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Friday, September 23, 2011

As crianças têm direitos!

Crianças de lado nenhum
 
 
Era uma vez um menino como tu, da tua idade, que vivia com a família. Tinha amigos, ia à escola, fazia desporto e frequentava aulas de música. Tal como tu, queria saber tudo e devorava livros para poder conhecer o mundo. Mas isso não lhe bastava. Um dia foi passear pelo campo e sentou-se junto de uma árvore. Era um carvalho robusto, centenário, com ramos tão acolhedores que lembravam braços abertos. O menino sentia-se bem e começou a falar:
— Se o nosso planeta fosse tão pequeno como uma aldeia, seria fácil percorrer todos os continentes; com poucos passos, eu podia encontrar todos os meninos da Terra!
Naquele instante, os ramos do velho carvalho baixaram-se, levantaram o menino e levaram-no num turbilhão ensurdecedor. Quando voltou a abrir os olhos, seguia por um caminho de pedras. À sua frente avançava um grupo de crianças descalças, sujas, embrulhadas em cobertores. As mais velhas levavam ao colo as mais pequenas.
— Olá! — disse o menino. — Para onde vão?
— Não sabemos. Há meses e semanas que caminhamos, que fugimos de casa por causa da guerra.
— E a vossa família? E a vossa aldeia, o vosso país? — perguntou o menino.
— Já não temos nada. Temos apenas medo no peito. Alguns de nós fugiram num barco de tábuas velhas e esburacadas. Outros, atravessaram o deserto sem comer nem beber e outros ainda esconderam-se na floresta, alimentando-se de raízes e dormindo ao relento!
O menino sentiu o medo apoderar-se dele. Um medo terrível que até então desconhecera. Não era um medo pequeno como o medo do escuro ou da trovoada, mas o de um pesadelo, de onde se quer sair o mais depressa possível. Queria voltar a encontrar o velho carvalho, queria regressar a casa. Dentro do bolso, sentiu uma folha mexer-se entre os dedos. Apertou-a… e, de repente, encontrou-se junto da velha árvore:
— É horrível! Vi meninos retirados ao pai, à mãe, à sua terra, aos seus sonhos. É preciso ajudá-los; têm o direito de viver em paz a sua vida de criança!
O menino ia levantar-se para se ir embora, quando um ramo pegou nele e o fez sobrevoar o caminho de pedras onde, em grandes camas de rede, as crianças de lado nenhum descansavam em paz, debaixo de dois grandes carvalhos que, de repente, ali tinham aparecido. O menino ficou mais tranquilo. Fechou os olhos e deixou-se também embalar pelos ramos. Um calor suave acariciava-lhe o rosto.
 
♦♦♦♦
 
Crianças do Haiti
 
Abriu os olhos: estava numa ilha sob um sol ardente. Ao longe, viu crianças atarefadas.
— Olá! — gritou-lhes.
As crianças mal repararam nele e prosseguiram, umas a engraxar sapatos, outras a despejar lixo, outras ainda a lavar azulejos. Abeirou-se delas:
— Querem brincar comigo?
Àquelas palavras, as crianças pararam de trabalhar. O mais velho deu um passo na direcção do menino:
— Eh! Não há tempo para brincar. Temos trabalho a fazer!
— Trabalho?
— Nós temos de trabalhar o dia inteiro, senão, à noite, não temos nada para comer.
— Vocês trabalham? Na vossa idade?
— Lá em casa somos doze, não há outro remédio! Temos de ajudar os nossos pais. Já vês que não temos tempo para brincar.
— E à noite?
— À noite, estamos tão cansados que nem pensamos em brincar. Estás a ver aquele homem ali em baixo, com os sapatos cheios de pó? Está à minha espera. Tenho de deixá-los a brilhar e, se ele ficar satisfeito, dá-me duas moedas. Já chega para comprar fruta, pão e quatro batatas-doces. Bom, então adeus, miúdo. Bem gostava de brincar contigo!...
Em seguida, o menino foi sentar-se ao pé de uma árvore coberta de flores vermelhas e cor-de-laranja. “Uma árvore que faz sonhar”, pensou ele.
Ouviu a voz do mais velho murmurar-lhe ao ouvido:
— Eh, miúdo, quando for grande hei-de fazer uma lei que dê a todas as crianças o direito de brincar todos os dias!
Da árvore flamejante brotaram então, como uma chuva de sonhos, os brinquedos mais extraordinários.
 
