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Thursday, November 17, 2011

Culpa Minha - Culpa Tua - Toda culpa é desnecessária

À maioria de nossos erros adicionamos uma camada contraproducente: culpa. Neste breve texto, vou tentar mostrar como o processo de culpar e de se sentir culpado, além de desnecessário, aumenta as chances de derraparmos de novo, seja num erro de trabalho, num vacilo com a namorada ou numa confusão com os amigos.

Identificação e repetição

Se surge culpa, isso significa que ainda nos identificamos com os padrões que geraram sofrimento de qualquer tipo, para nós ou para os outros. Se dizemos "Eu fiz aquilo", é bem provável que o movimento negativo retorne, já que o padrão ainda está presente, camuflado por um fator compensador, um auto-flagelo, uma dor na consciência. Pode observar: as pessoas que mais sentem culpa são as que mais seguem se enrolando em complicações.
A face que se culpa é exatamente aquela que causou o problema. Se ela está presente, a identidade, o padrão, a estrutura negativa está presente. Eu já vi mais de uma pessoa se sentindo culpada, se descrevendo assim à noite, e repetindo o erro no dia seguinte. É um mecanismo que se retroalimenta: eu causo problemas e tento me punir ao me sentir mal, me depreciar ("Eu não presto mesmo") e listar mil promessas ("Nunca mais vou...").
O melhor é não se identificar. Entender que os erros aconteceram porque estávamos sendo movidos, arrastados, operando sob condições, em uma posição pouco favorável. É como se o cara chegasse na mulher para quem gritou na noite passada e dissesse: "Foi a raiva, não fui eu".

Ringue

Culpar o outro (ou a si mesmo) cria um ringue: de um lado, pode surgir impulsos de vingança, raiva, revolta, superioridade; de outro, surge desânimo, sensação de débito, humilhação. Sofrimentos coemergentes.
Em vez de atacar e deixar ser atacado, o melhor seria se unir ao outro para superar a verdadeira origem do problema, que é sempre alguma perturbação, algum engano, algum desencontro. Não há pessoas essencialmente malignas, não há demônios, não há inimigos.
O melhor é não colocar o outro no ringue, não culpar. E igualmente não deixar que o outro nos coloque no ringue: não se sentir culpado. Se o outro vem atacando, apontando o dedo, podemos nos aproximar dele, olhar na mesma direção e apontar juntos para o verdadeiro vilão: a confusão, a emoção, o equívoco, as condições sob as quais estávamos operando. Livres daquilo, reconhecemos que todos eventualmente se tornam vítimas dessas confusões. E pedimos ajuda: "Veja, eu cai nisso, e foi ruim para todos. Melhor se não mais cairmos nisso, né?".

Responsabilidade

Não culpar não significa deixar de assumir a responsabilidade ou não se arrepender. Pelo contrário, não culpar é o único jeito de assumir a responsabilidade. Ora, normalmente não assumimos a responsabilidade e justamente por isso nos culpamos e culpamos os outros.
Assumir a responsabilidade é, antes de tudo, como diz Humberto Maturana, assumir responsabilidade por nossa responsabilidade: reconhecer a liberdade e a autonomia que temos a cada minuto. Uma pessoa que se culpa não reconhece sua liberdade de fazer diferente, caso contrário perceberia que agiu sob alguma espécie de confusão no passado, que, por ser detectada, não mais a comanda. Aquele que errou é visto como um outro, externamente, sem identificação, como se fosse o outro que lembramos de um sonho ou um personagem de um filme. E é esse personagem que sente culpa. Se não nos identificamos com aquele que causou problemas, não nos sentimos culpados. E só fazemos isso quando assumimos responsabilidade pelo que somos, ou seja, pela liberdade que se perdeu no momento da complicação.

Não culpar, não se culpar

O melhor jeito de não repetir um enrosco é entender o mecanismo que a gerou. Se entendemos isso, não mais no sentimos culpados, pois sabemos que aquilo aconteceu por tais e tais causas e condições, não porque somos uns imbecis, porque somos ruins, negativos, estúpidos, ridículos, patéticos (como uma pessoa culpada se descreve). Dessa postura, brota apenas um reconhecimento, às vezes até até acompanhado de um sorriso de alívio, perplexidade e bom ânimo. E a pessoa segue.
É como ver a chuva e saber que está tudo OK: está chovendo porque isso acontece assim e assim. Olhamos e entendemos, sem se debater ou lutar contra, sem reclamar. Olhamos e até sabemos o que fazer quando chove. E depois, quando está Sol, não ficamos lembrando de como foi horrível quando choveu. Apenas nos levantamos e deixamos o Sol bater na cara.
Todos os obstáculos, padrões, hábitos, emoções e estruturas negativas que manifestamos não são nossas propriedades, são apenas posições. É como a generosidade, a paciência, a alegria... Nada disso sou eu, mas posso me movimentar com essas inteligências.
Portanto, quando agimos sob condições e padrões negativos, não nos culpamos quando tudo vai mal, apenas observamos e fazemos o voto silencioso de não cair ali novamente.

Ciclo ético

Uma pessoa que erra e não se culpa está bem mais livre para agir de modo mais positivo e responsável no dia seguinte. Não porque ela focou em não se culpar (isso é apenas consequência), mas porque ela entendeu que agiu de modo confuso ou que a confusão simplesmente aconteceu, afinal não podemos ser tão autocentrados a ponto de achar que somos a única causa do problema. Ela reconhece que é responsável por suas experiências e começa a se relacionar com a liberdade dos outros de construir suas próprias experiências. Assim, ela entende melhor o mundo dos outros – o fato de que eles igualmente constroem experiências e vivem em outras realidades. Resultado: ela procura evitar causar sofrimento e confusão para eles, pois sabe bem como isso é ruim para ela e como acontece o mesmo com os outros. Enfim, não sentir culpa ajuda a criar esse ciclo ético.
Ao mesmo tempo, a pessoa livre da culpa entende que todas as aflições são impessoais. Então ela para de culpar os outros. Mesmo em casos extremos, como, por exemplo, a morte de um filho, ela sabe que o assassino agiu com alguma espécie de cegueira. Ainda que seja importante prendê-lo, ela sabe que não adianta culpá-lo. Que se há um inimigo, é a cegueira, a ignorância, a raiva, a confusão que fez alguém assassinar seu filho. Isso não significa que ela não sofra, claro, e que não surjam pensamentos de indignação e revolta: "Que absurdo, esse cara é um monstro!". Significa apenas que a culpa é desnecessária e que se reagirmos a esses pensamentos, reproduziremos o mesmo processo que, dia a dia, causa a morte de nossos filhos.
Refexão adaptada do texto de Gustavo Gitti
http://www.portalhomem.com.br

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