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Sunday, April 04, 2010

Versão da UNITA Sobre a Batalha de Cuito Cuanavale


A chamada batalha do Cuito Cuanavale adoptou este nome, embora os combates tenham todos tido lugar nas margens dos rios Lomba (por onde desceu a 47ª brigada das FAPLA), do rio Kuzumbia (onde se encontrava a 59ª brigada, do rio Chambinga e Cuzizi. No Cuito Cuanavale propriamente dito não teve lugar qualquer batalha.
A iniciativa desta ofensiva, foi das FAPLA, apoiadas pelas tropas cubanas e conselheiros russos, tendo como objectivo a tomada de Mavinga e posteriormente da Jamba.
Todos os anos no tempo seco, tinha lugar uma ofensiva, que decorria entre os meses de Abril e Outubro. Era habitualmente aguardada, sendo sempre previamente acompanhados os preparativos pelos SIM e analisados os diversos cenários no COPE (Comando Operacional Estratégico). Naquele ano de 1987, a ofensiva retardou, tendo tido início já em tempo de chuvas, em finais de Setembro.
Unidades das ex-FAPLA envolvidas: a 16ª, 25ª, 13ª, 66ª, 47ª, 59ª, 21ª brigadas, mais o envolvimento de cubanos entre - tanquistas - artilheiros e pilotos de aviação. Assinale-se também a presença de conselheiros russos. O Comandante da 6ª Região Militar, era o General Mateus Ângelo "Vietnam".
Unidades das ex-FALA envolvidas: 3º, 4º, 5º, 6º e 7º batalhões regulares, mais os batalhões 49º e 275º. Estes incluíam tropas de infantaria, comandos, artilharia sob o comando do General Canjundo e de defesa anti-aérea equipados também com os célebres Stinger's, de elevada eficácia. No comando do teatro: os Generais Demóstenes Chilingutila e Arlindo Chenda "Ben Ben", sendo o chefe do COPE o Gen Mateus Renato, Altino Sapapalo, Black Power e entre os comandantes dos batalhões os Generais Tarzan, Wenda, Katokesa, Kimba, Kibidi, Kakande, Sequeira e Sete, sendo o Comissário Político da frente, o Gen Antero Katchimbombo.
Efectivos sul-africanos: uma companhia de cavalaria, uma de artilharia terrestre e aviação. Eixos principais: os combates mais intensos desenrolaram-se entre os rios Chambinga e Cuzumbia. Cuzumbia - Cuzizi; Cuzumbia - Lagoa de Câpua e Cuzumbia - Lomba.
Em termos de artilharia, os tanques russos e os BM 21 eram muito inferiores em alcance e precisão aos canhões G5 e G6, estes capazes de fazer bombardeamentos de precisão até 50 Kms de distância, infligindo pesadas perdas às FAPLA e aos cubanos. A aviação angolano-cubana era tecnicamente mais sofisticada com Mig 23 e Sukoy 22, do que os Mirage Sul Africanos, mas em contrapartida, a utilização dos Stinger's por parte da UNITA permitiu o derrube de inúmeros aviões e helicópteros. Um dos pilotos FAPLA mais conceituados, o Capitão Penelas, foi abatido por um míssil stinger, provocando fortes danos psicológicos nos pilotos, reduzindo a sua operacionalidade.mapa10
A partir da margem direita do rio Lomba, foi destruída a 47ª brigada de desembarque e assalto das FAPLA, seguindo-se assim as 16ª e 59ª brigadas, que tentam recuar em direcção ao Cuito Cuanavale, precisamente até ao Bairro Samaria, na margem esquerda do Cuito. O que restou destas brigadas manteve-se durante um longo período sitiada nesta localidade, sob intenso fogo de artilharia, tendo também as tropas cubanas recuado os seus efectivos para o interior do Cuito Cuanavale, onde se encontrava localizado o comando das suas tropas.
Perante este quadro, constata-se o envolvimento da 50ª brigada das tropas cubanas, consideradas tropas de elite, na tentativa de evitar o pior. Seguiram-se três meses de refrescamento das unidades, agora com a inversão de posições tendo as tropas russo-cubanas e FAPLA passado da ofensiva à defensiva, com elevadas perdas humanas e materiais. Foram capturados totalmente intactos tanques, BMP's e mesmo sistemas de mísseis SAM 8, que nunca o ocidente tinha tido a oportunidade de manusear. Fala-se mesmo de um incidente, envolvendo as tropas da UNITA e os sul-africanos, exactamente para a tutela dos SAM 8, que a UNITA conservou consigo.
