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Thursday, June 16, 2011

OS HOMENS NÃO BATEM




Xavier apaga a luz e ouve a respiração de Alex, a seu lado, já adormecido. Ele, todavia, não consegue deixar de pensar em tudo o que sucedeu. Ouve a voz do pai, como se ainda estivesse presente, a repetir uma e outra vez: “Os homens não batem, Xavier, os homens não batem”. Olha para o amigo que, embora a sonhar, parece chorar e, sem querer, a pouco e pouco vai recordando…


Tudo começara uns meses atrás, quando Alex e os pais se mudaram para o prédio de Xavier. Como frequentavam a mesma escola e a mesma turma, os rapazes depressa se tornaram amigos e começaram a conversar, a jogar, e a trocar confidências. Alex era fixe, divertido e, sobretudo, muito boa pessoa.
Em casa falou-se dos novos vizinhos. A mãe referiu que a senhora lhe parecia muito tímida e calada, limitando-se a cumprimentar as vizinhas. De cada vez que o fazia, baixava a cabeça, como se temesse que lhe vissem a cara. O pai de Xavier disse que via o vizinho sempre rodeado de gente no bar ou no parque, e a jogar a petanca com um grupo de homens.
Num domingo em que Xavier andava a passear com os pais, o pai de Alex abeirou-se deles. Saudou-os, disse que se chamava Pedro e insistiu em convidá-los para um aperitivo. Ao perguntarem-lhe pela esposa, limitou-se a responder:
— Oh, essa! Está em casa. É melhor que não saia.
De seguida acrescentou que Helena, a mãe de Alex, não gostava de andar na rua.
Esta informação, e o tom depreciativo em que foi dita, não agradou aos pais de Xavier pelo que, amavelmente, declinaram o convite.
Cada dia Xavier simpatizava mais com Alex. Muitas vezes faziam os deveres juntos em casa de Xavier e divertiam-se a jogar PlayStation ou a ver um DVD, que mais tarde comentavam com os colegas. A única coisa que Xavier estranhava era que Alex nunca convidasse ninguém para ir a sua casa.
Desde há algum tempo que Xavier tinha começado a notar coisas muito estranhas: Alex quase não falava e andava como que assustado. Às vezes, parecia até meio atordoado, tinha equimoses nos braços e nas pernas, e dizia sempre não se lembrar de como tinham aparecido.
Uma tarde em que combinaram brincar juntos, Alex atrasou-se e Xavier foi ter a casa dele. Quando Alex atendeu, Xavier teve uma surpresa desagradável. O amigo tinha os olhos vermelhos e um hematoma ainda recente na cara. Quando Xavier lhe perguntou o que tinha sucedido, o amigo, muito nervoso, só respondeu:
— Nada. Vamos embora, anda.
Xavier achou que era a marca duma bofetada, mas não insistiu mais. Ao fundo do corredor, sentada num sofá, Helena chorava e apertava o nariz com um lenço ensanguentado. Foi tal a angústia que notou na cara de Alex que Xavier não contou nada disto aos pais. Procurou distrair o amigo e fazer com que se divertissem juntos.
Já tinha esquecido este incidente quando, num sábado, ouviram umas pancadas tremendas vindas do andar de Alex. A princípio julgaram que estavam a mudar móveis e qualquer coisa pesada tivesse caído ao chão. Contudo, os berros de Pedro ressoavam por toda a casa. Quando ouviram um bater de porta, os ruídos cessaram. Xavier foi à janela e viu o pai de Alex a ir-se embora.
Alguns vizinhos saíram para o patamar a fim de se inteirarem da causa do escândalo. Os pais de Xavier trocaram olhares muito preocupados e perguntaram ao filho se tinha notado alguma coisa estranha no amigo. Xavier, um tanto assustado, contou-lhes então o que vira naquela tarde. Quando o filho acabou o relato, o pai virou-se para a mãe e disse simplesmente:
— Este homem não me agrada nada.
Um dia, Xavier e os amigos começaram a falar dos problemas que tinham em casa e, a rir, iam comentando o que os pais diziam. Alex permanecia calado a olhar para uns e outros, até que Jorge, que era muito atrevido, o inquiriu directamente:
— E em tua casa, Alex, quem manda mais, o teu pai ou a tua mãe? Com quem te dás melhor?
Após um curto silêncio, os rapazes continuaram a falar e a rir, mas Xavier viu como Alex ficara muito corado e incomodado.
Então, Xavier disse não saber quem é que mandava mais em sua casa, pois tanto o pai como a mãe portavam-se da mesma maneira e não via nenhum deles a querer ser mais importante do que o outro.
— “Tem de haver igualdade” é o que o meu pai diz. “Tem de haver igualdade entre o homem e a mulher”.
— Mas isso está mal. Um homem tem de vestir as calças. O meu pai diz que se não o fizeres, não és homem nem és nada — respondeu-lhe Alex, enfrentando-o com o olhar.
Xavier não replicou, mas a verdade é que não sabia o que Alex queria dizer. Nessa noite, ao jantar, narrou aos pais o que tinha sucedido e perguntou-lhes o que Alex queria dizer com aquilo. Achava graça à frase, porque os homens usam sempre calças, mas as mulheres também o fazem muitas vezes. Os pais riram-se, mas logo se calaram e olharam para ele com ar sério.
O pai disse, então:
— Olha, Xavier, a nossa sociedade não educa os homens como devia. Fazem-nos acreditar que somos superiores às mulheres apenas pelo facto de termos nascido homens, entendes? E isso é mentira. Além de que nos enganam ao dizer que somos mais fortes do que elas, mais inteligentes e melhores em tudo. E também se diz que somos menos homens, mais fracos, se formos afectuosos com a nossa mulher, se lhe contarmos os nossos problemas, lhe pedirmos conselhos e ajuda, e se mudamos a nossa opinião depois de falarmos com ela.
— Mas eu não entendo isso de ter de vestir as calças.
— Isso — interveio a mãe — é uma maneira de dizer que os homens devem mandar nas mulheres para se afirmarem como homens, serem másculos…
— É uma tolice, Xavier — esclareceu o pai. — Não é uma parte do corpo que te faz homem, como também não o é gritar, dar murros, nem dizer palavrões ou bater. Os homens, os que são verdadeiramente homens, não batem — disse-lhe o pai muito sério. — Só batem os cobardes que se aproveitam da força, ou até do carinho com que os tratam. Lembra-te sempre disto, Xavier: os homens não batem…
— Mas o pai do Alex diz que um homem… que o que um homem deve fazer…
Não chegou a acabar a frase. O pai sorriu:
— Xavier, o pai do Alex não sabe o que diz. Desconfio que não deve ser muito boa pessoa. E, se não for uma pessoa boa, muito menos poderá ser um bom homem, nem simplesmente um homem, entendes, filho? Mesmo que tenha… já sabes.
Ambos olharam para a cara de desagrado que a mãe fazia e os três desataram a rir.
Xavier não percebeu bem tudo, mas não quis fazer mais perguntas. Como também não as fez no dia em que a mãe comentou que Helena parecia ter tido um acidente, já que estava toda magoada e com um olho negro, tendo acrescentado:
— É pena que não tenha cá família, nem ninguém que a ajude.
O pai de Xavier nada disse e continuou a comer, embora, de vez em quando, movesse a cabeça em sinal de preocupação.
As coisas entre os dois amigos continuaram no mesmo pé, até que um dia Xavier confidenciou a Alex que gostaria de conhecer o quarto dele, de ver os seus livros e brinquedos. Alex olhou-o devagar, tardando muito a responder, até que por fim lhe disse que perguntaria aos pais se podia convidá-lo a ir lá a casa. Três dias depois, muito contente, disse-lhe que a mãe os esperava aos dois para lanchar e comentou que o pai estava de viagem.
O lanche foi óptimo e Xavier achou a mãe de Alex muito simpática. Helena brincou com eles a jogos e adivinhas, contou-lhes histórias, e falou-lhes de livros com tanta graça que os três riram como bons amigos.
De súbito, ouviu-se o barulho da chave na fechadura. Apagou-se o sorriso da cara da mãe do Alex e as mãos começaram a tremer-lhe como se estivesse doente. Levantou-se logo e, como doida, começou a andar de um lado para o outro. Alex foi para a beira dela, acariciou-lhe as mãos suavemente e ambos ficaram muito quietos quando o pai entrou na sala. Pedro olhou para os três e, dirigindo-se à mulher, ordenou-lhe:
— Faz-me o jantar.
Depois acercou-se de Alex e fez-lhe uma festa na cabeça. Xavier achou curioso ver como o seu amigo se derretia todo com a carícia do pai, como se fosse um cão sedento de carinho. Mas Alex tinha os olhos humedecidos, como que assustados.
Com o tempo, as coisas foram de mal a pior. No apartamento de Alex havia pancadas e berros cada vez mais frequentemente, até que um dia os vizinhos, alarmados, reuniram-se para decidir o que fazer. Então, Xavier soube o que se passava: o pai de Alex era uma pessoa violenta e batia na mulher. Xavier depreendeu que ele também maltratava o filho: essa era a causa dos hematomas de Alex, do medo que vira no seu olhar e que lhe causava tremuras no corpo.
Quando regressaram a casa, Xavier contou aos pais o que vira naquela tarde. Eles falaram com ele mais abertamente.
— Há cobardes que batem na mulher e nos filhos para esquecer os seus problemas e julgarem-se mais homens — disse-lhe o pai. — O que não sabem, Xavier, é que com cada pancada mostram a sua fraqueza e cobardia, porque, sabes, só batem em quem acham que é mais fraco do que eles.
— São como animais, Xavier — acrescentou a mãe — porque não raciocinam, não pensam, e não amam ninguém. Só querem controlar a vida dos outros por acharem que assim controlam a sua, nem que para isso tenham de usar a violência: berros, insultos, pancadas, bofetadas, pontapés, e até armas. Como diz o teu pai, os homens, aqueles que são na verdade homens, não batem. Só os cobardes é que o fazem.
— Mas eu não entendo, mãe. Porque é que a Helena continua a viver com esse bruto? Gosta que lhe batam? Porque não se separa dele como outras pessoas fazem? É por não gostar do Alex?
— Ninguém gosta de ser insultado e agredido, filho — respondeu-lhe a mãe. — A Helena continua com ele porque está só e não sabe o que fazer, nem para onde ir; porque tem medo por causa do filho de quem gosta mais do que si mesma; porque tem vergonha de reconhecer, diante dos pais dela, que o homem que escolheu para companheiro é um canalha violento que a maltrata. Nem sequer sabe se eles a iriam compreender… Enfim, há muitas razões e bem complicadas. Às vezes, a vida, Xavier, é muito difícil para as mulheres. E mais ainda se estão sós e têm filhos para sustentar.
Enquanto recordava tudo isto, Xavier virou-se para a cama de Alex, agora a dormir descansado, e pensou no horror por que passara o amigo nessa mesma manhã. Voltavam ambos do parque quando, ao chegar a casa, viram uma ambulância, um carro da polícia e um grupo de pessoas a olhar para a entrada do prédio. Nesse momento, Pedro saía escoltado por dois agentes e, instantes depois, vinha Helena numa maca. Alex, branco de angústia, correu para a mãe, que, toda magoada, a chorar, e com um olho negro, sorriu para ele e sussurrou-lhe:
— Alex, meu filho, agora tudo se vai arranjar, prometo-te.
Não o pôde abraçar, porque o marido tinha-lhe partido também um braço.
Antes de adormecer, Xavier pensou em Helena, em Pedro e no amigo Alex que, ao que parecia, iria agora viver com a mãe para a terra dos avós. Pensou também em si e nos seus pais. Queria ser um homem, mas um verdadeiro homem. Os seus olhos foram-se fechando enquanto lhe parecia ouvir ainda a voz do pai:“Xavier, os homens não batem”.
Beatriz Moncó
Los hombres no pegan
Barcelona, Bellaterra, 2005
(Tradução e adaptação)

A Nossa Grande Casa
Um Poema Sobre a Terra
 
Vivemos todos aqui.
Pessoas, formigas, elefantes, árvores,
Lagartos, líquenes, tartarugas, abelhas.
Todos partilhamos a mesma grande casa.
Partilhamos a água.
Salpicamos, chapinhamos e nadamos na água.
E todos bebemos água.
Baleias, golfinhos, manatins,
Pinguins, palmeiras, tu e eu.
Todos partilhamos a água na Terra,
A nossa grande casa azul.
A chuva desliza pelo meu nariz
E escorre pelos dedos do meu pé.
A chuva limpa o mundo todo.
Rega florestas de árvores gigantes
Desperta a vida em sementes minúsculas.
Traz água fresca a ti e a mim.
Todos partilhamos a chuva na Terra,
A nossa casa verde a crescer.
À volta do mundo
O sol a todos aquece.
Girassóis, andorinhas, macieiras,
Raposas, fetos, tu e eu.
Aquece dedos e pés,
Aquece raízes e folhas.
Todos partilhamos o sol na Terra,
A nossa casa grande e quentinha.
Há monturo por todo o lado,
Na Terra, no nosso solo.
Solo onde as sementes aguardam
E as árvores nascem,
Onde as minhocas vivem e os coelhos escavam.
A Terra contém a vida
E o monturo que piso com prazer.
Todos partilhamos o solo na Terra,
A nossa grande casa viva.
E há ar por todo o lado,
Bem longe e bem perto.
Todos respiramos o ar da Terra.
Não é bom respirar?
Pessoas, lagartos, joaninhas,
Carvalhos, ervilhas, ervas daninhas.
Todos partilhamos o ar na Terra,
A nossa grande casa arejada.
O vento sibila e volteia,
Varre e rodopia.
Remexe a erva e abana as árvores.
Transporta chuva, espalha sementes.
Traz ar fresco e revolve cabelos de crianças.
Por todo o mundo.
O vento a todos toca na Terra,
A nossa grande casa rodopiante.
O céu é uma imagem nossa que muda lá em cima.
Gosto do céu. E tu?
Grandes extensões de azul,
Pinceladas de nuvens,
Borrões selvagens ao entardecer.
Onde quer que estejamos
Olhamos e vemos
Céu, céu, céu.
Aqui na Terra, a nossa grande casa
Debaixo do céu.
À noite, quando as estrelas brilham,
Na escuridão funda e profunda,
É o tempo de cair no sono,
Dos animais vaguearem
E das flores nocturnas desabrocharem.
Todos temos um tempo de escuridão
Aqui na Terra, a nossa casa
Debaixo do grande manto da noite.
E a nossa lua viaja pelo céu
Cor de pérola cremosa
Uma vela branca fininha.
Lua cheia, lua nova,
Dão corpo à nossa noite.
Todos partilhamos a lua
Aqui, ali, por todo o lado na Terra,
A nossa grande casa luminosa.
Quando me estico ou danço,
Salto ou rio,
Pulo no ar ou na relva me estendo,
Sinto-me vivo.
Todos sentimos a vida.
Árvores, rãs, abelhas, relva,
Aranhas, serpentes, minhocas, morcegos.
Todos partilhamos a vida na Terra,
A nossa casa grande e vivificante.
Partilhamos o ar, a água, o solo e céu,
O sol, a chuva e a vida.
E todos partilhamos o mesmo lar, aqui na Terra,
A nossa preciosa morada.
Linda Glaser; Elisa Kleven
Our Big Home – An Earth Poem
Minneapolis, Millbrook Press, 2000
(Tradução e adaptação)




