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Tuesday, February 15, 2011

Lukamba Gato: Savimbi foi derrubado pelos interesses do Ocidente


A morte do fundador do Galo Negro na visão de Lukamba Paulo Gato
Às portas do dia 22 de Fevereiro, data em que, de uma ou de outra forma, o país rememora o líder-fundador do Galo Negro, o Semanário Angolense entendeu por bem perorar com o deputado à Assembleia Nacional (AN) pela UNITA, Lukamba Paulo Gato, sobre a saga de Jonas Malheiro Savimbi no que tange aos últimos dias da «sua» guerra de guerrilha de aproximadamente trinta anos pela «independência total» de Angola.
Paulo Gato «dissertou» sobre o final trágico do velho guerrilheiro, varado - nas chanas do Leste, província do Moxico - por balas disparadas por um número restrito de «comandos» da Unidade Anti-Terror (UAT), apoiados por efectivos das Forças Armadas Angolanas (FAA) que contaram com o concurso primacial do então Serviço de Informações (SINFO), hoje Serviços de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE). O antigo Secretário-Geral do Galo Negro não deixou de falar do impacto do fim da Guerra-Fria na luta que a UNITA travava contra o Governo angolano, a «traição» do «amigo americano», e sobre o apoio material e financeiro dos franceses para a campanha eleitoral de 1992.
General reformado das FALA – braço armado da UNITA -, o interlocutor do SA conta também quando, onde e como teve o último contacto com o líder-fundador do seu partido e revela como a «Nova Ordem Mundial», emanada do fim da Guerra-Fria, fez Jonas Savimbi perder as suas principais moedas de negociação com o Governo.
Mais: explicou por que razão foi Abreu Kamorteiro a assinar os Acordos de Paz, a 2 de Abril de 2002, no Parlamento angolano, em Luanda, e não ele, enquanto SG do seu partido e líder da extinta Comissão de Gestão do Galo Negro.
Semanario Angolense (SA) – Tem um filho com o nome de guerra de Jonas Savimbi?
Lukamba Paulo Gato (LPG) – De facto, um dos meus filhos chama-se Alberto dos Jagas Lukamba Paulo. «Jaguar Negro dos Jagas» era o nome de guerra de Jonas Savimbi. O meu filho, que tem hoje 14 anos de idade, sabe que leva parte do nome de guerra de um homem que marcou a História deste país, desde os primórdios da Luta de Libertação nos anos 60 à data da sua morte, no início do Século XXI.
SA – Valeu a pena o esforço para o alcance da paz que vivemos?
LPG – Hoje estamos em condições de dizer em voz alta e bom som que, neste país, nunca mais à guerra. Mas como proceder para que se evitem conflitos sociais que resvalem para o antagonismo? É preciso que os dirigentes angolanos aprendam com os erros do passado. Jonas Savimbi foi um líder de convicções muito profundas e levou-as até às últimas consequências da sua lógica. Chegou a ser descrito por um historiador togolês como sendo «L’homme des grands reffus», o homem das grandes recusas. Recusou o colonialismo português, desde muito jovem, ainda na UPA; recusou também toda e qualquer outra dominação estrangeira. No entanto, o fim da Guerra-Fria, na última década do século passado, alterou profundamente os interesses geoestratégicos, sobretudo, da potência vencedora, o que de certo modo precipitou certas tomadas de decisão no que diz respeito à resolução de alguns conflitos regionais.
E talvez Jonas Savimbi não tivesse compreendido que o fim da Guerra-Fria iria representar, em certa medida, o atenuar das chamadas grandes clivagens ideológicas, em benefício dos interesses económicos. Portanto, há uma série de perguntas que hoje, à distância do tempo, me coloco. Tal como o General (Charles) De Gaulle, que depois de tanto esforço e luta para a libertação da França contra a ocupação nazi, não previu que, pouco mais 20 anos depois, a juventude do seu próprio país, que tinha feito dele um ídolo, fosse revoltar-se a dado momento, a ponto de o levar à demissão.
SA - Está a falar de «Maio de 1968»?
LPG – Exactamente. A maior aspiração dos jovens franceses, em 1968, era a de desfrutar dos benefícios da paz, da liberdade e do desenvolvimento.
SA – Jonas Savimbi não soube ler os sinais dos tempos?
LPG - Os grandes homens também são humanos e podem não ter, necessariamente, a um dado momento, a leitura mais exacta dos sinais dos tempos. O fim da Guerra-Fria criou também aquilo a que chamo de «businessisação» da política. Teria Jonas Savimbi,um homem com uma grande convicção ideológica, previsto que os interesses económicos poderiam a certa altura da História comandar os destinos do mundo? Talvez não!
Tudo isto criou várias dificuldades para a UNITA. A forma como os ocidentais pensaram ajudar a solucionar aquele que foi um dos conflitos regionais decorrentes da Guerra-Fria também não foi das melhores. O interesse económico dos ocidentais pesou mais do que o desejo dos angolanos para uma verdadeira paz e reconciliação.
SA – Esta é uma indirecta para Portugal?
LPG – Não! Portugal foi apenas um actor, não o mentor. O mentor foi o vencedor da Guerra-Fria.
