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Monday, January 31, 2011

Tiro de partida para a independência de Angola foi há 50 anos



Na próxima sexta-feira, Angola                                                     co
memora o 50.º aniversário do ataque às cadeias da Luanda colonial para uma tentativa arrojada de libertação de prisioneiros políticos que ficou na história como o tiro de partida para a independência do país.
A 4 de Fevereiro de 1961, teve lugar a primeira revolta organizada contra o regime colonial português com o ataque à Cadeia de São Paulo e à Casa de Reclusão, em Luanda, onde se encontravam detidos vários independentistas.
Oficialmente, a história diz que a revolta popular, armada de paus e catanas, foi organizada por elementos ligados ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) como Neves Bendinha ou Imperial Santana, durante largos meses, desde Outubro de 1960.
A ideia era criar um momento galvanizante que servisse de ignição para a luta armada pela independência, que aconteceu a 11 de Novembro de 1975.
Mas há um dado, também ele histórico, que diversas fontes apontam como importante para este desencadear da revolta, que foi a presença de vários jornalistas estrangeiros em Luanda.
A imprensa internacional aguardava a chegada a Luanda do paquete Santa Maria, assaltado nas vésperas por Henrique Galvão num gesto contra o regime fascista de Oliveira Salazar.
O Santa Maria não aportou em Luanda e os jornalistas estrangeiros preparavam-se para levantar âncora quando, no meio popular surgem alguns elementos a aproveitar a presença da imprensa internacional para dar destaque mundial a uma acção de revolta anti-colonial. Assim terá nascido, há 50 anos, o 4 de Fevereiro de 1961.
Mas, por detrás desta onda revolucionária, estava já o 4 de Janeiro, com a revolta da Baixa de Cassange, onde milhares de trabalhadores dos campos de algodão da Cotonang se levantaram contra as condições de trabalho e a repressão colonial, deixando como rasto um número ainda por definir de mortos.
A acção das centenas de populares em Luanda, armados de varapaus e catanas, foi repelida pelos fuzis da polícia e da guarnição militar colonial de Luanda, mas seria apenas meio passo para trás daquele que tinha sido dado em frente e conduziria à independência do país, a 11 de Novembro de 1975.
A iniciativa tinha como objectivo imediato a libertação de presos políticos das cadeias de Luanda, mas as fontes oficiais garantiam que na sua preparação estava já na mente de Bendinha, Santana ou ainda Paiva Domingos da Silva ou Virgílio Sotto Mayor, uma clara marcação da partida para a descolonização de Angola.
Com os episódios da Baixa de Cassange e a independência do Congo, reforçados pela revolta de Luanda, pouco depois o regime colonial iniciou o reforço militar em Angola, que tão cedo não pararia com o desenrolar da guerra colonial, bem como o recrudescer dos movimentos de guerrilha dentro e a partir do vizinho Congo Leopoldville.
Para este reforço militar português teve ainda um peso significativo o 15 de Março, o ataque da União dos Povos de Angola (UPA), no norte do país, onde centenas de colonos brancos foram chacinados, principalmente nas fazendas de café, em consequência da revolta liderada por Holden Roberto, mais tarde líder da FNLA.
Estas três datas no ano de 1961, 4 de Janeiro, 4 de Fevereiro e 15 de Março são, ainda hoje, alvo de disputa sobre qual delas teve mais importância no início da luta armada contra o regime colonial, mas a imposição do MPLA, partido no poder desde 1979, do 4 de Fevereiro como o dia maior desse desafio ganha cada vez mais peso.

Fidel diz que situação no Egipto e na Tunísia é "praga de gafanhotos" criada pelos EUA

O ex-presidente cubano Fidel Castro disse hoje que os Estados Unidos estão incapazes de controlar as "pragas de gafanhotos" que criaram no mundo, referindo-se aos acontecimentos na Tunísia e no Egito.


O "Obama não tem meios de gerir as pragas de gafanhotos que eles [EUA] criaram. Há uns dias caiu o regime da Tunísia, onde os EUA tinham imposto o neoliberalismo e estavam contentes com a sua proeza política", afirmou Fidel Castro, em artigo divulgado pela imprensa cubana.