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Manitra
 
O menino ia pegar num brinquedo, quando, de novo, os ramos da árvore se ergueram para levá-lo a um outro lugar. Pousaram-no num bairro pobre de uma grande cidade.
— Estas casas são feitas de cartão. Como se pode viver lá dentro quando chove?
Respondeu-lhe uma menina de vestido sujo e esfarrapado com as mãos pretas do pó de carvão.
— Eu sou a Manitra. Quando chove, cobrimo-las com plásticos grandes e pronto! Boeh, boeh!
— O que quer dizer boeh, boeh?
— Carvão, carvão! Eu apanho carvão e ando pelas ruas a apregoar boeh, boeh! Para o vender. Com o dinheiro, já posso comprar arroz e feijões!
No fim de cada frase, Manitra tossia, uma tosse aguda.
— Estás doente?
— Em Madagáscar, todas as crianças que apanham carvão tossem. É o pó que irrita os pulmões.
— Não tens nenhum xarope?
— É preciso dinheiro para a gente se tratar!
Um bebé correu a encostar-se a Manitra. Tinha as pernas cobertas de chagas.
— É o meu irmãozinho.
— Tem de tratar as pernas!
— Eu sei. Mas para comprar uma pomada, tenho de apanhar e vender cinquenta pedras de carvão. E é muito difícil!
O menino rebuscou no fundo dos bolsos e deitou ao chão uma folha de carvalho. Em segundos, um embondeiro majestoso ergueu-se, carregado de medicamentos e de vitaminas. Manitra recolheu o que era preciso para curar o irmão.
— Um dia, hei-de ser enfermeira no meu país. Vou tratar dos meninos pobres que vivem na rua ou em bairros de cartão, para que também eles tenham direito a ser tratados.
 
♦♦♦♦
 
Romain
 
O menino já não a ouvia. Já estava longe, muito longe, numa cidade de betão, onde não havia embondeiros nem flores. Nas escadas de um prédio, estava sentado Romain. O menino abordou-o:
— Olá! Estás sozinho? Não tens amigos?
Romain ergueu a cabeça.
— Estou sozinho o dia inteiro. Quando me levanto, os meus pais já têm saído e, à noite, como sozinho em frente da televisão!
— E isso é porque eles têm muito trabalho?
— Não. Nos dias em que não trabalham, é igual. Quase não falam comigo, e quando falam, é só para me castigarem ou para me ralharem. Se faço a mesma pergunta muitas vezes, o meu pai irrita-se e bate-me. Não percebo porquê. Talvez eu não seja o filho que ele desejava!
Romain escondeu a cabeça entre os joelhos.
— Tenho vergonha de te ter contado isto, tenho vergonha! — e correu a fechar-se em casa.
O menino encostou-se à porta e disse-lhe:
— Vergonha porquê? Mas tu não tens culpa! Tens direito a falar, a contar a tua história, não deves ficar fechado no teu silêncio, a sofrer sozinho. Estás a ouvir-me? Eu sou teu amigo! Eu sou teu amigo!
E, diante da porta de Romain, deixou um punhado de folhas de carvalho. Num instante, elas formaram uma trança que correu de casa em casa, e entrou em casa de outras crianças, novos amigos de Romain. O menino bem gostaria de seguir aquela longa cadeia de amizade, mas já os ramos lhe indicavam outro destino.
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Meninas das Filipinas
 
