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Sunday, December 23, 2012

Angela e o Menino Jesus


Quando Angela, a minha mãe, tinha seis anos, sentiu pena do Menino Jesus que estava no presépio da igreja de Saint Joseph, que ficava perto do lugar onde vivia. Pensava que o Menino tinha frio e perguntava-se por que motivo ninguém lhe punha um cobertor por cima do corpinho nu.
Não que ele parecesse infeliz: sorria para a mãe, a Virgem Maria, para S. José, e para os três pastores com cordeirinhos às costas, que pareciam bem quentinhos nos seus casaquinhos de pele. Mas, mesmo que sentisse frio, nunca se queixaria, porque o Menino Jesus nunca iria querer que a sua mãe se sentisse infeliz. A pequena Angela também sentia frio e fome com frequência, mas nunca se queixava, com medo de que a mãe, os irmãos e a irmã a mandassem parar com a choradeira. Haveria de encontrar uma forma de ajudar o pobre Menino Jesus, sem que ninguém soubesse de nada.
Alguns dias antes do Natal, Angela escondeu-se num confessionário, espreitando, de vez em quando, para ver se a igreja já estava vazia. Mrs Reid e Mr King estavam ajoelhados nos bancos da igreja a rezar, arfando e batendo no peito, e Angela perguntava-se por que razão não iam antes para casa, beber uma boa chávena de chá, bem docinha.
Quando espirrou, os velhotes assustaram-se, por não saberem de onde teria vindo o espirro. Cochicharam um para o outro que devia haver um fantasma na igreja e saíram dali o mais depressa que puderam. A pequena Angela esperou um pouco, para se certificar de que a igreja estava finalmente vazia. Só se ouvia agora o barulho de vozes na rua e os cascos dos cavalos no pavimento.
Pensou no que ia fazer. Sabia, pelo que ouvira nas aulas, que roubar era uma má acção e que podia ser castigada. Podia até ser mandada para a cama sem direito a uma chávena de chá sequer. Se mesmo tirar alguns tostões do porta-moedas da mãe implicava um castigo, qual seria a punição por roubar o Menino Jesus? A própria mãe lhe daria um bom açoite, de certeza; contudo, Angela não queria pensar nisso naquele momento. A única coisa que lhe interessava era tomar conta do Menino antes que ficasse roxinho de frio.
Ficou surpreendida ao ver quão hirto e gelado era, ao invés dos bebés macios da sua rua. Quando o levantou da manjedoura, ele continuou a sorrir para ela, da mesma forma que sorria para a Virgem Maria, para S. José, para os três simpáticos pastores com os cordeirinhos, e para os Três Reis Magos e os seus presentes. Sentiu pena por nunca mais nenhum deles o ir ver de novo; porém, nenhum deles parecia preocupado. De qualquer forma, aquecê-lo era o mais importante e ninguém iria querer negar-lhe essa oportunidade.
Tinha de ser cuidadosa. Não queria que ninguém a visse a transportar o Menino Jesus para casa. Caminhou com rapidez pela nave da igreja e saiu para a rua, onde estava já escuro. Ao longo das ruas, a luz bruxuleante dos candeeiros ajudá-la-ia a esconder-se nas sombras. Fazia frio e os transeuntes não pareciam ter vontade de olhar para uma rapariguinha e para o quer que fosse que ela carregasse. O que as pessoas queiram era ir para casa beber uma boa chávena de chá e aquecer as pernas à lareira.
A dada altura, Angela deteve-se. Como iria levar o Menino Jesus para casa, com todos a olharem e a perguntarem o que era aquilo e o que estava ela a fazer? Não podia entrar pela porta da frente, mas, como havia uma ruela por detrás da casa, podia atirar o Menino para dentro do quintal. Contudo, o muro era demasiado alto. Podia subi-lo, mas teria de o fazer sem o Menino. Disse-lhe então:
— Ajudas-me, meu Menino? Ajudas-me?
E ele ajudou-a, dizendo-lhe, mentalmente, para o atirar por cima do muro e para o ir buscar ao outro lado. Não que fosse fácil. Angela tentou três vezes, antes de conseguir atirar o Menino para o quintal.