"É incrível constatar como hoje, enquanto o povo derrama o seu sangue e assalta os armazéns, Washington exprime a sua satisfação com a queda" do presidente tunisino, prossegue o antigo presidente cubano, que transmitiu o poder de Cuba para o seu irmão, Raul Castro, em 2006.

Da mesma formam, os EUA "converteram o Egito no seu principal aliado no mundo árabe" "o seu maquiavelismo reside no facto de venderem armas ao governo egípcio e de, ao mesmo tempo, financiarem a oposição", afirmou Fidel Castro, citado pela AFP.

"Poderão os EUA conter a vaga revolucionária que sacode o Terceiro Mundo?", interroga ainda o antigo responsável cubano, que publica regularmente as suas análises na imprensa cubana, que é oficial na sua totalidade.

Fidel Castro designa também como outra "pragas de gafanhotos" o Fórum Económico Mundial, que acabou no domingo em Davos, na Suíça, que designa como uma "Torre de Babel", onde "os países europeus mais desenvolvidos, liderados por Alemanha, Reino Unido e França, só têm em comum os seus desacordos com os EUA"


Guerra, 50 anos depois

Oposições católicas, a influência de Paulo VI e o caso da Capela do Rato em análise


Lisboa, 01 Fev (Ecclesia) – Os pontificados de João XXIII (Papa entre 1958 e 1963) e, em especial, de Paulo VI (1963-1978) motivaram vários sectores da Igreja Católica em Portugal na mobilização contra a guerra.
A temática é apresentada na última edição do semanário Agência ECCLESIA, hoje publicado, num momento em que se aproximam os 50 anos do início da guerra em Angola, a 4 de Fevereiro de 1961, com o ataque à Cadeia de São Paulo e à Casa de Reclusão, em Luanda.
João Miguel Almeida, investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da UCP, fala da relação do regime salazarista com o Papa Paulo VI, que, entre outros episódios, recebeu, a 1 de Julho de 1970, três líderes de movimentos de libertação africanos: Marcelino dos Santos, de Moçambique; Agostinho Neto, de Angola, e Amílcar Cabral, da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.
“O regime via na guerra colonial uma necessidade, pois a presença portuguesa em África era oficialmente indiscutível. A Igreja Católica declarava que todos os meios deviam ser discutidos e tentados para chegar à paz, pois, segundo a fórmula do tema escolhido por Paulo VI para 1973, «A paz é possível»”, assinala o historiador.
Episódio central na oposição dos católicos portugueses à guerra foi a ocupação da Capela do Rato, em Lisboa, na noite de 31 de Dezembro de 1972.
Jorge Wemans, actual director da RTP2, esteve preso em Caxias na sequência do caso e recorda-o agora, num texto para o Dossier desta edição.
“Resumidos em curtos parágrafos, os acontecimentos daquilo que ficou para a história como «O Caso da Capela do Rato» parecem indicar que o afrontamento entre o Governo e a Igreja Católica a propósito da guerra colonial era permanente e total. Nada mais enganador! Pelo contrário, ao fim de uma década de guerra o silêncio dos católicos e da hierarquia católica era ensurdecedor”, assinala.
Para Wemans, “mais do que um grupo organizado, o que esteve na base do Caso da Capela do Rato foi a convergência de diversas pessoas e grupos mais ou menos informais, marcados por uma solidariedade que já tinha sido testada em anteriores acções de distribuição de panfletos denunciando a guerra colonial, de circulação de livros, textos e informação anticolonial”.
“Desde o início da guerra, na continuidade da sua oposição à ditadura salazarista, que um conjunto não organizado de católicos vinha pontualmente questionando as opções do regime. Algumas iniciativas, como a vigília de São Domingos, a fundação da cooperativa Pragma, a carta aberta ao ditador, o apoio ao Bispo do Porto (expulso por Salazar), a criação da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos foram pontuando os anos sessenta”, precisa.
O padre Agostinho Brígido, missionário espiritano e capitão do Exército, relata a sua experiência como capelão, em Angola, precisamente em 1961, colocado no saliente de Cazombo, Alto Zambeze. “Felizmente que se criou logo uma boa relação entre a tropa e a Missão, gerando-se logo um grande apreço pelo seu trabalho missionário”, recorda.
Os textos publicados estão disponíveis online, na secção «Dossier» do portal da Agência ECCLESIA. 
OC