Conduziram-no por uma rua estreita e mal iluminada onde se sentiu um pouco inseguro. Atrás de uma janela gradeada viu duas meninas. “Crianças na prisão?”
— Bom dia — disse ele timidamente — o que estão a fazer aí?
— Estamos presas!
— Mas é proibido meter crianças na cadeia! O que é que vocês fizeram de mal?
— Nada. Um homem comprou-nos aos nossos pais.
— O quê, comprou-vos?
— Sim. Disse que ia dar-nos trabalho, que íamos ter um tecto, comida e dinheiro! Como somos muito pobres, acreditámos nele.
— Era um mentiroso, um aldrabão!
— Agora não nos deixa sair. Pôs grades nas portas e nas janelas, e proíbe-nos de falar. Somos escravas dele — sussurrou a menina.
— Onde está esse homem? Tem de ser preso e julgado. Onde é que ele está?
— No nosso país há muitos homens como ele. Não se pode fazer nada!
— Claro que pode!
O menino, revoltado, pôs-se a forçar as grades com quanta força tinha, mas não conseguiu alargá-las. Apavoradas, as meninas foram esconder-se. Tinha de encontrar o velho carvalho o mais rapidamente possível! Meteu as mãos nos bolsos e esfregou uma folha. A árvore apareceu imediatamente. O menino agarrou-se à casca a gritar:
— No nosso planeta há pessoas que batem nas crianças e há crianças que são compradas. É uma vergonha, não há direito!
E começou a chorar.
O ramo veio delicadamente secar-lhe as lágrimas, que lhe deslizavam pela cara abaixo como pérolas de chuva. Pegou nele e pousou-o debaixo de uma tília em flor.



BRYONY E BRIAN


O som de um violino fê-lo erguer a cabeça. Bryony tocava uma doce melodia. Ela parou e perguntou-lhe:
— Não encontraste Bryan pelo caminho? Estou a ouvi-lo. É o meu namorado.
— Tens sorte por teres um namorado!
— Sim, mas quase nunca o vejo.
— Porquê? Vive longe?
— Não, é logo à frente de minha casa, mas estamos proibidos de nos vermos porque eu sou católica e ele é protestante.
— E o que é que isso tem a ver com o amor?
— Em casa, se quiser dizer adeus a Bryan, os meus pais não podem saber. Ficam furiosos. Dizem que os culpados pelas bombas e pela violência são os protestantes. Eu amo Bryan tal como ele é, com os dentes separados e os cabelos ruivos. Não me interessa a religião!
Bryony deu um suspiro e continuou:
— Felizmente, temos um segredo que os adultos não conhecem: sempre que queremos, encontramo-nos através da música.
Bryony recomeçou a tocar. Ao longe, uma flauta respondeu-lhe.
— Mais tarde vamos ser músicos e tocar juntos nas ruas, para mostrar que as crianças têm direito ao amor, mesmo que não sejam da mesma religião, da mesma raça ou da mesma cor.
Ao som da flauta e do violino, a tília cobriu-se de notas de música e de instrumentos de todos os países do mundo. O menino deixou-se embalar por aquela música e, um pouco cansado de tanto viajar, adormeceu.