Foi então que aconteceu uma coisa horrível. Quando escalou o muro e saltou para o quintal, não havia qualquer sinal do Menino. O que podia ela fazer? Para onde teria ele ido? Angela só tinha seis anos, mas sabia que perder o Menino Jesus era coisa séria. Se não conseguisse encontrá-lo, ele ficaria com frio e começaria a chamar pela mãe. Encontrou-o finalmente. A sua brancura ressaltava da escuridão do quintal da vizinha cega de Angela, Mrs Blake. Debruçada no muro, a menina falou severamente com Jesus. Estava a tentar ajudá-lo e não via maneira de desculpar o comportamento dele, a voar como um pássaro e a cair num quintal onde não devia estar. Disse-lhe:
— Menino Jesus, estou com vontade de te deixar ficar aí.
Mas Angela nunca o faria, porque, se Deus descobrisse, não a deixaria tocar num doce ou num pão com passas durante uma semana inteira.
— Quando te atiro por cima do muro, não deves aterrar no quintal de Mrs Blake. Nem deves voar como se fosses um anjo.
Angela saltou para o quintal da vizinha e foi buscá-lo. Conseguiu lançá-lo, numa só tentativa, para o seu quintal, o que provava que ele a tinha ouvido, apesar de continuar com o mesmo sorriso de sempre. Angela adorava a forma como os bracinhos e as mãozinhas dele se estendiam, tal e qual como quando estava no presépio. Quando ela própria aterrou no chão, disse-lhe que ele era um bom menino, porque era obediente, e abraçou-o para o aquecer naquela noite fria e escura de Dezembro.
Angela quase morreu de susto quando a porta traseira da casa se abriu e o irmão saiu. Pat ia à casa de banho. O rapaz estacou e ficou a olhar para a irmã e para o Menino Jesus. Dado que o irmão era como um bebé ele próprio, e costumava dizer coisas apatetadas, Angela não se preocupou.
— Esse é o Menino Jesus?
— É.
— Mas ele devia estar a dormir no presépio na igreja e tu tem-lo aqui ao frio.
— Estou a aquecê-lo — explicou Angela.
— A mãe dele vai desatar numa gritaria quando vir que ele desapareceu.
— Aposto que não se vai importar, porque também quer que ele esteja quentinho.
— Então está bem.
Pat foi à casa de banho e Angela entrou em casa devagarinho, atravessando o pequeno patamar e subindo as escadas. Parou ao ouvir a voz do irmão.
— Mamã, a Angela tem o Menino Jesus lá em cima.
A mãe disse:
— Oh, filho, isso é que é imaginação. Bebe o teu chá.
— Tem pois. E ele está todo branquinho e a tremer.
— Está bem, Pat. Havemos de falar com ela.
— A mãe dele deve estar a fazer uma algazarra.
— Não canses essa cabecinha, filho.
Angela sabia que não ia conseguir conservar o Menino, durante toda a noite, na cama que partilhava com Aggie, a irmã. Deixá-lo-ia descansar durante algum tempo, quentinho e aconchegado num cobertor, e, quando fossem horas de deitar, pô-lo-ia debaixo da cama, confiando que ele se manteria lá confortável até de manhã.
 A mãe ficou surpreendida por a ver descer as escadas à hora do lanche, em vez de a ver entrar pela porta da frente.
— Estavas a descansar, filha?
— Estava.
Depois do lanche, deixaram-na ficar sentada à lareira, enquanto a família convivia. Queria juntar-se à conversa, mas diziam-lhe sempre que era demasiado pequena e que devia manter-se calada. Afinal, só tinha seis anos. O que teria para dizer que fosse importante? Esta noite, estar em silêncio não incomodava Angela. Tinha um grande segredo: o Menino Jesus estava na sua cama, quentinho e aconchegado. Não que lhe fosse fácil guardar segredos; contudo, se dissesse fosse o que fosse, todos iriam querer vê-lo e brincar com ele, como se fosse uma boneca velha. Angela tivera outrora uma boneca e chorara bastante quando Aggie lhe arrancara a cabeça e se rira.
A família riu de novo quando Pat lhes contou que tinha visto Angela com o Menino Jesus ao colo no quintal das traseiras. Furioso, o rapaz acrescentou:
— E agora tem Deus lá em cima na cama.
A mãe sossegou-o:
— Está bem, filho. Vamos lá todos ver se o Menino Jesus está na cama.
A pequena Angela ficou aterrorizada. O que podia fazer se a família encontrasse o Menino Jesus na cama dela? A mãe decerto lhe daria umas boas palmadas e obrigá-la-ia a ir para a cama sem chá e sem pão.
