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Saturday, January 28, 2012

Leia e guarde esta lição Publicado em 09 de Setembro de 2009



O presidente falou ontem aos alunos da América
MANIFESTO DE OBAMA PARA OS ALUNOS


Sei que para muitos de vocês hoje é o primeiro dia de aulas, e para os que entraram para o jardim infantil, para a escola primária ou secundária, é o primeiro dia numa nova escola, por isso é compreensível que estejam um pouco nervosos. Também deve haver alguns alunos mais velhos, contentes por saberem que já só lhes falta um ano. Mas, estejam em que ano estiverem, muitos devem ter pena por as férias de Verão terem acabado e já não poderem ficar até mais tarde na cama.

Também conheço essa sensação. Quando era miúdo, a minha família viveu alguns anos na Indonésia e a minha mãe não tinha dinheiro para me mandar para a escola onde andavam os outros miúdos americanos. Foi por isso que ela decidiu dar-me ela própria umas lições extras, segunda a sexta-feira, às 4h30 da manhã.

A ideia de me levantar àquela hora não me agradava por aí além. Adormeci muitas vezes sentado à mesa da cozinha. Mas quando eu me queixava a minha mãe respondia-me: "Olha que isto para mim também não é pêra doce, meu malandro..."
Tenho consciência de que alguns de vocês ainda estão a adaptar-se ao regresso às aulas, mas hoje estou aqui porque tenho um assunto importante a discutir convosco. Quero falar convosco da vossa educação e daquilo que se espera de vocês neste novo ano escolar.

Já fiz muitos discursos sobre educação, e falei muito de responsabilidade. Falei da responsabilidade dos vossos professores de vos motivarem, de vos fazerem ter vontade de aprender. Falei da responsabilidade dos vossos pais de vos manterem no bom caminho, de se assegurarem de que vocês fazem os trabalhos de casa e não passam o dia à frente da televisão ou a jogar com a Xbox. Falei da responsabilidade do vosso governo de estabelecer padrões elevados, de apoiar os professores e os directores das escolas e de melhorar as que não estão a funcionar bem e onde os alunos não têm as oportunidades que merecem.

No entanto, a verdade é que nem os professores e os pais mais dedicados, nem as melhores escolas do mundo são capazes do que quer que seja se vocês não assumirem as vossas responsabilidades. Se vocês não forem às aulas, não prestarem atenção a esses professores, aos vossos avós e aos outros adultos e não trabalharem duramente, como terão de fazer se quiserem ser bem sucedidos.

E hoje é nesse assunto que quero concentrar-me: na responsabilidade de cada um de vocês pela sua própria educação.
Todos vocês são bons em alguma coisa. Não há nenhum que não tenha alguma coisa a dar. E é a vocês que cabe descobrir do que se trata. É essa oportunidade que a educação vos proporciona.

Talvez tenham a capacidade de ser bons escritores - suficientemente bons para escreverem livros ou artigos para jornais -, mas se não fizerem o trabalho de Inglês podem nunca vir a sabê-lo. Talvez sejam pessoas inovadoras ou inventores - quem sabe capazes de criar o próximo iPhone ou um novo medicamento ou vacina -, mas se não fizerem o projecto de Ciências podem não vir a percebê-lo. Talvez possam vir a ser mayors ou senadores, ou juízes do Supremo Tribunal, mas se não participarem nos debates dos clubes da vossa escola podem nunca vir a sabê-lo.

No entanto, escolham o que escolherem fazer com a vossa vida, garanto-vos que não será possível a não ser que estudem. Querem ser médicos, professores ou polícias? Querem ser enfermeiros, arquitectos, advogados ou militares? Para qualquer dessas carreiras é preciso ter estudos. Não podem deixar a escola e esperar arranjar um bom emprego. Têm de trabalhar, estudar, aprender para isso.

E não é só para as vossas vidas e para o vosso futuro que isto é importante. O que vocês fizerem com os vossos estudos vai decidir nada mais nada menos que o futuro do nosso país. Aquilo que aprenderem na escola agora vai decidir se enquanto país estaremos à altura dos desafios do futuro.

Vão precisar dos conhecimentos e das competências que se aprendem e desenvolvem nas ciências e na matemática para curar doenças como o cancro e a sida e para desenvolver novas tecnologias energéticas que protejam o ambiente. Vão precisar da penetração e do sentido crítico que se desenvolvem na história e nas ciências sociais para que deixe de haver pobres e sem-abrigo, para combater o crime e a discriminação e para tornar o nosso país mais justo e mais livre. Vão precisar da criatividade e do engenho que se desenvolvem em todas as disciplinas para criar novas empresas que criem novos empregos e desenvolvam a economia.

Precisamos que todos vocês desenvolvam os vossos talentos, competências e intelectos para ajudarem a resolver os nossos problemas mais difíceis. Se não o fizerem - se abandonarem a escola -, não é só a vocês mesmos que estão a abandonar, é ao vosso país.

Eu sei que não é fácil ter bons resultados na escola. Tenho consciência de que muitos têm dificuldades na vossa vida que dificultam a tarefa de se concentrarem nos estudos. Percebo isso, e sei do que estou a falar. O meu pai deixou a nossa família quando eu tinha dois anos e eu fui criado só pela minha mãe, que teve muitas vezes dificuldade em pagar as contas e nem sempre nos conseguia dar as coisas que os outros miúdos tinham. Tive muitas vezes pena de não ter um pai na minha vida. Senti-me sozinho e tive a impressão que não me adaptava, e por isso nem sempre conseguia concentrar-me nos estudos como devia. E a minha vida podia muito bem ter dado para o torto.

Mas tive sorte. Tive muitas segundas oportunidades e consegui ir para a faculdade, estudar Direito e realizar os meus sonhos. A minha mulher, a nossa primeira-dama, Michelle Obama, tem uma história parecida com a minha. Nem o pai nem a mãe dela estudaram e não eram ricos. No entanto, trabalharam muito, e ela própria trabalhou muito para poder frequentar as melhores escolas do nosso país.

Alguns de vocês podem não ter tido estas oportunidades. Talvez não haja nas vossas vidas adultos capazes de vos dar o apoio de que precisam. Quem sabe se não há alguém desempregado e o dinheiro não chega. Pode ser que vivam num bairro pouco seguro ou os vossos amigos queiram levar-vos a fazer coisas que vocês sabem que não estão bem.

Apesar de tudo isso, as circunstâncias da vossa vida - o vosso aspecto, o sítio onde nasceram, o dinheiro que têm, os problemas da vossa família - não são desculpa para não fazerem os vossos trabalhos nem para se portarem mal. Não são desculpa para responderem mal aos vossos professores, para faltarem às aulas ou para desistirem de estudar. Não são desculpa para não estudarem.