♦♦♦♦


AMADOU


A voz de Amadou acordou-o.
— Onde estou? — perguntou o menino.
— Estás no Mali, no meu país!
Debaixo de um magnífico ébano, Amadou remexia na pasta.
— Vais para a escola?
— Escola? Estás a brincar! Há meses que o chefe nos prometeu uma, mas nunca mais chega. As pessoas importantes têm sempre coisas mais urgentes a fazer!
— O quê, por exemplo?
— A guerra. Aqui, as tribos combatem-se, destroem as florestas, as aldeias. Assim, as pessoas não têm tempo para construírem uma escola! Para eles, isso não é importante. A maior parte das pessoas da minha aldeia nem sequer sabe escrever! A minha pasta, estás a ver, foi-me dada por uns meninos de uma escola de outro país. Aqui dentro está tudo o que é preciso para aprender: números, letras, lápis, borrachas… Eu tenho vontade de saber, de compreender!
Amadou estava cheio de curiosidade, até parecia que queria devorar os livros.
— Hoje, posso dizer-te, de cor, a conjugação dos direitos no tempo presente. Eu tenho direito a ir à escola, tu tens direito a aprender a ler, ele tem direito a saber contar… Mais tarde, hei-de ser professor, hei-de ir de aldeia em aldeia ensinar as crianças a ler e a escrever, para que saibam que todos têm direito a uma educação gratuita, qualquer que seja a sua tribo, quer vivam no mato quer vivam nas grandes cidades.
O ébano magnífico balançou-se lentamente.
Livros cheios de histórias e de cadernos impacientes por receberem os mais belos segredos caíram, um a um, à volta de Amadou.


♦♦♦♦


MEENA


O menino mal teve tempo de dizer adeus a Amadou; viu-se, logo de seguida, sentado numa carteira de escola ao lado de uma menina que dormia em cima do caderno. “Ela tem direito a descansar. Deve estar muito cansada!”, pensou ele. Meena abriu os olhos:
— Oh, que horas são? Ai, ai, vou chegar atrasada à fábrica! O patrão vai ralhar comigo!
— À fábrica? O patrão? De que é que estás a falar?
— De manhã e de tarde, trabalho numa fábrica de tapetes, e também vou à escola, mas estou cansada e nunca acabo os deveres. Por isso tenho más notas.
— Não vás para a fábrica! Tens os olhos vermelhos.
— É normal. Os trabalhos de tecelagem são numa cave sombria, iluminada só por um respiradouro. Trabalhamos na penumbra.
— Há lá mais crianças?
— Claro, só há crianças!
— Não voltes para lá! As crianças da tua idade vão à escola, não vão trabalhar!
— Os meus pais não podem viver se eu não trabalhar.
O menino ficou a pensar:
— Se fores à escola, aprendes uma boa profissão e podes ajudá-los melhor.
Os olhos de Meena iluminaram-se.
— Mais tarde quero ser professora de Indi. Hei-de ensinar às crianças que têm o direito de dizer não! Não, não queremos ser explorados, queremos ir à escola, estudar para sermos livres de escolher as nossas vidas.
O menino já apertava nas mãos algumas folhas do velho carvalho. As mais brilhantes e as mais vivas.
Meteu-as na palma da mão de Meena e desapareceu.


♦♦♦♦


MOHAMED


Seguia agora por uma rua branca, deserta. De repente, alguém o interpelou atrás de uma persiana:
— Eh, o que andas aqui a fazer?
O menino hesitou:
— Ando à procura das crianças deste país, mas nem sequer sei a que país vim parar!
— Estás na Argélia.
— Tem deserto?
— Com areia dourada, fluida, que escorre como o mel quando a agarramos com as mãos. Antigamente, ia muitas vezes para esse deserto com o meu pai.
— E porque é que agora já não vais?
— Porque já não saímos de casa. Desconfiamos de tudo: dos vizinhos, dos amigos, dos primos!
— E de mim?
— Sim, de ti também! Dantes, teria saído à rua para falar contigo. Agora, fico aqui fechado e tenho medo de tudo: de um carro que arranca, de uma persiana que faz barulho, de passos no passeio… Olha, tenho medo!
O menino sentiu-se pouco à vontade. Lembrou-se do terrível medo que sentira no caminho de pedra:
— De que é que tens medo?
— Da violência!
— Mas tu não tens nada a ver com isso!
— Pois não, mas quando uma bomba explode num mercado, ou perto de uma escola, fere e mata crianças e pessoas que são contra isso tudo! Mais tarde, se eu vier a ser Presidente da República, vou impedir que haja violência e guerra, para que as crianças tenham direito a viver em paz!
Ao ouvir as palavras violência e guerra, o menino sentiu o medo voltar. À sua volta, nem uma única árvore para o proteger. Procurou no bolso. Já só tinha duas folhas. Pegou numa e desfê-la em pedaços minúsculos. Imediatamente, uma fila de palmeiras ladeou a estrada. O menino começou a contá-las: uma… duas…, quando se viu a cavalo num ramo do carvalho. Era tudo tão rápido! Por baixo dele desfilava um continente com os seus países. A cabeça andava às voltas, tinha vertigens.


