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Thursday, September 29, 2011

A LADEIRA

Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.
Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.
Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem... A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.
Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.
Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.
Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraiu. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.
A discussão continuou e continuou.
À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.
O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.
Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.
A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.
Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.
O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.
A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.
 
 
 
José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001

Saturday, September 24, 2011

ACONTECER NA WEB



Telejornais não tinham a permissão de espalhar a palavra com esta notícia ACONTECER NA WEB para o futuro de ontem, o Senado aprovou o pacote de segurança (Dd.L. 733), entre outros, uma emenda do senador Gianpiero D'Alia (UDC) identificados artigo 50-bis: "A repressão da actividade de apologia ou incitação a cometer um crime realizada através da Internet", o texto vai chegar na próxima semana a Câmara como  número 60. Este senador, nem faz parte da maioria no Governo ... que diz muito sobre alianças transversais projeto de liberdade de castas. Na prática, nos termos da presente alteração, se qualquer cidadão, em seguida, chamada através de um blog (ou um perfil no fb, ou outra rede) ou incitamento à desobediência (ou seja, CRÍTICAS ..??!) contra uma lei que considere injusta, os provedores irão bloquear o blog ou site. Esta medida pode obscurecer a visibilidade de um site na Itália onde você estiver, mesmo que seja no exterior, o ministro do Interior acaba de publicar um decreto com a interrupção do blogger, ordenando o bloqueio de provedores de conectividade para a Internet. A atividade de filtragem deve ser definido dentro de 24 horas de valor, para os fornecedores, as multas de 50.000 a 250.000 euros. Para os blogueiros é, ao invés prevista para 1 a 5 anos de prisão mais uma multa adicional de 6 meses a 5 anos de desobediência perl'istigazione as leis de ordem pública ou de ódio (!) Entre as classes sociais. 
MORAL: Esta lei pode imediatamente limpar todos os motores de busca de todas as castas da desconfortável para links. Na prática, você pode bloquear na Itália (como no Irão, Birmânia e China) Facebook, YouTube e de rede para todos os blogs que representará a Itália no momento em que a informação não é apenas condicionado e / ou censurados. ITÁLIA: o único país no mundo onde uma empresa de mídia (Mediaset) processou o YouTube para 500 milhões de euros danos pedindo indemnização. Com esta lei não será mais necessário, nada jamais, será um obstáculo em termos PREVENTIVOS. Após a proposta da lei Cassinelli  e a criação de um comitê contra a pirataria digital e multimídia em menos de 60 dias, deve apresentar ao Parlamento um projecto de lei sobre esta matéria, esta alteração à "segurança" de facto, torna o projeto explícito do Governo, para "normalizar", com leis repressivas e todo o sistema de relatórios de Internet e informações que até agora não conseguia controlar. Enquanto Obama nos U.S.A., ganhou as eleições graças à Internet, a Itália tem como medelo a China, Birmânia, e o Irão. Hoje, a única mídia que fizeram esta notícia foram saltando da revista "Point Computer" e blog Grillo. Deixá-lo correr o máximo possível para tentar despertar as consciências adormecidas de italianos, porque onde não há informação livre e direito de criticar a "democracia" é um conceito VAZIO. Documentação espalhados por Órgãos de Coordenação ..
Fonte: Fade Daivde Holden.
         Estimados amigos e amigas, que fazemos os nossos debate democráticos na Net, em especial neste portal, esta desgraça que está quase tornar realidade num país democrático da velha Europa como a Italia, não está longe de tornar-se realidade na nossa terra, até parece-me que o nosso parlamento já tinha avançado com alguma coisa, mas recuou, oxalá que no futuro não torne a fabricar leis contra os internáutas democráticos, porquê "o computador é uma extensão do sistema nervoso. No nosso caso é a extensão da voz nas ruas, sem incorrer no mau hábito de "vergonha" de fora de um rosto. Aquele rosto que intimidante e fossilizados. O computador é uma janela para tudo e nada, dependendo de como você vive. Quando você desliga o que você tem é um reflexo de seu rosto em uma sala vazia".