É nesta altura, que se dá uma inversão de posições: vencida a ofensiva de iniciativa das FAPLA em direcção à Mavinga, os comandantes das ex-FALA forças da UNITA no terreno começam a pensar tomar de assalto o Cuito Cuanavale, onde se encontravam refugiadas as FAPLA, cubanos e restantes conselheiros. Três batalhões das ex-FALA atravessam o rio Cuito e posicionam-se nas imediações do Cuito Cuanavale, onde permaneceram durante um dia e uma noite, aguardando apenas a ordem de ataque, que seria antecedido de intenso bombardeamento de artilharia.
E aqui faz-se sentir de modo muito forte um outro teatro de operações: o político, consubstanciado em pressões políticas internacionais, explicadas de seguida. Cenário político e diplomático: importa referir que a presença das tropas internacionais, fossem elas russas, cubanas ou sul-africanas, perseguiam interesses próprios muito concretos. Da parte dos russos e dos cubanos, uma clara intenção de estender a ocupação militar e o seu domínio político de ideologia comunista em tempo da guerra-fria, até ao extremo da África Austral, isto é até ao Cabo.
A África do Sul, por seu lado tentava manter o mais longe das suas fronteiras aquela ameaça, encontrando-se no entanto sob uma forte pressão política e diplomática por parte das Nações Unidas, que desde 1978 tinham aprovado a Resolução 435 exigindo a sua retirada da Namíbia. Chester Crocker, então Sub-Secretário Americano para os Assuntos Africanos, desdobrava-se em iniciativas diplomáticas e cimeiras, em África, na Europa e nos Estados Unidos, tentando fazer vingar a estratégia dos americanos, para a implementação da Resolução 435, que assentava no chamado engajamento construtivo, procurando atrair às negociações todas as partes envolvidas no conflito da região austral.
Ora, segundo declarações dos próprios americanos, o envolvimento em grande escala das tropas cubanas e o movimento das tropas sul-africanas nesta ofensiva, tinha-os surpreendido e contrariava as suas opções estratégicas. Para o êxito das negociações, não interessava uma vitória de qualquer das partes. Em condições da tomada do Cuito Cuanavale, o governo sul-africano foi colocado sob uma forte pressão política, mesmo da parte dos americanos (porque esta vitória militar daria aos sul africanos folego bastante para saírem do quadro das negociações).
Também a direcção da UNITA foi colocada sob forte pressão americana, para não tomar a decisão de fazer um assalto ao Cuito Cuanavale. Neste entretanto e numa acção de desespero, tropas cubanas foram movimentadas para o eixo Cahama-Calueque, com o objectivo de fazerem entender que caso perdessem o Cuito Cuanavale, tomariam a decisão de tentarem entrar na Namíbia, à partir do Cunene, procurando assim reequilibrar a situação.
É neste cenário de pressão política que os comandos militares das ex-FALA e sul-africanos recebem a ordem de não entrar no Cuito Cuanavale e retirarem os batalhões que já tinham atravessado o rio Cuito. Segue-se um interessante encontro entre os comandos das ex-FALA e das ex-FAPLA, para se dar início a operações de limpeza, retirada dos corpos e das carcaças e elevado número de minas ao longo dos rios onde tinham tido lugar os combates.
Importa dizer que após a independência da Namíbia, isto é, com os sul-africanos nas suas fronteiras e após a retirada dos cubanos e dos russos, o governo angolano levou a cabo uma última tentativa. Sejamos fiéis à História. O país que temos é o resultado das lutas de todos nós.
Por Adalberto Júnior

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