* NÃO GOSTO DE NADA!*

Cena 1
(Na cozinha. Bater de loiça. A Mãe, contente, canta ou assobia. Barulho de portas. Passos.)
Jacob – Mãe! Cá estou eu! E com uma destas fomes!
Mãe – Óptimo, Jacob. Estou agora mesmo a preparar um pão.
Jacob – A Catarina veio comigo. E também está com fome. Eu disse-lhe que tinhas comprado torresmos.
Mãe – Catarina, onde é que te meteste? Entra!
Catarina – Viva, D. Mariana.
Mãe – Olá, Catarina, fica à vontade. Sentem-se. Querem chá com sumo de laranja?
Catarina – Obrigada.
Jacob – Espera, Catarina, eu sirvo-te.
Catarina – Não está nada mau este pão com torresmo.
Mãe – Foi divertido no parque?
Crianças  Mhm-mhm.
Mãe (A rir.) – Vocês empanturram-secomo se não comessem nada há dias. Estão a abrir-me o apetite. Vou fazer um pão para mim. Pronto, já está. Vêm cheios de calor, meninos. Andaram a correr?
Jacob – Primeiro fizemos de Índios. Depois, de artistas de circo ao pé do Toni… Depois, fizemos também de extraterrestres verdes que conseguiam cheirar tudo, principalmente torresmos. O Rudi também estava. Quis trazê-lo, mas ele diz que os torresmos são muito gordurosos
Mãe – Não é nada bom para a linha… Mesmo assim, quem quer mais?
Catarina – Eu, por favor.
Jacob – Eu também.
Mãe – E eu também… O Carlitos esteve lá?
Catarina – Não. Ele é muito aborrecido.
Jacob – Com ele não se pode fazer nada.
Mãe – Por ser aborrecido?
Jacob – Nem imaginas como ele é! Não gosta de nada.
Mãe – Não gosta de nada? Foi ele que disse isso?
Jacob – “Não gosto disto, não gosto daquilo…”.
Catarina – O Carlitos é tão… diferente, sabe, D. Mariana. Ou se gaba tanto, que só de o ouvirmos até nos massacra os ouvidos, ou então está aborrecido e não quer participar em nada. Fica sentado a dizer: “Não gosto de nada disso”.
Mãe – E quando ele conversa, o que é que diz?
Jacob – Oh, tudo e mais alguma coisa. Quanto é que o pai ganha, para onde é que vão nas férias, que já foi aos esquimós ou lá onde foi, quantos CDs é que já tem…
Catarina – 38…
Jacob – E que pode ver na televisão todos os filmes policiais que quer…
Mãe – Hum…
Catarina – E que nós somos uns coitados porque não podemos. Na turma, já ninguém lhe liga. Por ele ser tão parvo, a Susi até já disse que nunca mais o deixa copiar por ela. E que também nunca mais lhe vai dizer as respostas.
Jacob – Na escola, anda sempre a fazer asneiras e depois a Professora chama a mãe. Mas ela zanga-se de cada vez que tem de lá ir, porque perde um dia no escritório…
Catarina – Ele está a ficar cada vez pior. A única coisa que consegue fazer é o pino! É o único de nós todos. É capaz de fazer o pino e ficar a andar às voltas. Claro que faz isso quando e onde lhe apetece. A Susi sugeriu que, quando ele voltasse a fazer o pino, nós devíamos combinar e olhar todos para o outro lado.
Mãe – Então não me admira nada, coitado do rapaz. Se ninguém gosta dele, como é que ele há-de andar contente?
Jacob – Vamos passar a andar atrás dele? Mãe, eu já não o aguento! Prefiro outra pessoa qualquer. Até prefiro o Toni, embora ele só consiga dizerããããã… (Catarina ri baixinho.)
Mãe – Jacob!
Jacob – Não digo isto por mal. Eu gosto do Toni. Mas, pronto, ele só faz ããããã
Mãe – O Toni é uma criança deficiente, e não consegue falar como uma criança normal.
Catarina – Mas nós agora já sabemos o que ele quer dizer com ããã. Ele di-lo de diferentes formas. Hoje, quando representávamos o circo, ele acenou com a cabeça e gritou ããã e descobrimos que ele queria dizer “Outra vez!”.
Jacob – Isso foi quando o Rudi fez de leão e tu de domadora.
Catarina – É! Esse foi o número que mais divertiu hoje o Toni.
Mãe – Então vocês… Vocês brincam ao circo para o Toni?
Jacob – Achas esquisito?
Mãe (Apressadamente.) – Não, não. É que eu pensava que vocês o visitavam apenas de vez em quando e que só brincassem e falassem com ele. Mas fazerem circo…
Jacob – É difícil brincar com ele, porque ele tem de estar sempre no carrinho e não pode fazer nada. No fim de cada número, bate palmas. Foi a Susi que lhe ensinou. E às vezes agarra uma bola, quer dizer, atira-se a bola mesmo para o colo dele e depois ele agarra-a. Atirar a bola é que já não é capaz de fazer.
Mãe – Sabes porque é que eu primeiro me admirei que vocês fizessem coisas engraçadas em frente de uma criança deficiente, incapaz de andar e de correr? É que o Toni nunca há-de conseguir fazer isso.
Jacob – Mas ele gosta de ver. Se não, não se ria. Quando vê, diverte-se. Rir ele sabe.
Catarina – A princípio, a porteira do prédio ralhou connosco. Viu-nos através da janela do pátio e indignou-se por sermos insensíveis e fazermos coisas diante do Toni que ele, coitado, não consegue fazer. Nós ficámos muito assustados e queríamos ir embora, mas o Toni começou a choramingar e a mãe do Toni veio logo a correr cá abaixo e ouviu tudo. Fez festas ao Toni e disse: “ – Oh, eu, por exemplo, não sei tocar trompete, mas fico contente quando alguém toca para mim. Continuem com o vosso circo. Eu fico contente quando o Toni se diverte.”
Jacob – Ele fica mesmo contente, por isso é que gostamos tanto de ir lá. Porque ele gosta. O Rudi anda agora a treinar um número de cambalhotas.
Catarina – E a Susi, outro com bolas.
Mãe – O Carlitos não ficaria bem no vosso programa, já que sabe fazer o pino? … (Pequena pausa.) Ah?
Catarina – Bem…
Jacob – Primeiro, teríamos de lhe perguntar se ele queria mesmo vir…
Catarina – Seria uma boa oportunidade para ele se exibir…
Mãe – Teria principalmente uma oportunidade de dar uma grande alegria ao Toni! Gostava depois de ver se ele ainda diria: “Não gosto de nada!” Aquele que se sente útil e que dá uma alegria a outro decerto já não pode dizer: “Não gosto de nada!”
Catarina – Bem, não sei se o Carlitos vai deixar que o levemos até lá…
Mãe – Então, e se vocês precisassem mesmo dele?
Jacob – Será que ele vai acreditar que precisamos mesmo dele? Da maneira como nos temos portado com ele até agora…
Mãe – Jacob, vou dizer-te uma coisa, uma coisa difícil de compreender. E a ti também o digo, Cati. Quando alguém não gosta de nada – não interessa se é uma criança ou um adulto – quando alguém diz que não gosta de nada, isso é um grito de socorro. É alguém que pede socorro dessa maneira por se sentir mal. É ainda muito pior do que o Toni no seu carrinho, já que o Toni consegue alegrar-se com alguma coisa e é capaz de o demonstrar. Dessa forma, ele também vos dá alegria. Não é verdade que, quando o Toni fica contente, isso também vos faz felizes?
Crianças – Pois faz!!
Mãe – Quando o Carlitos diz: “Não gosto de nada!” está a querer dizer-vos: “Ajudai-me, por favor. Estou triste porque ninguém precisa de mim. Ninguém olha para mim.” Se vocês precisarem do Carlitos, se ele tiver a oportunidade de proporcionar alegria a outra pessoa, ele vai mudar. Não imediatamente, mas com o tempo. Não há-de precisar mais de se exibir nem de aborrecer os outros. Vai tornar-se diferente. Mas têm de ter paciência com ele. Eu, no vosso lugar, tentava.
Jacob – Mesmo que ele no início seja arrogante?
Mãe – Mesmo assim! Têm de arriscar. E não dar muita importância a isso.
Catarina – Eu faço-te sinal, Jacob, quando o Carlitos estiver a ser arrogante. Assim, não precisas de te zangar.
Mãe – Tens uma boa amiga, Jacob! (Catarina ri baixinho.)
Jacob – Bem, podemos tentar…
Cena 2
 (Recreio da escola. Barulho do intervalo. Campainha.)
Jacob – Bem, Carlitos, fica combinado. Hoje vens connosco ao Toni.
Carlitos – Não! Acho que não vou gostar.
Catarina – Se vais gostar ou não, isso não interessa agora. Tens de vir, porque nós precisamos de ti.
Jacob – És o único que sabe fazer o pino e dar voltas.
Catarina – Podes indicar-nos outra pessoa que saiba andar de pernas para o ar?
Carlitos – Não!
Jacob – Então, estás a ver?
Catarina – Tu não tens de gostar, Carlitos, mas o Toni vai adorar. Ele nunca na vida viu ninguém que saiba andar e fazer o pino.
Jacob – Temos de explicar primeiro ao Carlitos como é que ele sabe que o Toni está a gostar, Cati.
Carlitos – Eu não sou parvo!
Catarina – Mas o Toni… bem, o Toni só sabe dizer ããã. Por isso, quando ele se rir e abanar a cabeça e disser ããã, quer dizer: “Outra vez!” E tu tens de repetir o número!
Carlitos – E quando ele não gosta?
Jacob – Então torce a boca e diz ããã.
Catarina – Mas ele vai gostar, vais ver. Nunca viu um número com esta categoria… (Música no fim desta cena.)
 