Um grito contra a guerra

Jorge Wemans, preso em Caxias na sequência do caso da Capela do Rato

Ao princípio da noite de 31 de Dezembro de 1972 a polícia de choque bloqueou com grande aparato todos os acessos à Calçada Bento da Rocha Cabral e intimou os que se encontravam no interior da Capela do Rato a abandonarem-na. Não tendo sido obedecidas, as forças policiais, apoiadas por cães, invadiram-na, arrastando para o exterior todos os que ali estavam. Mais de uma centena de pessoas foi, sob voz de prisão, conduzida para identificação na esquadra da PSP do Rato.
A maioria foi posta em liberdade, mas um grupo foi levado para as masmorras do Governo Civil. Destes, 13 seriam, ainda nessa noite, enviados para a prisão de Caxias. Terminava, desta forma abrupta, a vigília de reflexão sobre a guerra colonial que havia começado 24 horas antes e em que muitas centenas de pessoas tinham participado, entrando e saindo livremente da Capela.
No dia 1 de Janeiro, apesar da proibição policial, celebraram-se na Capela do Rato as missas da manhã, tal como o Cardeal-Patriarca, D. António Ribeiro, havia determinado. No final da última missa os dois padres celebrantes foram presos pela PIDE/DGS. Um deles só seria solto depois de D. António Ribeiro passar uma hora à porta da António Maria Cardoso garantindo que dali só saía levando o preso.
Resumidos em curtos parágrafos, os acontecimentos daquilo que ficou para a história como “O Caso da Capela do Rato” parecem indicar que o afrontamento entre o Governo e a Igreja Católica a propósito da guerra colonial era permanente e total. Nada mais enganador! Pelo contrário, ao fim de uma década de guerra o silêncio dos católicos e da hierarquia católica era ensurdecedor!
É certo que ela já não colhia o apoio entusiástico que a Igreja lhe oferecera nos primeiros anos. Mas a guerra colonial permanecia como assunto tabu, reprimindo-se, dentro da própria Igreja Católica, quem ousasse divulgar os casos mais violentos de massacre e tortura, ou, mais simplesmente, pretendesse reflectir no âmbito eclesial sobre a justeza da guerra.
Então como explicar os acontecimentos da Capela do Rato?
Desde o início da guerra, na continuidade da sua oposição à ditadura salazarista, que um conjunto não organizado de católicos vinha pontualmente questionando as opções do regime. Algumas iniciativas, como a vigília de São Domingos, a fundação da cooperativa Pragma, a carta aberta ao ditador, o apoio ao Bispo do Porto (expulso por Salazar), a criação da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos foram pontuando os anos sessenta.
As relações com movimentos e instituições internacionais (eclesiais e multilaterais) permitiram encontrar solidariedades, textos, reflexões e tomadas de posição que obrigavam a questionar a guerra. Toda a acção de Paulo VI, bem como as suas tomadas de posição e a criação das Comissões Justiça e Paz foram decisivas para despertar as consciências de alguns católicos em Portugal. Mas num país controlado pela censura e pela sistemática apreensão de livros, textos e correio, numa altura em que ainda não existiam nem fotocópias, nem telemóveis, nem Internet, a informação contrária aos interesses do regime circulava devagar e aos soluços.
A partir do final da década de sessenta o número de católicos contra a guerra colonial começou a crescer rapidamente. As eleições de 1969 (com vários católicos envolvidos nas listas de oposição) representaram o canto do cisne da “abertura marcelista”. Cada vez era maior o número de jovens regressados da guerra, testemunhando os seus horrores e sua bestialidade, dando ao mesmo tempo testemunho de uma realidade colonial que era toda ao contrário da “acção evangelizadora e civilizacional” que o discurso oficial da Igreja e do Estado proclamavam. O movimento estudantil tinha iniciado uma fase de radicalização a que a ditadura respondia com cargas policiais, fecho de Faculdades, expulsão de estudantes.
Neste contexto, a oposição à guerra, como imperativo da fé em Jesus Cristo, foi fazendo o seu caminho na consciência de dirigentes dos movimentos juvenis da acção católica, em algumas comunidades, em membros das comunidades religiosas, em padres seculares e em outros grupos eclesiais.
Mais do que um grupo organizado, o que esteve na base do Caso da Capela do Rato foi a convergência de diversas pessoas e grupos mais ou menos informais, marcados por uma solidariedade que já tinha sido testada em anteriores acções de distribuição de panfletos denunciando a guerra colonial, de circulação de livros, textos e informação anticolonial. Rede de relações e solidariedades de que a comunidade a que o Pe. Alberto Neto presidia na Capela do Rato fazia parte. E por isso a iniciativa da vigília pela paz só ali foi possível.
Jorge Wemans, preso em Caxias na sequência do Caso da Capela do Rato, Director da RTP2.