Friday, September 23, 2011

Entrelaçadas


Na Primavera de 1943, Lillian Scott deu à luz gémeas. As crianças eram muito semelhantes e tinham sido concebidas no mesmo momento. Com os seus vestidinhos iguais, aconchegadas todas as noites na mesma cama, eram também profundamente diferentes. Joyce, a primeira a nascer, era uma bebé saudável, destinada a enfrentar os desafios e os triunfos daquilo que se costuma designar como uma vida normal. Judith veio a este mundo com os traços faciais enfezados e achatados, próprios da síndroma de Down. Embora na altura não se pudesse ainda saber, viria a revelar também uma surdez profunda.
Apesar do abismo entre ambas, abismo esse que se foi aprofundando com os anos, Joyce Scott vai contar-nos que, a partir do momento em que se nasce gémeo, é-se gémeo para toda a vida. Joyce entrou na vida activa, foi mãe e tornou-se profissional da saúde, mas nunca deixou de ter a irmã no pensamento, ainda que esta vivesse numa instituição longínqua. Com o tempo, porém, a distância entre ambas, quer do ponto de vista literal, quer metafórico, começou a fazê-la sofrer. Esta é a história de como Joyce e Judith voltaram a reunir-se e de como, de várias maneiras, se salvaram uma à outra.
No início, as crianças eram inseparáveis. Deixadas entregues às suas próprias brincadeiras pelos três irmãos mais velhos, passavam longas tardes entretidas no quintal dos subúrbios de Cincinnati, a brincar às casinhas e a inventar jogos. Mas à medida que os anos passavam, as diferenças entre ambas iam-se acentuando. Joyce fazia as etapas do desenvolvimento normal, Judith ficava muito atrás. Joyce já construía frases completas, Judith apenas balbuciava. «Queria tanto comunicar com ela!», diz Joyce, actualmente com 60 anos. «Fazia de conta que ela falava. E nos meus sonhos falava!»
Chegada a altura de irem para a escola, Judith fez testes, na esperança de ser admitida na única escola pública para crianças com dificuldades de aprendizagem. Mas não conseguiu responder à maior parte das perguntas. «Ninguém se apercebeu de que era surda», diz Joyce. «Aponta o círculo», disse-lhe o psicólogo. Mas ela nem sequer conhecia as palavras. Nessa época, as famílias raramente mantinham em casa os filhos com deficiências profundas, e a pressão para mandar Judith para fora começou a aumentar. «Falámos com o padre, com os psicólogos, e todos nos disseram a mesma coisa, que devíamos interná-la numa instituição», diz Lillian, agora com 91 anos. «Senti que se me partia o coração.»
Numa manhã de Outono, aos 7 anos e meio, Joyce acordou e deparou com um lugar vazio na cama da irmã. Os pais explicaram-lhe que a Judith ia para um sítio onde havia pessoas mais aptas a tomar conta dela. Joyce lembra-se de se ter sentido profundamente desolada. «Lembro-me daquela sensação extrema de solidão e de vazio sem ela.»
Sempre que podia, a família visitava Judith na fria e labiríntica Estadual de Columbus, que ficava a três horas de distância de carro. Ao fim de cinco anos, Judith foi transferida para o Centro de Desenvolvimento Gallipolis, um pouco mais moderno que a escola anterior, mas ainda mais longe de casa. As visitas da família foram rareando, sobretudo depois da morte do pai, em 1956, o que deixou Lillian sozinha e com quatro filhos para criar.
Mas mesmo em Gallipolis, Judith recebeu pouca educação e formação. Nunca aprendeu a falar, a ler ou a escrever, e nem após lhe ter sido diagnosticada a surdez, por volta dos 30 anos, lhe ensinaram a linguagem gestual.
Entretanto, Joyce cresceu, entrou para a faculdade e mais tarde mudou-se para a Califórnia, onde se casou, constituiu família e fez carreira como enfermeira. Meses, por vezes anos, decorreram entre as viagens ao Ohio para visitar Judith. Ilana, a filha de Joyce, lembra-se de aos 9 anos ter acompanhado a mãe e ter visto a tia Judy pela primeira vez. «Há anos que não se viam, mas quando a Judy deparou com a minha mãe, reconheceu-a logo. A mamã só conseguiu soluçar.»
Em 1985, Joyce, que tinha começado a trabalhar com doentes terminais e precisava de recarregar as baterias, fez um retiro nas montanhas de Santa Cruz, nos arredores de São Francisco. Durante as horas que passou sozinha, a lembrança da irmã consumiu-a. «É diferente estar-se naquele silêncio», diz Joyce. «Não só me apercebi de como a nossa relação era profunda, como de que não havia razão para que estivéssemos separadas.» Antes do fim do retiro, decidiu que ela e Judy passariam o resto da vida juntas.
