcia Camacho conta que no dia seguinte, 10 de Fevereiro de 1976, às seis da manhã, quando percorriam o teatro dos combates, um soldado cubano alertou que estava a alguns metros sentado um homem. Era Calan ferido, que sem contemplações atirou a matar. Um outro soldado cubano que quis averiguar o que se estava a passar, também teve o mesmo destino trágico. E não foi desta, segundo o ex-oficial das FAPLA, que Calan foi apanhado. Com o capim alto, conseguiu afastar-se do local e foi esconder-se em casa de uma camponesa chamada Isabel numa aldeia próxima de Quibocolo (Maquela do Zombo). Isabel estava grávida e o seu depoimento em Tribunal foi impressionante.
O ex-oficial das FAPLA conta que as forças governamentais, no avanço para Quibocolo, ainda foram emboscadas por mercenárias no desvio entre Kusse Pete e Quibocolo.
“Desmantelamos o inimigo e quando entrámos em Quibocolo deparámo-nos com um quadro horripilante. Não quero, 34 anos depois, ressuscitar velhos fantasmas, mas é nosso dever contar a verdade dos factos para que a História possa registar. Como dizia, encontrámos em Quibocolo dezenas de mortos completamente dilacerados, entre mulheres, crianças e velhos. Alguns estavam pendurados em árvores. Era um quadro dantesco”, rememora Garcia Camacho com o cenho franzido.
Esse quadro horripilante, segundo o velho comandante, era o resultado da vingança das forças mercenárias em fuga para o então Zaire de Mobutu. Garcia Camacho conta que quatro dos mercenários julgados depois em Luanda foram feitos prisioneiros pelas populações de Quibocolo, tendo o seu batalhão feito prisioneiros outros dois, entre os quais Gregório, que era o adjunto de Calan.
“Nessa altura, Georges Calan ainda estava escondido em casa de dona Isabel, de quem até abusou sexualmente”, disse Garcia Camacho, acrescentando que foi essa camponesa que o denunciou às forças governamentais, que de seguida o aprisionaram. Pálido, Calan foi feito prisioneiro a 13 de Fevereiro de 1976 sem resistência. Camacho diz que o hoje tenente-general Guerra Pires “Guerrito”, por si enquadrado nas então FAPLA, acompanhou todas essas acções militares.
Garcia Camacho conta que teve o primeiro contacto com as forças da guerrilha em 1970, quando cumpria serviço militar no exército português em Cabinda. Diz ter contribuído, juntamente com o então alferes Saturnino, hoje general das FAA, na fuga de 15 soldados que desertaram do exército português em Cabinda, para se enquadrar na guerrilha do MPLA em Brazzaville.
“Este facto foi divulgado pelo programa de rádio Angola Combatente a partir de Brazzaville e o nosso ponto de contacto na capital do Congo era o falecido comandante de coluna Bernardo Sukahata, correligionário do Comandante Hoji ya Henda”, disse.
Garcia Camacho defende a divulgação destes e de outros factos que marcaram a História recente de Angola, enquanto muita gente que sabe dessas coisas ainda está viva.

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