A vossa vida actual não vai determinar forçosamente aquilo que vão ser no futuro. Ninguém escreve o vosso destino por vocês. Aqui, nos Estados Unidos, somos nós que decidimos o nosso destino. Somos nós que fazemos o nosso futuro.
E é isso que os jovens como vocês fazem todos os dias em todo o país. Jovens como Jazmin Perez, de Roma, no Texas. Quando a Jazmin foi para a escola não falava inglês. Na terra dela não havia praticamente ninguém que tivesse andado na faculdade, e o mesmo acontecia com os pais dela. No entanto, ela estudou muito, teve boas notas, ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Brown, e actualmente está a estudar Saúde Pública.

Estou a pensar ainda em Andoni Schultz, de Los Altos, na Califórnia, que aos três anos descobriu que tinha um tumor cerebral. Teve de fazer imensos tratamentos e operações, uma delas que lhe afectou a memória, e por isso teve de estudar muito mais - centenas de horas a mais - que os outros. No entanto, nunca perdeu nenhum ano e agora entrou na faculdade.

E também há o caso da Shantell Steve, da minha cidade, Chicago, no Illinois. Embora tenha saltado de família adoptiva para família adoptiva nos bairros mais degradados, conseguiu arranjar emprego num centro de saúde, organizou um programa para afastar os jovens dos gangues e está prestes a acabar a escola secundária com notas excelentes e a entrar para a faculdade.

A Jazmin, o Andoni e a Shantell não são diferentes de vocês. Enfrentaram dificuldades como as vossas. Mas não desistiram. Decidiram assumir a responsabilidade pelos seus estudos e esforçaram-se por alcançar objectivos. E eu espero que vocês façam o mesmo.

É por isso que hoje me dirijo a cada um de vocês para que estabeleça os seus próprios objectivos para os seus estudos, e para que faça tudo o que for preciso para os alcançar. O vosso objectivo pode ser apenas fazer os trabalhos de casa, prestar atenção às aulas ou ler todos os dias algumas páginas de um livro. Também podem decidir participar numa actividade extracurricular, ou fazer trabalho voluntário na vossa comunidade. Talvez decidam defender miúdos que são vítimas de discriminação, por serem quem são ou pelo seu aspecto, por acreditarem, como eu acredito, que todas as crianças merecem um ambiente seguro em que possam estudar. Ou pode ser que decidam cuidar de vocês mesmos para aprenderem melhor. E é nesse sentido que espero que lavem muitas vezes as mãos e que não vão às aulas se estiverem doentes, para evitarmos que haja muitas pessoas a apanhar gripe neste Outono e neste Inverno.

Mas decidam o que decidirem gostava que se empenhassem. Que trabalhassem duramente. Eu sei que muitas vezes a televisão dá a impressão que podemos ser ricos e bem-sucedidos sem termos de trabalhar - que o vosso caminho para o sucesso passa pelo rap, pelo basquetebol ou por serem estrelas de reality shows -, mas a verdade é que isso é muito pouco provável. A verdade é que o sucesso é muito difícil. Não vão gostar de todas as disciplinas nem de todos os professores. Nem todos os trabalhos vão ser úteis para a vossa vida a curto prazo. E não vão forçosamente alcançar os vossos objectivos à primeira.

No entanto, isso pouco importa. Algumas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo são as que sofreram mais fracassos. O primeiro livro do Harry Potter, de J. K. Rowling, foi rejeitado duas vezes antes de ser publicado. Michael Jordan foi expulso da equipa de basquetebol do liceu, perdeu centenas de jogos e falhou milhares de lançamentos ao longo da sua carreira. No entanto, uma vez disse: "Falhei muitas e muitas vezes na minha vida. E foi por isso que fui bem-sucedido."

Estas pessoas alcançaram os seus objectivos porque perceberam que não podemos deixar que os nossos fracassos nos definam - temos de permitir que eles nos ensinem as suas lições. Temos de deixar que nos mostrem o que devemos fazer de maneira diferente quando voltamos a tentar. Não é por nos metermos num sarilho que somos desordeiros. Isso só quer dizer que temos de fazer um esforço maior por nos comportarmos bem. Não é por termos uma má nota que somos estúpidos. Essa nota só quer dizer que temos de estudar mais.

Ninguém nasce bom em nada. Tornamo-nos bons graças ao nosso trabalho. Não entramos para a primeira equipa da universidade a primeira vez que praticamos um desporto. Não acertamos em todas as notas a primeira vez que cantamos uma canção. Temos de praticar. O mesmo acontece com o trabalho da escola. É possível que tenham de fazer um problema de Matemática várias vezes até acertarem, ou de ler muitas vezes um texto até o perceberem, ou de fazer um esquema várias vezes antes de poderem entregá-lo.

Não tenham medo de fazer perguntas. Não tenham medo de pedir ajuda quando precisarem. Eu todos os dias o faço. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza, é um sinal de força. Mostra que temos coragem de admitir que não sabemos e de aprender coisas novas. Procurem um adulto em quem confiem - um pai, um avô ou um professor ou treinador - e peçam-lhe que vos ajude.

E mesmo quando estiverem em dificuldades, mesmo quando se sentirem desencorajados e vos parecer que as outras pessoas vos abandonaram - nunca desistam de vocês mesmos. Quando desistirem de vocês mesmos é do vosso país que estão a desistir.

A história da América não é a história dos que desistiram quando as coisas se tornaram difíceis. É a das pessoas que continuaram, que insistiram, que se esforçaram mais, que amavam demasiado o seu país para não darem o seu melhor.

É a história dos estudantes que há 250 anos estavam onde vocês estão agora e fizeram uma revolução e fundaram este país. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 75 anos e ultrapassaram uma depressão e ganharam uma guerra mundial, lutaram pelos direitos civis e puseram um homem na Lua. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 20 anos e fundaram a Google, o Twitter e o Facebook e mudaram a maneira como comunicamos uns com os outros.

Por isso hoje quero perguntar-vos qual é o contributo que pretendem fazer. Quais são os problemas que tencionam resolver? Que descobertas pretendem fazer? Quando daqui a 20 ou a 50 ou a 100 anos um presidente vier aqui falar, que vai dizer que vocês fizeram pelo vosso país?

As vossas famílias, os vossos professores e eu estamos a fazer tudo o que podemos para assegurar que vocês têm a educação de que precisam para responder a estas perguntas. Estou a trabalhar duramente para equipar as vossas salas de aulas e pagar os vossos livros, o vosso equipamento e os computadores de que vocês precisam para estudar. E por isso espero que trabalhem a sério este ano, que se esforcem o mais possível em tudo o que fizerem. Espero grandes coisas de todos vocês. Não nos desapontem. Não desapontem as vossas famílias e o vosso país. Façam-nos sentir orgulho em vocês. Tenho a certeza que são capazes.