Seguiu a mãe e os irmãos até ao andar de cima.
O quarto estava escuro, mas podia ver-se o Menino Jesus na cama, com a cabeça na almofada e os braços estendidos, embora não se conseguisse ver o seu sorriso encantador.
— Minha Nossa Senhora! — exclamou a mãe. — Este é o Menino Jesus da igreja de Saint Joseph?
Quando todos disseram “É”, Angela ficou calada. A mãe olhou-a de frente.
— Angela, foste tu que puseste o Menino Jesus na cama? Diz a verdade, porque se mentires diante do Menino Jesus cometes o maior pecado do mundo.
A pequena Angela tinha vontade de chorar, mas não o fez. Algo lhe dizia que chorar neste momento não ajudaria muito.
— Fui — respondeu.
— E porque o fizeste?
— Porque ele tinha frio no presépio e eu queria aquecê-lo.
Tom e Aggie desataram a rir, mas a mãe silenciou-os. A pequena Angela reparou que Pat, o motivo de toda aquela confusão, não ria. Pat disse:
— Eu adoro o Menino Jesus. Vou tomar conta dele para que não tenha frio.
— Mas, filho, temos de o levar para junto da sua pobre mãe, a Virgem Maria, que ficou na igreja.
Pat começou a chorar.
— Por favor, mamã, eu consigo aquecê-lo e posso dizer à mãe que ele está a salvo na cama.
Angela tinha vontade de dizer ao irmão que fora ela quem trouxera o Menino Jesus e que o irmão não tinha nada que falar do paradeiro da criança à Virgem Maria.
— Mamã — começou.
— O que foi? — perguntou a mãe, num tom brusco.
— Quero ser eu a aquecer o Menino Jesus. Não quero que o Pat faça nada.
— Ele é teu irmão. E adora o Menino Jesus.
— Pouco me importa.
— De qualquer forma, o Menino Jesus tem de voltar para junto da mãe dele imediatamente.
As lágrimas irromperam dos olhos de Angela.
— Por favor, mamã, por favor…
— Vamos levá-lo de volta, Angela, e temos sorte se o padre não quiser apresentar queixa.
A mãe embrulhou o Menino Jesus no seu melhor xaile e foram todos até à igreja devolver o Menino à Virgem Maria, a S. José, aos pastores dos cordeirinhos quentinhos, e aos Três Reis Magos. Ficaram chocados quando viram a porta da igreja fechada, e ainda mais chocados quando ela se abriu e o Padre Creagh e um polícia saíram de lá de dentro.
 — Virgem Santíssima! — exclamou a mãe de Angela.
— O que é isto? — perguntou o padre.
— É o Menino Jesus — respondeu a mãe de Angela.
— Isso vejo eu — replicou o padre. — Há duas horas que andamos numa aflição em volta do presépio. Quem o levou?
A pequena Angela puxou pela manga do padre.
— Fui eu. Ele estava com frio e eu levei-o para o aquecer.
Padre e polícia entreolharam-se. Este abanou a cabeça.
— Que Deus nos ajude!
Pôs a mão no ombro de Angela e perguntou ao padre:
— Prendemo-la, padre? Pomo-la na cadeia de Limerick?
— Não, não — gritou Pat. — Vocês não podem pôr a minha irmã na prisão. Ela só estava a tentar aquecer o Menino Jesus. Ponham-me antes a mim.
O rapazinho não sabia do que falava e a mãe começou a chorar.
— Oh, Pat — disse, segurando o Menino num braço e aconchegando o filho com o outro. — Eras capaz de fazer isso pela tua irmã?
— Claro que sim. Adoro o Menino Jesus e adoro a minha irmã.
O mais estranho de tudo era que o luar de Dezembro mostrava que as lágrimas também corriam pelo rosto do padre, enquanto o polícia pigarreava e dava um toque no cassetete. O padre entrou na igreja, clareou a garganta e pediu a todos que entrassem.
— Temos de devolver o Menino à sua pobre mãe — disse a Angela.
Subiram pela nave e, quando chegaram junto do gradeamento do altar, o padre pegou no Menino que a mãe de Angela segurava. Deu-o a Angela e conduziu-a até ao presépio.
— Podes voltar a pô-lo na manjedoura — disse, numa voz suave e baixinha.
— Mas ele vai ter frio — objectou Angela.
— Não vai, não — assegurou o padre. — Quando não está ninguém presente, a mãe dele, Nossa Senhora, certifica-se de que ele não passa frio.
— Tem a certeza? — perguntou Angela.
— Claro que tenho — respondeu o padre.
E, quando Angela pôs Jesus de novo no presépio, o Menino sorriu como sempre sorria e estendeu os braços para o mundo.
 