Cena 3
(Pátio. Crianças a rir.)
Carlitos (Em voz baixa.) – Este é que é o vosso Toni? Ora bolas! Tem cá um aspecto…
Catarina (Em voz baixa.) – Uma pessoa habitua-se. Espera quando ele se rir. De um momento para o outro, fica com outro aspecto. Fica mesmo querido!
Jacob – Minhas senhoras e meus senhores, caríssimo público! Segue-se agora o ponto alto do nosso programa de gala de hoje. Susi, tambor, por favor! (O tambor rufa.) Uma salva de palmas para Mister Carlitos Carlitovitch! (Aplausos.)
Carlitos – Bom, está bem. Já que aqui estou… Upa!
Crianças – Oooh… (Primeiro silêncio, depois aplausos.)
Toni  Ããã.
Carlitos – O que queres dizer, Toni? É comigo?
Toni  Ããã.
Catarina – Ele quer dizer: “Outra vez!”.
Carlitos – Mas com certeza! (Silêncio. Palmas.)
Catarina – Olha, Carlitos, o Toni está a aplaudir-te. Tens de fazer uma vénia! Nós fazemos sempre uma vénia como artistas de circo a sério!
Toni  Ããã.
Jacob – Logo vi que ia gostar.
Carlitos – Outra vez, Toni? Sim? Está bem, olha para aqui…
Porteira – Agora é que eu estou pasmada! Ele faz o pino e anda!
Catarina – Esta é a porteira, Carlitos. Traz-nos sempre sumo.
Porteira – Ele até abana os pés. Assim bem não me admira que o Toni se divirta. (Aplausos.) Anda cá, deixa-me olhar para ti. Tu és novo. Como te chamas?
Carlitos – Carlitos.
Porteira – Então és o Carlitos. Tens mesmo jeito para palhaço. E é bonito que te tenhas esforçado por causa do Toni…
Carlitos – Eu não me esforcei.
Porteira – Está aqui o vosso sumo, meninos. Peguem no tabuleiro. Têm de o segurar para o Toni poder beber também.
Catarina – Eu faço isso.
Carlitos – Dá cá, Cati. Eu faço isso. Aqui tens, Toni, bebe. Anda, põe as mãos em volta do copo. Segura tu sozinho. Anda, tenta… Cati, olha! Ele está a tentar!
Catarina – A mãe treina com ele todos os dias, mas é preciso ter paciência.
Carlitos – Muito bem, Toni. Outro gole… Sim, nós seguramos os dois no copo. Pronto. Cati, ele agora não parece tão… tão… quero dizer, parece muito querido!
Catarina – Porque está contente, Carlitos.
Carlitos – Achas que ele ia gostar de um número de palhaços com um acordeão pequenino a chiar horrivelmente? Ou um número de arcos? Mas eu iria precisar de uma outra pessoa.
Catarina – E essa pessoa precisa de saber fazer muita coisa?
Carlitos – Claro que não! Só tem de segurar no arco e gritar “Upa!”
Catarina – Eu podia fazer isso lindamente… se tu quisesses fazer comigo…
Carlitos – Claro que… que eu ia gostar muito...
(Alguns compassos de música, no final.)
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986
(Tradução e adaptação)
As penas
Um conto hasídico da Europa de Leste
Uma mulher de língua afiada foi acusada de espalhar um boato. Quando a levaram perante o rabi da aldeia, desculpou-se:
 — Não passou tudo de uma brincadeira e não tenho culpa de que as minhas palavras tenham sido espalhadas por outros.
 Contudo, a vítima exigia que fosse feita justiça, dizendo:
— As tuas palavras destruíram o meu bom nome!
A mulher retorquiu:
— Retiro o que disse e, assim, anulo a minha culpa.
Quando o rabi ouviu estas palavras, percebeu que a mulher não compreendia o alcance do crime que cometera. Disse-lhe então:
— As tuas palavras só serão desculpadas depois de fazeres o seguinte: traz a minha almofada para o mercado, corta-a, e deixa que o vento leve as penas. Depois, apanha cada uma delas e trá-las de volta. Quando tiveres feito isso, serás absolvida do teu crime.
A mulher concordou e pensou para consigo: “O velho rabi enlouqueceu de vez!” Mas, mal cortou a almofada, viu logo que as penas voaram para todos os cantos da praça. O vento levou-as para todos os lados, por sobre as árvores e para debaixo das carroças. A mulher bem que tentou apanhá-las mas, após muitos esforços, deu-se conta de que nunca as encontraria todas.
Foi ter com o rabi com algumas penas na mão e confessou:
— Não consegui apanhar as penas todas, tal como não consigo retirar tudo o que afirmei. A partir de agora, terei cuidado com o que digo, para não prejudicar os outros, pois não há forma de controlar as palavras, tal como não há forma de controlar o voo das penas.
E, a partir desse dia, a mulher só falava de forma bondosa de todos quantos encontrava.
Marian Wright Edelman
I can make a difference
New York, HarperCollins Publishers, 2005
(Tradução e adaptação)
AS SEREIAS NÃO GOSTAM DE DISCUSSÕES
Todas as crianças receiam as cócegas e as discussões. As crianças-fadas, as crianças-   feiticeiras, as princesinhas e, sobretudo, as pequenas sereias. Se as sereias não gostam mesmo nada de ouvir os pais a discutir, é porque a água transmite os sons cinco vezes mais depressa do que o ar e cinco vezes com mais força. É por isso que, em casa delas, uma cena doméstica, uma simples discussão, se transformam num pesadelo aquático.
Na família da sereia Emma, as discussões começavam sempre assim:
–– Repete o que acabas de dizer!
–– Quem é que julgas que és?
E upa, depois do rebentar de algumas bolhas, a água começava a agitar-se, a agitar-   -se… e tínhamos tempestade! Quando o mar ficava assim revolto, Emma começava a ver tudo desfocado. Os pais apareciam-lhe deformados, horríveis, com o rosto distorcido por causa da turbulência das águas. Era feio, feio, feio. Então Emma sentia o coração gelar. Punha as mãos nos ouvidos e agradecia aos céus o facto de ter duas mãos e não duas barbatanas. Mas, mesmo tapando os ouvidos, continuava a ouvir: “Detesto-te, detesto-te, não quero voltar a ver-te.” Estas discussões eram verdadeiras catástrofes ecológicas. Quando se desencadeavam, os cardumes de peixinhos multicores fugiam em debandada para o outro extremo do mar, como se perseguidos por um tubarão. Os ouriços-do-mar imobilizavam-se, as anémonas expeliam em silêncio o seu veneno e os polvos lançavam co mpridos jactos de tinta negra.
“Como é possível”, pensava Emma, “que pessoas adultas, com dois braços, uma cauda de sereia e um cérebro de sereia, gritem na água como se fossem verdadeiros bebés?” E pensava em todos os pais-sereias divorciados, que iam viver longe um do outro, um no mar Adriático, outro no Oceano Atlântico. E dizia para consigo: “A minha mãe trouxe-me no ventre porque amava o meu pai. Mas se nasci no amor deles, também posso desaparecer!” Era, é claro, um pouco excessivo, mas muito lógico na cabeça de uma pequena sereia. Aliás, quando ouvia os pais agredirem-se, tinha a impressão de que o seu coração se despedaçava como gelo quebrado. Porque as pequenas sereias não são peixes como os outros. São meninas de verdade, frágeis, com sentimentos e muita imaginação. O que poderia ela fazer? Tinha ouvido falar de uma outra sereia que trocara a cauda por um par de pernas. “Ter pernas ser-me-ia muito útil para fugir para terra, longe dos gritos dos adultos”, pensava. Para não morrer por causa de todas aquelas discussões, Emma afastava‑se para longe daquelas extensões de água cheias de turbulência, daqueles rostos distorcidos, daquelas tempestades aquáticas, e penetrava nas florestas de algas labirínticas. Ia tão longe quanto possível, descendo às profundezas, onde o silêncio é mais forte do que todos os gritos do mundo. E quando, à noite, se davam conta que ela tinha desaparecido, o pai, a mãe e todas as suas irmãs sereias iam procurá-la, longe, muito longe, nas águas doces, nas águas tépidas, abrindo, com as mãos, caminho por entre as algas, espreitando dentro das anémonas, batendo docemente à porta das conchas:
–– Emma, estás aí?
Com o coração apertado, pensavam que ela tinha desaparecido para sempre. Porque corria esse risco. Nas profundezas do mar, uma pequena sereia, mesmo experiente, pode muito bem perder o norte. E os pais perguntavam-se: e se ela foi lançada para terra? Ou engolida por um tubarão? E quando, por fim, a encontravam, curvada dentro da sua concha, com as mãos nos ouvidos, tomavam-na nos braços com muita doçura para a levarem para casa. Sentiam vergonha. E diziam-lhe:
–– Desculpa, sabes, somos dois grandes patetas. Mas já fizemos as pazes!
Quanto mais crescia, mais a pequena sereia compreendia que a vida, o cansaço, as pequenas coisas do quotidiano, uma gota de água que cai continuamente em cima de um rochedo, enfim, pequenos nadas, podem também desencadear grandes discussões.
Quando se tornou adulta, sorria ao ouvi-los, porque sabia que não tinha nada mais a recear. Que o seu coração não ia congelar nem ficar como gelo desfeito. E, ao ouvi-los, dizia para consigo: “Daqui a pouco, estão a dizer-me que nunca mais voltarão a discutir. E eu vou fingir que acredito! Porque sei muito bem que é difícil viver-se na mesma água sem discussões. Mas também sei que o mundo não vai desabar por causa disso.”
                    
Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand
Paris, Albin Michel, 2003
(Tradução e adaptação)

Brincar às guerras
― Está muito calor para jogar basquete. Vamos fazer outra coisa ― sugeriu Luke.
Os amigos sentaram-se à sombra do salgueiro a decidir o que fazer.
― Tens mais balões de água? ― perguntou Danny.
― Não ― respondeu Luke. ― Quem me dera ter.
― Podemos jogar jogos de vídeo ― sugeriu Sameer, com um sorriso rápido.
― Não, não podemos ― disse Luke. ― A minha mãe disse que tínhamos de brincar ao ar livre.
― Já sei! ― exclamou Jeff. ― Vamos brincar às guerras!
Luke levantou-se logo.
― Que óptima ideia! ― concordou.
― E se fôssemos andar de bicicleta? ― sugeriu Jen.
― Não, nem pensar ― atalhou logo Jeff. ― A guerra é melhor! Há muito que não brincamos.
E Luke acrescentou:
― Podemos esconder-nos e fazer uma emboscada. Jen, tu és boa a atirar granadas.
Jen sorriu. Luke pegou num pau e traçou uma linha no chão poeirento. De um lado escreveu um grande S e do outro desenhou um I.
― Temos de nos dividir em duas equipas, Soldados e Inimigos.
Depois tirou o boné e pô-lo no meio da linha.
Jen explicou as regras a Sameer:
― Todos temos de pôr alguma coisa dentro do chapéu. Depois despejamo-lo em cima da linha e vemos quem faz de Soldado e quem faz de Inimigo, conforme o sítio onde os objectos caem. Vais ver que o Luke põe a sua placa de identificação militar. Faz sempre isso.
― O que é uma placa de identificação militar? ― perguntou Sameer.
Sameer tinha vindo de um outro país para viver com os tios. Tinha aprendido a jogar basquetebol bem depressa, mas não sabia brincar às guerras. Luke mostrou-lhe uma placa de metal brilhante que tinha ao pescoço.
― É isto. Era do meu tio. Ele já esteve numa guerra a sério e, quando voltou, deu-ma. Os soldados andam sempre com ela. É muito importante.
 Sameer esfregou a placa brilhante com os dedos.
― Não tenho uma igual ― disse.
― Não faz mal. Ninguém tem ― consolou-o Luke. ― Podes pôr outra coisa qualquer no chapéu. A Jen vai colocar uma pedra e o Danny põe um cromo de basebol.
Sameer remexeu no bolso e tirou de lá um pião.
― Posso usar isto?
― O que é isso? ― perguntou Danny.
― É um pião ― respondeu Sameer. ― Vocês não têm disto aqui?
 Tirou um cordel do bolso e continuou:
― Lá no meu país havia muitos.
De repente, o pião rolou aos pés deles. Sameer atirou-o ao ar, apanhou-o a girar e colocou-o no boné de Luke.
― Que espectáculo! ― disse este.
Depois virou o boné com um gesto rápido e anunciou:
― Os Soldados são Danny, Jen e Jeff. Os Inimigos são o Sameer e eu.
Antes mesmo de os outros se terem mexido, Luke correu pela encosta abaixo, gritando:
― Os Inimigos vão para o pinhal. Os Soldados ficam aqui.
Jen queixou-se:
― Não é justo começar a guerra antes de estarmos prontos!
― Como nos preparamos para uma guerra? ― perguntou Sameer, logo que chegaram às árvores.
― Apanha paus para fazerem de armas e pinhas para fazerem de bombas e granadas. Temos de ter um plano de ataque.
Dentro de alguns minutos, o boné de Luke estava cheio de pinhas. Sameer só tinha uma.
― Só tens uma? ― admirou-se Luke.
― Acho que chega.
― Talvez para ti. Quanto a mim, tenciono arrancar-lhes a cabeça!
Sameer deu a sua pinha a Luke e disse:
― Lembrei-me agora de que tenho de ir cedo para casa.
Virou costas e deixou o amigo ali especado.
― Espera! ― gritou Luke. ― Não posso ser o único Inimigo! São muitos contra um!
Mas Sameer já tinha desaparecido.
Quando os miúdos se juntaram de novo na manhã seguinte, o plano de Luke estava pronto. Tinha apanhado montes de pinhas atrás de casa e tinha-as escondido no pátio. Estava ansioso por começar. Comentou para Sameer:
― Quem me dera que houvesse uma guerra para miúdos. Uma guerra a sério.
― E há ― disse o amigo, em voz baixa.
― O quê? Onde? ― quis saber Luke.
― No meu país.
Sameer pegou numa bola de basquete, driblou e encestou.
― No sítio onde vivias? ― perguntou Luke.
― Sim, perto da minha casa verdadeira, antes de vir viver com o meu tio Mustafa. Até participei nela.
― Nela o quê?
― Na guerra.
― Estás a brincar! Nunca nos contaste nada. Tinham meninos-soldados e metralhadoras?
Sameer deixou cair a bola e sentou-se junto de Jen. Embora tivessem brincado bastante juntos este Verão, nenhum deles sabia muito sobre o outro.
― Não gosto de falar sobre isso ― confessou Sameer. ― Eu não era soldado. Ninguém na minha família era. Entrámos na guerra porque fizeram a nossa casa ir pelos ares.
― Quem fez? ― perguntou Jeff.
― Não sabemos. Havia muitos tiros a serem disparados de ambos os lados.
O menino pegara, entretanto, no pião, e começara a enrolar o cordel em torno dele.
― Os meus pais e o meu irmão estavam em casa quando morreram. Como eu estava na escola, salvei-me e vim viver com o meu tio Mustafa.
― Mas, porque atacaram a tua família? ― sussurrou Jen.
― Foi um engano. Não planeavam atacar-nos. O meu tio disse que os morteiros deviam ter atingido outras casas.
Todos olharam para ele. Ninguém sabia o que dizer. Sameer falava de algo que eles nem imaginavam que existisse.
― Foi um erro terrível ― disse Luke, por fim.
Sameer concordou com a cabeça.
― Quem me dera que nunca tivesse acontecido.
Ao ouvir a história de Sameer, Luke teve vontade de chorar. Por momentos, ficou apenas a olhar para o pião do amigo. Depois, foi até à linha divisória que traçara no chão e apagou as letras S e I, bem como a própria linha.
― Não vamos jogar mais? ― quis saber Danny.
― Vamos ― respondeu Luke, pondo o braço em torno de Sameer. ― Vamos jogar basquete.
Depois olhou para os amigos e disse:
― Está muito calor para guerras.
Kathy Beckwith
Playing War
Maine, Tilbury House, 2005
(Tradução e adaptação)
A rainha do País dos Frutos
I. O PAÍS DOS FRUTOS
O País dos Frutos é um país alto, atravessado por rios imensos e límpidos de luz e pelos caminhos imprevisíveis dos pássaros. Nesse país, os frutos crescem na direcção do chão que é a direcção certa de crescer. No País dos Frutos há cor, sabor, frescura e o tilintar da música que há nas sílabas do nome de todos os frutos. Quando se diz o nome de um fruto é como se o vento fizesse baloiçar as sonoridades delicadas daqueles jogos de canas que se penduram nas árvores ou nas varandas das casas. Por isso se diz que neste país os frutos têm música dentro do nome e luz e cor. E o nome dos frutos escreve-se com as mesmas letras da alegria, da frescura e da liberdade.
O País dos Frutos é o país onde tudo começa numa flor, onde o silêncio cresce devagar até tomar a forma duma ameixa, duma maçã, dum dióspiro, duma romã; até tomar a cor do sol para, enfim, escorrer pelos lábios e neles derramar frescura e claridade. No País dos Frutos há milhares e milhares de bandeiras que nada significam: nem compromisso, nem fervor, nem fé. Estão lá porque nasceram lá. Nasceram dum impulso de vida e são agitadas, não pelo frenesim da voz, mas pela alma invisível dos ventos. O País dos Frutos é um país quente donde o Sol nunca gosta de afastar-se. Sente-se bem naquele país e, desde que se levanta até que se põe, percorre cada coisa com muita lentidão. Nunca tem pressa e por isso passa o tempo a amadurecer os frutos com uma enorme paciência. Todos os dias ao alvorecer, nas hortas e nos pomares, mal pressentem o seu apareci mento, os frutos ficam em alvoroço e começam a dizer uns para os outros:
— Aí vem o nosso amigo! Aí vem o nosso grande amigo Sol!
Aqueles menos bem situados, mais escondidos pelas folhas ou pela sombra de outras árvores vizinhas, tentam apanhar os seus primeiros raios e pedem aos que moram no lado exterior da copa:
— Deixem-nos ir para a vossa janela, deixem-nos ver como caminha lá de longe o Grande Sol para vir ao nosso encontro.
Mas, como se sabe, não é fácil os frutos moverem-se. Não têm pernas e só têm um braço que os prende à árvore. E se há alguns que conseguem, apesar disso, esticar-se, esticar-se até mais acima, há outros que não têm força nem espaço e ficam abafados pelas folhas e pelos outros frutos. É certo que têm a companhia e a frescura das gotas de orvalho que durante a noite por ali se acomodaram e por ali ficam a maior parte do dia. Mas falta-lhes a cor e o sabor que só o Sol lhes pode oferecer.
— É triste ficarmos aqui escondidos. Ninguém reparará em nós. Ninguém nos colherá...
— Mas duraremos mais tempo. Ficaremos para alimentar os pássaros e os insectos e isso é melhor do que ser empacotados e alinhados em caixotes nas frutarias e nos supermercados — diziam outros menos descontentes com a sua sorte.
— E os comentários que teremos de suportar dos outros frutos e dos homens? Que somos enfezados, que não prestamos para nada, que era melhor não termos nascido — acrescentou uma pêra, briosa, mas corcovada e dura como uma pedra.
— Não me importa o que dizem. Nascemos duma flor, como os mais anafados, e o resto é conversa. Deixem-nos ir para as mesas das pessoas importantes..., ter de suportar jantares que nunca mais acabam e ouvir conversas que não interessam ao menino Jesus. Eu, por mim, prefiro ficar com os pássaros e os insectos — dizia do meio da folhagem uma maçãzita bichenta, cheia de manchas e com a pele áspera como a casca de um pinheiro bravo.
Todos os dias a conversa era a mesma. E o Sol que, quando nasce, afinal, não é para todos, ficava triste por não poder oferecer o seu calor a todos os frutos do mesmo modo. Mas nada podia fazer porque ele próprio obedecia a uma lei que lhe impunha limites e o impedia de penetrar nos lugares mais escondidos.
— Chamam-me rei, mas tenho tantas incapacidades... — lamentava-se a cada passo.
E lá continuava como um atleta incansável a percorrer o céu de horizonte a horizonte. Às vezes apetecia-lhe parar um pouco a descansar, a conversar com as nuvens, a olhar preguiçosamente o País dos Frutos. Mas não podia. Se o fizesse causaria graves problemas ao funcionamento do Universo. Um dia, porém, no seu caminhar lento e airoso, teve uma ideia luminosa. Aliás, o Sol só tem ideias luminosas:
— Há tantos frutos que se queixam por viverem nos lugares sombrios da copa... Vou reuni-los e escolher um rei dos frutos para resolver os conflitos, estabelecer a justiça e assegurar a igualdade entre todos. Um rei?... Talvez não. Uma rainha!
O Sol lá tinha as suas razões para preferir uma rainha.
II. A RAINHA DE TODOS OS FRUTOS
No dia marcado pelo Sol, todos os frutos se reuniram para entre eles escolher um que assegurasse a justiça e resolvesse os conflitos. Falou em primeiro lugar a Pêra-Joaquina:
— Tomo a palavra, meu soberano sem igual, para dizer que sou o fruto indicado para chefiar todos os frutos da horta e do pomar. Sou pequena e discreta, é certo, mas tenho a força do carácter e a dureza para impor a lei.
— Eu moro nos lugares baixos da horta — começou por dizer o Melão-casca-de-carvalho — mas a vantagem física do meu porte levará a uma natural obediência.
— A autoridade não é uma questão de físico — interrompeu o Figo-pingo-de-mel. — Eu sou de frágil constituição, mas tenho doçura e essa é uma forma de autoridade que todos aceitarão livremente.
— Concordo com o Figo-pingo-de-mel, mas deve haver uma inclinação natural para a autoridade. A minha linhagem nobre e antiga — disse a Ameixa-rainha-Cláudia — faz circular na minha seiva a necessidade de dirigir e defender os outros. A autoridade está em mim com a mesma naturalidade com que as raízes da ameixoeira estão na terra.
— Não me parece que seja assim. Há raízes que secam... — disse a Maçã-pata-de-boi. — Nos tempos que correm, a autoridade deve ter estatura e, por isso, a minha fortaleza discreta e altiva é um argumento que o Pai-de-todas-as-luzes não pode desprezar.
— Se me permite a palavra — disse o Pêssego-careca — gostava de falar sobre a importância da experiência e da sabedoria no exercício da autoridade. A minha calvície é com certeza sinal de ponderação, fundamental para ultrapassar conflitos e discussões.
— Autoridade rima com virilidade — sentenciou a Uva-coisa-de-galo. — Não é com falinhas mansas que se exerce a autoridade. É necessário ter argumentos..., compreende o meu rei, Luzeiro-de-todos-os-luzeiros? E esses argumentos, eu tenho-os: o meu exército de bagos estará sempre pronto a intervir para que a lei seja cumprida duma forma exemplar.
Ainda outros frutos falaram, mas o Grande Rei Sol não ficou convencido com as razões expostas. Pareceu-lhe que estavam demasiado interessados em mandar e poucos invocaram a preocupação da paz, da justiça e da igualdade entre a família dos frutos.
— Ouvi as vossas palavras e, a seu tempo, tomarei uma decisão.
Despediu-os e retirou-se para pensar mais maduramente. Logo nessa noite, ninguém dormiu. Todos discutiram com todos. Cada um deles esperava vir a ser o escolhido. Passaram-se noites e dias, dias e noites e, ao alvorecer, pensavam sempre que seria aquele o dia em que o Sol iria anunciar a sua escolha. As discussões eram cada vez mais acesas e a impaciência começava a retirar lucidez à maior parte. Todos se vigiavam a todos. Em cada palavra dita havia um ouvido rente às folhas a escutar. O mais pequeno deslize, um erro, qualquer defeito, eram anotados e guardados para, na altura certa, serem jogados em desfavor do rival. Como às vezes acontece no país dos homens, ninguém estava resguardado. Todos estavam expostos diante de todos. Havia naquele pomar uma palavra que pairava, luminosa, sobre a copa de cada uma das árvores: ve ncer. Vencer eliminando os outros. (…)