Wednesday, January 18, 2012

A Caixa da Liberdade





Em meados do século XIX, havia quatro milhões de escravos nos Estados Unidos. Os escravos eram propriedade dos donos, como se fossem mesas, vacas, ou carroças. Os historiadores pensam que entre 60.000 e 100.00 escravos recuperaram a liberdade através do Caminho-de-Ferro Clandestino.
O Caminho-de-Ferro Clandestino não era um verdadeiro caminho-de-ferro. Era um conjunto de rotas que os escravos seguiam quando fugiam para Norte. Escondiam-se em carroças, andavam a cavalo, caminhavam centenas de quilómetros através de florestas e pântanos, atravessavam rios caudalosos no Verão e superfícies geladas no Inverno. Eram ajudados por “chefes de estação” e “cobradores” que os escondiam e auxiliavam ao longo da fuga.
Quando Henry Brown entrou na sua “Caixa da Liberdade”, acreditava que esta o transportaria para um mundo seguro. Levou com ele uma ferramenta para abrir buracos na caixa para respirar, um pouco de água e alguns biscoitos. Quando chegou a Filadélfia, vindo de Richmond, na Virgínia, tinha percorrido uma distância de 560 quilómetros em 27 horas.
A sua história foi objeto de notícia na América e na Europa. Henry nunca encontrou a mulher e os filhos. Em 1850 foi para Inglaterra e há quem diga que voltou a casar. Mas o que é certo é que Henry “Box”[1] Brown se tornou um dos fugitivos mais célebres do Caminho-de-Ferro Clandestino – o homem que “encomendou” a sua liberdade.
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Henry Brown não sabia a idade. Era um escravo, e os escravos não podiam saber quando faziam anos. Trabalhava, juntamente com os seus irmãos e irmãs, na casa grande da plantação, onde vivia o dono. Este sempre fora bondoso para com eles. Mas a mãe de Henry sabia que esta situação podia mudar. Um dia, comentou com o filho:
― Vês aquelas folhas a esvoaçar? Foram arrancadas das árvores, tal como os filhos dos escravos são arrancados às suas famílias.
E uma bela manhã, o patrão mandou chamar Henry e a mãe. Ambos subiram a escadaria larga que conduzia ao quarto. O dono estava na cama e só a sua cabeça emergia do edredão. Estava muito doente e pediu-lhes que se aproximassem. Como alguns escravos estavam a ser libertados pelos donos, o coração de Henry bateu com força. Talvez o dono o fosse libertar. Porém, o patrão disse:
― Tens sido um bom trabalhador, Henry. Vou dar-te ao meu filho. Deves obedecer-lhe e nunca contar mentiras.
Henry acenou com a cabeça, mas não agradeceu. Agradecer seria mentir.
Na tarde desse mesmo dia, Henry viu um pássaro voar bem alto para longe das árvores. “Um pássaro livre! Um pássaro feliz!”, pensou. Depois, despediu-se da família. Quando olhou para os campos, as folhas rodopiavam ao vento.
O rapaz foi trabalhar para a fábrica do novo patrão e trabalhava bem. Mas isso não o impedia de gritar com ele, e de o ameaçar com um bastão:
― Não rasgues essa folha de tabaco!
Se os escravos cometessem algum erro, o patrão batia-lhes.
Henry sentia-se só. Mas, um dia, conheceu Nancy, que andava às compras para a patroa. Puseram-se a conversar, enquanto caminhavam juntos, e concordaram em voltar a encontrar-‑se. O rapaz tinha agora vontade de cantar, embora os escravos não se atrevessem a cantar na rua. Em vez disso, trauteou disfarçadamente a caminho de casa.
Meses mais tarde, Henry pediu a Nancy que se casasse com ele. Depois de os patrões de ambos concordarem, os jovens casaram-se. Em breve nasceu um filho, e depois outro, e logo outro. Henry sabia que tinham sorte em viverem juntos, apesar de terem patrões diferentes. Mas Nancy preocupava-se, porque o seu dono tinha perdido muito dinheiro. Um dia confessou ao marido:
― Temo que ele venda os nossos filhos.
Henry ficou muito calado. Nessa manhã trabalhou arduamente, tentando esquecer o que a mulher lhe dissera. Mas, de repente, o seu amigo James entrou na fábrica e sussurrou-lhe:
― A tua mulher e os teus filhos acabam de ser vendidos no mercado de escravos.
― Não! ― gritou Henry.
De repente, não conseguia mexer-se, nem pensar, nem trabalhar.
― Mexe esse tabaco! ― gritou o patrão, empurrando-o com o bastão.
Enquanto mexia as folhas de tabaco, o seu coração remexia no peito. À hora de almoço, foi ao centro da cidade. Viu um grupo de escravos atados uns aos outros e o novo dono a gritar com eles. Henry procurou a família.
― Pai! Pai! ― ouviu chamar.
Foi então que viu os filhos desaparecerem ao longe na rua. Onde estaria Nancy? Viram-‑se ao mesmo tempo, mas era tarde demais. Depois de limpar as lágrimas, Henry deu-se conta de que também ela desaparecera.
Henry deixou de cantar e até de trautear. Ia trabalhar e, à noite, comia e ia para a cama. Tentou lembrar-se dos tempos felizes que passara, mas só conseguia ver as carroças a transportarem para longe todas as pessoas que amava. Sabia que não voltaria a ver a família.
Passaram-se muitas semanas. Certa manhã, Henry ouviu um pequeno pássaro cantar e viu-o voar em direção ao céu. E pensou que podia ser livre. Mas como? Quando pegou numa caixa de madeira, soube a resposta.
Pediu a James e ao Dr. Smith para o ajudarem. O Dr. Smith era um branco que pensava que a escravatura estava errada. Encontram-se num armazém vazio no dia seguinte, pela manhã. Henry transportava uma caixa.
― Irei como encomenda para um lugar onde não haja escravos! ― anunciou.
James olhou para a caixa e depois para Henry.
― E se tossires e alguém te ouvir?
― Taparei a boca e terei esperança ― respondeu Henry.
O Dr. Smith escreveu na tampa da caixa:
Para: William H. Johnson
Arch Street
Filadélfia, Pensilvânia.
 
