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Saturday, November 06, 2010

Bispo Mateus Feliciano Tomas

Sinistralidade rodoviária faz o que a guerra «desconseguiu»
MATOU UM BISPO!
Exiba AC Novemb...jpg na apresentação de slides
O Bispo da Diocese do Namibe, D. Mateus Feliciano, faleceu, no dia 29,
vítima de um acidente de viação algo «estúpido» - capotou, depois de
tentar fugir a uma manada de bois que se fazia à estrada entre Catengue
e Chongorói. Ele vinha de um encontro em que a CEAST chamava
precisamente a atenção para os altos índices da sinistralidade
rodoviária em Angola, que está a matar mais que a Sida e que o paludismo,
até então a campeã. As circunstâncias em que o infausto aconteceu
levantam uma série de questões, das quais se exige respostas.
Quer das autoridades governamentais, como da própria Igreja

Sinistralidade rodoviária
atingiu o cúmulo


Quando os Bispos da CEAST chamavam a atenção da Nação para os altos índices da sinistralidade
rodoviária – a maior causa de mortalidade na actualidade, mais mortífera que o paludismo
– e aos altos custos em vidas humanas e incapacidade física que o País pagava com isso, estava longe de imaginar que, escassos dois dias depois, um deles sucumbiria por essa mesma causa. É que, diga-se em abono da verdade, não é nada comum um bispo católico morrer de acidente de viação, e nas circunstâncias em que isso ocorreu. D. Mateus Feliciano Tomás, o bispo «caçula» da CEAST, veio do Namibe, sua Diocese, ao volante da sua viatura de marca Toyota Prado. Terá vindo sozinho, pelo que nos foi dado apurar. Uma nossa fonte no Namibe dizem que o Bispo preferia dirigir a sua própria viatura. «Por um lado, porque gostava de conduzir, e por outro, pela simplicidade com que se pautava na vida», disse a fonte do SA, um sacerdote que preferiu não ser identificado. Terminada a Assembleia Geral da CEAST, o prelado regressa à sua diocese, mas passa primeiro pelo Huambo, onde tinha também que presidir à abertura de um encontro da pastoral de leigos e família, na sua qualidade de presidente da respectiva comissão episcopal. Sexta-feira de manhã, 29 de Outubro, recolheu uma criança de 5 anos, parente que pretendia tomar a seu cargo, e pelas 11 horas encetou viagem para o Namibe, via Benguela-Lubango.
Terá passado por Benguela nas primeiras horas da tarde. Pelo que nos foi possível apurar, não contactou nenhuma entidade eclesiástica em Benguela, nem os seus colegas D. Óscar Braga e D. Eugénio del Corso, respectivamente Bispo Emérito e Titular de Benguela. Certamente ansioso por chegar o mais rápido possível ao seu destino, rumou directo, tendo tomado a via Catengue-Chongoroi para passar por Quilengues, Cacula e Lubango, e dali rumar para o Namibe via serra da Leba. Uma viagem longuíssima, para quem conhece o trajecto. Por volta das 15H30, no troço Catengue-Chongoroi, terse-á deparado, de repente, com uma manada que ia a atravessar a estrada, depois de uma curva. Na tentativa de desviar-se dos animais, despista-se e cai num precipício que existe ao longo da estrada. A menina de 5 anos que o acompanhava foi cuspida e saiu ilesa. O Bispo ficou preso no carro, que terá cambalhotado várias vezes. Segundo relatos ainda difusos, as primeiras tentativas de socorro teriam partido das próprias pessoas que apascentavam a manada fatídica. Não o conseguindo (não foi possível apurar se se conseguiu retirar o Bispo da viatura ou não), foram à busca de meios apropriados, que apenas chegaram ao local cerca de duas horas mais tarde, por volta das 17H00. Nesta altura, as equipas de resgate encontraram o Bispo já sem vida, limitandose a transportar o seu corpo para a morgue do hospital regional de Benguela, onde permaneceu até dia 3 de Novembro, altura que foi transladado para o Namibe. O funeral teve lugar dia 4 de Novembro, quinta-feira, na presença de vários bispos da CEAST, padres, familiares, autoridades e milhares de fiéis idos de Luanda, Huambo, Benguela, Kwanza Sul e Lubango.

Qual
excesso?

