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Monday, October 25, 2010

As crianças e a televisão


Os efeitos nocivos da televisão podem ser evitados se os pais dialogarem com as crianças acerca dos programas e anúncios assistidos
Todos concordamos quanto ao facto de que a televisão entretém, informa e acompanha as crianças, mas também pode exercer influências indesejáveis. Basta pensarmos que o tempo passado frente à televisão acaba por ser subtraído a muitas actividades importantes, tais como a leitura, os trabalhos da escola, os jogos, a interacção com a família e o desenvolvimento psicossocial. As crianças podem aprender coisas que são inapropriadas ou incorrectas, pois ainda não conseguem diferenciar a fantasia – que lhes é apresentada na televisão – da realidade.
Mas os problemas não se circunscrevem somente aos programas, estendem-se até às centenas de anúncios, muitos dos quais induzem a hábitos de alimentação pouco saudáveis, difundem estilos de vida que associam a posse de bens supérfluos como factores de sucesso, alegria e bem-estar.
A violência dos desenhos animados
Crianças e jovens impressionáveis podem assumir que aquilo que se vê na televisão é normal, seguro e aceitável. Nesse sentido, uma mensagem preocupante que a televisão nos transmite é a de que a violência é aceitável e até pode ser divertida. O mais perigoso disto tudo é que uma cena que dura apenas alguns segundos – transmitida numa pequena parte de um programa – pode ser recordada a longo prazo, mais do que qualquer outra cena da história. A violência possui uma mensagem muito eficaz e, frequentemente, produz um efeito directo.
Texto: Teresa Paula Marques
Psicóloga Clínica/ Psicoterapeuta

 
 