Um capelão em Angola

Agostinho Brígido, missionário espiritano e capitão do Exército

Cheguei a Angola em Abril de 1961. Em 1967 fui escalado para Capelão Militar e com o Batalhão que me coube em sorte, fomos para Angola, colocados no saliente de Cazombo, Alto Zambeze, onde existia uma Missão confiada aos Missionários Beneditinos. 
Felizmente que se criou logo uma boa relação entre a tropa e a Missão, gerando-se logo um grande apreço pelo seu trabalho missionário. 
Depois de algum tempo de estadia em Cazombo, um Oficial e eu, fomos visitar a Missão. No fim da visita esse oficial, surpreendido com o que viu e escutou, desabafa comigo: «Sr.Capelão, confesso que tinha uma ideia errada sobre as Missões. Agora vejo o seu trabalho de dedicação a favor deste povo. Pessoas com cursos que se isolaram aqui com tantos sacrifícios por amor a esta gente aqui esquecida. É a missão que vale a este povo! O que seria desta gente sem a missão?» 
No tempo da guerra a actividade dos Missionários estava bastante limitada porque não podiam sair em visita às suas Comunidades. Mas aquele Oficial apercebeu-se do trabalho da Missão no campo da escolaridade das crianças que sem a Missão não tinham possibilidades de aprender. Os jovens e adultos que se concentraram ao redor da Missão eram objecto de uma atenção constante. 
Ao lado da Missão masculina, onde viviam 2 sacerdotes, um deles bastante novo, havia a Missão das Irmãs Beneditinas. Eram 4 Irmãs de diversas nacionalidades. 
As Irmãs mantinham uma escola de formação com algumas meninas em sistema de internato. Uma competente e dedicada Irmã enfermeira era quem valia a tantos doentes que acorriam à sua ajuda. Esta Irmã fazia autênticos milagres no campo da saúde e se fosse preciso sair de noite da sua residência (e a zona era perigosa!) para atender um doente ela não hesitava. 
E foi o testemunho de dedicação e entrega destes Missionários/as àquela gente que granjearam a admiração e estima de todos os elementos do Exército ali estacionados. 
No saliente de Cazombo, em Cavungo, havia também uma outra Missão, esta protestante. Possuidora de outros meios materiais, desenvolvia igualmente um trabalho muito meritório em todos os campos, sobretudo na escolaridade e saúde. Em terras do “fim do mundo”, em condições tão difíceis, eram as missões que promoviam e valiam àquela boa gente «Luena». 
Pe. Agostinho Brígido, Espiritano e capitão do Exército