Esta hipótese avançada pela Polícia de Benguela tem muito que se lhe diga...Um porta-voz da Polícia de Trânsito em Benguela declarou, sábado (30), sem mais nem ontem, que «as causas do acidente poderiam estar ligadas ao excesso de velocidade»…, perdendo uma óptima oportunidade para estar calado. Por aquilo que nos foi possível apurar, não existia no local nem um sinal de trânsito limitando a velocidade e muito menos outro indicando a presença de animais na estrada. Ora, sendo que a velocidade média de uma viatura numa estrada interurbana é 100 a 120 km/hora e, por melhores que sejam os travões, o motorista precisa de pelo menos 50 metros para poder imobilizar a viatura. Pelo que soubemos, o prelado deparou-se com os animais ao sair de uma curva. Ora, porquê não colocaram ou um sinal de trânsito limitando a velocidade, ou um outro indicando a possível presença de animais na estrada ou os dois? Ou o senhor Porta-voz da Polícia não sabe os limites de velocidade dentro e foradas localidades? ■

Por que é que o Bispo
viajava sem motorista?

Não é normal, nem em Angola nem em nenhuma outra parte do Mundo, um bispo católico fazer viagem tão longa sem motorista e completamente desacompanhado. Para compreender isso, o Semanário Angolense contactou fontes da diocese do Namibe e fez-lhes precisamente esta pergunta: 
«Porque é que o Bispo viajava sem motorista?».
«É imensamente vergonhoso para nós, enquanto leigos do Namibe, isso o que aconteceu», começou por dizer uma das fontes. «A pessoa que normalmente andava com o senhor Bispo tinha ido ao Virei levar uma equipa de missionários por orientação dele próprio. Dali que, com a simplicidade que lhe caracterizava, quando chegou o dia de ir a Luanda para a Assembleia-Geral da CEAST, pegou no carro e foi», acrescenta. Indagado das razões pelas quais o Bispo não foi desaconselhado a fazer viagem tão longa sozinho, um dos padres da diocese, visivelmente desconsolado, disse: «Manifestámos a preocupação que um pneu podia furar, ou mesmo ter alguma avaria, e não ficaria bem o Bispo andar às voltas com pneus e macacos, mas ele insistiu. Agora todos podemos dizer que avisámos ou falámos, mas a verdade é que não soubemos demovê-lo e agora deu-se o que deu». Um outro padre, conhecido pela sua intervenção nos media em Luanda, quando indagado a propósito, disse que «os bispos por norma não devem conduzir, e muito menos em viagem, por uma questão de preservação da sua dignidade episcopal». «Só que, nestes tempos modernos em que a sociedade e o próprio Estado fiscalizam a forma como as entidades públicas, bispos e padres inclusive, gastam os dinheiros postos à sua disposição pelos leigos, existe uma tendência nos bispos para reduzir ao mínimo os serviços de que beneficia. Outras vezes, fazem-no por simplicidade evangélica. Mas há que considerar os serviços mínimos, e motorista é um deles. Em nenhum momento, um bispo devia prescindir disso», disse o padre, que preferiu o anonimato, «para não ser mal interpretado». Em relação ao Bispo do Namibe, muitas correntes de leigos e não só, comentam que, na verdade, houve morosidade na criação das condições de apoio ao prelado da parte dos órgãos de governo da diocese, também chamada cúria diocesana. «Acho que D. Mateus sentiu muitas vezes a falta de um motorista, mas se calhar pensou que os outros é que deviam ver isso, não ele. Até porque, quando chegou, não conhecia ninguém aqui. E os outros foram deixando andar, já que o Bispo não pedia, e as coisas foram-se arrastando até que deu no que deu», asseverou a fonte. ■