 
 
 
 
 
Frank McCourt; Raúl Colón
Angela and the Baby Jesus
London, HarperCollins, 2007
(Tradução e adaptação)

Wednesday, December 12, 2012

Alberto Chong - "As telenovelas moldaram o Brasil"


Economista do BID afirma que a novela ajudou o país a aceitar o divórcio e a criar famílias menores
MARTHA MENDONÇA
Qual é o verdadeiro impacto das telenovelas nos lares brasileiros? Segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as tramas exibidas na TV nos últimos 40 anos vêm moldando as famílias em pelo menos dois aspectos: menos filhos e mais divórcios. As pesquisas, coordenadas pelo economista Alberto Chong, analisaram o conteúdo de 115 novelas transmitidas pela TV Globo entre 1965 e 1999 nos horários das 19 horas e das 20 horas. Nessa amostragem, 62% das principais personagens femininas não tinham filhos e 26% delas eram infiéis a seus parceiros – o que suavizou o tabu do adultério. Para Chong, a telenovela é um excelente canal de difusão de programas sociais, como prevenção à aids e direitos das minorias. Ele deu a seguinte entrevista a ÉPOCA.


ENTREVISTA – ALBERTO CHONG 

 DivulgaçãoQUEM É Economista nascido em Lima, no Peru. Tem 45 anos e mora em Washington, nos Estados Unidos

O QUE FEZ
Desde 2000, trabalha como pesquisador do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)

O QUE PUBLICOU
As pesquisas Novelas e fertilidade: evidências do Brasil, com Suzanne Duryea, do BID; e Televisão e divórcio: evidências de novelas brasileiras, em parceria com Eliana Ferrara, economista da Bocconi University
ÉPOCA – De que forma as telenovelas influenciaram a sociedade brasileira? 
Alberto Chong –
 Durante o período da ditadura, os autores já viam nas novelas a oportunidade de lutar contra o sistema, apresentando novas ideias e valores. Há, de forma recorrente, a crítica à religião, ao machismo e ao consumo de luxo e a ideia de que a riqueza e o poder não trazem felicidade. A família está no centro dessas transformações. As novelas são um instrumento muito poderoso na formação de um modelo bastante específico de família: branca, saudável, urbana, bonita, consumista – e pequena.

ÉPOCA – Vem daí a explicação para a influência das novelas na queda da taxa de fertilidade? 
Chong –
 Sim. A família pequena é uma imposição da produção, que tem limitações de elenco. Para que a história aconteça, são necessários pelo menos cinco ou seis núcleos. Então nenhum pode ser grande demais. Por um tempo essa família tão reduzida era irreal. Com o tempo, porém, a repetida exposição desse perfil influenciou fortemente na preferência por menos filhos e pelo custo financeiro mais baixo dessa escolha. Ao longo dos anos, essa queda na taxa de fertilidade foi caindo mais em áreas alcançadas pela televisão do que em áreas que não recebiam o sinal.

ÉPOCA – As mulheres são o público principal das novelas. Elas são mais influenciáveis por esse tipo de conteúdo? 
Chong –
 Uma das ideias mais disseminadas pelas novelas, em todos os tempos, é, certamente, a emancipação feminina, junto com a entrada da mulher no mercado de trabalho. A busca do amor e do prazer pelas personagens femininas também é uma constante em qualquer trama – mesmo que ela tenha de cometer adultério, o que também é comum nas histórias.

ÉPOCA – No Brasil, de acordo com o IBGE, vem das mulheres a maior parte dos pedidos de divórcio. Quanto as novelas contribuem para isso? 
Chong –
 Estudar o Brasil sob esse ponto de vista é interessante, porque os casos de divórcio aumentaram dramaticamente nas últimas três décadas. Estima-se que as taxas aumentaram de 3,3 em cada cem casamentos em 1984 para 17,7 em 2002, mais do que em qualquer outro país latino-americano. Nosso estudo avança na hipótese de que os valores da televisão, mais precisamente das novelas, contribuíram de fato para esse aumento, principalmente a partir do momento em que no Brasil há um alcance desse tipo de programa como em nenhum outro país. A novela é, de longe, a maior atração da TV e é veiculada pela Rede Globo, que tem mantido um domínio quase absoluto do setor por cerca de três décadas. Percebemos que, quando a protagonista de uma novela era divorciada ou não era casada, a taxa de divórcio aumentava, em média, 0,1 ponto porcentual. A mudança é positiva. A simples possibilidade do divórcio dá às mulheres a chance de igualdade de gênero no casamento e na distribuição do trabalho, dentro e fora de casa. Também diminui a violência doméstica, os homicídios e suicídios.

Friday, May 18, 2012

CARDEAL DO NASCIMENTO ELUCIDA A LENDA DE TER SIDO AUTOR DA PRIMEIRA LEI CONSTITUCIONAL

De facto, chegou a produzir um esboço entregue a Nito Alves para remeter a Agostinho Neto, mas a sequência é outra cantiga.

Aconteceu nas vésperas da independência, segundo o próprio Cardeal Alexandre do Nascimento, ora emérito e, naquela época, apenas uma das figuras sacerdotais soltas pelo 25 de Abril. O esclarecimento consta do prefácio, subscrito por si, no livro “Experiência Constitucional Angolana e a Justificação dos Direitos fundamentais”.