Paulo VI: Rezar por todos em tempo de guerra

João Miguel Almeida, historiador

No avião que levava pela primeira vez um Papa a visitar o Santuário de Fátima, em 1967, um jornalista do diário comunistaPaese Sera perguntou-lhe: «Santo Padre, rezará também pelos povos oprimidos de Angola e Moçambique?» «Por todos», respondeu Paulo VI.
Este diálogo, relatado pelo Le Figaro e reproduzido no jornal católico clandestino Direito à Informação, passa despercebido num dos momentos mais delicados nas relações entre o Estado português e o Vaticano, crispadas pela guerra colonial.
As cautelas tomadas por Paulo VI na visita - aterra em Monte Real sem passar em Lisboa, aloja-se na diocese de Leiria em vez de ser hospedado pelo Governo, reza pela paz no mundo, em especial no Vietname - não impedem o episódio de ser visto como um triunfo diplomático do Estado Novo. Alguns opositores católicos ao regime afastar-se-ão mesmo da Igreja.
A tensão entre o Estado português e o Vaticano não provinha apenas do facto da questão colonial portuguesa ter levado alguns católicos a oporem-se ao regime, incluindo membros do clero. A intenção de aggiornamento da Igreja Católica levava-a a ver, além do nacionalismo de uma ditadura que resistia orgulhosamente só, a esperança de novas gerações, africanas e europeias, e de novas dinâmicas da política internacional.
Em Dezembro de 1960 o padre Joaquim Pinto de Andrade foi preso e a Assembleia-Geral da ONU aprovou, apesar da oposição do Governo português, a resolução 1542 (XV) na qual é declarado que a negação da autodeterminação, tal como a ONU a define, «constitui uma ameaça ao bem-estar da humanidade e à paz internacional».
A encíclica Pacem in Terris, publicada em Abril de 1963, teve um cunho de testamento espiritual de João XXIII. Uma das frases da encíclica era: «As pessoas de qualquer parte do mundo são hoje cidadãos de um Estado autónomo e independente ou estão para ser». A palavra «independente» é cortada na edição oficial do texto em Portugal, na União Gráfica.
A 11 de Julho de 1963, o novo Papa, Paulo VI recebe o Secretário-Geral das Nações Unidas U Thant e a 4 de Outubro desse ano discursa nas Nações Unidas, apelando à paz e ao desarmamento e advertindo contra o colonialismo, para choque do Governo português.
A viagem de Paulo VI ao Congresso Eucarístico de Bombaim, em 1964, foi um momento de alta tensão entre o Governo português e o Vaticano, com o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Franco Nogueira, a considerar tal viagem um «agravo gratuito, inútil e injusto a Portugal» por causa da anexação de Goa pela União Indiana.
A visita papal será censurada em Portugal, embora noticiada com êxito na imprensa clandestina. O futuro cardeal patriarca D. António Ribeiro é afastado das funções que exercia na RTP por defender o carácter missionário da visita do Papa à Índia.
A visita de Paulo VI a Fátima em 1967, que começa a ser negociada em plena crise da visita papal a Bombaim, resulta num efémero triunfo para o governo português. Mas as divergências de fundo subsistiam e serão relatadas dramaticamente pela imprensa internacional quando Paulo VI recebe, a 1 de Julho de 1970, três líderes de movimentos de libertação africanos: Marcelino dos Santos, de Moçambique, Agostinho Neto, de Angola, e Amílcar Cabral, da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Paulo VI ter-lhes-á dito «A Igreja está do lado dos países que sofrem» e oferecido a cada um exemplar, em latim e português, da encíclica Populorum Progressio.
O Governo português protesta e o secretário de Estado da Santa Sé procura minimizar o incidente sublinhando o carácter discreto do encontro e que Paulo VI nada dissera que pudesse ofender a Portugal. Estas explicações são adaptadas por Marcello Caetano, o qual chega a insinuar que Paulo VI não tivera total consciência da identidade dos seus interlocutores. E afirma na televisão: «as relações com a Igreja não chegaram a toldar-se sequer.»
Tanto os responsáveis do Estado Novo como a diplomacia vaticana viveram em estado de negação e de minimização de prejuízos de um conflito de fundo. Em Portugal subsistia penosamente um regime que se afirmara nos anos 30 sob o signo do império colonial e o colapso das democracias liberais.
A Igreja Católica enveredara por um aggiornamento com aspectos contraditórios e sujeitos a crises, mas que avançava no terreno social e político. O Estado Novo renunciou, com Marcello Caetano, à justificação do colonialismo pelo cumprimento de uma missão providencial portuguesa, mas não podia ou não queria descolonizar.
A abertura da Igreja Católica ao mundo precisava de ultrapassar uma certa visão eurocêntrica para se tornar mais presente noutros continentes. O regime via na guerra colonial uma necessidade, pois a presença portuguesa em África era oficialmente indiscutível. A Igreja Católica declarava que todos os meios deviam ser discutidos e tentados para chegar à paz, pois, segundo a fórmula do tema escolhido por Paulo VI para 1973, «A paz é possível».
João Miguel Almeida, historiador, investigador do CEHR.