Nuno Higino
A Rainha do País dos Frutos
Marco de Canavezes, Cenateca, 2000

A SENHORA DOS LIVROS
A minha família e eu vivemos num sítio muito alto, pertinho do céu. A nossa casa fica situada num local tão alto que quase nunca vemos ninguém, a não ser falcões a planar e animais a esconder-se por entre as árvores.
Chamo-me Cal e não sou nem o mais velho nem o mais novo dos irmãos. Mas, como sou o rapaz mais velho, ajudo o meu pai a lavrar e a ir buscar as ovelhas quando, às vezes, elas se escapam. Também me acontece trazer a vaca para casa ao pôr-do-sol, e ainda bem que o faço. É que a minha irmã Lark passa o dia todo a ler.
O meu pai diz sempre que nunca se viu uma rapariga tão super-leitora... Cá comigo não é assim. Não nasci para ficar sentado e quieto a olhar para quatro garatujas. E não acho graça nenhuma a que a Lark se arme em professora, porque a única escola que existe fica a quilómetros daqui e ela dificilmente lá chegará. Por isso é que ela quer ensinar-nos. Só que, a mim, a escola não me interessa!
Sou sempre o primeiro a ouvir o ruído dos cascos e a ver a égua alazã da cor do barro. Sou o primeiro a dar-se conta de que o ginete não é um homem, mas uma senhora com calças de montar e cabeça bem erguida. É claro que recebemos a forasteira de braços abertos, porque pessoa mais simpática não há. Depois de tomar chá, põe os alforges em cima da mesa e até parece ouro o que tira de lá de dentro. Os olhos da Lark põem-se a brilhar como moedas e a minha irmã não consegue ter as mãos quietas, como se quisesse apropriar-se de um tesouro.
Na realidade, o que a senhora traz não é tesouro nenhum, pelo menos a meu ver. São livros! Um monte de livros que ela, sozinha, carregou pela encosta acima. Um dia inteiro a cavalo para nada! É o que eu digo! Porque, se ela os quisesse vender, como faz o caldeireiro, que anda por aí com panelas, sertãs e outras coisas, veria logo que nós nem um centavo sequer temos para gastar. Muito menos em livros velhos e inúteis!
O meu pai põe-se a fitar a Lark e pigarreia. Então propõe à Senhora dos livros:
— Fazemos um contrato. Em troca de um livro dou-lhe uma saca de framboesas.
Aperto bem as mãos atrás das costas. Quero falar, mas não me atrevo. As framboesas, fui eu que as apanhei… Para fazer uma tarte, não para trocar por um livro! Quando vejo a senhora recusar, até pasmo. Não aceita uma saca de framboesas, nem um molho de legumes, nem nada do que o meu pai, em troca, lhe quer oferecer. Os livros não custam dinheiro; são de graça, como o ar. Ainda por cima, dentro de quinze dias, voltará para os trocar por outros! Cá para mim, tanto se me dá que a Senhora traga livros ou que não encontre o caminho até nossa casa. O que me espanta é que, mesmo que chova a cântaros, haja neve ou faça frio, ela volte sempre!
Certo dia de manhã, a terra acordou mais branca do que a barba do nosso avô. O vento uivava como lince em plena escuridão e apertamo-nos todos diante da lareira, pois, num dia desses, ninguém faz nada. Com um tempo assim, até os animaizinhos da floresta se deixam ficar bem aconchegados. De repente, ouviram-se umas pancadinhas na janela. Era a Senhora dos livros, abrigada até à ponta dos cabelos! Fez a troca através da porta entreaberta, para não apanharmos frio. E quando o meu pai lhe pediu que dormisse em nossa casa, não se deixou convencer:
— A égua leva-me embora — respondeu.
Fiquei de boca aberta a vê-la afastar-se. Pensei que era uma pessoa muito corajosa e tive vontade de saber por que é que a Senhora dos livros se arriscava a apanhar uma constipação ou coisa bem pior. Escolhi um livro com letras e desenhos e pedi à minha irmã Lark:
— Ensina-me o que está aqui, por favor.
A minha irmã não se riu nem troçou de mim. Arranjou um lugar aconchegado e, em voz baixa, pôs-se a ler. O meu pai costuma dizer que nos sinais da natureza está escrito se o Inverno vai durar muito ou pouco. Este ano, todos os sinais anunciaram neve bem abundante e um frio tremendo. Mas, embora todos os dias ficássemos em casa apertados como sardinhas em lata, não me importei nada. Pela primeira vez. Só quase na Primavera é que a Senhora dos livros pôde voltar a visitar-nos. A minha mãe ofereceu-lhe um presente, a única coisa de valor que lhe podia dar: a sua receita de tarte de framboesa, a melhor do mundo.
— Não é muito, bem sei, para o grande esforço que faz — disse a minha mãe.
 Em seguida, baixou a voz e acrescentou com orgulho:
— E por ter conseguido arranjar dois leitores onde apenas havia um!
Baixei a cabeça e esperei pelo fim da visita para comentar:
— Também gostaria de ter alguma coisa para lhe oferecer.
A Senhora dos livros virou-se e fitou-me com os seus grandes olhos negros:
— Vem cá, Cal — disse, com muita doçura.
 Quando me aproximei dela, pediu:
— Lê-me alguma coisa.
Abri o livro que tinha entre mãos, mesmo acabadinho de chegar. Dantes, eu pensava que eram quatro garatujas, mas agora já sei ver o que contém. E li um pouco em voz alta.
— Isto é que é a minha prenda! — disse a Senhora dos livros.
♦♦♦♦♦♦
Nota da autora
Este livro é inspirado numa história real, e relata o trabalho incansável das bibliotecárias a cavalo, conhecidas como «as Senhoras dos livros» entre os Apaches do Kentucky.
O Projecto da Biblioteca a Cavalo foi criado nos anos trinta do século XX, no contexto do New Deal do Presidente Franklin D. Roosevelt, com a finalidade de levar os livros às zonas isoladas onde havia poucas escolas e nenhuma biblioteca. No alto das montanhas do Kentucky, os caminhos eram amiúde simples leitos de riachos ou carreiros acidentados. De cavalo ou de mula, as bibliotecárias percorriam a mesma rota árdua, cada duas semanas, carregadas de livros, independentemente de fazer bom ou mau tempo. Para demonstrar a sua gratidão por algo que não custava dinheiro, “como o ar”, as famílias podiam dar-lhes algo do pouco que possuíam: legumes das suas hortas, flores ou frutos silvestres, ou até apreciadas receitas transmitidas de geração em geração.
Embora também houvesse alguns homens na Biblioteca a Cavalo, geralmente eram as mulheres que o faziam, numa época em que a maioria das pessoas achava que o lugar da mulher era em casa. As bibliotecárias a cavalo revelavam uma resistência e uma entrega extraordinárias. Ganhavam muito pouco, mas sentiam-se orgulhosas do seu trabalho: levar o mundo exterior ao povo apache e, em muitas ocasiões, converter num leitor quem antes nunca tinha achado nenhuma utilidade em “quatro garatujas”.
No Kentucky, os leitos dos riachos e os carreiros acabaram por se transformar em estradas. Os cavalos e as mulas deram lugar a carros-biblioteca, que são as bibliotecas ambulantes nos dias de hoje. Dedicados à sua tarefa, bibliotecárias e bibliotecários continuam a levar livros a quem deles necessita…
Heather Henson
La señora de los libros
Barcelona, Editorial Juventud, 2010
(Tradução e adaptação)


O BARCO DO AVÔ
Conto Popular


Marisa vivia com amãe e o avô numa casita com vista para o mar.
O avô era pescador e navegava no seu barquito, que tinha uma vela castanha, pelas águas do porto.
Umas vezes, o avô pescava perto da costa e Marisa gostava de ver o barquito serpentear por entre as rochas e as enseadas da baía. Noutras, partia ao cair da noite e então Marisa ficava a ver o barco embrenhar-se no vermelho dourado do crepúsculo. A seguir ia para a cama, satisfeita por saber que, quando o Sol despertasse por detrás dos montes, veria a vela castanha regressar à luz ténue da aurora.
Quando isso acontecia, Marisa e a mãe desciam até à ponta do molhe para se despedirem dele com grandes acenos, e o barco, levado pelo movimento da maré, mergulhava na neblina do horizonte, parecendo afundar-se naquela imensidão de onde apenas emergia a ponta do seu mastro.
Depois, quando o próprio mastro desaparecia, Maria e a mãe ficavam completamente sós.
— Ele vai voltar — prometia-lhe sempre a mãe. Por vezes, Marisa até sabia em que maré ele iria regressar, e nessas alturas corria para o cimo do monte que ficava por detrás da casa e não tirava os olhos do mar até a ponta do mastro surgir no horizonte.
— Vem aí o avô, vem aí o avô! — gritava entusiasmada.
Então, ela e a mãe corriam para a ponta do molhe para acenarem para o barco cuja vela castanha se agitava cada vez mais perto até que, por fim, tornavam a ver a cara sorridente do avô.
Também havia alturas em que os dias passavam sem ele voltar, o que deixava a mãe de Marisa muito preocupada:
— Estamos na época das tempestades — explicava então Marisa — e o avô pode ainda demorar sabe-se lá quanto tempo.
No entanto, continuava à espera de o ver regressar.
— Se a viagem foi perigosa, o avô ainda estará mais ansioso por nos ver — dizia.
Marisa aprendeu a reconhecer quando a maré estava alta, pois era a altura mais propícia para o barco entrar no porto. Era então que ia à procura dele.
Chegava a passar uma semana à espera ou mesmo duas... mas acontecia sempre o mastro aparecer e o avô voltar.
— Às vezes desejo que o avô não saia para o mar para não nos deixar sozinhas — disse-lhe Marisa após uma viagem que tinha durado vários dias.
          — Vou fazer-te a vontade — suspirou o velho. — Já não sou tão forte como era dantes e por isso não me atrevo a ir para tão longe como costumava. A partir de agora não me afastarei muito... ando de cá para lá e de lá para cá durante o dia, enquanto a maré me ajudar.
De início, Marisa ficou satisfeita porque assim tinha mais tempo para estar com o avô. Porém, começou a reparar que, de dia para dia, ele estava cada vez mais frágil e debilitado, e quase já não saía de casa.
— O avô já não vai para o mar? — perguntou Marisa ansiosamente.
— O único barco em que eu agora irei navegar é o que me levará para o outro mundo — respondeu o avô a sorrir.
Marisa suplicou-lhe:
— Não vá! Nunca vá para lá! — disse-lhe a chorar.
— Essa é a viagem para que eu sempre vivi — retorquiu-lhe serenamente o avô. — Explorei tudo o que me apeteceu neste mundo e agora anseio por descobrir o outro.
Pouco tempo depois o avô de Marisa morreu. O sino da igreja da vila repicou solenemente quando o enterraram no cemitério que dava para o mar.
— Adeus, avô — sussurrou Marisa à terra escura.
A seguir correu sozinha para a ponta do molhe.
— Adeus, avô — gritou à maré que baixava rapidamente. — Adeus, adeus.
As águas foram-se afastando da costa e ela permaneceu à espera, tanto tempo quanto o barco do avô costumava levar até desaparecer no horizonte longínquo. Entretanto, chegou a mãe que se sentou a seu lado.
— Já não o podemos ver — disse tristemente a mãe. — Mas creio que numa costa distante, numa outra terra, haverá alguém que o estará a ver chegar.
 