«Por  sinal, o título avizinha-se de um trabalho por mim escrito pelos finais dos anos 60, quando aluno do Professor Marcelo Caetano, na Faculdade de Direito de Lisboa. Confesso que já então eu pensava na Constituição de Angola, e até cheguei a falar com o Dr. Agostinho Neto, sobre a intenção de redigir um esboço da nossa Lei de Nacionalidade. Por ocasião do histórico encontro de Nakuru, Nito Alves, um dos integrantes da delegação angolana, foi portador do texto a que me refiro. Daqui a lenda de que eu sou um dos autores da nossa Primeira Constituição», elucidou Sua Eminência.

E completou com a seguinte achega pessoal: «A verdade, porém, é que ordenado Bispo, os problemas inadiáveis do governo de uma Diocese obrigaram-me a pôr de parte os intentos de contribuir para o Projecto da nossa Primeira Lei Constitucional. Afinal sempre me ficou no ânimo como um voto não realizado. – Não há muito, a nossa Assembleia Nacional brindou o País com um texto, que nos honra. Refiro-me à Constituição da República de Angola, há pouco promulgada».   

Ordenado sacerdote a 20/12/ 1952, em Roma, o então Reverendo Alexandre do Nascimento foi consagrado bispo a 31 de Agosto de 1975. A 3/2/1977, ascendeu a Arcebispo e ao Cardinalato em 2/2/1983.

Cada homem é PESSOA

Da autoria do padre António Lungieky Pedro Bengui, o livro “Experiência Constitucional Angolana e a Justificação dos Direitos fundamentais” foi lançado terça-feira última numa sala da Universidade Católica de Angola (UCAN).

O seu teor exime os principais momentos da legislação normativa de Angola desde a colonização, incluindo «uma avaliação complexa dos direitos fundamentais, expressos na Lei Constitucional da II República de Angola de 1992».

O autor acha problemática a falta de observância e aplicação dos princípios sancionados na Lei Mãe.
Daí, a sua tese de que «os direitos humanos são um factor de desenvolvimento  (…) os instrumentos legais (…) não devem ser peças de museu, mas verdadeiro instrumento para a convivência pacífica».

«Se existe uma outra (via mestre de elaboração de novos textos), pensamos naquela que passa pela CONSCIÊNCIA de que todos devem contribuir a defender que o homem é garantido verdadeiramente somente quando todos os direitos que lhe vêem reconhecidos sejam reconduzidos a um único, estável e fundamental: o direito de ter os direitos, e reconhecer que cada homem é PESSOA –imagem e semelhança de Deus!», concluiu o autor da obra.

De 108 páginas, editada na ‘Mayamba’, está a venda na praça ao preço de 2 mil Kwanzas.

Nascido em Damba – Uije  a 12/12/1973, P. Lungieki é licenciado em Direito Civil e Canônico pela Pontifical Universidade Lateranense de Roma. Cumula actualmente os cargos de Chanceler da Arquidiocese de Luanda, Vigário Paroquial, Assistente da Santa Casa da Misericórdia e Professor no Seminário Arquidiocesano.

O lançamento foi presenciado, além do público, pelo Cardeal, o Núncio Apostólico, o vice-presidente da CEAST, o Arcebispo de Luanda e Reitor Magnifico da UCAN e o Bispo auxiliar da mesma Arquidiocese.

TOMÁS APRENDE A LER

Tomás sabia fazer uma vala com troncos de árvore ou cozinhar uma tortilha, mas não sabia ler. Fazia uma mesa de uma árvore e um xarope da sua seiva, mas não sabia ler. Tomás sabia tratar dos tomates, dos pepinos e das maçarocas de milho, mas não sabia ler. Conhecia as pegadas dos animais e os sinais das estações do ano, mas não conhecia as letras nem as palavras. Um dia disse ao seu irmão, José:

— Quero aprender a ler.

— Já estás velho para isso, Tomás — respondeu-lhe José. — Tens filhos e netos e sabes fazer quase tudo.

— Mas não sei ler — insistiu Tomás.

— Já que queres, então aprende! — disse José.

— Quero aprender a ler — disse Tomás a Júlia, sua mulher.

— És um homem maravilhoso, tal como és — respondeu Júlia, fazendo-lhe uma festa.

— Mas ainda posso ser melhor — replicou ele.

— Então aprende! — disse a mulher, a sorrir, enquanto tricotava. — Assim, poderás ler para mim.

— Quero aprender a ler — disse Tomás ao seu velho cão pastor.

O cão fitou-o e depois deitou-se no tapete a seus pés. Tomás começou a pensar: “Como é que vou aprender a ler? O meu irmão não me pode ensinar. A minha mulher não me pode ensinar. Este cão velho também não me pode ensinar. Como é que eu vou aprender?” Pensou durante algum tempo até que, por fim, sorriu.