TER, 01 DE FEVEREIRO DE 2011 01:27   
Israel apela a Obama para que apoie Mubarak
O ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Avigdor Lieberman, enviou um telegrama urgente aos seus embaixadores em países-chave, instruindo-os para "sublinharem a importância da estabilidade no Egipto". O mais chave de todos esses países, os EUA, tem sido destinatário de febris comunicações israelitas no mesmo sentido, nomeadamente do ministro da Defesa Ehud Barak.
Segundo a agência France Press, os embaixadores israelitas ficaram incumbidos de fazer chegar aos EUA e aos países europeus uma mensagem em que se afirma a conveniência de manter a posição de Mubarak. “Em consequência, afirma-se também, é necessário refrear as críticas públicas ao presidente Hosni Mubarak”.
Mais explícito, o presidente da comissão parlamentar de Defesa e Negócios Estrangeiros, general Shaul Mofaz, afirmou que “é preciso examinar atentamente o comportamento da Administração norte-americana. Os EUA mostraram que o seu apoio incondicional a um dos seus aliados [Mubarak] se resume de facto a um apoio muito parcial”.
O ministro israelita da Defesa, Ehud Barak, fez saber por um comunicado do seu gabinete que esteve ontem ao telefone com o seu homólogo norte-americano, Robert Gates, para discutir a situação no Egipto. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu manifestara a preocupação israelita pela revolução em curso no país das margens do Nilo, embora sem dirigir qualquer apelo expicito ao presidente norte-americano.
Segundo Netanyahu, citado pelo site da televisão qatariana Al Jazeera, "estamos a acompanhar ansiosamente o que acontece no Egipto e na nossa região (...) Israel e o Egipto têm estado em paz durante mais de três décadas e o nosso objectivo é assegurar que estes laços se mantenham. Neste momento temos de fazer prova de responsabilidade, contenção e prudência".
Um motivo de especial preocupação do Governo israelita tem sido o apelo norte-americano a que a "transição" egípcia se produza sem efusão de sangue. Falar em "transição" é ficar muito próximo de se pronunciar a favor da destituição de Mubarak. E advertir os militares contra a efusão de sangue equivale, do ponto de vista israelita, a inibi-los de recorrer a procedimentos que poderiam revelar-se indispensáveis para restabelecer a ordem ditatorial.
O medo à democracia nos países vizinhos
A imprensa israelita reflecte as preocupações dos seus governantes com menos contenção. Segundo o comentador do diário Yediot Ahronot Sever Plocker, "Os israelitas foram tomados pelo medo: o medo da democracia. Não aqui, mas nos países vizinhos".
A imagem de democrata e de ocidentalizado que ostenta a figura de proa da oposição, Mohamed el-Baradei, amante de ópera e jogador de golfe, não tem bastado para tranquilizar os dirigentes israelitas. A ninguém passou despercebido que, apesar do seu enorme prestígio, Baradei apenas teve uns poucos apoiantes a recebê-lo no aeroporto. E é considerado provável que uma coligação encabeçada por ele tenha de aceitar em lugar destacado os principais quadros da Irmandade Muçulmana.
No mesmo Yediot Ahronot, um ex-embaixador israelita no Cairo, Eli Shaked, referia-se à perspectiva de realização de eleições nos próximos meses nos seguintes termos: "Se essas eleições forem feitas nos moldes que os Americanos desejam, o resultado mais provável é a Irmandade Muçulmana ganhar a maioria e tornar-se a força dominante do próximo governo. Por isso é só questão de um tempo breve até a paz de Israel com o Egipto pagar o preço".