Hoje temos uma situação quase semelhante no nosso continente, o caso da Cote d’Ivoire. E é daqui do nosso país que partem ideias para não se recorrer à força (das armas) e à não interferência da Comunidade Internacional. Mas o que é que se passou aqui? Pela primeira vez, vimos as Nações Unidas a aplicarem sanções irracionais contra uma das partes (UNITA),criando um sentimento de impunidade e arrogância à outra parte (Governo). Mesmo quando depois se disse que se iria atribuir o cargo de vice-presidente a Jonas Savimbi para se sair da crise, de facto não era a vice-presidência. O que se ofereceu a Jonas Savimbi foi o posto de «vice-presidente do vice-presidente».
SA – Quem seria vice-presidente, de facto?
LPG – Seria alguém ligado ao Presidente (José) Eduardo dos Santos e ao MPLA.
SA – Quem seria…?
LPG – Não sei quem seria! O VII Congresso do partido (UNITA), no Bailundo, em 1996, analisou esta situação. Mas quando se aprofundou a proposta e chega de Luanda a informação segundo a qual Jonas Savimbi seria o segundo vice-presidente, eu via o líder da UNITA de forma desconfortável, pela sua personalidade e carisma, aceitar um posto que o relegava para o terceiro nível.
Tudo isto foi ditado pelos interesses económicos das potências ocidentais, que se precipitaram para que houvesse uma solução qualquer do nosso conflito. A partir de 1991/2, Jonas Savimbi não poderia mais sobreviver ao peso colossal dos interesses do Ocidente. O Ocidente não teve em conta o futuro dos angolanos. Por isso é que hoje temos uma democracia completamente manca. Basta olhar para a Assembleia Nacional, onde o partido no poder (MPLA) tem 191 assentos e o segundo partido (UNITA) 16.
Isso não é bom nem para o país, nem para o próprio MPLA, muito menos para a nossa jovem democracia. Com oitenta e um porcento, não é possível a humildade necessária para manter-se perto das preocupações profundas da população.
SA – Voltando ao «22 de Fevereiro»: a Comunidade Internacional sancionou a UNITA, com os EUA à cabeça. Daí o facto de o Galo Negro ter-se virado para França, no sentido de obter apoios.
LPG – Isso foi logo em 1991. O velho Jonas (Savimbi) fez uma leitura clara da situação logo depois da precipitação dos Acordos de Bicesse. Vou contar-lhe um episódio para ilustrar o que se passou. Primeiro, ao nível da Comissão Conjunta Político-Militar (CCPM),houve uma mudança de atitude nítida por parte dos americanos a favor do Sistema. Segundo, terminada a guerra, quando nos preparávamos para as eleições de 1992,fomos ter com os americanos para ver em que medida poderiam ajudar financeiramente a campanha eleitoral da UNITA. Para nossa surpresa, não nos deram sequer um dólar. Hábil diplomata que era, Jonas (Savimbi) criou imediatamente uma delegação que enviou à França para encontrar alternativas.
SA – Quem chefiava esta delegação?
LPG – Esta delegação era che-fiada por mim. Tinha estado dez anos em França, como representante do meu partido. E conhecia bem os meandros da política e da diplomacia, apesar de na altura estarem os socialistas no comando. Conseguimos encontros ao mais alto nível que resultaram em apoios substanciais para a campanha eleitoral que fizemos, embora estes apoios tivessem chegado em cima da hora. Portanto, os interesses dos americanos estavam claros. Hoje entendo melhor. O raciocínio dos americanos deverá ter sido muito simples: entre Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos, depois da Guerra-Fria, o interesse dos americanos estava mais virado para este último, que só estava em posição de fazer concessões, se quisesse sobreviver. Jonas Savimbi, por outro lado, estava em posição de força. Por isso fazia parte do bloco que venceu a Guerra-Fria. Logo, estava em condições de fazer exigências.Portanto, a escolha dos americanos não poderia ser difícil.
SA – A lógica dos americanos foi: «Show me the money, I show you the way»?
LPG – That’s correct! Depois desta escolha, Jonas Savimbi não poderia mais sobreviver.
SA – Então a sorte de Jonas Savimbi começou a ser traçada depois do final da Guerra-Fria?
LPG - Jonas Savimbi e a UNITA foram extremamente sacrificados na luta contra o expansionismo soviético na África Austral.
Jonas Savimbi era um homem profundamente perspicaz, de convicções profundas. O carisma e a personalidade do patriota angolano, que era Jonas Savimbi, criaram receios à Comunidade Internacional. Portanto, só havia motivos para exclui-lo.
SA – Jonas Savimbi terá caído sobre a sua própria baioneta devido à teimosia?
LPG – Jonas Savimbi tinha uma visão muito própria sobre Angola. Ele sabia que seria alvo de rejeição por parte dos seus adversários. Aliás, os seus adversários foram demonstrando isso ao longo do tempo. Jonas Savimbi foi até às últimas consequências em nome das ideias que defendia. Jonas Savimbi dizia que não tinha conhecido nenhum general ou exército que tivessem sobrevivido depois do seu desarmamento. Portanto,quando as Nações Unidas determinaram, em Lusaka (Zâmbia), com base na «Resolução 435», o seu desarmamento e a entrega das parcelas dos territórios controlados pela UNITA,ele (Jonas Savimbi) compreendeu que a sua principal moeda de negociação tinha-lhe sido retirada.