No dia seguinte, levantou-se ao nascer do sol e fez o trabalho da quinta. Depois do trabalho, lavou a cara e as mãos, penteou o cabelo e a barba, e vestiu a sua camisa preferida. Comeu umas torradas e preparou uma sandes. Depois, despediu-se de Júlia com um beijo e saiu de casa. Pelo caminho encontrou um grupo de meninos e meninas que, à sombra das árvores, se dirigiam para o mesmo local. Quando as crianças entraram na escola, Tomás entrou também. Ao vê-lo, a Professora Garcia sorriu.

— Quero aprender a ler — disse Tomás.

Ela indicou-lhe um lugar vago e ele sentou-se.

— Meninos e meninas — anunciou a professora — hoje temos um novo aluno.

Tomás começou pelas letras e seus sons. Alguns meninos ajudaram-no. No recreio, sentou-se debaixo de uma árvore e ensinou algumas crianças a imitar o canto do melro e o grasnar do ganso. E contou-lhes histórias.

Depressa Tomás aprendeu palavras. Todos os dias copiava os exercícios no caderno, com esmero. Gostava muito que a professora ou as crianças mais velhas lessem em voz alta, na aula. Por vezes, desenhava enquanto ia ouvindo. Tomás ia aprendendo, mas também ensinava. Ensinou os meninos a talhar madeira com uma navalha. E a professora aprendeu com ele a fazer compota de maçã e a assobiar.

Ao fim de algum tempo, Tomás já era capaz de juntar palavras e escrever histórias sobre como salvara um pequeno esquilo, como tomara um banho no rio e como conhecera a sua mulher.

À noite, Júlia ficava a vê-lo fazer os exercícios na mesa depois da ceia.

— Quando é que vais ler para mim? — perguntava-lhe.

— Quando chegar a ocasião — respondia o marido.

Um dia, Tomás trouxe da escola um livro de poemas que falava de árvores, nuvens, rios e gazelas velozes, e guardou-o debaixo da almofada. Nessa noite, quando Júlia e ele foram para a cama, pegou no livro.

— Ora escuta — pediu.

E leu um poema sobre pétalas suaves e o doce perfume das rosas e outro sobre ondas que se esbatiam na orla do mar. Terminou a leitura com um poema de amor.

Júlia olhou o marido nos olhos.

— Oh, Tomás! — disse. — Também quero aprender a ler.

— Amanhã, depois do pequeno-almoço, querida! — respondeu ele a sorrir, apagando a luz.

Jo Ellen Bogart
Tomás aprende a leer
Barcelona, Editorial Juventud, 1998

(Tradução e adaptação)

Materia vita spirito Teologia e scienze naturali a confronto di Clara Caverzasio Tanzi



(foto iStock)
Il dialogo tra teologia e scienza è sempre stato problematico e spesso, come oggi, unidirezionale: la teologia sembra essere interessata alla scienza, mentre la scienza sembra molto meno interessata alla teologia. Singoli scienziati possono affrontare temi religiosi, ma è più difficile trovare il riscontro di un contributo positivo della teologia alla ricerca scientifica.
Ma che tipo di circolazione intellettuale, di confronto e di scambio, ci può essere tra la teologia e la scienza? E in particolar modo tra discipline come la Fisica, la Biologia e le Neuroscienze che con le loro acquisizioni stanno rivendendo il concetto stesso dell’uomo, della sua responsabilità, della sua libertà, così come il concetto stesso di vita e di morte? In che misura possono offrire contributi alla riflessione teologica? E per converso quali possono essere gli stimoli della Teologia alla Scienza contemporanea?
Per rispondere a queste e ad altre domande il 17 e 18 maggio a Torino si sono incontrati teologi con competenze in ambito scientifico e scienziati, o filosofi, con posizioni opposte: alcuni “dialoganti” con la teologia e il discorso cristiano, altri più propensi a negare qualsiasi compatibilità tra fede e scienza. Obiettivo: valutare possibilità e limiti della reciproca interazione, e comprendere se il discorso scientifico più avanzato sia coniugabile con questioni teologiche fondamentali.

In sintesi

  • Il giardino di Albert
  • domenica 20 maggio 2012
  • ore 10:35 (replica alle ore 22:35)