Joyce fez as diligências necessárias para se tornar a responsável legal da irmã, e um ano depois trouxe-a para a Califórnia. Depressa encontrou um centro de dia perto de casa, em Berkeley, onde Judith poderia receber os cuidados diários de que necessitava. E, a conselho de um psicólogo amigo, inscreveu-a nas aulas do Centro de Arte de Desenvolvimento Criativo, um estúdio de arte para pessoas com deficiência.
O armazém aberto e arejado onde os artistas dão aulas de pintura, cerâmica e tapeçaria é um local espantoso, explica Joyce. «Há uma enorme sensação de liberdade e de criatividade.» Durante os primeiros meses, Judith chegava às aulas todas as manhãs e limitava-se a sentar-se a uma das grandes mesas e a fixar o olhar vago, enquanto os formadores lhe iam passando argila, tinta e lápis de cor para trabalhar. «Era intratável e teimosa», diz Sylvia Seventy, que lhe deu aulas no centro. «Por mais que tentássemos levá-la a fazer qualquer coisa, não se mexia.»
Até que a situação mudou. «Ela é engraçada e eu também», diz Sylvia. «Pus-me a imitar as expressões dela e consegui pô-la a rir. E assim começou a apreciar-me.»
Sylvia iniciou o trabalho com Judith numa tela de tapete, ensinando-a a coser com uma agulha de tecelagem e fio de lã. «Ela cosia e cosia até preencher uma boa área», diz a formadora. Um dia, começou a enrolar lã à volta de um feixe de vimes. E acrescentou cordel, tecido, rede de arame e tábuas à criação artística.
«Desde que começou a trabalhar com lã e desperdícios, foi como se encontrasse uma voz para exprimir algo que até então nunca conseguira exprimir», diz Stan Peterson, outro professor do centro. Nos meses seguintes, Judith desenvolveu um estilo próprio e singular. Começou por utilizar objectos de refugo, como uma prancha de skate, uma ventoinha partida, madeira, um sapato, e a envolvê-los com fio de lã ou cordel, trabalhando horas a fio até o objecto inicial ficar irreconhecível. Alguns dos seus trabalhos atingiram tais proporções que foram precisos dois homens para os carregar.
Embora a maior parte tivesse formas abstractas, algumas das peças iniciais tinham uma certa semelhança com bonecas. Judith chamou à sua primeira escultura tridimensional «Baba» e embalou-a nos braços. Fez também um par de figuras enroladas em lã preta. Joyce chorou ao vê-las e pensou: «Somos nós.»
Em 1989, Frank Maresca, co-proprietário da Galeria de Arte Ricco/Maresca, de Nova Iorque, que expõe trabalhos de artistas marginais e autodidactas, visitou o Grupo Criativo e ficou encantado com o trabalho de Judith. «Era algo diferente de tudo o que eu já vira, aqueles casulos muito texturados que escondiam sabe-se lá o quê no seu âmago», diz Maresca. «Senti-me atraído pelo exterior e envolvido pelo mistério do interior.»
Maresca começou a expor e a vender os trabalhos de Judith, tendo alguns deles atingido o preço de 15 000 dólares. (A maior parte das necessidades financeiras de Judith é coberta pela Segurança Social, pelo que os seus proventos são depositados na sua conta bancária.)
A fama da sua arte foi-se espalhando, e os curadores de museus começaram a aparecer para a conhecerem e verem as enigmáticas esculturas de fibra. Nos últimos anos, o seu trabalho tem sido exposto em museus e galerias de Chicago, São Francisco, Paris e Tóquio. Em 1999, o historiador de arte John M. MacGregor traçou o perfil da artista no livro Metamorfoses: A Arte de Fibra de Judith Scott. No ano passado, o Museu Norte-Americano de Arte Popular acolheu cinco peças da colecção de Judith.
Joyce diz que, embora Judith não tenha consciência da fama, sofreu transformações com a atenção pública. «Está mais sociável agora», diz ela. «Dantes, era desconfiada, calada, fechada em si mesma. Agora, irradia amor pela vida.» Joyce também mudou. «Quando a Judy estava no lar, sentia que me faltava uma parte. Agora que estamos juntas e que a vejo desabrochar sinto-me muito melhor. Que bem me sinto por estar perto dela!»
Numa recente manhã de sol, Judith senta-se no cantinho habitual, no estúdio de arte de tijolo e vidro, a trabalhar na última peça, um guarda-sol partido envolto em fio de lã de múltiplas cores. Com calma e método, corta 1 m de fio azul-claro de um novelo, passa-o pelas varetas meio cobertas do guarda-sol, ata-o, enrola-o, corta-o e recomeça com um novo fio de lã. Esta mulher pequena e rechonchuda, de cabelo às farripas, concentra-se no trabalho, que apenas interrompe de vez em quando para saborear uma Diet Pepsi.
Mal a irmã entra na sala, Judith abre-se num sorriso. Balança como uma criança, abrindo e fechando a mão. Joyce abraça-a. Aperta-lhe as mãos e beija-lhe a face. Uma gémea é-o para sempre.
Rachele Kanigel
Selecções do Reader’s Digest
Março – 2004