A Dimensão Diplomática Da Visão Política De Jonas Malheiro Savimbi - Alcides Sakala


Luanda - Agradeço o convite que me foi endereçado pelo Secretariado-geral do Partido para prestar as minhas reflexões à volta do pensamento diplomático do Dr. Savimbi. Tenho estado envolvido com a diplomacia do partido desde 1980, e na relação directa de trabalho que estabelecemos com o Dr. Savimbi, até 22 de Fevereiro de 2002, data da sua morte em combate, e a quem rendemos hoje homenagem, podemos identificar importantes linhas de força na sua visão estratégica e diplomática.
Savimbi fez alianças com a China Comunista de Mao Tsé-Tung nos anos sessenta




Nessa perspectiva, interessa referir que a formulação estratégica do pensamento diplomático do Dr. Savimbi tem como base o pragmatismo, ou seja, o realismo político e ocorreu num contexto internacional, palco de profundas mudanças no plano europeu e do poder mundial.
Impõe-se, assim, essa reflexão nesta quadra de celebrações do dia 13 de Março de 2011, data em que a UNITA celebra 45 anos da sua existência, em Angola, em África e no Mundo.

De facto, o fim da II guerra mundial, em 1945, determinou novos alinhamentos em matéria de política internacional. Os desentendimentos surgidos entre os aliados da II guerra mundial -  França,  Inglaterra,  Rússia Soviética e os Estados Unidos da América - sobre a gestão da paz para a Alemanha, levaram a divisão da própria Alemanha em dois Estados e  do mundo em dois blocos: um, liderado pelos Estados Unidos da América, assumidamente democrático, e outro, pela União Soviética, assumidamente comunista. Esses desentendimentos deram origem à guerra-fria, enquanto sinónimo de confrontação ideológica entre os países do bloco de Leste e do Ocidente.

É importante, assim, frisar, que nesse mesmo período pós- guerra, os milhares de africanos, recrutados nas colónias,  que tinham combatido ao lado das potências ocidentais, em solo europeu para a defesa da democracia, contra a Alemanha Nazi, expansionista e totalitária, regressaram para as suas terras de origem, confrontados com a questão colonial. Esta passagem, de milhares de africanos e asiáticos, pelos campos da batalha da Europa ocidental, permitiu despertar a consciência mundial dos povos oprimidos, levando as suas elites a promover uma importante conferência internacional.