Sunday, May 13, 2012

A Criança Misteriosa

Era uma vez um senhor do campo chamado Thaddeus de Brakel. Tinha herdado do pai a pequena propriedade de Brakelheim e aí vivia muito sossegado, amado por todos, numa casa pequena mas confortável, com a mulher, o filho Félix e a filha Christlieb.
Uma certa manhã, a família levantou-se muito cedo. A mulher de Sir Thaddeus fez um grande bolo cheio de amêndoas e uvas. Sir Thaddeus vestiu o seu melhor casaco verde, e Félix e Christlieb vestiram as suas melhores roupas, pois iam chegar uns nobres visitantes: o Conde Cyprian de Brakel, primo de Sir Thaddeus, mais a sua mulher e filhos.
Estava um dia lindo, e Félix e Christlieb tinham pena de não poderem ir brincar para a floresta. Em vez disso, tinham de ficar em casa à espera dos visitantes.
Chegaram por fim, numa carruagem luxuosa. O Conde e a sua família tinham maneiras polidas e vestiam roupas caras: o pequeno Hermann usava calças compridas, um chapéu com uma pena e trazia consigo uma curta e cintilante espada, e a saia da irmã Adelgunde tinha muitos laços e fitas.
Infelizmente, os quatro primos não se entendiam muito bem. Os filhos do Conde eram atrevidos e arrogantes. Sabiam tudo sobre história, geografia, zoologia e até sobre astronomia, e gostavam de exibir os seus conhecimentos, enquanto Félix e Christlieb, que tinham crescido livres na floresta, sentiam-se desajeitados e constrangidos diante deles. A Condessa ficou espantada com tal ignorância, e o Conde prometeu a Sir Thaddeus e à mulher enviar um tutor para transmitir um pouco de saber aos seus filhos, dizendo-lhes que tal não lhes custaria absolutamente nada.
Em seguida, o cocheiro entrou com duas grandes caixas. Adelgunde e Hermann entregaram-nas a Christlieb e Félix.
– Aqui tens alguns brinquedos, meu querido primo! – disse Hermann ao primo, fazendo-lhe uma vénia.
Félix ficou atrapalhado, sem saber o que dizer, assim como a irmã, que estava mais perto do choro do que do riso. Apesar disso, a caixa que Adelgunde lhe oferecera cheirava tão bem, que parecia estar cheia de guloseimas. Sultão, o fiel cão de Félix, começou a ladrar e a saltar, e Hermann, que estava muito amedrontado, correu até à outra ponta da sala e começou a soluçar.
– Ele não te faz mal! – disse Félix ao primo. – Não é preciso gritares dessa maneira. – É só um cão e, mesmo que ele te atacasse, tens uma espada, não tens?
Mas Hermann continuou a soluçar até à chegada do cocheiro, que pegou nele ao colo e o levou para a carruagem. Adelgunde também começou a chorar sem razão aparente. Depois, o mesmo fez a pobre Christlieb, e foi ao som de três crianças a chorar que os nobres visitantes partiram.
Mal a carruagem partiu, Sir Thaddeus despiu o seu belo casaco verde e vestiu o de todos os dias. Passou um pente sobre o cabelo e deu um grande suspiro.
– Meu Deus, obrigado por tudo! – disse.
As crianças também despiram os seus belos fatos, sentindo-se libertas e felizes.
– Vamos até à floresta! – gritou Félix.
– Não querem ver os presentes? – perguntou a mãe. Christlieb, que estivera a observar curiosamente as caixas, achou boa ideia, mas Félix não estava assim tão certo.
– Huh! – disse. – Como é que o primo pode ter trazido alguma coisa engraçada? Ele só fala de leões, ursos, elefantes, e depois tem medo do Sultão! A chorar e a soluçar escondido debaixo da mesa, e com uma espada!
– Oh, Félix, meu querido, vamos dar uma espreitadela às caixas! – disse Christlieb.
Félix, que fazia tudo para lhe agradar, concordou. A mãe abriu as caixas e – bem, queridos leitores, só desejo que todos tenham a sorte de ter tantos presentes maravilhosos da vossa família e amigos, no Natal ou no vosso aniversário! Lembram-se de como gritaram de alegria ao verem uns lindos soldadinhos ou os divertidos bonecos mecânicos com um realejo? As bonecas bem vestidas e os coloridos livros de desenho? Pois foi como Félix e Christlieb se sentiram diante daquelas caixas a abarrotar de brinquedos maravilhosos e de guloseimas.
– Oh, que maravilha! – gritavam eles, batendo palmas.
O brinquedo de que Félix mais gostou foi de um forte caçador que levantava a espingarda e apontava para um alvo, quando se lhe tocava nas costas do casaco. A seguir, o melhor foi um pequeno boneco que se inclinava e tocava uma linda melodia numa harpa. Havia uma pistola, uma faca de caça, ambas feitas de madeira e pintadas de prateado, assim como um boné de hussardo e um cartucho de uma pequena espingarda. Quanto a Christlieb, estava fascinada com uma linda boneca e um conjunto de panelas e sertãs. As duas crianças esqueceram-se completamente da ida à floresta e brincaram com os brinquedos novos até serem horas de deitar.