Manuel e os pássaros


No tempo em que os meninos trabalhavam de criados, havia uma patroa muito má que tomara a seu serviço um rapazinho, o Manuel, a quem dava ordens por tudo e por nada, qual delas a mais disparatada.
No quintal, a senhora dona tinha uma figueira que, nesse ano, dera um único figo. Pois não é que a maluca da mulher exigiu ao Manuel que estivesse todo o tempo de atalaia, não se desse o caso de os pássaros cobiçarem o figuinho?
– Quero comê-lo quando estiver maduro. Ai de ti, se deixares os melros roubarem-no.
Bem os afugentava o garoto, mas os passarocos de bico cor de laranja são teimosos. E gulosos... Às duas por três, adeus figuinho.
– Maldito miúdo. Vais pagar-mas – gritou a megera.
E meteu-o de castigo numa pipa vazia, às escuras. Sorte para o Manuel que os melros tivessem sabido. Logo convocaram os pica-paus e outros passarinhos de bico duro. Todos juntos, toc toc toc, libertaram o Manelinho. Depois, uma águia, que também tinha sido chamada para ajudar, levantou o rapazinho nos ares.
A patroa viu-os e foi buscar uma caçadeira, mas já não chegou a tempo. Era mesmo má a criatura. A águia sobrevoou montes, campos, pinhais, aldeias, como se andasse à procura não se sabe de quê, até que poisou o Manuel num quintal, onde havia uma figueira. Depois, bateu as asas e desapareceu.
O rapaz, ainda meio tonto, viu a figueira e nela um único figo lampo. “Que desgraça a minha. Vai voltar tudo ao princípio”, pensou o Manuel. De dentro da casa, donde era o quintal, apareceu uma velhota. O miúdo encolheu-se e pensou: “Estou mesmo com azar. Esta há-de ser ainda mais torta do que a outra”.
– Como te chamas? – perguntou a velha.
– Manuel, para a servir.
– Para me servires? – riu-se a velha, num riso desdentado. – Eu nunca tive criados, mas querendo, podes ficar a cuidar-me da horta. Queres?
– Sim, minha senhora.
– Estamos acertados. E, olha, enquanto te preparo umas sopas, lambe-te com aquele figuinho único que a figueira me deu.
– A senhora não o quer para si?
A velhota fez uma careta.
– Não me dou bem com figos e tu puseste-te a olhar para ele como nunca vi ninguém olhar para um figo. Deve ser da fome que trazes.
O Manuel chamou a si o figo e pronto. Enquanto saboreava o figo e a velhinha, enternecida, sorria para ele, o Manuel pensou: “Valeu a pena conhecer as alturas, porque a águia sabia onde me deixava.”
Também estamos em crer que sim. As águias, lá de cima, vêem muito, olá se vêem.
 