Esta conferência, conhecida por Bandung, realizada na Indonésia, em 1955, sob impulso de nacionalistas pan-africanos e pan-asiaticos criou uma importante plataforma para melhor coordenar os esforços de luta dos povos oprimidos pelas potências coloniais europeias. Surgiu, assim, o movimento dos países não alinhados, também conhecido por países do terceiro Mundo, afirmando-se no plano internacional com uma única e importante voz no seio das Nações Unidas, já que as duas superpotências estavam predispostas a envidar esforços para iniciar a descolonização em África e a Ásia.

Este ambiente, de política internacional, que se vivia num mundo em mudança, de facto, teve uma grande influência no pensamento político-diplomático do Dr. Savimbi que se preparava, então, para criar uma terceira força política. Logo, a criação da UNITA foi, de facto, decidida em Champaix, Suíça, pelo Dr. Savimbi e António da Costa Fernandes, tendo a sua fundação formal ocorrido a 13 de Março de 1966, em Angola, na província do Moxico, na localidade de Muangai. Recorde-se que a UNITA fará no próximo dia 13 de Março de 2011 45 anos de existência.

Por conseguinte, antes de se formalizar a criação da UNITA, houve a necessidade de se formar os primeiros quadros políticos e militares que fossem capazes de traduzir, na prática, a ideologia e os ensinamentos teóricos da nova organização e de conduzir o combate armado no interior do país em moldes científicos. Partindo do princípio de se contar, essencialmente, com as próprias forças e com a Direcção da luta  sediada no interior do país, o Dr. Savimbi defendia a necessidade de se dar um novo rumo a luta de libertação nacional. Partia da necessidade de se fomentar a luta armada no interior do país com a participação de todos os dirigentes ao lado do povo e dos soldados, contrariamente aos outros movimentos de libertação que tinham as suas direcções políticas no exterior do país.

Com este pensamento estruturante em mente, o Dr. Savimbi realizou visitas diplomáticas a vários países com o propósito de os sensibilizar a dar apoio técnico e facilidades de treino aos jovens quadros da UNITA para o combate contra o colonialismo português.

Visitou a Argélia em 1963; em 1964 visitou a Tanzânia e o Egipto, sem ter conseguido os resultados que desejava. Foi nessa altura que um amigo seu, o Presidente Nasser, recomendou que visitasse a União Soviética, tendo-se deslocado sucessivamente a Checoslováquia, a Alemanha Oriental, a Hungria e a Moscovo. Mas os países do bloco de Leste também se recusaram a dar qualquer tipo de ajuda a nova organização que seria criada, tendo Moscovo sugerido que o Dr. Savimbi se devia juntar ao MPLA. Goradas, assim, as expectativas, voltou novamente ao Cairo, em 1964, onde estabeleceu contactos com a Embaixada da República Popular da China que acolheu com simpatia a mensagem do Dr. Savimbi.

A China abria, assim, as suas portas à UNITA, graças aos esforços diplomáticos do Dr. Savimbi, produto das suas amizades no Egipto. A China aceitara dar preparação aos 12 primeiros quadros políticos e militares que constituíram, na época, o embrião revolucionário da futura organização.

Tinha havido, de facto, convergência de pontos de vista entre os jovens intelectuais angolanos da UNITA com os interlocutores chineses em relação ao pensamento estratégico de se levar “o combate ao interior do país”, o que se coadunava com a filosofia de luta da China Popular.

Esta primeira etapa foi palco de uma importante actividade diplomática que se viveu antes, durante e depois do nascimento da UNITA. Foi a fase da afirmação internacional da UNITA, enquanto movimento político de libertação nacional. A Representação da UNITA, em Lusaka, na Zâmbia, desempenhou, nesse período um papel muito importante, que vai de Março de 1966 a Abril de 1974, com a consumação do golpe de Estado em Portugal que derrubou o fascismo salazarista. Não falaremos da nossa acção diplomática no período da descolonização que ocorre entre 1974 e 1976, mas abordaremos, em síntese, a fase mais complexa da nossa diplomacia que começa em 1976, com a nossa retirada estratégica das cidades.