A "paz de Israel com o Egipto" permitiu ao Estado judeu baixar o seu orçamento militar, de 23 por cento que era do PIB em 1979, para 9 por cento hoje e permitiu-lhe reduzir os milhares de soldados que tinha ao longo da fronteira israelo-egípcia a uma escassas centenas. A redução do orçamento militar pesou de forma considerável na prosperidade económica de que tem gozado o Estado de Israel.
"O presidente que perdeu o Egipto"
O colunista do diário Haaretz Aluf Benn aventura-se no terreno das comparações históricas: "Jimmy Carter ficará na história americana como 'o presidente que perdeu o Irão', que durante o seu mandato passou de um dos maiores aliados estratégicos dos EUA a ser uma república islâmica revolucionária". Por sua vez, "Barack Obama será lembrado como o presidente que 'perdeu' a Turquia, o Líbano e o Egipto, e durante cujo mandato se desmoronaram as alianças da América no Médio Oriente".
Entretanto, e para além das manifestações que continuam a sacudir a Tunísia e das que começaram a sacudir o Iémen e a Jordânia, outras ditaduras ou regimes autoritários magrebinos encontram motivos de preocupação. Disso deu conta o primo do rei Mohammed VI, príncipe Moulay Hicham, ao afirmar que "não podemos enganar-nos: quase todos os sistemas autoritários serão afectados pela vvaga de protestos. Provavelmente, Marrocos não será excepção".
Segundo o príncipe, a "dinâmica de liberalisação política iniciada nos final dos anos 90 praticamente terminou. Voltar a dinamizar a vida política marroquina no contexto regional, evitando os radicalismos, será um grande desafio".
Protestos no Egito colocam Obama contra a parede
Mubarak é aliado histórico dos EUA e fim do regime pode trazer turbulências à região
Obama chegou a ser cobrado pelo líder da oposição - dilema é apoiar movimento popular ou segurar regime que garante estabilidade regional
Os milhares de manifestantes que saíram às ruas do Egito nos últimos dias já causaram fortes abalos no regime de Hosni Mubarak. Mas a onda de protestos também é sentida nos Estados Unidos.
Em Washington, o governo Barack Obama precisa decidir de que lado ficará: se apoiará o movimento popular, que pede o fim do autoritarismo, ou se continuará segurando no poder um velho aliado, que controla o Egito com mão de ferro há 30 anos, garantindo alguma estabilidade à vizinhança.
Neste domingo (30), Obama sinalizou que o apoio a Mubarak nas últimas três décadas pode estar chegando ao fim. A Casa Branca soltou um comunicado pedindo uma “transição ordeira” no Egito, e apelando para que os direitos humanos sejam respeitados no país. Nos últimos dias, mais de cem pessoas morreram.
Segundo nota da Casa Branca, os EUA vêm coordenando suas posições com os governos aliados da Turquia, da Arábia Saudita, de Israel e do Reino Unido.
Oposição egípcia cobra EUA
Apesar do apelo dos EUA, que despejam cerca de R$ 2,5 bilhões (US$ 1,5 bilhão) de ajuda anualmente no país, o regime egípcio parece disposto a resistir às manifestações. Neste domingo, Mubarak ampliou o toque de recolher e mandou a polícia de volta às ruas.
A população, no entanto, tem desafiado o governo e continua protestando. Neste domingo, o Prêmio Nobel da Paz Mohammed ElBaradei se uniu à multidão no centro do Cairo e pediu a saída de Mubarak.
Mais cedo, ElBaradei cobrou uma posição mais firme de Obama.
- É melhor o presidente [Barack] Obama não mostrar que ele será o último a dizer ao presidente Mubarak: “Chegou a hora de sair”.
Até então, tanto Obama quanto a secretária de Estado, Hillary Clinton, haviam feito declarações ambíguas, dizendo respeitar a vontade popular e dando apoio velado a Mubarak ao mesmo tempo.
RTP/AFP