Henry seria entregue a amigos na Pensilvânia. O médico também escreveu na caixa, em maiúsculas:
ESTE LADO PARA CIMA.
TRATAR COM CUIDADO.
Henry precisava de uma desculpa para ficar em casa, ou o patrão pensaria que ele tinha fugido. James lembrou-lhe o dedo magoado. Mas o amigo sabia que não era desculpa suficiente. Abriu, então, uma garrafa de ácido.
― Não! ― gritou James.
Henry deitou o ácido na mão e sentiu que a queimadura penetrava nos ossos. Agora o patrão deixá-lo-ia ficar em casa! O Dr. Smith pôs-lhe uma ligadura e concordaram em encontrar-se na manhã seguinte, às quatro horas. Ainda o sol não se erguera, e já Henry se enfiava na caixa.
― Estou pronto! ― anunciou.
James pregou a tampa da caixa e, juntamente com o Dr. Smith, levou-a para a estação. O empregado do caminho-de-ferro virou a caixa e pregou um papel no fundo. O médico pediu aos carregadores que tivessem cuidado, mas ninguém lhe prestou atenção e atiraram a caixa para o vagão das mercadorias.
Passaram-se horas, durante as quais Henry foi novamente levantado e atirado, ficando de cabeça para baixo. Ouviu ondas a bater. Devia estar a bordo do navio que ia para Washington, D.C. O barco navegava devagar, mas o escravo ainda estava virado ao contrário. O sangue subiu-lhe à cabeça, as faces ficaram afogueadas, os olhos doíam-lhe, e pensou mesmo que a cabeça ia rebentar. Mas nem se atrevia a mexer, com medo de que alguém pudesse ouvi-‑lo.
― Estou cansado de estar de pé! ― disse uma voz.
― Porque não nos sentamos nesta caixa? ― sugeriu uma outra.
Henry nem conseguia respirar. Será que estavam a falar da sua caixa? Sentiu-se empurrado. A caixa raspou o convés do navio. Viraram-no para o lado direito e para o esquerdo. De repente, sentiu-se virado para cima.
― O que pensas que está aqui dentro? ― perguntou um dos homens.
― Correio, acho ― respondeu o outro.
“Sou correio, sou, mas não do tipo que imaginam”, pensou Henry.
Quando a viagem terminou, a caixa foi levada para fora do navio e colocada numa carruagem de comboio. Desta vez, seguiram as instruções. Henry adormeceu ao som das rodas do comboio. Acordou com uma pancada forte.
― Henry, estás bem? ― perguntou uma voz.
― Estou ― respondeu.
 A tampa foi levantada. O escravo estirou os braços, levantou-se e deparou com o sorriso de quatro homens.
― Bem-vindo a Filadélfia!
Henry sabia agora que fazia anos a 30 de Março de 1849, o seu primeiro dia de liberdade.
A partir desse dia, também ganhou outro nome: todos passaram a chamar-lhe Henry “Box” Brown.
Ellen Levine; Kadir Nelson
Henry’s freedom box – A true story from the Underground Railroad
New York, Scholastic, 2007
(Tradução e adaptação)

Saturday, January 14, 2012

Migrações: Igreja Católica celebra Dia Mundial abordando desafios éticos e espirituais Mensagem de Bento XVI deixa alerta para consequências da «secularização»

Lisboa, 14 jan 2012 (Ecclesia) – A Igreja Católica vai celebrar este domingo o 98.º Dia Mundial do Migrante e Refugiado, que Bento XVI dedica este ano ao tema da nova evangelização e às problemáticas associadas aos fenómenos migratórios.
“As migrações dentro ou para fora da nação, como solução para a busca de melhores condições de vida ou para fugir de eventuais perseguições, guerras, violência, fome e catástrofes naturais”, produziram “novas problemáticas do ponto de vista não só humano, mas também ético, religioso e espiritual”, indica a mensagem escrita para esta celebração.
O Papa alerta para as “atuais e palpáveis consequências da secularização”, da “aparição de novos movimentos sectários”, de “uma difundida insensibilidade à fé cristã” e “uma acentuada tendência para a fragmentação”.
Neste contexto, Bento XVI apela a uma “nova evangelização, inclusive no vasto e complexo fenómeno da mobilidade humana”.
“Hoje, sentimos a urgência de promover, com novo vigor e novas modalidades, a obra de evangelização num mundo onde a queda das fronteiras e os novos processos de globalização deixaram as pessoas e os povos ainda mais próximos”, pode ler-se.
O texto desenvolve o tema ‘Migrações e nova evangelização’, lembrando aqueles que “cresceram no seio de povos marcados pela fé cristã”, mas acabaram por emigrar para países onde os cristãos são uma minoria “ou a antiga tradição de fé já não é convicção pessoal”.
O Papa convida os católicos a conservarem a sua fé nesses contextos, o que se pode tornar "uma ocasião para proclamar que, em Jesus Cristo, a humanidade se torna participante do mistério de Deus e da sua vida de amor” ou para “despertar a consciência cristã adormecida”.
Para Bento XVI “o atual fenómeno migratório é também uma oportunidade providencial para o anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo”, apelando à cooperação entre “as Igrejas tanto de proveniência, como de trânsito e de acolhimento dos fluxos migratórios”.
A mensagem fala ainda da situação de “numerosos estudantes vindos de outros países” que enfrentam “problemas de inserção, dificuldades burocráticas, aflições na busca de alojamento e de estruturas de acolhimento”.
OC

Crise: Emigrantes portugueses na Suíça pedem alimentação e dormida nas missões católicas