Marco brinca ao Bug’s Bunny
Os pais do José não têm televisão. Porém, há certos programas que ele não gostaria de perder. Por isso, duas ou três vezes por semana, lá se senta ele frente à televisão, em casa de Marco, o amigo que mora no prédio defronte. A mãe de Marco, a Sr.ª Carolina, não tem nada contra as visitas de José. É um rapazinho calmo, poder-se-ia dizer, ao vê-lo ali sentado em frente ao aparelho, com o rosto delgado e sério e as mãos sobre os joelhos irregulares.
Quando está mau tempo, descalça-se antes de entrar, sem que seja preciso dizer-lhe. Não, a Sr.ª Carolina não tem nada contra o facto de José ir ver televisão, absolutamente nada. Por vezes, quando as crianças estão sentadas na sala semi-obscura em frente do aparelho, a Sr.ª Carolina entra sem fazer barulho e dá uma olhadela ao ecrã.
Vê então um coelho engraçado passar aos saltinhos, um porquito que agita o chapéu e faz cabriolas.
“Ah, o Bug’s Bunny! Ainda bem que há programas tão simpáticos para as crianças”, pensa a Sr.ª Carolina.
Regressa, descansada, à cozinha e mete a loiça na máquina de lavar.
Entretanto, na sala, passam-se coisas emocionantes.
Bunny, o coelho, está a ser perseguido por Sam.
Sam tem pele escura, sobrancelhas espessas, cabelo e barba desgrenhados.
“Ele tem mesmo um aspecto de mau”, pensa Marco. “Pele escura e todo desgrenhado. Eu era capaz de reconhecer imediatamente um mau na rua.”
Por acaso, Marco até viu no jornal uma fotografia de Amadeu, assaltante de bancos. Tinha uma cara simpática, cara lisa sem barba, e vestia um fato normal com estampados de espinhas de peixe. Mas agora Marco não pensa nisso. Não tem tempo para pensar.
É que a acção já começou.
O mau puxa de duas pistolas e aponta-as à inocente cabeça do coelho Bunny. O grande malandro! E o coelho que só lhe tinha arreganhado amigavelmente os dentes da frente!
Pum!
Boing!
Pam!
O pobre do coelho quase não sobrevive a isto. Mas o fumo da pólvora já se dissipou. Bunny ainda cá está, são como um pêro, e malha com um cacete em cima de Sam. Sam escapa-se, vai buscar uma faca de cabo comprido e quer reduzir Bunny a pó.
Mas o coelho não é preguiçoso. Enche um melão com dinamite e consegue pô-lo na mesa do almoço. Sam parece ser não só mau mas também míope. Já está a levar o melão à boca rodeada de barba espessa.
Miac! Miac!
Puummmm!
Chuviscam estrelas. Do mau, resta apenas uma nuvem de pólvora. Mas… um, dois, três… cá está ele, chamuscado e careca como um frango depenado.
No momento seguinte, já vai outra vez, são como um pêro, a correr atrás do coelho. Uma perseguição emocionante. Sam tramou uma coisa infame: e lá vai – socorro! – uma porta de chumbo a tombar sobre Bunny.
Agora é que o apanhou de vez.
Errado, queridas crianças!
Cá vem ele a arrastar-se de debaixo da porta, mais espalmado do que um mata-moscas.
Pronto! Agora é que o mau vai ter uma surpresa. O coelho dá-lhe uma salsicha de dinamite para comer. À conta dessa, o coelho acaba dentro de uma máquina de lavar roupa em funcionamento.
Um pouco mais tarde, é enfiado numa panela de água a ferver. Engraçado a valer. É de morrer a rir como se matam um ao outro!
José assusta-se, como se fosse sempre a primeira vez. Está imóvel, de olhos fixos no ecrã. Marco, pelo contrário, ri-se às gargalhadas. Há muito que se habituou aos divertidos jogos assassinos.
Quando, no fim do programa, carrega no botão e apaga o ecrã, as imagens continuam a faiscar algures dentro dele.
Um bando inteiro de maus, um bando de coelhos, muitos diabos pequeninos estão agora dentro dele.
Centenas, milhares, que dão tiros uns aos outros.
Calcam-se com os pés, fazem-se explodir.
Matam à pancada, esquartejam.
Ralam, amordaçam.
Não o deixam em paz. Vão todos atrás de Marco, quando este desce as escadas com José e atravessa o pátio nas traseiras do prédio.
O que mais gostava de fazer agora era qualquer coisa maluca. Partir um vidro, destruir uma bicicleta ou, pelo menos, meter dentro uma grade da cave. Só que o porteiro, no fim do trabalho, deita-‑se sempre por baixo da janela da cozinha, a apreciar o ar morno do fim da tarde, como ele próprio costuma dizer. O seu filho Hugo está no pátio, entre os caixotes do lixo, a treinar-se com as andas.
Marco e José sentam-se no muro que separa o local cimentado dos arbustos de jardim.
Marco ainda está a pensar no Bug’s Bunny. Lembra-se agora de cenas que viu na última semana, ou na penúltima, e que achou mesmo engraçadas.
Bunny tinha uma chávena de chá na mão e perguntou:
— Um ou dois quadrados de açúcar?
— Dois — respondeu Sam.
Então o coelho bateu-lhe duas vezes com o martelo na cabeça.
E, de uma vez, Sam perguntou:
— Bunny, estás a ver o animalzinho no meu punho? — Bunny abanou a cabeça e, curioso, inclinou-se para ver.
— Então vou mostrar-te.
Sam riu maldosamente e deu-lhe com o punho na cara.
— Eh, Zé! — disse Marco de repente, estendendo-lhe o punho fechado. — Consegues ver a pastilha elástica minúscula que está na unha do meu polegar?
— Não.
José aproxima a cara muito perto e pestaneja, cansado.
— Poing! — grita Marco. Ao mesmo tempo, o punho fechado aterra no olho direito de José.
O riso explode como um balão de pastilha elástica. Ouve-se José a gemer. A mão apalpa a sobrancelha, o sangue goteja. Por baixo da pálpebra começa a nascer uma nódoa negra.
Marco, agora, está muito assustado.
Olha fixamente para a boca de José, que está puxada para o lado de uma forma tão esquisita, como se José estivesse a rir. Mas José não está a rir. Aperta os dentes convulsivamente. Por entre a fileira dos dentes a respiração sai tumultuosa. O olho magoado deve doer-lhe muito. Outro rapaz ter-‑se-ia atirado a Marco, mas José limitou-se a virar na direcção de Marco o olho são, que agora também está muito pequeno e a piscar. O olho acusa Marco. “Porquê?”, parece perguntar.
Marco não consegue entender. Era só uma brincadeira. Na série de televisão que acabou de ver, fazem coisas muito piores uns aos outros. E nunca há lágrimas.
Nunca se vê sangue.
Ninguém fica doente.
Ninguém fica mutilado.
Ninguém morre.
— Só queria brincar ao Bug’s Bunny — diz Marco. — Desculpa, José.
— Bug’s Bunny, Bug’s Bunny! — grita o filho do porteiro, que passa a correr junto ao muro e que apanhou as últimas palavras de Marco. Pára no tapete, olha para o muro, puxa os lábios para a frente para imitar um nariz a farejar e grunhe com uma voz grossa de porco:
— Então, até à próxima vez, meus queridos amigos. E seeeeempre alegres!
— Anda — diz Marco, pegando na mão de José e afastando-o do muro. Pelo caminho, sentiu a mão de José. É quente, palpitante, e acima dos nós dos dedos, está um pouco molhada pelas lágrimas que enxugou.
Eveline Hasler
 
Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
 

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