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Friday, September 23, 2011

Caminhos sem nome


Um campo de neve deserto.
Um pardal pousa.
O Jardim das Hortênsias.
Ao amanhecer, uma pequena tartaruga atravessa lentamente.
Ninguém a vê.
Dois namorados estendidos na relva
em silêncio contemplam a noite e os astros.
Uma estrela cadente desliza.
No bosque por detrás da cidade,
uma aranha lança o primeiro fio de prata
até ao ramo mais alto.
Em cima dos telhados, por entre as chaminés,
uma auto-estrada invisível
por onde as andorinhas vão e vêm.
Uma longa caravana de formigas
em direcção ao biscoito caído no pátio.
Sara lancha no terraço ao sol.
Na tarde de Verão, o mar tranquilo.
Ondas que desenham anéis vermelhos.
Uma onda vai mais longe,
até ao castelo que as crianças construíram na areia.
 
Nem todos os caminhos têm nome.
Há caminhos que passam em silêncio.
No sossego do quarto onde te escondes,
se tivesses ouvidos de morcego,
escutarias as ondas a atravessar os muros
e a noite oferecendo-te a música do mundo.
 
Que confusão! Parece um carnaval!
Tambores e címbalos de ferro.
Camiões que esburacam montanhas.
Canções sem palavras. Palavras na escuridão.
Melodias de salão. Rotas sonâmbulas de navios mercantes.
Aviões perdidos.
 
 
Mas tu não tens ouvidos de morcego.
Tens ouvidos aquáticos que escutam 
o baile das algas nos corais.
 
Ouvidos de caramujo que escutam
o crepitar da chuva no bambu.
 
E dizes: estrela marinha.
 
E as tuas palavras são minúsculas
como ninhos de colibri.
 
Com o nariz colado à janela,
Viste a garça voar até ao norte.
 
 
Quando fores pelos caminhos do mundo, não esqueças nunca a linha que ela desenhava no céu.
 
 
 
Anna Castagnoli
Caminos sin nombre
Pontevedra, OQO Editora, 2007
(Tradução e adaptação)
 

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