Desemprego aumenta e salários baixam na Europa mas a emigração continua

Lisboa, 14 jan 2011 (Ecclesia) – É cada vez mais difícil encontrar emprego na Europa, os salários baixam e os contratos são precários, mas continua a haver portugueses decididos a emigrar, ainda que alguns não tenham que comer nem encontrem onde dormir.
Há emigrantes lusos que diariamente “têm batido à porta das missões católicas em busca de alimentação e dormida”, afirmou à Agência ECCLESIA o coordenador nacional da Pastoral das Missões da Igreja na Suíça, acrescentando que no último ano entraram no país cerca de 11 mil portugueses.
O padre Aloísio Araújo relatou que a maioria dos emigrantes encontra “grandes dificuldades” no país helvético devido a um mercado de trabalho “saturado” e cada vez mais competitivo.
“Chegam não só portugueses mas também pessoas dos países de Leste ou do norte da Europa, que procuram emprego mas não o encontram ou trabalham precariamente porque o mercado está saturado e os salários também desceram”, disse.
Esta realidade não muda os planos de João Carita, 23 anos, que vai para a Suíça com a namorada na esperança de encontrar melhores condições de vida.
O jornalista recusa a ideia de pertencer à “geração dos 30 anos que ainda está na casa dos pais” e por isso desistiu de procurar emprego em Portugal, o mesmo acontecendo com a namorada, enfermeira.
“Da parte dela é quase impossível porque não há abertura de vagas para os hospitais. Em relação a mim, embora tenha uma vasta experiência, esta acaba por me condicionar. Não me sujeito a tudo aquilo a que recém-licenciados se sujeitam”, frisou.
A esperança de encontrar emprego depois de concluído o curso desvaneceu-se: “Assim que saí da faculdade a primeira ideia era entrar no mercado do trabalho, no meio do jornalismo, e experimentei estágios não remunerados. Fiz disso para começar a ganhar o meu espaço, mas acabo por não ter nenhum espaço garantido”.
O antigo diretor do Serviço da Pastoral dos Migrantes da Conferência Episcopal Francesa lamenta os apelos à emigração feitos pelo Governo de Pedro Passos Coelho: “Já se empurram as pessoas portas fora: desempregados, diplomados e indiferenciados, salvem-se enquanto podem!”.
A viver em Orléans, 150 km a sul de Paris, o português José Coutinho da Silva descreveu a atual emigração lusa: “São jovens – 18/35 anos, chegam com filhos muito pequenos, primeiro através de empresas de recrutamento, agora e cada vez mais pelas redes familiares ou de vizinhança que os acolhem em casa, ajudam-nos a encontrar trabalho essencialmente na construção civil, nos serviços domésticos e de limpeza industrial”.
Os 30 mil emigrantes que, segundo as estimativas, chegam anualmente a França, “beneficiam da imagem de bons trabalhadores da imigração portuguesa” mas têm de enfrentar “a concorrência desenfreada no mercado do trabalho”, o que implica baixar o salário e trabalhar sem estar registado, assinala o responsável em artigo publicado na edição mais recente do semanário Agência ECCLESIA.
João Carita sublinhou que a maior parte dos amigos assimilou a inevitabilidade da emigração: “Se em Portugal não dá, temos de procurar o nosso lugar noutro sítio do mundo. Isto não é rejeitar o nosso país e aquilo que temos de bom, mas é tentar encontrar o nosso espaço e depois, eventualmente, voltar”.
A Igreja Católica assinala este domingo o Dia Mundial do Migrante e Refugiado de 2012, ano em que a Obra Católica Portuguesa das Migrações assinala o seu cinquentenário.
JCP/LFS/RJM


Linhas de orientação pastoral da Igreja para a realidade migratória atual


Conferência do subsecretário do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes


Excelências reverendíssimas,
Senhoras e Senhores, caros amigos,
Estou feliz por participar neste Encontro e agradeço aos organizadores por me terem convidado. A todos uma calorosa saudação do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes, do qual sou o Subsecretário.


1. Fenómeno Migratório e crise económica

Em 2010, um estudo da Comissão Económica das Nações Unidas para a América Latina e as Caraíbas (CEPAL)[1] analisou o impacto da crise económica sobre as migrações internacionais. Uma das conclusões foi que o medo do retorno em massa dos migrantes aos seus Países de origem não aconteceu de fato e as suas remessas não foram reduzidas a zero, embora tenham sofrido alguma diminuição. Em vez disso, o fenómeno que continua a ser motivo de séria preocupação é o aumento da pressão no trabalho e na vida diária dos migrantes, muitas vezes criminalizados como um dos bodes expiatórios da crise económica global.

Na verdade, o agudizar da crise tornou mais evidente a vulnerabilidade dos migrantes. Por um lado, o número relativamente baixo dos retornos à pátria, mostra que os migrantes usam os seus ganhos com relativa parcimónia e adaptam-se às mudanças de situação: aceitam empregos de baixa qualificação, mais precários, por vezes na economia informal, negligenciando até mesmo os direitos fundamentais de que são titulares. O compromisso de lealdade para com a família é um indicador interessante, já que muitos continuam a enviar parte dos rendimentos para os seus lugares de origem.

Por outro lado, são cada vez mais flagrantes as violações dos direitos dos migrantes, com um aumento preocupante de atitudes xenófobas, tanto por parte de grupos espontâneos da sociedade civil como nas restritivas disposições legislativas nacionais.

De fato, hoje a Europa encontra-se perante a delicada tarefa de alcançar o difícil equilíbrio entre a abertura às migrações internacionais, a firmeza na gestão dos fluxos de regulares/irregulares e inteligência no projetar itinerários de integração.


2. Portugal e migração

Portugal é, ao mesmo tempo, um País de emigração e imigração.

Os fluxos mais recentes de imigrantes (que provêm do Brasil, Roménia, Cabo Verde, Ucrânia, China…) estão, cada vez mais, motivados pela necessidade de mão de obra, da livre circulação dentro da União Europeia e da globalização. Em 2009 contavam-se quase 500 000 imigrantes sobre um total de mais de 10 milhões de pessoas no país (4,25% da população total). Além disso, estima-se que em Portugal existem mais de 100 000 irregulares.

Os brasileiros, os principais protagonistas de imigração recente, chegaram primeiro como profissionais qualificados e, mais tarde, também como trabalhadores não qualificados. A ligação linguística com Portugal, o aumento geral da emigração do Brasil e as crescentes restrições à imigração nos Estados Unidos da América contribuíram para o notável desenvolvimento da comunidade brasileira. No entanto, a crise económica provocou o aumento para 24% do desemprego entre os estrangeiros, sobretudo entre os homens.

Por sua vez, residem no estrangeiro, cerca de 4,3 milhões de portugueses ou descendentes de portugueses, mas no mundo existem mais de cem milhões de pessoas de origem portuguesa, como resultado da expansão colonial e da emigração para a Índia, Américas, África, Macau, Timor, Indonésia e Malásia. Segundo os dados do Observatório da Emigração os principais Países em que residem, os portugueses são: França, Brasil, EUA, Suíça, Espanha, Alemanha, Reino Unido, Luxemburgo e Venezuela.


3. Migrações internacionais: aspetos emergentes

Mesmo que frequentemente a mobilidade humana seja provocada pela falta das condições necessárias para uma vida digna na pátria, é necessário reconhecer que esta, em muitos casos, promove transformações positivas em diversos âmbitos, tanto nas sociedades de origem como nas de destino dos migrantes.

3.1. Âmbito económico

Na era da globalização, é claro para todos que a abertura do mercado de trabalho internacional para os migrantes, de fato, tem aumentado exponencialmente as possibilidades de emprego.