No dia seguinte, tiraram novamente os brinquedos das caixas para brincarem. Lá fora, na floresta, o sol brilhava, os pássaros cantavam e, de repente, Félix gritou:
– Oh, Christlieb, lá fora é mais divertido! Podemos levar os brinquedos!
No entanto, os brinquedos, comparados com as belezas da Natureza, não eram tão interessantes, e as crianças ficaram impacientes e brincaram tão desajeitadamente com eles, que alguns se partiram, incluindo o caçador e o tocador de harpa.
– Vamos fazer uma corrida! – disse Félix.
– Oh sim! – exclamou Christlieb. – E a minha boneca também vai!
E assim, cada um agarrou num braço da boneca e desataram a correr pelo meio dos arbustos, descendo a colina até chegarem a um lago rodeado por altos juncos, onde Sir Thaddeus por vezes caçava patos bravos.
– Porque não paramos um pouco? – perguntou Félix. – Talvez eu mate um pato, como o pai. Afinal até tenho uma pistola!
Mas Christlieb gritou:
– Oh, a minha boneca! O que aconteceu à minha boneca?
Claro que a boneca estava em mau estado. Durante a corrida, as crianças tinham-se descuidado. As roupas estavam espalhadas pelos arbustos e a boneca tinha as pernas partidas. A sua bonita cara de cera estava feita em pedaços.
– A minha boneca! – gemeu Christlieb. – A minha boneca!
– Bem, já vês as coisas estúpidas que os primos nos deram! – disse Félix.
– A tua boneca nem serve para fazer uma corrida connosco. Vá lá, dá cá a boneca!
Triste, Christlieb entregou-lhe a boneca toda estragada, e não conseguia parar de chorar.
– Oh, não! – disse, quando ele a atirou para o lago.
– Anima-te! – consolou-a Félix. – Não chores por causa de uma boneca tão estúpida! Se eu apanhar um pato, dou-te as penas mais bonitas das asas!
Nesse momento surgiu um ruído vindo dos juncos e Félix apontou a sua pistola de madeira, mas baixou-a quase de imediato.
– Sou maluco – disse. – É preciso pólvora e balas para carregar uma pistola e eu não tenho nem uma coisa nem outra, e mesmo que tivesse, como é que ia carregar uma pistola de madeira? A faca de caça também não serve. Não corta! Digo-te uma coisa – o Primo Baggy Breeches está a gozar comigo! Os brinquedos parecem muito bons mas não prestam para nada!
E dizendo isto, Félix atirou ao lago a pistola, a faca e os cartuchos. Quando regressaram a casa, a pobre Christlieb ainda chorava pela boneca e Félix estava de muito mau humor. Quando a mãe lhes perguntou:
– Mas onde estão os vossos brinquedos, meninos?
Félix contou como ele e Christlieb tinham sido enganados pelo caçador, pelo tocador de harpa, pela pistola, a faca e a boneca.
– Meu Deus! – disse a mãe pausadamente. – Vocês não sabem brincar com coisas tão bonitas e frágeis como aquelas!
Contudo, Sir Thaddeus disse:
– Deixa as crianças. Fico contente por vê-las livres daqueles brinquedos que só as baralhavam!
E nem a mãe nem as crianças perceberam o que é que Sir Thaddeus pretendeu dizer!
No dia seguinte, Félix e Christlieb foram bem cedo para a floresta. A mãe disse-lhes que não regressassem muito tarde, pois tinham de estudar alguma coisa, para não se sentirem tão envergonhados quando o tutor chegasse.
– Vamos brincar enquanto podemos! – disse Félix e, começaram a brincar às caçadinhas. Pouco tempo depois, estavam cansados e mudaram de brincadeira. Nada corria bem. O boné de Félix voou e ele apanhou-o com agilidade e endireitou-o. Christlieb tirou alguns espinhos da saia e deu um pontapé num tronco.
– É melhor irmos para casa – disse Félix, de mau humor. Mas, em vez disso, sentou-se à sombra de uma grande árvore e a irmã fez o mesmo. Aí ficaram ambos a olhar tristemente para o chão.
– Oh, mano – suspirou Christlieb – se ao menos ainda tivéssemos aqueles brinquedos tão bonitos!
– Não serviriam para nada – murmurou Félix. – Íamos partir os bonecos outra vez! A mãe tinha razão, Christlieb. Não havia nada de errado com aqueles brinquedos. Nós é que somos tão ignorantes que nem soubemos brincar com eles!
– Sim – concordou Christlieb. – Se fôssemos espertos como os nossos primos, tu ainda tinhas o caçador, o tocador, e aquela linda boneca não estaria agora no fundo do lago! Oh, por que é que somos tão desajeitados e ignorantes?
Começou a soluçar e Félix juntou-se a ela. Choraram ambos bem alto, lamentando-se:
– Se não fôssemos tão ignorantes!
De súbito, pararam de chorar e entreolharam-se espantados.
– Estás a ver aquilo, Christlieb? – perguntou Félix.
– Estás a ouvir aquilo, Félix? – perguntou Christlieb.
 
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria - Baltar