♦♦♦♦


CHINESINHA


Viu-se deitado debaixo dos bambus. Num campo, algumas crianças jogavam futebol. Sentada ao lado, uma menina observava-os.
— Não jogas com eles? — perguntou o menino.
— Não!
— Como te chamas?
— Chinesinha. O futebol é para os rapazes.
— No meu país, as meninas também jogam à bola.
Chinesinha torceu a sua longa trança.
— Sim, mas aqui os rapazes têm direito a fazer mais coisas do que as raparigas. Fazem grandes estudos, têm uma família, comem arroz todos os dias, carne ou peixe!
O menino não estava a compreender!
— Rapazes e raparigas são iguais, têm a mesma importância!
— No meu país, não. Aqui, as famílias só têm direito a ter um filho e a maior parte prefere ter um rapaz que, mais tarde, trabalhará e poderá ajudar a família a sobreviver.
— Uma rapariga é a mesma coisa!
— Creio que os adultos pensam que as raparigas são mais fracas, mais frágeis. Sabes, nós, no orfanato, somos muito fortes, corremos muito depressa. Somos campeãs de Tai-Chi. Sabemos escrever mais de mil caracteres, sabemos construir papagaios gigantes! Porém, quando nos cruzamos na rua com uma mãe e um pai com o seu filho, sentimo-nos tão pequenas como um grão de arroz e perguntamo-nos porque não tivemos a sorte de ser amadas! Mais tarde, hei-de ter uma família, vou ter dois filhos, um menino e uma menina, e hei-de ensinar-lhes que têm o mesmo direito ao amor, à família, a um futuro.
O menino pegou na mão de Chinesinha e beijou-a com ternura, como a uma irmã.
As suas duas sombras iguais começaram a brilhar, inundando de luz todos os bambus do país.


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ANTONINO


Desta vez, o menino aterrou numa montanha desprovida de vegetação. O ramo devia ter-se enganado no caminho. Ninguém poderia viver a uma tal altitude! De repente, um pouco mais abaixo, perto das quinoas, pareceu-lhe ver a sombra de alguém a cortar juncos. Uma criança sozinha naquelas montanhas! A sombra veio até ele.
Sim, era Antonino, o pastorinho. Estava tão feliz por ver o menino, que até pulava de alegria.
— Obrigado por vires ver-me, obrigado! Estou sempre sozinho, na montanha, sozinho com os rebanhos, de dia, de noite, à chuva e ao vento, sob as estrelas. O meu único companheiro é este — e mostrou ao menino o seu instrumento de música. — É um siku, mas, para o tocar, é muito melhor se formos dois. Numa tarde, estava eu a tocar quando, de repente, alguém me respondeu. Bem, já não estava sozinho. Era maravilhoso. Corri ao longo do rio em direcção às ervas altas e procurei, procurei, chamei, chamei… Não encontrei ninguém!
— Então quem é que te tinha respondido? — perguntou o menino, intrigado.
— O eco, era só o eco! Tinha tanta vontade de encontrar outros meninos, para nos divertirmos, para cantarmos! Vês, estou a fazer sikus para cada um deles. Mais tarde, hei-de descer aos vales e dar-lhes os meus instrumentos para que todos nós tenhamos direito a nos divertirmos, a nos encontrarmos para deixarmos de estar isolados!
Antonino pôs-se a tocar e o menino deitou ao vento a sua última folha. Sem esperar mais, subiram, vindas dos vales, crianças em fatos de festa. Cantavam, dançavam, batendo nos bombos, revolteando os ponchos multicores.