BIOGRAFIA

Dom Mateus Feliciano, filho de Feliciano Kanombo e de Filomena Wandi, nasceu a 21 de Fevereiro de 1958, no município do Chinguar, província do Bié. Ele foi nomeado pelo Papa Bento XVI e ordenado bispo a 21 de Junho de 2009, na Paròquia de Fatima do Huambo, tendo tomado posse como bispo do Namibe a 5 de Julho do mesmo ano. Baptizado no dia 8 de Março do ano em que nasceu, deu os seus primeiros passos na vida académica na aldeia de seus pais, no Chipaca, comuna do Chiumbo, município de Katchiungo, passando logo depois para a Escola Primária do Alto Chiumbo. Em Setembro de 1967, ingressa na Missão Católica da Trapa, como interno, a fim de continuar os estudos e, a 25 de Dezembro, recebe a Primeira Comunhão, na Missão Católica da Bela Vista (ou Vavayela), e a 11 de Outubro de 1968 recebe a Confirmação na referida Missão. Após o Ensino Primário, é enviado para o Seminário Menor da Caála, a 21 de Setembro de 1971, como Seminarista Aspirante Trapista. Após 4 anos, e devido à situação político-militar, o Seminário Menor do Quipeio é encerrado e os seminaristas são alojados no Seminário dos Padres da Congregação do Espírito Santo, no Huambo, onde conclui o 5.º Ano em 1976.
Com a morte do Padre Domingos, Mestre de Noviços, a destruição o Mosteiro da Trapa e a consequente retirada da maioria dos Monges para a Espanha, não foi possível o seu ingresso no Noviciado, pelo que, em Setembro de 1977, entra no Seminário Maior de Cristo Rei, onde conclui os Estudos Filosóficos e Teológicos, sendo ordenado Diácono a 17 de Julho de 1983. A 18 de Setembro do mesmo ano, seria ordenado Sacerdote, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição – Sé Catedral do Huambo. Em Novembro de 1983, é nomeado Vigário Paroquial da Igreja do Coração de Maria, São João, cargo que des empenhou durante um ano e um mês. Em 1984, passa para Vice-Reitor do Seminário Propedêutico São João Evangelista. Em 1986 é nomeado Reitor do mesmo Seminário até Agosto de 1991. Desempenhou vários cargos na Arquidiocese do Huambo, como Assistente Eclesiástico da Juventude, membro da Comissão de bens e do Secretariado de Pastoral. A 8 de Setembro de 1991, parte para Roma a fim de continuar os seus estudos académicos na Pontifícia Academia Alfonsiana, onde em 1993, fez a licenciatura com a dissertação intitulada «A Forma da Consciência Moral do Angolano no período pós-Guerra».
Ainda na Itália, de 1995 a 1997, trabalhou na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus de Tuscania, na Província e Diocese de Viterbo. A 3 de Junho de 1996, defende a sua tese de Doutoramento em Teologia Moral, com o título: Problemas Morais à luz da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos em vista à Nova Evangelização de Angola». A 4 de Fevereiro de 1997 regressa à sua Arquidiocese e é nomeado Chanceler da Cúria Arquidiocesana, com a Provisão n.º 001/1997 de 10 de Fevereiro do mesmo ano, Director do Secretariado de Pastoral com a Provisão n.º 3/97 de 13 de Março e Vigário Paroquial do Santuário de Nossa Senhora de Fátima com a Provisão n.º 12/97 de 6 de Maio, cargo que desempenhou até 6 de Abril de 2008. Com a Provisão n.º 5/97de 6 de Abril, foi nomeado membro do Conselho para os Assuntos Económicos. A 23 de Março de 2008 é nomeado Pároco da Sé Catedral, tomando posse a 13 de Abril do mesmo ano. Na Arquidiocese desempenha ainda funções de membro do Colégio de Consultores, do Conselho Pastoral, do Conselho Presbiteral, Assistente da Comissão de Leigos e da Comissão
para a Doutrina. ■


Onde é enterrado
um Bispo Católico?


A título de curiosidade: um Bispo Católico deve ser obrigatoriamente enterrado na última diocese que governou. O corpo é revestido com as insígnias episcopais que recebeu na sagração (as vestes, incluindo a casula que usa durante a Missa). Antigamente, e no tempo que as pessoas eram enterradas dentro das igrejas, o corpo era sepultado em frente do altar principal da sua Sé.
Hoje, por razões ligadas à Saúde Pública, já não se enterram pessoas dentro das igrejas, por isso o
corpo do Bispo é enterrado primeiro num cemitério normal. Mas passado um período de tempo, cerca de 10 anos, o corpo é exumado (desenterrado) e enterrado em frente do altar-mor da sua Sé. Quase todas as Sés das dioceses mais antigas, como é o caso de Luanda, Huambo, Lubango e Benguela, têm bispos enterrados em frente ao altar principal. D. Mateus Feliciano será assim enterrado no cemitério municipal do Namibe e, dentro dos 10 anos previstos, exumado e enterrado na Igreja de Santo Adrião ou de outra que albergue a
cátedra do Bispo. ■