Estávamos em Maio de 1976, na localidade de Sandona, num dos afluentes do rio Lungue-bungo, onde se realizou a Conferência Extraordinária de Quadros, que produziu o Manifesto do Rio Cuanza - documento orientador da acção política e militar - que definia os fundamentos de uma resistência popular prolongada.
Tínhamos tomado a decisão histórica de resistir a presença soviética e cubana com armas na mão, e sem apoios internacionais, apenas com apoio do povo. Nessa altura, os estados Unidos da América atravessavam um momento difícil, que decorria do trauma da derrota sofrida no Vietname em 1975. O Congresso americano tinha adoptado a Emenda Clark.

Esta proibia qualquer ajuda aos movimentos que, em Angola, a lutassem com as forças de ocupação da Rússia Soviética. Estávamos, de facto, sós, diante do nosso destino, apenas com o nosso povo e com a nossa coragem física e intelectual. Com a ajuda do povo, conseguiu-se suster as primeiras ofensivas militares na província do Moxico, paralisando, por completo o caminho-de-ferro de Benguela, o CFB; uma via-férrea estratégica que liga o porto do Lobito, a rica província do Shaba, na República Democrática do Congo, o que afectava profundamente a economia da Zâmbia e do Zaire.

A paralisação do CFB deu, assim, e como se pretendia, visibilidade internacional aos esforços de resistência da UNITA, que lutava sem ajuda internacional. A resistência começava a dar os primeiros frutos, provando, que eram os factores internos, em interacção dinâmica, que influenciavam as causas externas. O Dr. Savimbi entendera, perfeitamente a conjuntura internacional da época, assim como a dimensão geopolítica das grandes potências. Soube tirar partido das circunstâncias internacionais e da conjuntura regional da África Austral. Qual era, assim, a conjuntura internacional da época na sub-região austral?

Nessa época de 1978, as invasões, a partir de Angola, de forças coligadas de Cuba, de Angola, da União Soviética e mercenários Catangueses, secessionistas congoleses, exilados em Angola desde a época colonial, e ao serviço do governo angolano, despertaram receios sobre um conflito regional de grandes proporções. De facto, o contra-ataque de forças francesas e marroquinas, em socorro ao Presidente Mobutu, na província do Shaba, envolvendo-se em violentos combates, avivaram a consciência internacional para o perigo de confronto entre as duas superpotências em África. Estes confrontos, na província do Shaba, aliada à acção da UNITA em território nacional e à paralisação do CFB, transformaram-se num importante trunfo diplomático ao serviço dos interesses da UNITA, tanto no plano nacional como internacional.

A partir dos anos 80, com a criação da Jamba, o Dr. Savimbi, e o instrumento de luta que criara em 1966, demonstrava a sua capacidade de sobreviver, contando essencialmente com as suas próprias forças. Tínhamos vencido todas as ciladas e a UNITA assumia-se como aliada aos esforços internacionais para combater o social imperialismo. Logo, a conjuntura regional exigia a definição de uma política externa realista.

Logo, é nesse contexto que têm de ser entendidas as relações da UNITA com a África do Sul, que se estabeleceram na base de interesses geopolíticos regionais, no contexto das relações de força entre as duas superpotências, conhecidas que eram as intenções da então União Soviética, ou seja, ocupar a Namíbia e a África do Sul. Com a revogação da emenda Clark, em meados dos anos 80, a América, desperta e sob a liderança de Ronald Reagan, passou a dar ajuda multiforme à UNITA, ajuda política, diplomática, financeira e militar para contrabalançar a presença e o apoio militar da União Soviética e de Cuba ao governo de Angola.

Esta nova conjuntura de política internacional, aliada à resistência nacional da UNITA, ditou, no início dos anos 80, o reforço e a abertura de novas delegações da UNITA, ou seja, de novas embaixadas na Europa, em África e nos Estados Unidos da América. Assim, a partir dos anos 80, a UNITA, sob liderança do Dr. Savimbi negara a pretensão da União Soviética e de Cuba de transformar o nosso país numa base militar. Rodeado por jovens e brilhantes oficiais generais, e por diplomatas experientes, alguns ainda em vida, o Dr. Savimbi estancou, no fim da década dos anos 80, na província do Cuando Cubango, a progressão das forças cubanas, soviéticas e do exército angolano, que pretendiam, de facto, ocupar a Jamba, a Namíbia e a África do Sul.

