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Tuesday, November 02, 2010

Miloco


Miloco é um menino descalço e esfarrapado. Vive na rua. Veio de longe, de um país distante, assinalado com letras minúsculas no mapa do mundo.
Numa noite, por entre a chuva e o nevoeiro, desembarcou ali, vindo não se sabe bem de onde. De olhos cheios de sono e cansaço, com outras crianças, com outros Milocos como ele, que, de imediato, se espalharam pelos quatro cantos da grande cidade.
Percorreu as ruas rente às fachadas de persianas corridas. Seguiu os candeeiros como os marinheiros seguem as estrelas. Caminhou durante muito tempo até de madrugada Depois, esgotado, adormeceu na praia, embalado pelo ressoar das ondas.
Os gritos das gaivotas e dos alcatrazes acordaram-no. Viu os barcos deslizarem displicentes nas águas do mar. Tinha fome. Subiu a grande avenida das lojas e dos supermercados. Invisível, transparente, a multidão não deu por ele.
Miloco não passava de um menino descalço e esfarrapado.
Um dia, na rotunda da auto-estrada, em frente ao aeroporto, perto do supermercado, encontrou outros garotos como ele, Milocos nus e de pés descalços, que o adoptaram.
Por baixo da ponte de acesso à auto-estrada, abrigado do vento e das intempéries, Miloco, com as caixas de cartão dos frigoríficos, cartões enormes de televisores, e de outros objectos fúteis e sem importância, construiu uma casa só para ele, fechada por arame, entre as cabanas dos seus novos companheiros.
Miloco sentia-se bem.
À noite, junto da fogueira, cantava e até ria.
Os amigos tinham-lhe emprestado uma escova, panos de limpeza e uma garrafa com lixívia que fazia balões multicores com os reflexos do sol.
Miloco, na rotunda do supermercado, esperava os carros que paravam no semáforo. Entre a mudança do verde para o vermelho, passando pelo laranja, e do vermelho para o verde, Miloco levantava as escovas, esfregava, puxava, lavava os vidros sujos de lama e de mosquitos.
Dos carros vinham berros, e às vezes injúrias! Os condutores, de lentes fumadas, subiam os vidros, desviavam o olhar, aceleravam, não se atrevendo a enfrentar o rosto da verdade. Por vezes, por uma nesga da janela, com as portas bem trancadas, uma mão, estendida sem convicção, atirava uma moeda, uma moeda de pouco valor, para o asfalto.
Miloco agradecia com um breve clarão de felicidade a iluminar-lhe o rosto.
No início da Primavera, numa manhã muito cedo, camiões azuis cercaram a aldeia de papel.
Ninguém teve tempo de fugir.
Homens de uniforme e capacetes prateados juntaram as crianças no meio da rotunda e contaram-nas.
Levaram Miloco para uma casa grande, numa colina, longe da cidade. Atrás dos muros altos e escuros, não via nem mar nem horizonte. As lágrimas inundavam-lhe as faces.
Havia muitos companheiros como ele, Milocos nus e de pés descalços, que olhavam por cima dos muros do jardim, para a liberdade que lhes tinha sido roubada. Miloco sentia-se prisioneiro.
Então pensou muito na sua aldeia, naquele país distante desenhado no mapa do mundo em letras minúsculas. Rascunhou à mãe um postal cheio de sol, de céu azul, de passeios cheios de flores, de ruas imensas e coloridas. Contou que diante do aeroporto, perto do supermercado, debaixo da ponte, tinha uma casa só sua, uma casa de cartão.
Certa manhã, quando a claridade penetrava no parque, Miloco saltou o muro. Nu e descalço, desatou a correr, sem olhar para trás, em direcção à rotunda do supermercado e escondeu-se no fundo da sua cabana.
Ficou ali muito, muito tempo, escondido no seu refúgio, a espiar o mais pequeno ruído, assustado com o ruído dos motores.
Depois, pouco a pouco, entreabriu a porta e aventurou-se a sair. Um calor suave acariciou-lhe as faces.
A partir daí, todas as noites, conta os camiões que chegam de algures. Por entre o nevoeiro e a chuva, espreita as sombras furtivas que deslizam na escuridão. Fica à espreita da sombra da mãe. Gostava que ela estivesse ali, que o apertasse nos braços até ele perder a respiração. 
Tradução e adaptação 
Jean Siccardi; Joly Guth
Miloko
Draguignan, Lo Païs d'Enfance, 2004

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