Na verdade, a inclusão de jovens trabalhadores estrangeiros serve para aumentar a população ativa e preservar o bem-estar social com base nos contributos desta última. Os trabalhadores estrangeiros, muitas vezes altamente motivados e disponíveis, representam uma injeção de entusiasmo na sociedade que os recebe; graças à sua criatividade, ao seu talento e ao seu desejo de superar-se, representam, geralmente, um contributo valioso para o desenvolvimento do País que os acolhe. Através de suas densas redes de relações transnacionais, os migrantes podem ampliar o horizonte do mercado internacional. No que respeita ao mercado interno, a presença maciça de trabalhadores estrangeiros e, em alguns casos, das suas famílias, representa uma força motriz no desenvolvimento de alguns setores, tais como hotelaria, restauração, agências de viagens e internet points.

Também em relação às sociedades de origem, as migrações internacionais são promotoras de algumas mudanças económicas positivas.

A nível macroeconómico, o emprego de cidadãos no estrangeiro ajuda a diminuir a taxa de desemprego e subemprego a nível nacional. As remessas são uma receita valiosa que tem consequências positivas no mercado nacional, favorecendo uma maior circulação de dinheiro. Segundo alguns estudiosos, em vários Países, o crescimento do PIB, atribuído às remessas, tem demonstrado trazer repercussões benéficas sobre o índice de pobreza[2].

A nível microeconómico, nota-se, geralmente, uma melhoria nas condições de vida das famílias dos migrantes, sobretudo em termos de maior poder de compra, o que se manifesta, particularmente, nos âmbitos da alimentação, da habitação, da educação e da saúde. Em alguns casos, parte da poupança ou das remessas dos migrantes é utilizada para financiar as atividades lucrativas nos locais de origem, como cooperativas, pequenas e médias empresas. Em muitos Países, os Municípios e as Províncias de origem dos migrantes gozam da solidariedade e generosidade filantrópica dos seus cidadãos residentes no estrangeiro. Estas injeções de capital ocorrem, por vezes, de modo espontâneo e esporádico, outras vezes, de modo regular e organizado, promovendo frequentemente o desenvolvimento económico local.

3.2. Âmbito social

As dinâmicas migratórias têm estimulado várias transformações positivas a nível social, tanto nas sociedades de origem como naquelas de acolhimento.

Muitas sociedades de destino vivem, graças à imigração, uma nova primavera demográfica, caraterizada pelo aumento de fecundidade e da natalidade e do "rejuvenescimento" geral da população. A presença de trabalhadores estrangeiros, por vezes, consegue modificar a etnicidade monolítica que distingue algumas sociedades de acolhimento, especialmente quando as comunidades de imigrantes são minorias visíveis, seja devido a elementos típicos da fisionomia como a comportamentos específicos. No caso de sociedades abertas, com uma imigração a longo prazo ou permanente, a chegada das segundas gerações faz nascer dinâmicas transculturais que enriquecem e dinamizam o tecido social originário. Onde, então, se oferecem espaços de participação comunitária, graças ao seu espírito empreendedor, os migrantes transformam a estratificação social tradicional, contribuindo para o aumento da mobilidade social. Em muitos casos, os serviços essenciais e de "luxo" estão confiados a trabalhadores estrangeiros que são ultraqualificados para o trabalho que lhes é atribuído, com resultados benéficos sobre a qualidade desses serviços. Em muitas sociedades de acolhimento, os imigrantes representam uma resposta eficaz às crescentes solicitações relacionadas com o cuidado das crianças, doentes e idosos. A nível mais geral, a coexistência de diferentes comunidades étnicas num único território, oferece uma grande oportunidade de intercâmbio cultural a vários níveis: linguístico, literário, religioso, artístico, gastronómico e muitos outros.

As migrações internacionais também promovem transformações positivas nas sociedades de origem. De fato, a diminuição da taxa de desemprego e subemprego, geralmente reduz a pressão social. O poder de compra devido às remessas pode incrementar a possibilidade de mobilidade social para as famílias dos migrantes, sobretudo no caso dos filhos, a quem se oferece um ensino de qualidade. O mesmo acontece, no caso de que retorna, com as novas capacidades adquiridas durante a experiência migratória. Uma melhor situação económica das famílias dos migrantes geralmente leva a um uso menos frequente da assistência social gratuita oferecida pelo Estado, permitindo, assim, uma menor dispersão de esforços. O aumento progressivo da percentagem de mulheres no contingente migratório global, hoje estimado em 49%[3], inseriu novas dinâmicas de género dentro das famílias dos migrantes, em muitos casos, acelerando o processo de redefinição dos papéis tradicionais[4]. As famílias transnacionais inventaram novas formas de relacionamento entre marido e esposa e entre pais e filhos. Sem esquecer que surgiram novas técnicas de educação à distância, que fazem uso de novos instrumentos da tecnologia e da informática.

3.3. Âmbito político

Existem, por fim, transformações positivas promovidas pelas migrações internacionais a nível político, seja nas sociedades que acolhem os migrantes como naquelas de proveniência.

Em diversos casos, a presença massiva de estrangeiros provoca reações de xenobia intolerância e discriminação por parte de alguns autóctones. Tais expressões põem em crise aqueles ideais democráticos que são basilares para a constituição dos Estados modernos e obriga a reafirmar os mesmos ideais para além do conceito de cidadania. A concessão de espaços de convivência aos imigrantes estimula a criatividade dos Governos na promoção de políticas e programas de integração para estrangeiros que, de modo direto ou indireto, envolvem e favorecem a população local. Na verdade, para enfrentar os desafios de um contexto cada vez mais multiétnico, os programas nacionais de educação estão, cada vez mais, a serem revistos e reformulados com a inserção de elementos interculturais, que alargam os horizontes da cultura autóctone. Em diversos países de imigração, a chegada de grandes contingentes de trabalhadores migrantes tem representado uma oportunidade para revitalizar, ampliar e "globalizar" o valioso trabalho de mediação dos sindicatos. Em muitos casos, o louvável empenho ​​de diversas organizações não-governamentais locais, na sua assistência e defesa dos direitos dos migrantes, tem gerado novos espaços de diálogo construtivo entre Governo e sociedade civil.