Lois Rock (org.)
Contos e Lendas da tradição cristã
Lisboa, Editorial Verbo, 2006


O ALMOÇO É DAQUI A DEZ MINUTOS!

No cruzamento, paro na passadeira. Os carros passam apressados à minha frente, colados uns aos outros. Pouso a pasta no chão, ao meu lado. Hoje está bastante pesada, mais pesada do que de costume. Ao segundo tempo tivemos Estudo do Meio e tenho sempre de levar o atlas, que pesa quase um quilo. Não admira, quando imagino que lá dentro estão todos os rios, montanhas, mares, cidades e países – ou, pelo menos, quase todos. Aqui estão eles, nesta pasta, aos meus pés. Que ideia mais esquisita. Espero que os rios e os mares não comecem a sair, senão o livro de leitura e os outros livros todos e os cadernos que trago comigo ficam molhados!
Os carros param. É o sinal de partida para mim. Atravesso ao lado de outros peões, roçando nos pára-choques. A minha mãe resmunga muitas vezes por causa deste percurso. É uma falta de consideração para com as crianças, comenta ela. Mas a mim, este caminho não me incomoda, e os carros também não. Se calhar, começa-se a pensar como a minha mãe quando se é mais velho… Ali à frente, na próxima esquina, vou mudar a pasta para a outra mão. Faço-o sempre nesse local. A tabacaria é a referência. Quando lá chego, já o couro da pega me fez uma marca vermelha na mão.
Estou quase a chegar a casa. Dobro esta esquina, ando mais um pouco, e vejo a nossa casa amarela pintada de fresco. Mas, o que é isso denossa casa? É a casa onde nós e muitas outras famílias moramos…
Começo sempre por ver se a minha mãe está atrás de alguma janela. Às vezes, imagino que ela está lá, à espera de me ver chegar. Mas hoje também não está. Antes, quando eu andava na primeira classe, a minha mãe ficava muitas vezes lá em cima e acenava-me quando me via. Eu fazia então o último troço a correr. Se calhar, a minha mãe está na cozinha a preparar o almoço. Se calhar não soa a certeza, e eu tenho a certeza de que ela está na cozinha. É sempre assim!
Tenho de lhe contar sem falta que hoje me aconteceu uma coisa maluca na escola. Desde a primeira hora da manhã que fiquei sentado ao lado de um novo colega chamado Roberto. Sinto-me tão contente! É o colega da turma de quem eu mais gosto. E hoje perguntou se podia sentar-se ao meu lado!
Será que a minha mãe já esvaziou a caixa do correio? Sim, já esteve no átrio e levou o correio. A caixa está vazia, já não há nenhum jornal, nada. Esqueci-me completamente de trocar a pasta de mão. Agora também já não troco, embora já me comece a arder. De certeza que ainda aguento os poucos degraus. São vinte até à nossa porta. De certa maneira, até estou contente por ter calos na palma da mão por carregar com a pasta. Quando lhes pico um bocadinho com uma agulha, não sinto nada.
Começo por ver a porta dos nossos vizinhos; chamam-se Bambinek. Quando leio o nome, dá-me sempre vontade de rir, não sei bem porquê. Pronto… e agora já posso tocar à campainha. A minha mãe está em casa, como sempre. Atravessa o vestíbulo, não tarda a abrir a porta.
— B’dia — diz, e mais nada.
Pergunta quase sempre:
— Então, o que é que houve? Como foi a escola?
E eu conto o que se passou na escola e pergunto:
— O que é o almoço?
Quando tenho sorte, responde:
— Esparguete com molho de carne.
Mas hoje só diz:
— B’dia.
Vira-me logo as costas e vai para a cozinha. Mas eu quero contar-lhe o que me aconteceu na escola!
Quando vou à cozinha, torno a ver-lhe só as costas. O que se passa com ela? Pouso a minha pasta à entrada. Bolas, a mão dói-me bastante! Tenho mesmo de perguntar se posso ao menos deixar o atlas na escola. Entretanto, a minha mãe inclina-se sobre o fogão, e logo a seguir sobre a mesa, para cortar cebolas. Faz aquilo rapidíssimo. Agora corta batatas, deita sal na água. Nem precisa de dizer: “O almoço é daqui a dez minutos.” As costas dela dizem-mo. E é-me relativamente indiferente se o almoço está pronto em dez ou vinte minutos.
É pena que a minha mãe não tenha mais calma! Mas deve pensar que morro, se a comida não estiver em cima da mesa daqui a pouco. À noite, quando cozinha para o meu pai, faz exactamente o mesmo. É sempre muito pontual.
— Hoje aconteceu uma coisa na escola — conto, e quero continuar a falar. Mas como ela quer ter a comida pronta em dez minutos – agora são só nove – não me ouve. Só diz:
— Faz-me um favor, põe a mesa. — E de seguida: — O almoço é daqui a dez minutos.
Isso já eu sei. Em seguida ponho a mesa. Vou à sala, tiro os pratos do armário, os de domingo, porque hoje me apetece pôr. A minha mãe deve ter queimado os dedos na panela de pressão. Está a praguejar e bem. Pouso os talheres e corro para a cozinha.
— Panela estúpida — diz.
— Na escola estou sentado ao lado… — mas já vi que foi o momento errado para começar. Odedo continua a doer-lhe. Põe-no debaixo de água a correr.
— Já puseste a mesa? — pergunta.
— Hum — murmuro, e desapareço novamente para a sala.
Ela vem logo atrás de mim a gritar:
— Quantas vezes tenho de te dizer para não deixares as coisas da escola na entrada? Já não to disse umas cem vezes? Pendura-as no cabide. Com mil macacos!
Aprendeu esta expressão com o meu pai. Hoje é a primeira vez que a ouço dizê-la. Dito por ela, soa esquisito. Não consigo evitar e rio à socapa. Por sorte, o Carlos, o meu irmão mais novo, começa a chorar. A mãe olha-me horrorizada, como se se tivesse esquecido de uma coisa muito importante. Corre para o quarto do bebé. Não, não corre, lança-se para o quarto do bebé.
— Queres que leve alguma coisa? — pergunto.
Fui outra vez à cozinha de propósito para lhe falar do meu novo colega de carteira. Ainda estou contentíssimo.
— Sim — responde — leva os suportes para a sala.
— Olha, queria contar-te que hoje tenho um novo colega de…
— Depois! — diz ela. — Por favor, agora deixa, as batatas estão prontas. Se queres fazer-‑me um favor, leva o balde do lixo lá para baixo. O almoço é daqui a cinco minutos. Despacha-‑te e depois lava as mãos.
Pego no balde e desço. Deixo que a porta bata o mais alto possível, embora ela se irrite com isso. Não vou despachar-me, nem um pouco. Gostava de ficar fora pelo menos uma hora. Só estou contente por não ser sempre assim em minha casa. E uma coisa é certa: hoje já não lhe conto que tenho um novo colega de carteira. Já perdi a vontade.
Achim Bröger
Michael Ende; Irmela Brender (org.)
Bei uns zu Hause und anderswo
Stuttgart, K. Thienemanns Verlag, 1976
(Tradução e adaptação)