Frustrados esses intentos, e derrotadas em violentos combates, que se travaram na extensa região do Município do Cuito Cuanavale, sem nunca terem ocupado a Jamba, emergiu um novo quadro político, que exigia soluções políticas e diplomáticas. Sem vencedores nem vencidos, o impasse das batalhas do Cuito Cuanavale abriu caminho a negociações directas entre todos os beligerantes, ou seja, entre russos, cubanos, sul-africanos, americanos, a UNITA e o governo angolano.

Sob a mediação do governo americano, na pessoa de Chester Croker, então Subsecretário para os Assuntos Africanos, a Casa Branca propôs a política do “ linkage”, que determinou a retirada simultânea das forças cubanas e russas de Angola e sul-africanas da Namíbia, levando os Namibianos a proclamar a sua independência nacional em 1994. Em Angola, iniciarem-se negociações directas entre a UNITA e o governo angolano que conduziram a assinatura dos Acordos de Bicesse, em Maio de 1991. Estava, assim, encerrada uma página importante da história moderna de Angola.

Por conseguinte, desde a sua fundação, e, no longo percurso da sua história política e diplomática, Jonas Malheiro Savimbi fez alianças com a China Comunista de Mao Tsé-Tung nos anos sessenta. Celebrou acordos de cooperação e consolidou amizades pessoais com importantes dirigentes e líderes de países africanos, como Sedar Leopold Senghor, Hassan II, Houphouet Boingy e Nelson Mandela, apenas para citar estes. Estabeleceu alianças tácitas com os sul-africanos nos anos 80 e exigiu a libertação de Nelson Mandela como veio acontecer. Formou importantes quadros políticos e militares da SWAPO, nas suas bases no leste de Angola, alguns ainda em vida. Vaticinou junto dos sul-africanos que os únicos interlocutores que tinham na Namíbia e na África do Sul eram a SWAPO e o ANC, e não os partidos fantoches que o regime do apartheid criara. Partilhou reflexões com Che Guevara em plena guerra colonial. Foi recebido diversas vezes, e em apoteose, na Casa Branca e no Capitol Hill, Congresso americano, em Washington, como “freedom fighter”, ou seja, como combatente da liberdade. Teve, em meados dos anos 80, vários encontros com importantes personalidades e políticos em Portugal, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e França. Reuniu, na Jamba, nessa mesma década, os actores mundiais mais importantes da frente unida da luta contra o expansionismo russo e cubano, incluindo os “mujahedines do povo” do Afeganistão. Libertou, por razões humanitárias, soldados e pilotos russos e cubanos, capturados em combate. Entregou ao ANC, nos anos 80, apesar dos protestos dos sul-africanos, guerrilheiros do ANC, capturados na província do Bengo, através da Zâmbia de Kenneth Kaunda, que se encontram ainda em vida na África do Sul. Fez da UNITA a vanguarda dos povos de Angola da luta pela democracia até o dia da sua morte.

Enquanto diplomata, alicerçado no realismo político, concretizou o seu sonho, legando para as novas gerações dos povos de Angola, o multipartidarismo, como contributo do seu longo combate por África e por Angola.

Elias Salupeto Pena, ex - Chefe da Delegação da UNITA à CCPM
 Terça, 07 Junho 2011 11:45