Também em relação à sociedade de partida, notam-se, na esfera política, transformações positivas promovidas pelas migrações internacionais. Graças aos seus cidadãos residentes no estrangeiro, muitos Países de origem tornaram-se interlocutores privilegiados dos Estados mais industrializados, conquistando prestígio internacional. As dinâmicas transnacionais desencadeadas pela experiência migratória permitem novas formas de participação política dos imigrantes nos Países de origem. Para algumas nações, a concessão de voto no estrangeiro levou a redescobrir o valor da sua própria diáspora, para a qual os Governos começaram a desenhar e a implementar, projetos de cooperação bilateral. Os prodígios da tecnologia moderna permitem o acesso imediato a todo o tipo de informação ligada à longínqua pátria e uma rapidíssima reação, por parte dos migrantes. São numerosos os web sites e os blogs que recolhem as opiniões e sugestões de natureza política, mas, mais frequentemente, as queixas dos cidadãos que residem no estrangeiro. A experiência migratória representa, para muitos, uma oportunidade para conhecer de perto, democracias de muito antigas tradições e, ao mesmo tempo, aprofundar a consciência dos seus próprios direitos. Trata-se, com frequência, de um verdadeiro e próprio estágio que, em alguns casos, tem repercussões positivas na pátria. Existem migrantes que, com base na experiência adquirida no estrangeiro, decidem iniciar uma carreira política no seu País de origem. Tal iniciativa tem ido até à fundação de novos partidos políticos que têm como objeto explícito a defesa dos direitos dos cidadãos que residem e trabalham no estrangeiro. De modo mais geral, nota-se naqueles que voltaram à pátria, depois de uma experiência migratória, uma certa propensão para empenho social, que muitas vezes se manifesta no serviço junto de organizações não-governamentais. Em alguns casos, tal empenho inclui também o trabalho de advocacy e de lobby para garantir maior proteção aos emigrantes.


4. As sombras: os "custos" da migração

Para se ter uma clara e equilibrada visão do fato da migração é necessário analisar atentamente, não só as potenciais vantagens, mas também os custos, que são geralmente suportados pelos Estados, pelas comunidades, pelas famílias e pelos indivíduos, sobretudo pelas sociedades de origem dos migrantes.

4.1. Âmbito económico

Nos últimos anos, tem estado repetidamente em discussão, o impacto benéfico das migrações internacionais sobre as economias familiares e comunitárias nos locais de origem dos migrantes. Vários estudiosos, de fato, argumentam que uma análise atenta do fenómeno das remessas produz resultados pelo menos ambivalentes[5]. Por um lado, se o dinheiro enviado pelos migrantes permite às famílias subsistir na pátria, por outro lado, parece que, em muitos casos, tal dinheiro não tem o poder de emancipar as famílias de uma situação de pobreza substancial. Em alguns Países, os dados parecem revelar que as remessas incrementaram a desigualdade entre os núcleos familiares, e não se notam benefícios para as comunidades locais no seu conjunto.

Os Estados que adotaram, mais ou menos, explicitamente a exportação de trabalhadores como estratégia de desenvolvimento nacional estão se tornando, cada vez mais, dependentes das remessas. Isto é prova do pânico geral, causado pela crise económica global, existente nos principais Países de origem dos trabalhadores migrantes. Se, por um lado, o dinheiro enviado pelos migrantes permite garantir uma maior estabilidade à economia nacional, por outro lado, o depender cegamente de tais entradas perpetua a dependência crónica das economias dos Países industrializados. Também as famílias dos migrantes estão a tornar-se, cada vez mais, dependentes das remessas, limitando-se apenas a esperar pelo dinheiro enviado pelos seus entes queridos no estrangeiro, sem se esforçarem em contribuir para a própria subsistência.

Consideremos, por fim, o próprio custo do processo migratório. No caso dos grandes Países exportadores de mão de obra, constituiu-se, nas últimas décadas, uma verdadeira e própria "indústria migratória" muito lucrativa: trata-se de uma grande rede de agências de recrutamento, mediadores, consultores e transportadores, que operam a nível transnacional, e não têm escrúpulos em usar também os canais de imigração ilegal. Frequentemente, os migrantes são forçados a contrair dívidas com parentes, amigos ou instituições, a fim de prover os custos do processo migratório, dívidas que esperam pagar com o produto do seu primeiro emprego no estrangeiro. Em muitos casos, a realidade migratória é bem diferente daquela contada e imaginado antes da partida e o dinheiro não é suficiente para pagar as dívidas. E, assim, o fim de um processo migratório marca o início de outro para terminar de pagar as despesas do primeiro, desenhando-se um círculo vicioso de difícil rutura.



4.2. Âmbito social

As sociedades dos Países de origem dos migrantes sofrem profundos processos de transformação, cujos efeitos negativos não estão ainda aprofundados e estudados. No caso das migrações internacionais, ligadas a contrato e que não podem aceder ao reagrupamento familiar, as famílias apresentam, geralmente, uma alta vulnerabilidade.

A crescente presença de mulheres migrantes tem gerado, em muitos casos, uma revolução os papéis tradicionais dentro da família e estudos recentes revelam que os pais, dificilmente, conseguem substituir as mães no cuidado dos filhos. Para além disso, no que respeita aos filhos, são difíceis de avaliar as consequências a longo prazo, devidas à ausência de um ou ambos os progenitores. Tem-se a perceção que as jovens gerações gozam, particularmente, dos benefícios económicos produzidos pelo trabalho externo, mas poderão parecer desfavorecidas na esfera emotiva, espiritual e de caráter, no futuro próximo.

Nos últimos 50 anos, em diversos Países exportadores de mão de obra, à emigração de uma geração seguiu-se a geração sucessiva. Este fenómeno levanta hoje o sério problema do cuidado dos idosos, tradicionalmente confiado aos filhos ou aos netos. O mercado global promete ganhos fáceis e imediatos para todos os candidatos a imigrantes e isso leva muitos a acreditar que, para além das necessidades económicas reais, trabalhar no estrangeiro representa a única possibilidade de realização profissional e pessoal e, por isso, estão dispostos a enfrentar qualquer risco. A nível mais geral, a partida massiva de jovens trabalhadores na plenitude das suas forças, representa, por si só, um empobrecimento de capital humano, com efeitos negativos sobre o desenvolvimento local sustentável. Tal empobrecimento é agravado pelas políticas de recrutamento, voltadas para migração de seletiva, aplicadas em alguns Países que atraem trabalhadores migrantes.



4.3. Âmbito político

Alguns países que adotaram a migração internacional como estratégia de desenvolvimento parecem ter-se fixado nessa decisão, justificando, assim a sua omissão na identificação de verdadeiras e próprias políticas de desenvolvimento. Muitos dos Estados que são caracterizados por uma grande exportação de mão de obra têm reais dificuldades na proteção de seus cidadãos no estrangeiro, seja pela falta de programas adequados, seja pelos escassos recursos humanos e financeiros. Para agravar tal situação, nos últimos tempos tem ocorrido uma espécie de concorrência entre Países de origem na colocação dos seus trabalhadores no mercado externo, concorrência que leva, com frequência, à "venda" dos próprios cidadãos em termos de direitos e de salários mínimos. Convencidos de que a migração internacional qualificada dá maior garantia de sucesso e aumento das remessas, alguns Países incentivam o êxodo massivo de profissionais preparados e de técnicos, com efeitos negativos na prestação de serviços no território nacional. Em alguns casos, foram implementadas políticas educativas orientadas para a promoção de profissões exigidas pelo mercado global, sem muita consideração pelas necessidades nacionais. De modo mais geral, nota-se uma perda substancial de confiança, por parte de migrantes, em relação a uma pátria que os “empurra” a emigrar. Este sentimento pode ter consequências nefastas sobre a disponibilidade dos mesmos imigrantes colaborarem ativamente no desenvolvimento do seu País.