António Torrado

Caminhos sem nome


Um campo de neve deserto.
Um pardal pousa.
O Jardim das Hortênsias.
Ao amanhecer, uma pequena tartaruga atravessa lentamente.
Ninguém a vê.
Dois namorados estendidos na relva
em silêncio contemplam a noite e os astros.
Uma estrela cadente desliza.
No bosque por detrás da cidade,
uma aranha lança o primeiro fio de prata
até ao ramo mais alto.
Em cima dos telhados, por entre as chaminés,
uma auto-estrada invisível
por onde as andorinhas vão e vêm.
Uma longa caravana de formigas
em direcção ao biscoito caído no pátio.
Sara lancha no terraço ao sol.
Na tarde de Verão, o mar tranquilo.
Ondas que desenham anéis vermelhos.
Uma onda vai mais longe,
até ao castelo que as crianças construíram na areia.
 
Nem todos os caminhos têm nome.
Há caminhos que passam em silêncio.
No sossego do quarto onde te escondes,
se tivesses ouvidos de morcego,
escutarias as ondas a atravessar os muros
e a noite oferecendo-te a música do mundo.
 
Que confusão! Parece um carnaval!
Tambores e címbalos de ferro.
Camiões que esburacam montanhas.
Canções sem palavras. Palavras na escuridão.
Melodias de salão. Rotas sonâmbulas de navios mercantes.
Aviões perdidos.
 
 
Mas tu não tens ouvidos de morcego.
Tens ouvidos aquáticos que escutam 
o baile das algas nos corais.
 
Ouvidos de caramujo que escutam
o crepitar da chuva no bambu.
 
E dizes: estrela marinha.
 
E as tuas palavras são minúsculas
como ninhos de colibri.
 
Com o nariz colado à janela,
Viste a garça voar até ao norte.
 
 
Quando fores pelos caminhos do mundo, não esqueças nunca a linha que ela desenhava no céu.
 
 
 
Anna Castagnoli
Caminos sin nombre
Pontevedra, OQO Editora, 2007
(Tradução e adaptação)
 

ALERTA, MAS SEM ALARMISMO


Agora que todos têm um míssil balístico pessoal de longo alcance em casa, é engraçado ver como já ninguém lhes dá importância.
No início distribuíram-nos à sorte. Nessa altura, foi muito excitante: uma pessoa, nossa conhecida, recebe uma carta do governo e, ao fim de uma semana de espera, um camião vinha entregar-lhe o míssil. Depois, nas casas de cada esquina era preciso que houvesse um. A seguir, nas casas do lado. Até que se chegou ao ponto de, hoje em dia, parecer raro que alguém não tenha um míssil no telheiro do jardim ou no estendal da roupa.
Sabe-se por que é que lá estão… Mas temos uma ideia aproximada… É que devemos proteger a nossa forma de vida num mundo cada vez mais hostil. Todos devem participar na segurança nacional (aliviando assim a pressão em que se acham os armazéns de material de guerra) e, acima de tudo, todos têm direito a sentir que estão a contribuir com o seu diminuto grão de areia. É uma pequena ajuda.
Basta apenas limpar e encerar o míssil no primeiro domingo de cada mês e, de vez em quando, deitar uma olhadela ao indicador do nível do óleo. E, uma vez num intervalo de vários anos, recebe-se uma encomenda com um kit completo de pintura, sinal evidente de que chegou a altura de eliminar qualquer ponto de oxidação e de lhe dar uma mão de pintura cor de chumbo.
Não obstante, muitas pessoas começaram a pintar os mísseis com outras cores e até há quem se tenha atrevido a pintá-los com desenhos de borboletas e flores. É que ocupam tanto espaço no jardim que o mínimo que se pode fazer é pô-los bonitos. Além de que os panfletos governamentais não proíbem a utilização doutros tipos de pintura diferentes dos enviados.
Ultimamente, é costume cobri-los de luzes pelo Natal. Seria bom subir de noite a uma montanha e ver as centenas de pontinhos acesos a brilhar e a pestanejar na escuridão.
Além disso, o míssil do jardim pode ter uma enorme quantidade de usos práticos. Quem desapertar a tampa inferior e retirar os fios e o resto, pode utilizar o espaço para guardar sementes, ferramentas, molas de roupa ou lenha. Se for alterado um pouco mais, pode-se facilmente fazer dele uma fantástica cabana-foguetão espacial e, quem tiver cão, arranja assim uma casota de graça. Numa casa, até houve quem lhe pusesse uma chaminé na parte de cima e usasse o míssil como forno de fazer pizas.
Sim, todos sabemos que, no dia em que o governo decidir usá-los, os mísseis já não irão funcionar, mas com o passar do tempo já não nos preocupamos com isso. Afinal, a maioria das pessoas tem a sensação de que assim é melhor. Sobretudo, esperamos que, no outro lado do mundo onde as famílias têm mísseis no jardim de casa, armados e apontados para nós, também elas tenham encontrado para eles aplicações muito melhores.
 