Foi a figura que,  mais se notabilizou no período  após  os acordos de paz de Bicesse de 1991, que a 31 de Maio ,  completou 20 anos desde a sua assinatura em Portugal.  Elias Salupeto Pena era,  a  época o Chefe da Delegação da UNITA à Comissão Conjunta Político -Militar (CCPM), o órgão reitor na implementação  dos Acordos.
Era mais conhecido pela  negativa através dos  seus discurso  inflamados na fase em que o ambiente de paz não  inspirava confiança. Para os críticos, ele foi uma das figuras mais bem explorada  pelo marketing político  do regime  angolano. Na altura aconteciam incidentes políticos e a comunicação social passava apenas  as suas reacções “reacionárias”  sem explicar aos telespectadores o que teria acontecido para o homem reagir de tal forma. Uma das reações foi ao assassinato, do então Secretario da UNITA em Malange, Pedro Makanga,  e  uma reação a  dados  de inteligência que alertava a planos do regime angolano que levariam ao  assassinato de Jonas Savimbi, daí que Salupeto Pena  ficou conhecido como o  autor da frase “se tocarem no nosso mais velho  isto vai  ficar feio”.
Figuras que partilhavam com ele descrevem-no como uma pessoa tranqüila ao contrario da imagem que se teve dele na véspera do período da abertura do multipartidarismo. Há também  quem explique os seus discursos inflamados como reflexo  do marketing do regime ou a um  alegado “excesso de poder”  dado por Jonas Savimbi  e que “lhe subira a cabeça”.
Elias Salupeto Pena, nasceu  a  09 de Abril de 1952 em Caricoque, Província do Bié. é  filho de  Isaac e Judite Pena, a  irmã mais velha  de Jonas Savimbi. Fez  os  seus estudos primários na Missão do Chilesso, e os Secundários no Bié e no Lubango.  O envolvimento com a UNITA aconteceu em 1974   participando em grupos de mobilização da juventude. No ano a seguir foi eleito  como  Secretário Nacional da JURA. Com o início da guerra civil, em conseqüência dos desentendimentos entre os  três movimentos de libertação nacional,  Salupeto Pena integrou ao Estado Maior das forças da UNITA, na província do Huambo e  em Dezembro do mesmo ano saiu gravemente ferido em combate tendo sido evacuado (em 1976)  para tratamento médico na Zâmbia.  Após a recuperação  permaneceu  neste país  como Representante da UNITA.
Dois anos depois,  foi enviado para  Costa do Marfim, onde  licenciou-se  em  Agronomia. A época, o seu melhor amigo era George Rebelo Chicoty,  antigo  estudante da UNITA  neste país africano. No sentido de o ver com uma especialização academica, o seu tio Jonas Savimbi  enviou-lhe para França. Salupeto Pena  pediu ao tio que lhe fizesse um “especial favor” que era de enviar também o seu amigo Rebelo Chicoty, a paris. Em privado, Jonas Savimbi dizia “não” ao pedido,  sob alegação de que iriam distrair se “nas miúdas”. O tio cedeu as suas pressões e como prova de que estaria  cumprir com as suas obrigações  doutorou-se na capital francesa.  Neste período, em que continuava com os estudos,   foi  nomeado Secretário das Relações Exteriores da JURA, até 1983,  ficando conhecido pelo papel que teve na mobilização e enquadramento da  juventude exilada e aos estudantes da UNITA.
Após a conclusão dos seus estudos, em 1987,  regressou  ao interior de Angola,  sendo nomeado Secretário da Agricultura e Pecuária.  Foi ele, o  responsável da promoção do trabalho de desenvolvimento de  auto-suficiência alimentar junto dos  camponeses nas áreas controladas pela  UNITA. Posteriormente seria  nomeado Secretário do Planeamento  Económico da UNITA.
No seguimento dos acordos de Paz de Gbadolite, em 1989, Salupeto Pena participou na delegação Negocial encabeçada por Jorge Valentim  e posteriormente integrou  a delegação negocial  nas negociações em Portugal, que levaram  aos Acordos de Bicesse.  Em 1991 foi  nomeado Chefe da Delegação da UNITA à CCPM, cargo que desempenhou  até à sua morte. Foi eleito Deputado pelo Circulo Nacional nas eleições de Setembro de 1992 e participou nas  negociações para a resolução da crise pós-eleitoral.
Na tarde em que iriam  assinar os acordos que determinavam a segunda volta das eleições presidências em Angola, a cidade de Luanda entrou em “fogo cruzado”. Do hotel turismo onde se encontrava com os seus companheiros,  telefonou para o seu homologo do MPLA, o general António França “Ndalu” para tentar perceber o que se estava a passar e teve  como resposta:  “façam o que poder”.