FUNERAL

O malogrado bispo da diocese do Namibe, Dom Mateus Bilingue, foi a enterrar nesta quinta-feira, no cemitério municipal da capital daquela província, em cerimónia bastante concorrida, na presença
de altas figuras da hierarquia da Igreja Católica em Angola. Os restos mortais do primeiro bispo do Namibe foram depositados no cemitério municipal, em repouso provisório. A tradição da igreja manda que o primeiro bispo de uma diocese seja sepultado na catedral, segundo o jornal «OApostolado». Centenas de pessoas, entre católicos e não católicos, acompanharam o cortejo fúnebre do prelado. Uma participação em massa que, de acordo com o padre Adriano Elias, porta-voz da diocese, é difícil de precisar. «Este número (elevado) de pessoas a chorar e a rezar mostra o carácter simples e acolhedor que dom Mateus tinha», referiu o sacerdote. «Pessoas vindas de todos os cantos de Angola, e até vindas de Portugal, quiseram acompanhá-lo neste momento, dar o último adeus», acrescentou o padre Adriano Elias. A eucaristia pela alma de dom Feliciano Mateus foi presidida pelo Presidente da CEAST, dom Gabriel Mbilingui, uma missa co-celebrada pelo Núncio Apostólico em Angola, dom Novatus Rugâmbwa, bispos e mais de 100 sacerdotes. Distintas entidades também participaram da celebração eucarística, com destaque para a Governadora do Namibe, Cândida Celeste, e os Governadores do Bié, Boavida Neto, e da Huíla, Isaac do Anjos. Antes da missa foram lidas mensagens do Papa Bento VXI e do Prefeito para a Congregação para a Evangelização dos Povos, de dom Ângelo Becciu e do Chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos. ■

Não me conformo. Não posso!
«Puxão de orelhas» aos Bispos pela morte de D. Mateus
Celso Malavoloneke