Shaun Tan
 
Cuentos de la periferia
Arcos de la Frontera, Barbara Fiore Editora, 2008
(Tradução e adaptação)

ALI E A MÁQUINA FOTOGRÁFICA


Ali vive em Istambul, uma grande cidade da Turquia. A sua casa fica num prédio antigo, perto da famosa Mesquita Azul. Depois das aulas, Ali vai para casa e senta-se à janela a contemplar os barcos que se fazem ao mar.
— O que estás a fazer? — pergunta-lhe a mãe.
— Estou a fotografar estes barcos — responde Ali.
A mãe olha para o filho e ri.
— A fotografar? Mas como podes tu fotografar, se nem sequer tens máquina?
— Isso sei eu, mãe! Por isso estou a tirar fotografias com a minha cabeça, que é onde as posso ver.
Ali aponta um sítio junto dos olhos e a mãe ri de novo.
— Deixa-te de brincadeiras e vai para a loja do teu pai! — diz ao filho.
O pai de Ali vende legumes e frutas e o rapaz trabalha na loja depois da escola.
— Não te mexas! Fica junto da porta — diz Ali, de repente, quando chega junto do pai.
— Porquê? — pergunta este.
— Quero tirar-te uma fotografia!
O pai sorri.
— Uma fotografia? Primeiro, tens de arranjar uma máquina. Depois, podes tirar-me uma fotografia.
— Compra-me uma máquina, pai! — pede Ali.
O sorriso do pai desvanece-se.
— Não tenho dinheiro para máquinas… — diz, devagar.
Todas as tardes, Ali vai passear na parte velha de Istambul, e observa as casas construídas junto da água. Algumas são muito velhas. Depois, olha para os homens que estão na ponte a pescar. Por fim, dirige o olhar para os barcos. E fotografa tudo com a mente. “Como hei-de arranjar uma máquina?”, pensa. De repente, a resposta surge-lhe. “Já sei, vou trabalhar no mercado!”
Perto da escola de Ali existe um mercado velho, com pequenas lojas onde se compra e vende comida. Todas as tardes, depois da escola, o rapaz dirige-se para lá. Trabalha sempre com um sorriso, carregando os sacos dos clientes. As pessoas gostam dele e dão-lhe algum dinheiro, que Ali logo mete no bolso.
— Um dia vou ter muito dinheiro — diz à mãe. — Depois, compro uma máquina e tiro-te uma fotografia na cozinha.
— Na cozinha não! — diz a mãe. — Tiras-me uma na varanda, com o teu pai.
— Na varanda não! — diz o pai. — Na minha loja.
Uma tarde, Ali carrega um saco pesado para um cliente idoso.
— Está um homem a seguir-nos — diz o velhote. — Conhece-lo?
Ali olha para o homem alto e forte atrás deles e responde:
— Não, não conheço. Não trabalha no mercado.
— Toma bem conta do meu saco. Talvez seja um ladrão! — diz o cliente.
Ali pensa no dinheiro que tem no bolso e sugere:
— Vamos caminhar mais depressa.
— Eu não posso andar mais depressa. Tu sim, que és novo! — queixa-se o velho.