Logo a seguir ao contacto com general “Ndalu”, o engenheiro  Salupeto Pena e os seus companheiros compreenderam que poderiam estar a premio e decidiram, abandonar Luanda  em caravana rumo a Caxito onde se encontravam os  generais  Nbula Matadi e Abilio Kamalata Numa.  O grupo de Salupeto  pensava antes,  em distribuir-se em diferentes  embaixadas estrangeiras, de países onde trabalharam no passado. Porém,  Geremias  Chitunda que se encontrava em Luanda a cerca de dois dias para assinar o acordos de paz,  teria desaconselhado tendo os mesmos decididos saírem em coluna.  Nas redondezas do mercado do roque santeiro, foram seguidos pelas forças governamentais que atiraram contra os mesmos.  Salupeto Pena foi gravemente ferido e levado a uma esquadra da Policia no Sambizanga onde seria torturado  até, a morte, a 01 de Novembro de 1992.  Posteriormente, o  seu corpo teria sido levado para a  sua viatura para ser apresentado pela televisão.
Os seus restos mortais teriam   depois ficado   sob custodia das autoridades governamentais. Após a morte de Jonas Savimbi, os familiares e membros da direcção da UNITA solicitaram,  sem sucesso,  a  entrega do mesmo para ser enterrado condignamente.  O destino dado aos restos mortais de Salupeto Pena  foram objectos  de versões  dispares.  A  versão que mais se realçou em círculos restritos  alegava que na qualidade de familiar direito de Savimbi, teriam reencaminhado o seu   corpo para fins   tradicionais, num ritual que teria contado com o envio, a Luanda,  de um  magno oriundo da Índia, razão pela qual diz-se que o corpo do mesmo já não existe.
O Golpe de Estado de Salupeto Pena
Um depoimento do general Perigrino Wambu, a radio portuguesa TSF, em 1992, ao tempo em que esteve sob custodia no Ministério da Defesa explica a tentativa de tomada do poder força atribuída a UNITA que tinha Salupeto Pena a testa. Segue a pergunta e a respectiva resposta que poder ser seguida na integra clicando aqui: Entrevista histórica do General Wuambo após ter sido preso em 1992
T.S.F. - Houve, ou não houve, uma tentativa da UNITA de tomar o poder pela força, nos dias que antecederam o fim-de-semana de 1 de Novembro? A UNITA tinha ou não tinha planos, como o Governo apresentou, papéis assinados, alguns inclusivamente por si, de que havia planos para tomar o poder pela força em Luanda?
G.W. - Nenhum dos documentos prova um plano de tomada do poder pela força. Nenhum. A interpretação que o Governo está a fazer dos documentos, faz parte da sua estratégia para o desprestígio da nossa organização, UNITA. Não houve plano de ataque, de tomada de poder pela força. Pelo contrário. Eu estava no Hotel Turismo. Tinha uma guarnição de doze homens quando foi acordado que devíamos parar com as acções. Eu, como membro da Comissão Politica tenho direito a uma protecção de seis homens. Mas, nem sequer quatro eu tinha aqui, em Luanda. Multipliquemos isso por todos os dirigentes que estão em Luanda. Foram as nossas posições indefesas que foram atacadas. As provas estão aqui. A Comunidade Internacional está aqui, a Sra. Anstee confirmou-nos isso. Seguiram os contactos “rádio”. E eu quero sublinhar aqui, com todo o ênfase, que foi o primeiro combate que eles dizem, de tomada do poder pela força, onde os dois Comandos Militares estavam em comunicação via motorola. Nunca, em parte nenhuma do mundo, se toma o poder pela força, como o Governo quis dar a entender, em que o General N'Dalu e o Sr. Eng. Salupeto estão em comunicação - «paremos o tiroteio», «paremos o bombardeamento». O Sr. General Ben-Ben e o Sr. General Higino estavam em contacto também. General Higino: «…não mova os seus homens, para lado nenhum, fiquem onde estão, porque vamos parar isto». Marcaram um encontro para as 16 horas de sábado, para que parássemos com tudo, mas o Governo reforça a sua acção militar sobre os nossos dispositivos e ninguém mais conseguiu encontrá-los. Que assalto é que houve? Qual a tentativa de golpe? O Governo sim, levou a cabo uma missão absolutamente planificada, estruturada durante muito tempo e que culminou com o extermínio dos nossos simpatizantes, com a destruição das nossas infra-estruturas. E os factos estão, em Luanda, para o provar.

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