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LENA


A música encheu os vales e as montanhas, guiando o menino para longe do planalto, bem longe de Antonino, até à entrada de uma estação de metro. Aí, uma menina pequena rodopiava em volta de um grande lenço. O menino parou, fascinado.
— Danças como um pássaro!
— Adoro dançar, mas não posso estar sempre a dançar. Tenho de me sentar a pedir esmola!
— Pedir esmola, o que é isso?
— É pedir dinheiro a chorar, a dizer que estou doente, que o meu pai está doente… É o meu tio, aquele que tem o carro grande, que me obriga a dizer estas coisas e a entregar-lhe o dinheiro todo!
— O quê? Mas isso é horroroso! É inaceitável!
O menino procurou rapidamente uma folha no bolso mas já não lhe sobrara nenhuma. Os bolsos estavam vazios. Sentia-se desamparado. A voz tremia-lhe.
— Já não tenho folhas!
E explicou:
— Se estou perto de ti, devo-o a um amigo, um velho carvalho. Levou-me a passear nos seus ramos, pelos quatro cantos da Terra. Ofereceu camas de rede, brinquedos. Com as suas folhas, deu braçadas de esperança! Mas agora as folhas já se acabaram!
Lena pegou no acordeão e abriu suavemente os foles. Deixou escapar uma nuvem de folhas. O menino, maravilhado, seguiu-as com os olhos.
— Tu também conheces o velho carvalho?
— Claro! Eu e as minhas irmãs contamos muitas vezes a grande aventura.
— A grande aventura?
— O futuro, se preferires.
— Será que podes dizer-me o futuro das crianças da terra inteira?
Lena pegou numa folha e começou a ler:
— Todas as crianças da Terra vão unir-se para, juntas, defenderem os seus direitos: o direito ao respeito, o direito a uma família, o direito à liberdade de opinião e de expressão, o direito à educação, o direito ao lazer, o direito à saúde, o direito a nunca mais serem vendidas nem maltratadas, o direito à justiça, o direito ao amor. Em suma, o direito a viver as suas vidas de criança!
— Não vai haver mais guerras?
— Quem quiser a guerra vai para um planeta seco.
— E na Terra, todas as crianças vão ter tempo para brincar, para sonhar?
— Sim. Até serão criadas aulas de sonho nas escolas!
— E vai haver amor para todos, rapazes e raparigas?
— Não faltará o amor a ninguém!
— Então, todas as crianças serão felizes à face da Terra?
— Sim, poderão crescer e tornar-se pais respeitadores dos direitos dos seus filhos!
— Sabes mais alguma coisa?
— Sim, que o velho carvalho é a árvore dos direitos, e que todas as crianças que encontraste estão à tua espera.
— Todas? Até as meninas presas? Aquela criança maltratada? As crianças de lado nenhum?
— Sim, todas! O menino nunca se sentira tão feliz. Correu para o velho carvalho. Lá estavam os meninos, uns encostados ao ramo, outros sentados contra o tronco. O menino correu pelo meio deles e, estendendo os braços para a árvore protectora, declarou:
— Olhem, todos juntos formamos as folhas desta árvore com a mesma seiva a correr nos ramos. Somos tão fortes como ela! De futuro, não estaremos mais sós e nunca mais teremos medo. Esta árvore é a árvore dos nossos direitos. Levem as suas folhas e plantem as suas sementes. Amanhã teremos uma floresta magnífica!
As crianças levantaram-se e cantaram em uníssono, em todas as línguas, a canção que abre a porta da felicidade. Ela voou à volta do planeta, para lá dos oceanos, para lá das montanhas, pelo meio dos desertos e nas grandes cidades, até ao coração de todas as crianças!

Dominique Dimey
C’est le droit des enfants !
Arles, Actes Sud, 2001
(Tradução e adaptação)

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