De repente, o homem alto e forte agarra no saco que Ali transporta e desata a fugir. O rapaz vai atrás dele, mas o ladrão agride-o. Ali cai e o dinheiro sai-lhe do bolso. O homem pousa o saco, pega no dinheiro e foge. Ali devolve o saco ao velhote.
— Muito obrigado. És um rapaz muito bondoso — agradece o cliente.
Ali fica triste, mas não fala do dinheiro que perdeu. Nessa noite, nem sequer conta o sucedido aos pais. “Posso sempre recomeçar”, pensa.No dia seguinte, está de novo no mercado, à espera de trabalho, no meio da algazarra. De repente, uma senhora de idade vem ter com ele e pede:
— Podes carregar estes dois sacos para mim? Vivo junto da estátua de Ataturk.
Enquanto Ali transporta os sacos, a senhora pergunta:
— São muito pesados?
— Não para mim, que sou forte! — responde Ali.
Chegam, por fim, junto da estátua de Ataturk. A senhora comenta:
— Lembro-me de Ataturk, porque foi um homem muito importante para a Turquia.
— Posso tirar-lhe uma fotografia junto da estátua — oferece-se Ali.
— E onde está a tua máquina fotográfica? — admira-se ela.
— Não tenho — diz Ali.
A senhora olha para ele e sorri.
— Tira lá a minha fotografia sem máquina. Mas primeiro, deixa-me arranjar o cabelo.
Chegam à rua onde a cliente vive e o rapaz carrega os sacos até ao andar dela. É um andar espaçoso, cheio de fotografias.
— Quanto dinheiro queres? — pergunta a senhora.
— Quanto dinheiro me quer dar? — returque ele.
— Senta-te e espera — pede a cliente.
Dirige-se a um pequeno quarto e volta com uma máquina fotográfica nas mãos.
— Esta foi a primeira máquina do meu filho. Fica com ela — oferece.
Ali fixa a máquina durante um bom bocado. Por fim, pega nela, mas logo a devolve.
— É uma máquina muito bonita, mas não posso ficar com ela.
A senhora pega na mão do rapaz e coloca a máquina nela.
— O meu filho já não a quer, porque agora tem uma nova.
— Como posso agradecer-lhe? — pergunta Ali.
— Volta cá um dia e tira-me uma fotografia. Uma fotografia a sério. E, agora, aqui tens o dinheiro de hoje.
— Não posso aceitar dinheiro algum! Mas posso transportar os seus sacos outra vez — diz Ali.
— És um bom rapaz. Lembra-te do meu nome: Sra. Yildiz.
— Não me esquecerei, Sra. Yildiz.
— Adeus, Ali. Tira boas fotografias com a máquina do meu filho.
Ali corre para casa e conta à mãe o que aconteceu.
— A máquina funciona?  quer saber a mãe.
— Claro que funciona. Vou agora mesmo tirar-te uma fotografia.
— Mas nem tem rolo, filho.
A mãe dá-lhe algum dinheiro e diz:
— Vai comprar um rolo que eu vou comprar um vestido novo. Depois, tiras-me uma fotografia.
— Obrigado, mãe! Mas eu quero comprar rolos com o meu dinheiro e não com o teu.
 