QUI, 03 DE FEVEREIRO DE 2011 21:01   
Portugal apoiou MPLA após descolonização e ignorou uma guerra civil que vinha desde 1962
carlos pachecoO historiador luso-angolano Carlos Pacheco militava no MPLA aquando do processo de descolonização de Angola e mantém, décadas passadas, que esta foi feita de forma parcializada, com apoio de Portugal aquele movimento, e ignorando uma guerra civil que já existia.
"A descolonização foi apressada, parcializada, feita com apoios dados a uma das partes, a um dos atores que foi o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola)", afirma Carlos Pacheco, em entrevista à Agência Lusa.
Esse apoio era evidente, tanto por parte do poder político, como "das chefias militares", garante o historiador, recordando que "nessa altura militava no MPLA e esse apoio era patente e teve consequências gravosas".
Para sustentar esta tese, cita uma frase que Marcelo Caetano, o último presidente do Conselho do Estado Novo, terá dito, confrontado com a eventual necessidade de encontrar uma formula para começar a negociar com os movimentos de libertação, dizendo "não com o FNLA, não com a UNITA, só com o MPLA".
Carlos Pacheco sustenta que "Portugal foi entregando, foi entregando tudo ao MPLA, que ficou senhor total da capital quando Angola estava ainda sob a soberania portuguesa" e que se "cometiam desmandos, coisas execráveis, nefandas, ainda em 1974, perante o olhar cúmplice das autoridades portuguesas, ainda no tempo do Rosa Coutinho e do seu ajudante de ordens, Emílio da Silva".
A esta censura, o historiador acrescenta a de que "Portugal ignorou que as três forças políticas já vinham fazendo guerra entre si".
Desde 1961 a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) e o MPLA e depois a UNITA, que aparece mais tarde, em 1966, enfrentavam-se, "havia uma guerra dentro da guerra", advoga Carlos Pacheco.
Quando se assinalam os 50 anos do início da guerra colonial, Carlos Pacheco defende, por isso, que "a guerra civil em Angola que irrompe em novembro de 1975, embrionariamente estava instalada e Portugal sabia disso. Basta consultar os documentos da PIDE, está lá tudo".
O historiador considera que "havia três guerras" porque "os chamados movimentos de libertação tinham as armas voltadas contra a máquina de guerra portuguesa mas também uns contra os outros e havia ainda a guerra dentro dos movimentos".
Para ilustrar, refere relatórios, cartas, "informações dadas pelas chefias militares" que mostram que "quem ousasse sequer manifestar uma discordância para com as políticas autoritárias de Agostinho Neto (dirigente do MPLA), de Jonas Savimbi (UNITA) ou de Holden Roberto (UPA/FNLA) desaparecia".
Sobre a atualidade e os atrasos de desenvolvimento de Angola, Carlos Pacheco acusa "os burocratas do regime que até à pouco tempo atribuíam responsabilidade ao colonizador" e afirma que "hoje, a responsabilidade já não é do colonizador".
A responsabilidade de Portugal, sustenta, é que não construiu elites culturais e empresariais e por isso "o pais não acede à independência com estruturas, com elites formadas", mas "deixou coisas boas, muito boas infraestruturas, por exemplo, e aqueles senhores foram-se encarregando de destruir tudo".
O historiador luso-angolano, autor de vários estudos publicados sobre os primórdios da luta armada em Angola e sobre o processo pós-colonial, prepara agora um novo livro, sobre Agostinho Neto, em que traça "o perfil de um ditador" e faz uma análise "das entranhas do MPLA".
O historiador luso-angolano Carlos Pacheco autor do livro Angola, um gigante com pés de barro.
LUSA