Allen Jay e o Caminho-de-Ferro Clandestino
Allen Jay vivia com a família em Randolph, no Ohio, por volta de 1840. Os Jays pertenciam a um grupo religioso chamado Sociedade dos Amigosou Quakers. Estas pessoas vestiam-se todas da mesma maneira e acreditavam que todos os homens eram iguais. Usavam roupas simples e tratavam toda a gente por “tu”, fossem estranhos ou amigos.
Infelizmente, a maioria dos afro-americanos que viviam no sul dos Estados Unidos não eram tratados como iguais. Eram escravos. Os escravos trabalhavam todo o dia sem serem pagos. Os patrões tinham direito de propriedade sobre eles, como se fossem animais. Quando os escravos fugiam, eram perseguidos e castigados. Muitas vezes, eram torturados ou mortos. As pessoas que ajudavam os escravos a fugir também eram punidas.
Embora fosse perigoso, os pais de Allen, Isaac e Rhoda Jay, ajudavam os escravos a fugir. Os Jays faziam parte de um grupo secreto chamado “Caminho-de-Ferro Clandestino”. As pessoas que trabalhavam para esta organização escondiam escravos fugidos nos seus celeiros, sótãos e esconderijos secretos. Levavam-nos de um lugar seguro para outro. Os fugitivos viajavam a pé, a cavalo, de carroça e por trilhos secretos até ao Canadá. Aí, todos eram tratados como iguais perante a lei.
Os Jays tinham o cuidado de não dizer a ninguém o que faziam, nem mesmo aos filhos. Allen, de onze anos de idade, sabia que os pais alimentavam e escondiam estranhos de pele escura que iam e vinham misteriosamente. Mas não percebia muito de escravatura. Até ao dia em que se encontrou face a face com um fugitivo…
♦♦♦♦♦♦♦♦
1 de Julho de 1842
Allen pendurou a última camisa na corda. A mãe estava demasiado doente para fazer esta tarefa tão pesada, por isso cabia ao filho mais velho fazê-la. Todas as segundas-feiras, Allen lavava, fervia, engomava e estendia a roupa. Depois podia brincar à vontade.
Nessa tarde, Allen dirigiu-se ao celeiro para ir buscar a sua cana de pesca. Enquanto atravessava o pátio, viu um cavalo a dirigir-se para a quinta deles. Era o médico da família, que logo se aproximou.
 Amigo Jay! Amigo Jay!  gritou o médico.
O pai de Allen saiu do celeiro e caminhou rapidamente para o portão. Comentou:
 O teu cavalo hoje tem asas. Pareces apressado.
O médico inclinou-se para Isaac e disse em voz baixa:
 Está um escravo fugido escondido no bosque. O dono dele e os seus homens estão no seu encalço e estão armados.
Agarrou o ombro de Isaac e acrescentou:
 Tem cuidado, Amigo.
O pai de Allen assentiu com a cabeça. O médico virou o cavalo e partiu de novo. Allen aproximou-se do pai e viu a sua cara preocupada. Perguntou-se se o dono do escravo viria matar o pai. Lembrava-se de histórias de outros Amigos que ajudavam fugitivos. Alguns tinham sido espancados. Outros tinham visto as suas casas serem incendiadas. Isaac Jay olhou para o filho.
 Allen, pode ser que em breve vejas um homem de pele escura. Leva-o para o campo de milho, para trás da nogueira grande. O milho aí é suficientemente alto para o esconder. Mas, se o esconderes, não me digas a mim nem a ninguém que o fizeste.
Virou as costas e caminhou de volta ao celeiro. Allen nem conseguia mexer-se. O que devia fazer agora? O som de algo a estalar no bosque interrompeu-lhe o pensamento. Viu alguém mover-se por entre as árvores e o matagal. Caminhou em direcção aos ruídos, que logo cessaram. De repente, um homem com uma arma na mão saltou dos arbustos. Allen recuou rapidamente. Ficaram a olhar um para o outro em silêncio. O homem tinha as roupas rasgadas e os pés ensanguentados. A sua pele escura tinha golpes e marcas de chicote.
 Tu filho Patrão Jay?  perguntou.
Os olhos moviam-se de um lado para o outro, a perscrutar a estrada e a casa.
 Sou  gaguejou Allen.  Sou Allen, o filho dele.
O homem baixou a arma. Allen tentou ganhar coragem para falar. Sempre tinha tido dificuldade de falar claramente, mas agora precisava mais do que nunca que o compreendessem.
 Segue-me  disse devagar.  O meu pai mandou-me levar-te para um esconderijo.
 Percebo  disse o homem.
Allen conduziu-o pela borda do bosque até às traseiras da quinta. Baixaram-se, enquanto corriam pelo campo de milho. Allen levou o homem para uma clareira debaixo da nogueira.
 Tens de ficar quieto e longe da vista das pessoas  sussurrou o rapaz.  A seu tempo, virão buscar-te.
 Tem piedade  suplicou o homem.  Chamo-me Henry James. Fugi anteontem e ainda não comi nem bebi nada.
Os olhos pareciam tristes e cansados. Os lábios estavam gretados do calor.
 Volto em breve com alguma comida  disse-lhe Allen.
Olhou em volta para se certificar de que ninguém veria Henry James. Quebrou um caule de milho e varreu a poeira atrás de si, à medida que tentava encobrir as pegadas. Certificou-se de que todos os caules de milho estavam no lugar. Depois correu até casa. Tinha esperança de que o dono do escravo estivesse a horas de distância. O pai ia precisar de tempo para planear uma fuga segura para este fugitivo. Allen abrandou o passo à medida que se aproximava do celeiro. Pensou que alguém podia estar à espreita.
Abriu a porta da cozinha. Os seus irmãos Milton, Walter, Abijah e Mary estavam à mesa a descascar ervilhas. A mãe levantou-se da cadeira de baloiço.
 Senta-te, Allen  ordenou com voz tranquila.  Tenho uma coisa para ti.
 Mas, mãe  começou Allen a protestar.
 Fica sossegado, filho.
Allen sentou-se no banco junto de Walter. A mãe pediu:
 Mary, por favor põe algum pão de milho e um pouco de presunto num cesto.
Allen perguntou-se como sabia a mãe que devia preparar comida a esta hora do dia e por que motivo os irmãos estavam todos dentro de casa.
 Quem vai comer o pão?  perguntou o pequeno Milton.
 Um amigo que passe à nossa porta  respondeu a mãe, a sorrir.
Rhoda Jay deu o cesto cheio a Allen e disse-lhe:
 Leva este cesto a alguém que tenha fome.
Allen pegou no cesto e agarrou numa caneca de leite. Em seguida, apressou o passo em direcção ao campo de milho. Quando chegou junto da nogueira, ouviu o barulho de caules a partirem. O canhão preto de um revólver apareceu por entre as folhas de milho. Allen ficou petrificado. Percebeu pelo barulho do gatilho que a arma estava pronta a disparar.
 Por favor, não dispares!  implorou o rapazinho.
Henry baixou a arma e afastou o milho.
 Tu meter medo  disse, com a voz a tremer.
Allen suspirou e aproximou-se. Mostrou ao homem o que tinha trazido.
 Serve-te à vontade.
Henry agarrou na caneca e bebeu com gosto durante muito tempo.
 Isto ser muito bom, Patrão  disse, agradecido.
 Podes ficar aqui a descansar enquanto o meu pai não vier buscar-te. Eu tenho de ir.
Allen avançou através do milho até à berma do campo. Quando estava a sair do bosque, ouviu vozes. Escondeu-se detrás de uma pilha de toros antes que alguém o visse. Espreitou através dos toros e viu o pai a falar com seis homens a cavalo. Eram forasteiros e estavam armados. Um deles interrogava Isaac Jay asperamente:
 Tem a certeza de que não viu o meu foragido?
Isaac abanou a cabeça.
 Já lhe disse que não. Eu nunca minto.
O dono de escravos resmungou, incrédulo.
 Que tal darmos uma vista de olhos à sua casa?
 São bem-vindos  disse Jay, calmamente.  Mas precisam de um mandato.
O homem gritou:
 Pode demorar a arranjar. Voltamos amanhã de manhã.
Resmungou qualquer coisa para os homens que o acompanhavam e foram-se embora a galope. Nessa tarde, Allen não ouviu mais nada sobre o escravo em fuga ou os homens coléricos. Nem se atreveu a perguntar. O pai, quando veio jantar, falou pouco. Nessa noite, a mãe mandou os filhos cedo para a cama. O pai foi ao celeiro. Pouco depois, voltou e chamou Allen. O cavalo deles, o Velho Jack, estava atrelado a uma carroça no pátio.
 Gostavas de ir até à casa do avô?  perguntou Isaac ao filho.
 Posso ir contigo?  perguntou Allen, admirado.
 Não, desta vez vais sozinho  respondeu o pai.
Allen nunca tinha viajado à noite sozinho pelo bosque. Havia ursos, gatos selvagens e serpentes por todo o lado. Agora, até devia haver caçadores de escravos. Mas Allen sabia o que o pai queria que ele fizesse.
A mãe saiu de casa e agarrou o braço do marido.
 Não deves mandá-lo. É muito perigoso.
 Mas eu tenho de ir, mãe  disse Allen.  Se o dono do escravo e os outros homens voltarem, o pai tem de estar em casa.
 Tenho orgulho em ti, filho  disse o pai.  Se achas que deves levar alguém contigo, leva.
Rhoda Jay abraçou o filho demoradamente. Allen subiu para a carroça e tomou as rédeas.
 Vai depressa e não te afastes da estrada principal  advertiu o pai.  Podes passar a noite na casa do teu avô.
Allen conduziu o cavalo até ao campo de milho. Parou a carroça junto da nogueira.
 Sou eu, o Allen. Temos de nos despachar.
Henry James subiu para a carroça e encolheu-se junto dos pés de Allen. Passaram as luzes aconchegantes que irradiavam das janelas das quintas. Uma nuvem toldou a lua e a escuridão envolveu-os no meio daquela estrada acidentada. Permaneciam ambos em silêncio. Será que os caçadores de escravos iriam apanhá-los? Allen procurou não pensar no medo que sentia. E se Henry tentasse matá-lo para ficar com o cavalo? Agarrou as rédeas com força para apressar o cavalo. Tinha as mãos húmidas. Mordeu o lábio inferior.
 Tu ter medo mim?  perguntou Henry.
Allen não conseguiu responder.
 Patrão Allen, tu leva a espingarda. Se vires alguém, dá-ma depressa. Salto enquanto conduzes. Não quero que te magoes.
Henry entregou a espingarda a Allen. O rapaz abanou a cabeça. Nem conseguia tocar na arma. O escravo disse:
 Eu não voltar àquela quinta. Podem matar-me, mas não vou mais ser chicoteado.
Em seguida contou histórias a Allen sobre a sua vida de escravo. Trabalhava o dia todo e a maior parte das noites nos campos do Kentucky. Tinha visto o irmão ser espancado até à morte. A irmã tinha sido vendida a outro dono, longe dali. Henry queria chegar ao Canadá para poder ser livre.
Allen sentiu-se mal por não ter confiado em Henry. Nesse momento, ouviu algo a agitar-se por entre as folhas. Começou a tremer. Uma sombra atravessou-se em frente da carroça. O Velho Jack empinou-se nas patas traseiras. Allen puxou as rédeas até os dedos doerem. O cavalo foi-se acalmando.
 O que aconteceu?  sussurrou Henry.  Precisas da arma?
 Não  respondeu Allen, rindo nervosamente.  Era apenas um coelho velho a atravessar a estrada.
Henry não se riu. Viajaram durante mais de hora e meia. Allen via um caçador de escravos em cada sombra. Estava a ficar com sono e doíam-lhe as costas. Sentia frio por causa da humidade nocturna e estava cansado de ter medo.
Finalmente, viu uma luz. Vinha de uma cabana, da cabana do avô Jay. Allen saltou da carroça e ajudou Henry a sair do esconderijo. Bateu à porta com força e o avô veio abrir a porta em pijama. Parecia surpreendido, mas sabia o que fazer.
 Entrem depressa. Allen, vai acordar o teu tio Levi.
Allen fez o que o avô mandou. O tio vestiu-se e saiu para selar os cavalos. O avô pôs alguma comida numa trouxa e deu-a a Henry. O escravo agradeceu-lhe e seguiu-o até ao celeiro.
Antes de Henry partir com o tio Levi, Allen estendeu-lhe a mão e disse, numa voz forte e clara:
 Desejo que faças boa viagem até ao Canadá.
Henry James pegou na mão do rapaz:
 Não vou esquecer tu, Patrão Jay  disse, apertando-lhe a mão.  Tu ser rapaz corajoso.
♦♦♦♦♦♦♦♦
Posfácio
Trinta minutos mais tarde, Henry e Levi entraram num acampamento de afro-americanos livres no condado de Mercer, no Ohio. Tratava-se de uma paragem muito importante no Caminho-de-Ferro Clandestino. A família desse acampamento escondeu Henry até ele poder viajar para norte. Passados alguns meses, a família Jay soube que o escravo tinha chegado ao Canadá.
Allen tornou-se um conhecido professor e pastor Quaker quando cresceu. Era um orador famoso, o que surpreendia muita gente: é que Allen tinha nascido com um orifício no céu-da-boca, o que tornava as suas palavras difíceis de entender. Mas as suas poderosas palavras de paz e amor eram consideradas um tesouro por muitos Amigos. Quando envelheceu, Allen escreveu a história da sua vida e o seu encontro com o escravo fugido em A Autobiografia de Allen Jay.
Marlene Targ Brill
Allen Jay and the Underground Railroad
Minneapolis, Carolrhoda Books, 1993
(Tradução e adaptação)