Toca o telefone. Atendo e do outro lado uma voz que, de tão embargada, demoro a reconhecer diz-me de chofre: «Celso, o teu amigo foi-se». Confuso e assustado, ponho-me a fazer perguntas. Cada resposta deixa-me cada vez mais incrédulo, até que me rendo à fatal realidade: o meu amigo D. Mateus, o tranquilo e sereno Padre Mateus, dos tempos difíceis de 97, no Huambo, tinha morrido. De acidente de viação. Ao tentar poupar a vida… de um boi! Tinha-se despistado e capotado algures entre o Catengue e Chongorói. Sozinho – acompanhado apenas por uma criança de 5 anos –, demorou duas horas para chegar o socorro e nesse tempo encontraram-no já sem vida. A criança de cinco anos pouco pode explicar; o resto são conjecturas. E o homem que escapou a mil e uma emboscadas nas várias missões de risco que encetou em plena guerra no Huambo morreu assim. Rezarão os anais da história da Igreja Católica, que um Bispo, que viajava ao volante do seu carro numa viagem de mais de dois mil quilómetros, morreu por causa de um boi…Não me conformo! Por ironia do destino, D. Mateus regressava da última Assembleia-Geral da CEAST, na qual os bispos católicos chamaram a atenção para os altos índices da sinistralidade rodoviária.
«O volante é uma arma que deve ser usada com cuidado», avisaram. Mal sabiam eles que, dias depois, esta sábia verdade seria confirmada com a vida de um dos seus. Do caçula deles, com apenas um ano e tal de governo episcopal. E, agora, a Igreja Católica no mundo inteiro pára e interroga-se como foi possível. Que um bispo fosse motorista de si próprio numa viagem tão longa, exposto a mil e um riscos. Sozinho, sem a companhia de alguém. O Bispo não tinha motorista; porquê? Para poupar dinheiro? Ia só, porquê? Não tem secretário, um padre ou leigo que velasse pela sua dignidade? Enfim, perguntas que ninguém sabe ou pode agora responder, perante a Morte que está ali, bem presente, para lembrar que talvez se vá a tempo ainda de pôr trancas na porta, pois o ladrão pode voltar…Um Bispo da Igreja Católica não é uma pessoa qualquer. Nunca o foi em toda a longa trajectória da história desta igreja. Não por ele, mas pelo que representa. Os séculos de serviço pela humanidade, de governação de pastores de almas tornou-o desde sempre num detentor de uma dignidade respeitada e aceite por príncipes, reis, imperadores e presidentes Assiste-lhes a governação temporal, pois administram províncias eclesiásticas com recursos humanos, materiais, financeiros e outros, e assiste-lhes a governação espiritual, pois dirigem homens e mulheres que têm a missão de atender as necessidades espirituais das suas
comunidades. Essa dupla condição dá-lhes a prerrogativa de terem pessoas ao seu serviço, pois, da mesma maneira que servir um Governador de Província ou um Presidente da República, é servir a Nação que ele representa, servir um Bispo é servir a Igreja que lhe conferiu a dignidade episcopal. Por isso, não se compreende que D. Mateus Feliciano estivesse a viajar sozinho. Para além do facto de que um acompanhante é parte essencial da dignidade episcopal, há também que considerar que sozinhos podem estar à mercê de gente mal intencionada. Alguém pode pensar que o Bispo tem sempre dinheiro no bolso. Num país que as pessoas assaltam templos para roubar objectos sagrados – a última vez que isso aconteceu foi mesmo no Namibe, a diocese do malogrado D. Mateus –, isso pode perfeitamente acontecer e um Bispo ser molestado por ladrões. E uma viagem de Luanda a Namibe passando pelo Huambo é muito quilómetro para um viajante solitário (ainda que não Bispo), que ainda por cima já não era nenhum jovem. Também não se compreende que um Bispo vá ao volante da sua viatura numa viagem tão longa. Para dizer a verdade, uma eminência episcopal não tem nada que ir ao volante seja onde for. Lembra-me uma vez, já há uns bons anos, que o Cardeal Nascimento saiu do Paço Arquiepiscopal, ali na colina de S. José, para dirigir-se à casa das Irmãs de S. José de Cluny na Igreja de S. Paulo. Ali pela Alameda Manuel Van Dúnen, farto do engarrafamento, estacionou o carro e fez o resto do caminho a pé… para escândalo de dezenas de motoristas que volta e meia paravam para lhe dar boleia, que ele recusou até chegar. Depois alguém foi lá buscar o carro… que ele se tinha esquecido de fechar, até os vidros! Na altura virou anedota mas os padres do Paço nunca mais o deixaram sair sozinho e muito menos ao volante. Isto porque não fica bem a um Bispo andar de um lado a outro ao volante. No trânsito selvagem desta Luanda, ficaria mal uma entidade destas estar exposta aos insultos dos motoristas, por uma manobra menos conseguida, ou àquelas discussões de rua por dois carros se tocarem. As representações diplomáticas e organizações internacionais insistem que os seus titulares andem sempre com motorista, para pouparem-se a estas coisas, e fazem eles muito bem. Avisados andariam os Bispos se seguissem este exemplo. Muitas vezes, cruzamo-nos nos aeroportos deste país com Bispos em viagem, completamente sozinhos. Confesso que não sei porque cargas de água – Suas Excelências Reverendíssimas,
perdoem-me o destempero verbal – algumas vezes vemo-los a viajar até de económica e, depois sujeitos à longa espera da bagagem. Ora, um Bispo tem mais que fazer; o seu tempo é precioso demais para perdê-lo assim. Em primeiro lugar, pela sua dignidade e idade também deveriam viajar sempre que possível em classe executiva. E não venham cá dizer que a igreja não tem dinheiro para isso, porque tem. Ou devia ter. Em segundo lugar, devem sempre fazer-se acompanhar de mais uma pessoa, que trate dos detalhes da viagem, como bagagem, etc.. Caso não, ou o Secretariado Geral da CEAST – veja bem, Padre Hisilenapo – ou os serviços de apoio do bispado onde se dirige devem tratar disso à sua chegada, incluindo uma viatura para transportá-lo ao lugar de hospedagem. E não estejamos com falsas modéstias. Isso deve ser feito, não por eles mesmos, mas pelo que representam. Pela responsabilidade que carregam. Pela vergonha que causa a todos nós quando se falta ao respeito à dignidade que lhes cabe. Aceitei por isso nestas linhas o desafio que me foi posto para a tarefa ingrata de «puxar as orelhas aos Senhores Bispos». Porque algumas vezes são eles que insistem nestas «simplicidades». Sei que estamos a pôr trancas nas portas depois de o ladrão – a Morte no caso – ter roubado nada mais nada menos que uma vida. E que vida! Mas ainda é tempo de nos precavermos mesmo assim. O ladrão – essa malfadada Morte que, apesar da nossa fortitude cristã, ainda mexe tanto connosco – pode tornar a passar pela mesma porta, se não estiver bem trancada. Não facilitemos, portanto.
Requiem in Pace, Sacerdos Magnus! Descansa
em Paz, Grande Sacerdote… ■

1 comment:

milu said...

Temos todos muitas perguntas e poucas respostas.