♦♦♦♦
 
E Ali continua a trabalhar todos os dias no mercado, depois das aulas, e chega tarde a casa. “Esta vida é bem difícil”, pensa. “As pessoas trabalham muito e recebem pouco.” Mas chega o dia em que já tem dinheiro suficiente para comprar um rolo. “Agora já posso tirar fotografias a sério”, diz para consigo. Lembra-se da Sra. Yildiz e vai até casa dela. Quando ela abre a porta e o vê, fica muito contente. Ali diz:
— Quero tirar-lhe uma fotografia.
Vão até à cozinha, onde um homem alto bebe café.
— Este é o meu filho Yusuf. Tira-nos uma fotografia aos dois. Senta-te junto de mim, Yusuf.
— Sorriam, por favor — pede Ali.
— O Yusuf trabalha num jornal e pode ensinar-te a tirar fotografias — diz a Sra. Yildiz.
Ali fita Yusuf e pergunta:
— Pode? É que eu quero aprender a tirar boas fotografias.
Yusuf sorri.
— Tira algumas fotografias por aí e depois aparece no jornal a mostrar-mas.
— Vou tirar o máximo que puder. Tenho-as todas na minha cabeça — diz o rapaz.
Ali passeia pelas ruas de Istambul que, de repente, lhe parece uma cidade muito bonita. Tira fotografias de pontes, de barcos e de mesquitas antigas. Também tira fotografias de pessoas nas ruas e nas lojas. Um dia, decide ir até ao jornal falar com Yusuf. Yusuf contempla as fotografias e diz:
— Bem, não estão mal...
— Não estão mal? — admira-se Ali.
— Não, as tuas fotografias não estão mal.
— Não estão boas? — insiste o rapaz.
— Algumas estão, mas outras não — diz, sincero, Yusuf.
Ali fica aborrecido e pede as fotografias de volta. Yusuf não percebe a atitude do rapaz. Este regressa a casa e conta à mãe o que aconteceu.
— Não foste muito inteligente, filho. Não és propriamente um fotógrafo famoso...
Ali sente-se triste consigo mesmo.
— Às vezes, abro a boca e falo sem pensar.
— Vai ter com Yusuf e pede-lhe desculpa.
— Agora não me sinto capaz. Estou zangado.
Ali deambula pelas ruas e vai-se perguntando: “Porque me afastei de Yusuf? Não foi uma atitude correcta. Porque não pensei primeiro? Porque...?”
De repente, repara numa pequena loja de fotografia. Entra e vê um idoso sentado a uma mesa. O nome dele é Selim e tem uma cara prazenteira.
— Gosto muito da sua loja. Tem máquinas bonitas. Queria trabalhar consigo — diz Ali.
— Mas eu não posso pagar-te — explica o velho.
— Não quero dinheiro. Quero aprender a tirar fotografias. Por favor, veja as minhas — pede o rapaz.
Selim observa-as e comenta:
— Cada um de nós vê através dos seus olhos. Mas os bons fotógrafos vêem as coisas através da lente da máquina.
E Ali começa a sua aprendizagem. Primeiro tira fotografias de pessoas. Depois fotografa portas e janelas.
— As portas e as janelas também têm vida — explica Selim.
Na cidade, há sempre muitas crianças a trabalhar nas lojas, ou a vender fruta, bebidas frescas e jornais nas ruas. Essas crianças sorriem com a cara mas não com os olhos. Ali mostra as fotografias a Selim.
— Gosta delas? — pergunta.
— Gosto. Estás a aprender. Estás a aprender a fazer fotografias.
— Quando poderei vendê-las a um jornal? — quer saber o rapaz.
— Espera... — aconselha Selim.
Ali continua a trabalhar no mercado depois das aulas, porque precisa de rolos para a máquina. E também aproveita para tirar fotografias das pessoas que frequentam o mercado. Numa manhã de sábado, bem cedo, vê algumas crianças em cima duma ponte. Têm olhos grandes e tristes e estão a pescar. Ali fotografa-as. Depois, vai até ao andar de Selim, na parte velha da cidade, e mostra-lhe a fotografia das crianças na ponte. Selim contempla-a durante muito tempo.
— Isto sim! Estás a aprender depressa.
— O senhor é muito meu amigo. É um autêntico professor!
— Gosto de te ensinar. És como um filho para mim — diz o idoso.
 
♦♦♦♦
 
Certo dia, Ali vê a Sra. Yildiz, mas afasta-se rapidamente.
— Ali, Ali, porque foges? — pergunta ela.
Ali detém-se.
— Eu sou muito orgulhoso… O Yusuf contou-lhe o que aconteceu?
E Ali relata o sucedido no jornal...
— Estou muito arrependido!
— Não sei do que estás a falar. Só sei que uma das tuas fotografias vem hoje no jornal.
— Uma fotografia minha no jornal? Qual delas?
— Uma com duas crianças numa ponte a pescar um grande peixe.
— Estou tão contente, Sra. Yildiz! — diz Ali, e ri, satisfeito. — Posso levar os seus sacos?
— Não, obrigada. Vai para casa.
O rapaz corre para a loja de Selim.
— A minha fotografia saiu no jornal!
— Saiu, pois. Ora vê só — diz Selim, mostrando-lhe o jornal.
— Mas... não percebo. Como foi ela aí parar? Foi o senhor que a mostrou ao Yusuf!
Selim sorri e diz:
— Mas olha que não podes parar de aprender!
— Tem toda a razão! — concorda Ali.
— Amanhã é um dia muito importante para ti — continua Selim.
— Não percebo — diz Ali.
— O jornal tem uma vaga para um estágio de fotografia. E o estagiário és tu. Amanhã começas um novo trabalho!
E desatam os dois a rir.
 
 
Raymond Pizante
Ali and his camera
Essex, Penguin Books, 2000
(Tradução e adaptação)