A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho
 Quantas pessoas no mundo estão actualmente ameaçadas de morrer de fome?
 A FAO (Food and Agricultural Organization),Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas, avalia, no seu último relatório, em mais de 30 milhões o número de pessoas que morreram de fome em 1999 e, para o mesmo período, em mais de 828 milhões de seres torturados pela desnutrição grave e permanente. São homens, mulheres e crianças que, devido à falta de alimentos, padecem de lesões frequentemente irreversíveis. Ou morrem num prazo mais ou menos breve, ou vegetam num estado de deficiência grave – cegueira, raquitismo, desenvolvimento precário da capacidade cerebral, etc.
Tomemos o exemplo da cegueira: em cada ano, sete milhões de pessoas, normalmente crianças, perdem a vista, na maioria das vezes por falta de uma alimentação suficiente ou como consequência de enfermidades vinculadas ao subdesenvolvimento. Cento e quarenta e seis milhões de cegos vivem nos países da África, da Ásia e da América Latina. Em 1999, Gore Brundtland, directora da Organização Mundial da Saúde, ao apresentar o seu plano “Visão 2020” em Genebra, disse: Oitenta por cento dos afectados na vista seriam perfeitamente evitáveis. Sobretudo por meio de uma dose regular de vitamina A para as crianças pequenas. Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afectadas pelo flagelo da fome. Podemos ler de duas maneiras estas estatísticas. Primeira leitura: as vítimas da subalimentação aumentam s em cessar no mundo, especialmente nos países do Sul; mas se comparamos os mártires do flagelo da fome com a progressão demográfica da população mundial, constatamos um ligeiro retrocesso. Em 1990, 20% da humanidade sofria de subalimentação extrema; oito anos depois, “só” 19%.
 Onde vivem as pessoas mais gravemente subalimentadas?
  No sul e leste da Ásia, 18% dos homens, mulheres e crianças, padecem de uma severa desnutrição. Na África, o seu número alcança 35% da população continental. Na América Latina e no Caribe, 14%. As três quartas partes dos “gravemente subalimentados” do planeta são gente do campo; a outra quarta parte são habitantes das periferias que se amontoam em torno das metrópoles do Terceiro Mundo.
  A nossa Terra poderia alimentar convenientemente em cada dia todos os seus habitantes?
 Não só isso, mas poderia alimentar pelo menos o dobro da população mundial actual. Hoje em dia somos quase seis biliões de seres humanos na Terra. Há mais de quinze anos, a FAO elaborou um relatório no qual assinalava que o mundo, no estado actual das forças de produção agrícola, poderia alimentar sem problema mais de doze biliões de seres humanos. Alimentar quer dizer fornecer a cada homem, mulher e criança uma ração equivalente a 2.400 ou 2.700 calorias diárias, uma vez que as necessidades alimentares variam segundo os indivíduos, em função do trabalho que realizam e das zonas climáticas onde vivem.
 O flagelo da fome não é então uma fatalidade?
 De modo algum. Se a distribuição de alimentos na Terra fosse justa, haveria comida suficiente para todo o mundo.
 Por que razão nunca ninguém nos fala na escola da fome no mundo e das pessoas que a provocam e daquelas que a combatem?
 Para mim, isso também é um mistério. Muitos professores de institutos e de escolas são pessoas abertas, generosas e estão profundamente solidarizadas com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Muitos deles alertam os seus alunos quando se declara uma fome grave e promovem-se colectas públicas. No entanto, não sei de nenhuma escola onde o tema da fome, que mata todos os dias mais gente do que todas as guerras do planeta juntas, figure no seu programa. Não existe nenhum tipo de ensino onde se analise, se discuta o problema da fome, se examinem as suas raízes e os meios de lhe dar um fim.
Mas os técnicos internacionais dizem as coisas bem claras. Ouça, por exemplo, esta frase que é a conclusão de um relatório da FAO de 1998:Recent trends give no room for complacency as progress in some regions has been more than offset by a deterioration in others[1]. Isto quer dizer que as batalhas ganhas numa frente são imediatamente anuladas pelas derrotas sofridas noutra. Os bons sentimentos não bastam, são um luxo para os filhos dos ricos. A calamidade da fome manifesta-se de mil maneiras. O seu aparecimento e os seus efeitos exigem análises precisas e pormenorizadas. Mas a escola não diz nada, não cumpre a sua função. Os adolescentes frequentemente saem dela cheios de bo ns sentimentos e de uma vaga convicção de solidariedade, mas nunca com um verdadeiro conhecimento, uma clara consciência das origens e dos estragos da fome.
 Como se a fome fosse um tabu?
 Exactamente. Um tabu que dura há muito tempo. Já em 1952 o brasileiro Josué de Castro dedicava todo um capítulo do seu célebre livroGeopolítica da fome a esse “tabu da fome”. A sua explicação é interessante: as pessoas sentem-se tão envergonhadas por saber que uma grande parte dos seus semelhantes morre por falta de alimento que ocultam o escândalo com um espesso silêncio. Esta vergonha é compartilhada pela escola, pelos governos e pela maioria de nós.
O nível de alimentação está em relação directa com o nível de bem-estar e com o nível de saúde das pessoas. Por um lado, onde não se come o suficiente, encontramos pobreza, miséria, desnutrição, doença, fome e morte. Por outro, no extremo oposto, onde há meios de subsistência e alimentos, encontramos esperança desde o nascimento, saúde e vida.
Já no ventre da mãe, o bebé sofre as consequências desta desigualdade, inclusivamente na constituição de seu intelecto. A desnutrição da mãe durante a gestação  quando o bebé deve desenvolver o conjunto de células que o constituirão como um ser dotado de todas as suas faculdades  diminui as possibilidades de que a criança nasça, pois a placenta  alimento, água, oxigénio e anticorpos do bebé instalado no útero  não escapa aos danos causados pelas carências de alimentação. A mãe deve nutrir-se convenientemente desde a formação do embrião. A constituição física e intelectual da criança, a sua capacidade de desenvolvimento e a sua força para o trabalho também dependem da alimentação que vai receber desde o momento do seu nascimento. A criança chega ao mundo num ambiente condicionado: ou com muitos privilégios ou com muitas privações. Nos primeiros anos da história da humanidade, o mundo era aquele em que o macho mais forte se apropriava da comida da qual necessitavam a mulher e a criança. Hoje, a história não mudou em absoluto, porque os poderosos continuam a apropriar-se da comida.
 Por quê esses esqueletos da fome? Por quê esse martírio quotidiano, interminável, para tantas centenas de milhões de seres humanos?
 A causa principal das hecatombes por subalimentação e por fome aguda é a desigual distribuição das riquezas do nosso planeta. Esta desigualdade é negativamente dinâmica: os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em 1960, 20% dos habitantes mais ricos do mundo desfrutavam de uma renda 31 vezes superior à dos 20% mais pobres. Em 1998, o rendimento dos 20% mais ricos é 83 vezes superior à dos 20% mais pobres. A concentração do rendimento e das riquezas nas mãos de uns poucos progride a grande velocidade.
O conceito de desigualdade soa-nos irreal e o seu significado é insuficiente. O termo aparece num mundo que já não se assusta com as estatísticas. As cifras acima referidas escondem uma realidade de sofrimento e de desespero. A desigualdade negativamente dinâmica que rege a ordem actual do mundo produz a seguinte situação: por um lado, um poder político, económico, ideológico, científico e militar sem limites identificáveis, exercido por uma escassa oligarquia transnacional; por outro, a falta de vida, o desespero e o flagelo da fome vividos por centenas de milhões de seres anónimos. A oligarquia decide o destino da multidão. A massa de vítimas anónimas padece, impotente, a sua própria agonia. Só a brutal imbecilidade de um regime de classes sociais existentes antes do seu nascimento, de ideologias discriminatórias , de privilégios defendidos pela violência explica a desigualdade entre os seres humanos.
A política deve velar para que todos possam saciar a fome. Seria horrível tomarmos como natural o facto de todos os anos morrerem dezenas de milhões de pessoas por causa da subalimentação crónica e da fome aguda. A fatalidade não preside à ordem mortal do mundo. Basta lembrar que, no actual estado das forças produtivas agrícolas, seria possível alimentar sem problemas doze mil milhões de pessoas. Alimentar significa proporcionar a cada indivíduo 2.600 calorias por dia. A população actual do mundo chega a menos de seis mil milhões de pessoas.
Conclusão: estamos diante de uma falta contingente e não de uma falta objectiva de alimentos. Por outras palavras, o problema da grave fome no mundo é um problema social. As centenas de milhões de pessoas que morrem todos os anos de subalimentação aguda morrem por causa da injusta distribuição de alimentos disponíveis no planeta. A Acção contra a Fome, organização não-governamental (ONG), de um compromisso exemplar, constata que “um grande número de pobres no mundo carece do alimento necessário, na medida em que a produção alimentar se ajusta à demanda solvente” Quem tem dinheiro, come. Quem não tem, morre lentamente de fome. Trata-se portanto de civilizar o actual jugo do capitalismo selvagem. A economia mundial é fruto da produção, distribuição, intercâmbio e consumo de alimentos. Afirmar a autonomia da ec onomia em relação à fome é absurdo ou, pior ainda, é um crime. Não se pode abandonar a luta contra essa catástrofe ao livre jogo do mercado. Todos os mecanismos da economia mundial devem submeter-se a este imperativo primordial: vencer a fome, alimentar convenientemente todos os habitantes do planeta. Para impor este imperativo é preciso criar uma estrutura jurídica internacional, apoiada em tratados e normas. Jean-Jacques Rousseau escreveu: “Entre o fraco e o forte, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. A liberdade total do mercado é um sinónimo de opressão; a lei é a primeira garantia da justiça social.
O mercado mundial necessita de normas e de uma restrição imposta pela vontade colectiva dos povos. A luta contra a maximização do lucro como única motivação dos protagonistas que dominam o mercado e a luta contra a aceitação passiva da miséria são imperativos urgentes. É preciso fechar a Bolsa das matérias-primas agrícolas de Chicago, combater a deterioração constante das relações de intercâmbio e acabar com a estúpida ideologia neo-liberal que deslumbra a maioria dos governos dos países ocidentais. O ser humano é o único vertebrado que pode sentir na sua consciência o sofrimento do outro. Será que a constituição de uma consciência da identidade, da solidariedade radical com aquele que sofre se infere de um projecto utópico? Não. No decurso da história já ocorreram alguns saltos qualitativos análogos. Por exemplo, o nascimento do Estado. Numa época remota, os humanos fizeram uma escolha fundamental: até então, a solidariedade, a identificação com o outro limitavam-se à família, ao clã, em consequência, àqueles cujo rosto era conhecido e cuja presença física era sensível.
Com o nascimento da nação e do Estado, o ser humano fez-se pela primeira vez solidário com aqueles que não conhecia e com os que provavelmente nunca encontraria. Acabava de nascer um sentimento de identidade nacional, algumas instituições de solidariedade, uma consciência supra-familiar, uma lei comum. A única identidade humana válida é a que nasce do encontro real ou imaginário com os outros, do acto de solidariedade. Não pode haver um mundo dentro do mundo, uma inserção de bem-estar num mundo de dor. É inaceitável uma economia mundial que relega para o não-ser a sexta parte da humanidade. Se o flagelo da fome não desaparecer rapidamente do nosso planeta, não haverá humanidade possível. Portanto, é preciso reintegrar na humanidade essa “fracção sofredora”, que hoje está excluída e perece na noite.
Jean Ziegler
A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho
Petrópolis, Editora Vozes, 2002
(Excertos adaptados)
VERGONHA
Uma tarde de Primavera. O largo da estação do comboio. Um grupo de homens a beber cerveja em frente de um quiosque. Não há mais ninguém. Um homem desce de um autocarro. Tem uma mala na mão, passa pelos outros homens e entra no edifício da estação. O átrio está quase vazio.
O funcionário encontra-se na bilheteira.
— Um bilhete para o aeroporto de Frankfurt, por favor.
— Ida e volta?
— Não, só ida.
— Tem cartão de desconto?
— Sim, para a segunda classe.
— Nove euros e vinte.
O homem desliza uma nota de dez euros para a caixa que se encontra por baixo do vidro. O empregado imprime o bilhete e entrega-o através da caixa, juntamente com os oitenta cêntimos de troco. O homem recolhe o bilhete e o dinheiro. Procura o painel de informações electrónico e vê que o comboio para Frankfurt é um dos próximos a chegar. Vai parar no cais número três. Desce as escadas onde está sentado um grupo de jovens. Também há alguns cães. Uma rapariga levanta-se e dirige-se a ele:
— Tens uma moeda?
O homem, que ainda leva o troco na mão, entrega-o à rapariga.
— Obrigada.
O homem segue então pela passagem subterrânea e sobe as escadas para a plataforma número três. O cais onde se encontra está praticamente vazio, assim como o cais em frente. Os quiosques estão fechados, não se vêem funcionários da estação, apenas alguns passageiros andam por ali, sozinhos. O altifalante anuncia a passagem de um alfa pendular. No mesmo instante, passa uma seta prateada. Por alguns segundos toda a estação da pequena cidade estremece. O homem percorre a plataforma de uma ponta à outra. Depois, o altifalante anuncia a entrada do inter-regional de Stralsund para Frankfurt. O comboio chega. Uma porta abre-se diante do homem. Desce uma senhora com uma expressão indignada que exclama:
— Parece impossível! Que vergonha!
O cobrador desce pela porta do vagão-restaurante, que se encontra entre a 1ª e a 2ª classe. Dirige-se ao homem e pergunta-lhe:
— Tem bilhete para a 1ª classe?
— Não, para a 2ª.
— Então, suba lá mesmo no fim, por favor.
— Como?
— Sim, lá ao fundo. Vá depressa para a última carruagem.
— Mas porquê?
— Acredite que é melhor para si.
— Mas não vou conseguir chegar a tempo.
— Vai, sim, nós esperamos. Aqui à frente já não há lugar.
— Muito bem. Obrigado pelo conselho — responde o homem.
Puxa os rodízios da mala e corre para a última carruagem, arrastando a mala atrás de si. Os outros passageiros já subiram. Volta a encontrar a senhora que, ao chegar ao cimo das escadas e ao reparar no homem, repete novamente:
— É uma vergonha! Uma autêntica vergonha!
A senhora faz sinal na direcção do comboio. O homem olha e vê, atrás da janela da carruagem, um grupo de skinheads. Uns estão sentados, os restantes encostados à janela. Alguns têm latas de cerveja na mão. Um skinhead, a rir-se, aponta para o homem. Um segundo tenta abrir a janela, mas não consegue. Cospe, com raiva, contra o vidro, na direcção do homem e da senhora, e o cuspo fica a deslizar.
— No seu lugar, não apanhava esse comboio.
— Mas então, perco o meu voo? — diz o homem.
Olha indeciso para a carruagem. A senhora meneia a cabeça, pega na mala e desce as escadas. Ouve o comboio pôr-se em andamento e diz para si, a meia voz:
— Quem semeia ventos…
Karlhans Frank (org.)
Menschen sind Menschen. Überal.
München, C. Bertelsmann Verlag, 2002

Um tostão para o Santo António


    Andava um garoto a pedir um tostãozinho para o Santo António. Uns davam, outros não.
Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias, vejam bem. E se estava frio!
O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto, não deu importância. E vá de pedir:
— Dê-me um tostãozinho para o Santo António...
O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e, sorrindo, disse-lhe assim:
— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.
— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?
E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.
— Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina — observou o mendigo.
— Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar, ainda agora.
O senhor mendigo suspirou e disse:
— Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje...
O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.
Foi a vez de o garoto suspirar:
— Este dinheiro era para eu comprar berlindes...
O homem de sandálias admirou-se:
— Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?
O garoto riu-se:
— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.
O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali. Despediu-se:
— Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.
O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:
— Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.
O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.
O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes...
António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Porto, Livraria Civilização Editora, 1994


A Gata e o Sábio
 
O sábio de Bechmezzinn (aldeia situada no norte do Líbano) era muito rico. Dedicava o melhor do seu tempo ao estudo e a tratar os doentes que o procuravam. A sua fortuna permitia-lhe socorrer os infelizes e toda a gente dizia que ele era a dedicação em pessoa.
Homem piedoso e recto, a injustiça revoltava-o. Muitas pessoas vinham consultá-lo quando tinham alguma divergência com vizinhos ou parentes. O sábio dava os melhores conselhos e desempenhava frequentemente o papel de mediador.
Tinha uma gata a quem se dedicava particularmente. Todos os dias, depois da sesta, ela miava para chamar o dono. O sábio acariciava-a e levava-a para o jardim, onde ambos passeavam até ao pôr-do-sol. Ela era a sua única confidente, diziam os criados.
A gata dirigia-se muitas vezes à cozinha, onde era bem recebida. O cozinheiro não escondia nem a carne nem o peixe, porque ela nada roubava, fosse cru ou cozinhado, contentando-se com o que lhe davam.
Ora, uma tarde, depois do passeio diário, a gata roubou furtivamente um pedaço de carne de uma panela. Tendo-a surpreendido, o cozinheiro castigou-a puxando-lhe severamente as orelhas. Vexada, a gata fugiu e não apareceu mais durante todo o serão.
Intrigado, o sábio perguntou por ela na manhã seguinte. O cozinheiro contou-lhe o que se passara. O sábio saiu para o jardim e durante muito tempo chamou a gata, que acabou por aparecer.
— Porque roubaste a carne? — perguntou o sábio.
— O cozinheiro não te dá comida que chegue?
A gata, que tinha parido sem que ninguém soubesse, afastou-se sem responder e voltou seguida de três lindos gatinhos. Depois, fugiu e trepou à figueira do jardim. O sábio pegou nos três gatinhos e entregou-os ao cozinheiro que, ao vê-los, mostrou uma grande admiração.
— A gata não roubou comida a pensar nela. — declarou o sábio. — O seu gesto foi ditado pela necessidade. Portanto, não é de condenar. Para alimentar os filhos, qualquer ser, mesmo mais frágil do que um mosquito, roubaria um pedaço de carne nas barbas de um leão. A gata limitou-se a seguir o que lhe ditava o seu amor maternal. A conduta dela nada tem de repreensível. O pobre animal está a sofrer por a teres castigado injustamente. Fugiu para a figueira porque está zangada contigo. Deves ir lá pedir-lhe desculpa, para que se acalme e tudo volte ao normal.
O cozinheiro concordou. Tirou o turbante, dirigiu-se à figueira e pediu perdão ao animal. Mas a gata virou a cabeça. O sábio teve de intervir. Conversou longamente com ela e lá conseguiu convencê-la a descer da árvore.
A gata desceu lentamente da figueira, veio a miar roçar-se nas pernas do sábio e foi para junto dos seus três filhotes.
Tradução e adaptação
Jean Muzi
16 Contes du monde arabe
Paris, Castor Poche-Flamarion, 1998
adaptado
Escuta as vozes da terra
Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia perfeito.
Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, eu fazia imensas perguntas:
― Avô, porque é…?
― O que se passaria se…?
― Será que às vezes…?
Um dia, perguntei:
― Avô, o que é uma oração?
O meu avô ficou em silêncio durante muito tempo. Quando chegámos junto das árvores mais altas da floresta, respondeu-me com uma pergunta:
― Alguma vez ouviste o murmúrio das árvores?
Pus-me à escuta, atento, mas foi em vão.
― Vê como as árvores sobem até ao céu. Tentam subir sempre mais. Querem chegar às nuvens, ao sol, à lua e às estrelas. Procuram elevar-se até ao céu.
Pensei nas árvores, procurei ouvi-las. Enquanto reflectia, sentei-me numa rocha velha, coberta de musgo. O meu avô explicou:
― As rochas e as montanhas também falam connosco. A sua calma e o seu silêncio inspiram-nos tranquilidade.
Depois de ter reflectido durante bastante tempo, peguei numa pedra e coloquei-a no meu bolso. Caminhámos um pouco mais, até junto de um ribeiro. A água borbulhava, cintilava, e viam-se pequenos peixes a nadar.
― Avô, os ribeiros também murmuram?
― Claro. Bem como todos os lagos, rios e cursos de água. Às vezes, correm tranquilamente. Espelham as nuvens, os pássaros, o sol ou as estrelas. Outras vezes, escoam-se em redemoinhos, lançam-se no mar ou evaporam-se no céu. E o ciclo recomeça… Também se riem e divertem com os seus amigos rochedos. Dançam, saltam, tornam a cair…Mas a natureza conhece outras formas de se exprimir. As ervas altas procuram o sol e as flores exalam o seu perfume doce. Quanto ao vento, sussurra, geme, suspira, e sopra-nos as suas palavras. Escuta o canto dos pássaros de manhã cedo, escuta o seu silêncio antes do nascer do sol. Consegues ouvir a melodia do pintarroxo ao cair da tarde? Os animais correm pela floresta, tornam-se reluzentes com a água, escalam montanhas, voam até às nuvens, ou refugiam-se na terra. É assim que todos os seres vivos participam na b eleza do mundo…
Calámo-nos os dois. O meu avô olhava o horizonte e eu reflectia no que ele me tinha dito sobre as rochas, as árvores, a erva, os pássaros e as flores. Acabei por lhe perguntar de que modo rezavam os homens. O meu avô sorriu e passou-me a mão pelos cabelos. Respondeu:
― Tal como a natureza, os homens têm a sua linguagem própria. Podem inclinar-se para cheirar uma flor, ver o sol despontar no horizonte, sentir a terra mover-se docemente, ou saudar o dia que começa. Pode-se passear num bosque coberto de neve num dia de Inverno e ver o próprio sopro confundir-se com o sopro do mundo. A música e a pintura são também formas de expressão, de linguagem…. Às vezes, sentimo-nos tristes, doentes ou isolados. Então, repetimos as palavras que os nossos pais e avós nos legaram. Mas é preciso que cada um encontre as suas próprias palavras. O que é importante é dizer o que verdadeiramente se sente, o que nos vem do coração.
Passado algum tempo, o meu avô disse que eram horas de regressar. Mas eu tinha uma última pergunta:
― Será que há respostas para as nossas orações?
Sorriu.
― Se as escutarmos atentamente, as orações contêm as suas próprias respostas. Nós somos como as árvores, o vento e a água. Não podemos mudar o que nos rodeia, mas podemos mudar-nos a nós mesmos. É evoluindo que transformamos o mundo.
Depois deste passeio, ainda voltámos a passear juntos. De cada vez, tentei escutar as vozes da terra, mas creio que nunca as ouvi. Um dia, o meu avô deixou-nos. Continuei a pensar nele com todas as minhas forças, mas ele não voltou. Não podia voltar. Rezei até mais não poder. Depois, deixei de o fazer. Sem ele, tudo me parecia sombrio. Sentia-me muito só.
Alguns anos mais tarde, durante um passeio, sentei-me debaixo de uma árvore enorme. Os ramos mexiam e as folhas sussurravam. Ouvi o murmúrio de um ribeiro e o canto de um pintarroxo, pendurado numa madressilva. Ouvi também um ligeiro sussurro, misturado com o sopro do vento, com o canto dos pássaros e com o marulho da água.
Tal como o meu avô me ensinara, a terra falava comigo. Então, também eu murmurei, docemente:
― Obrigado pelas árvores grandes e pelas flores, pelos rochedos e pelos pássaros. E, sobretudo… obrigado pelo meu avô!
Foi então que algo aconteceu.
Senti – outra vez – o meu avô perto de mim…
E, pela primeira vez desde há muito tempo, tudo me parecia perfeito.
Douglas Wood
Grandad’s Prayers of the Earth
Paris, Gründ, 2000
(Tradução e adaptação)
A história de Glória, a vaca
Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes, uma barriga gorda, pêlos grossos e duros e os pés pesados.
Como não havia roupas à venda para o seu tamanho, tinha de ser ela mesma a fazê-las à mão. Fazia-as sem gosto nem grande jeito, e por isso, dentro daqueles vestidos, parecia ainda mais possante do que realmente era.
Tinha um andar atabalhoado e, quando falava, a voz era semelhante à de alguém a gritar para dentro de uma cisterna.
Glória não era modesta nem pensava tornar-se uma boa vaca leiteira como todas as vacas da sua idade. Não! Era ambiciosa e ansiava por qualquer coisa de grandioso!
Um engraçadinho qualquer, creio que a raposa, dissera-lhe que com uma voz tão bonita, devia estudar canto. Como tinha um pai rico que pagava tudo, teve aulas de música e, em seguida, deu ainda um concerto.
Todas as vacas vieram ouvir Glória cantar. Começou com A violeta na orla do caminho e esta foi também a última canção que cantou. É que, se quando falava a voz parecia que saía de uma cisterna, ao cantar, soava como dois elefantes a trombetear num regador em simultâneo com uma serra a cortar metal. A assistência tapava os ouvidos, assobiava, gritava e batia com os pés para não ter de ouvir aquela voz horrível, ou então corria em debandada pelo prado onde o concerto estava a decorrer.
Glória parou e começou a chorar.
As vacas pensaram: “É agora que ela se vai tornar uma boa vaca-leiteira!”
Mas não! Teve aulas de dança e ainda quis tentar a sorte como bailarina!
Quando se apresentou pela primeira vez, vieram ainda mais vacas vê-la dançar do que quando cantou.
Glória apareceu no palco com uma saia tão grande que dava à vontade para fazer sete toalhas de mesa. Logo ao primeiro passo, tropeçou e caiu. As vacas na assistência riram-se, mas Glória não se deixou intimidar e deu um salto. Com o peso, as tábuas do palco partiram e ela caiu, ficando presa até à altura dos braços. Os espectadores riram-se, mas cinco fortes bois subiram ao palco e ajudaram-na a sair do buraco, onde ainda continuava a dançar. Novamente em cima do palco, Glória começou a dançar perigosamente perto da boca de cena. Desequilibrou-se e caiu, aterrando exactamente em cima dos músicos que estavam a tocar no fosso da orquestra
Quando voltou a erguer-se, com dificuldade, o contra-baixo estava partido, a trompete completamente espalmada, o tambor rebentado, o acordeão rasgado em dois e o maestro, com o susto, tinha engolido a batuta. Bem se pode imaginar as gargalhadas da assistência quando a bailarina desapareceu por detrás das cortinas.
Em consequência disto, Glória, muito envergonhada, emigrou para o país dos hipopótamos. Aí dançou para os pesados e grosseiros animais, e cantou ainda algumas das suas canções.
No dia seguinte lia-se no jornal:
A artista Glória, uma figurinha delicada e frágil, deu ontem um concerto onde também dançou. Nunca tinha sido possível no nosso país admirar uma voz tão clara e cristalina; nunca se tinha ouvido um canto tão belo. Dançou, melhor dizendo, flutuou com tal graciosidade que todas as nossas meninas-hipopótamos ficaram encantadas pela sua leveza. Esperemos que a artista Glória dance e cante mais vezes aqui entre nós, no país dos hipopótamos.
Paul Maar
Reinhard Michael (org)
Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen
Hochstadt, Gerstenberg Verlag, 2002
Era uma vez uma fonte à beira da estrada. Os pardais das árvores vizinhas tinham ali o seu ponto de encontro.
Matavam a sede, tomavam banho, chilreavam uns com os outros.
De semana a semana, vinha um homem, sempre de automóvel, buscar água à fonte. Enchia uma quantidade de garrafões de plástico e, depois, abalava.
Nessas alturas, a pardalada fugia para o poiso das árvores e ficava a observar.
— O que é que ele vai fazer com tanta água? — intrigava-se um pardalito novo.
— Deve ir regar as couves — sugeria um pardal.
— Para regar as couves é pouca — replicava uma velha pardoca, muito conhecedora da vida.
— Então é para ele beber — propunha outro pardal.
— Para ele beber é muita — replicava a velha pardoca.
— Para o que será?  —  perguntava o pardalito, sem que ninguém soubesse responder-
-lhe.
Decidiu investigar. Voou atrás do automóvel, mas como ainda tinha as asas com pouca força e a estrada era às curvas e contra-curvas, perdeu-lhe o rasto. E perdeu-se.
Esvoaçou ao calhas, até descer sobre um telheiro, junto à estrada. No telheiro havia melões à venda e cebolas e batatas e garrafões de vinho. Alto lá! E também havia garrafões de água, tal e qual os que o homem do automóvel enchia, na fonte dos pardais.
Se o pardal soubesse ler, leria no rótulo dos garrafões:
“ÁGUA DA FONTE DA SAÚDE – Graças a ela, os novos crescem e os velhos não encolhem”.
Aos saltinhos, diante dos garrafões, o pardalito admirava a fotografia do rótulo. Lá estava a fonte, centro da sua vida, e uns passarinhos a beber água no rebordo do tanque. Vendo bem, aquele mais pequeno, à direita, podia ser ele, o pardalito aventureiro.
Muito orgulhoso da sua descoberta, o pardal voou muito alto, tão alto que, lá de cima, viu o telheiro dos garrafões, a estrada às curvas e a fonte da Saúde ou dos pardais, donde ele viera.
Disparou em direcção ao ponto de partida e muito excitado piou para os companheiros:
— Já sei o segredo dos garrafões. O homem anda a vender o nosso retrato mais o retrato da nossa fonte.
— E a água para que serve? — perguntou um companheiro.
— Para segurar o nosso retrato — respondeu, prontamente, o pardalito.
António Torrado
            www.historiadodia.pt
Da erva à árvore
Eram dunas e dunas, a perder de vista. Montes de areia para o vento brincar...
Hoje, fazia uma duna maior aqui, amanhã apagava-a, para fazê-la mais além e, sempre segundo os seus caprichos, onde estavam montes, cavava vales, onde estavam vales, amoldava montes. O vento era uma vassoura enorme.
Cabeleiras dóceis de ervinhas rasteiras deixavam-se pentear, despentear, ao sabor do vento gigante. Ele é que mandava.
Uma delas, à beira de um tojo só picos, cresceu.
Delgadinha que era arriscou-se à vida. Rompera a areia e apontava para cima. Ela lá sabia.
De dentes a ranger, o vento passou. Partiu-se o tronquinho? Não se partiu. Fincava as raízes, segurava-se com toda a força e, quando o vento descia, inclinava-se à vontade dele. Tinha de ser assim.
Lá se foi aguentando. O vento, a princípio, nem dava por ela. Era uma erva como as outras. Senhor daquelas dunas, o que ele queria era disciplina, ordem, submissão. A erva, que erva afinal não era, submetia-se. Óptimo.
Foi crescendo e o vento sem dar por ela. Era um tronco já, uma arvorezinha de Natal para casa de bonecas. Outras ervinhas como, dantes, ela tinha sido, despontavam também, na mesma duna.
Ali havia uma pequena nação de pinheiros novos. A ordem era: persistir. Por enquanto, persistir. Resistir, seria para depois. E foram vingando.
Quando o vento deu por eles, teve uma grande cólera e soprou, dias a fio, sobre a duna, donde nascia, miudamente, frágil ainda, um sinal de rebeldia ao seu poder. Nada conseguiu. Os pinheiros sabiam que eram pinheiros.
Tinham raça e coragem para fazer frente ao vento.
Uns e outros, os maiores e os mais pequenos, começaram a olhar para a  sombra.
Alastravam para outras dunas. Guerreiros chamavam por outros guerreiros e desafiavam o vento. “Nada podes contra nós”, gritavam-lhe.
O maior, o chefe, o mais velho, que da erva se fez tronco, do tronco se fez árvore, comandava a defesa e dizia aos mais novos, nas alturas em que o vento lhes fazia ranger os ramos: “Aguentem, que já passámos por pior”.
Eles aguentavam.
E foi assim que o vento, o gigante caprichoso que dantes arrasava dunas, teve de deixar de fazer castelos na areia.
António Torrado
Não tem escolha
A ele não valia a pena perguntarem-lhe o que queria ser quando fosse grande. A resposta, quisesse ele ou não quisesse, só podia ser uma:
— Rei.
Tinha de ser. Pois se ele era príncipe, filho único de um senhor rei, que outra coisa, profissão ou destino podia caber nos seus projectos de futuro?
Pensando nisto, o príncipe, que não tinha vontade nenhuma de ocupar o trono dos seus antepassados, entristecia.
Uma vez, ouvira o jardineiro dos jardins reais queixar-se:
— O meu filho, que eu gostava tanto que fosse jardineiro como eu, diz que não tem vocação para a jardinagem.
Se ele dissesse o mesmo (isto é, o equivalente!), o que é que aconteceria?
Encheu-se de coragem e disse.
O rei, que era um homem compreensivo, respondeu-lhe:
— Meu filho, eu, quando tinha a tua idade, queria ser arquitecto, mas o teu avô deixou-‑me esta obrigação, o que havia eu de fazer?
Por sinal que era um rei muito dado a construções. Se queriam vê-lo feliz, mostrassem-‑lhe projectos de obras públicas, hospitais, escolas, novas cidades. O rei ficava encantado, dava opiniões, discutia com os arquitectos e os engenheiros como se fosse um deles.
— Se não tivesses de ser rei, o que é que gostarias de ser, quando fosses crescido? — perguntou o rei ao príncipe.
— Gostava de ser veterinário — respondeu o príncipe.
— Não vai ser fácil. Um rei veterinário não é muito comum. Há casos de reis-soldados, de reis-marinheiros, de reis-músicos, mas de reis-veterinários não tenho ideia. No entanto, vou pensar no assunto.
Era um bom pai e um bom rei. Em segredo, começou a projectar um grande jardim zoológico. Desenhou tudo muito bem desenhado, como se fosse um arquitecto.
Quando tinha a obra toda projectada, estendeu os rolos dos projectos diante dos olhos do filho e disse-lhe:
— Ficam ao teu cuidado, para que tu construas o jardim, quando fores rei.
— Mas o pai podia mandar construir agora — disse o príncipe.
— Quero que fique à tua responsabilidade. Quando eu morrer, deixo-te o reino e estes projectos, para que te ocupes deles.
Assim sucedeu. O príncipe tornou-se rei. Não tinha alternativa. Uma vez coroado, dedicou-se com entusiasmo aos trabalhos de governação. Mas com mais entusiasmo se dedicou a levantar o jardim zoológico, que, uma vez pronto, maravilhou o mundo.
Ao jardim deu o nome do senhor rei seu pai, que tinha querido ser arquitecto.
António Torrado
Adaptação

A Lição da Paciência
 


Um mandarim que se preparava para desempenhar um importante cargo oficial recebeu a visita de um amigo que lhe foi apresentar as despedidas.
Abraçaram-se e o amigo recomendou-lhe:
— Acima de tudo, no desempenho das tuas importantes funções, nunca percas a paciência.
Prometeu o mandarim que nunca esqueceria este precioso conselho.
Três vezes repetiu o amigo a mesma recomendação, provocando o enfado do mandarim. Quando se preparava para o fazer pela quarta vez, o mandarim exaltou-se e gritou:
— Basta, eu não sou surdo e muito menos sou um imbecil!
Então o amigo, acalmando-o com a mão posta sobre o seu ombro, fez este comentário:
— Podes assim ver como é importante ser paciente. Três vezes ouviste o meu conselho, já não conseguindo dissimular o enfado. À quarta vez não conseguiste controlar a fúria. O que acontecerá quando, no desempenho do teu cargo, tiveres de ser verdadeiramente paciente?
O amigo baixou os olhos para o chão e limitou-se a suspirar.
J. J. Letria
Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002
 

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