5. Dimensão pastoral

Traçado o quadro de ação, chegamos agora à dimensão pastoral que deve ter em conta os elementos descritos, se quiser ser eficaz e incisiva. A solicitude pastoral da Igreja é caracterizada pela prioridade dada à pessoa humana em sua dimensão integral. No contexto da mobilidade humana direciona os seus esforços para fazer da migração uma escolha, e não um constrangimento, um encontro de povos e culturas, e não um choque de civilizações, uma força positiva para o desenvolvimento e participação, e não para a exclusão.

Uma primeira orientação emerge da constatação de que, na verdade, o encontro das diversas culturas e o seu conhecimento sereno, recíproco e sem preconceitos, pode ajudar cada uma delas a não se contentarem com aquilo que são e a evitar o seu empobrecimento. Por tudo isso, a diversidade cultural é, sobretudo, uma riqueza, um elemento positivo, independentemente das dificuldades que pode gerar a coexistência de pessoas de diferentes culturas.

Um segundo aspeto importante, do nosso ponto de vista, é que a promoção da dimensão intercultural requer a aceitação de valores e de princípios fundamentais, que estão na autêntica construção da única "família dos povos", para usar uma expressão da Mensagem de Bento XVI para a Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado do ano passado – no âmbito da construção de "uma só família humana, chamada a estar unida na diversidade"[6]. Entre estes estão os princípios da democracia, igualdade de direitos e da liberdade religiosa, para citar somente alguns.

5.1. Estruturas tradicionais e renovação

A valiosa obra pastoral entre os imigrantes aqui em Portugal, como aquela entre os vossos compatriotas que vivem no estrangeiro, tem uma missão especial no promover a adoção destes valores por parte dos imigrantes que pedem para serem acolhidos em outras áreas do planeta, longe de seus lugares de origem. Aqui parece importante mencionar a importância da equipa pastoral e das estruturas de pastoral migratória, tendo como referência as palavras de Bento XVI na sua Mensagem para este ano: "No exigente itinerário da nova evangelização em campo migratório, assumem um papel decisivo os agentes pastorais – sacerdotes, religiosos e leigos – que se encontram a trabalhar num contexto cada vez mais pluralista: em comunhão com os seus Ordinários, inspirando-se no Magistério da Igreja, convido-os a procurar caminhos de partilha fraterna e anúncio respeitoso, superando contrastes e nacionalismos. Por sua vez, as Igrejas tanto de proveniência, como de trânsito e de acolhimento dos fluxos migratórios saibam intensificar a sua cooperação em benefício tanto dos que partem como daqueles que chegam e, em todo o caso, de quantos têm necessidade de encontrar no seu caminho o rosto misericordioso de Cristo no acolhimento do próximo. Para uma frutuosa pastoral de comunhão, poderá ser útil atualizar as tradicionais estruturas que atendem os migrantes e os refugiados, dotando-as de modelos que correspondam melhor às novas situações em que aparecem diferentes culturas e povos a interagir”[7].

Na verdade, os nossos centros de animação religiosa, social e cultural que congregam, frequentemente, membros associados e simpatizantes, podem desempenhar um papel importante nos processos de integração dos migrantes, uma vez que proporcionam um espaço comunitário e oferecem redes de relações e canais de acesso a diversos recursos sócioeconómicos. Isso assume um peso ainda maior quando se considera que uma das dificuldades do migrante consiste em viver a sua fé e os seus valores culturais num contexto novo e diferente do das suas origens, o que pode causar confusão, insegurança e desconfiança. Assim, as nossas estruturas pastorais, evitando formas de segregação e de isolamento, podem favorecer a abertura à sociedade de acolhimento, na medida em que estão abertas ao diálogo com o tecido social onde se encontram, estabelecendo relações de intercâmbio, incentivando projetos de colaboração e facilitando a reciprocidade a todos os níveis, tanto com as outras religiões como com as associações civis e instituições governamentais.

Quanto ao serviço específico que a Igreja Católica pode oferecer neste contexto, uma vez que é, por sua natureza, ao mesmo tempo una e universal, explícita nas diversas Igrejas particulares, tem em si um modelo de unidade essencial no respeito das legítimas diversidades de culturas[8]. Este modelo de unidade na diversidade é precisamente o que a Igreja pode oferecer à sociedade civil, de que é parte integrante. A Igreja Católica deseja servir os povos na construção de uma família humana, a partir duma justa colaboração com as outras instituições religiosas e civis, ocupando a área que lhe é própria. Cada Estado, em particular, só pode beneficiar com o acolhimento respeitoso da religião, reconhecendo o seu papel específico na construção social[9].



5.2. Diálogo inter-religioso

Talvez a questão que sentimos mais escaldante ligada às migrações, seja aquela do encontro entre o cristianismo e as outras grandes religiões do mundo e culturas do planeta. Na Europa temos claramente um pluralismo religioso, embora o cristianismo continue a ser a religião absolutamente maioritária. Entre os cerca de 800 milhões de habitantes da "Grande Europa", 560 milhões são cristãos, dos quais, metade é católica.

O judaísmo com cerca de 3 milhões de membros, mas pertence às raízes da Europa. Por outro lado, a população muçulmana tem aumentado consideravelmente, graças às ondas de imigração, mas também devido a certo número de conversões. Em toda a Europa existem cerca de 32 milhões de muçulmanos (em 1991 eram 12 milhões). O diálogo é muitas vezes difícil, porque termos como justiça, verdade, dignidade e direitos da pessoa humana, laicidade, democracia e reciprocidade, no mundo islâmico têm significados diferentes daqueles que lhes são atribuídos na cultura europeia, com profundas raízes cristãs.

Há que ter em conta que no mundo muçulmano "europeu" existe um claro pluralismo: o clássico entre sunitas e xiitas, aquele ligado aos Países de origem (Turquia, Magreb...). Hoje, o pluralismo no âmbito muçulmano nasce, sobretudo, pela forma diferente de se relacionar com a sociedade e com a cultura moderna: os representantes do reformismo muçulmano ou do Islão das "luzes" vêm a possibilidade de uma inculturação do Islão na sociedade e cultura europeias, enquanto a maioria dos muçulmanos vê como problemática o confronto com a cultura ocidental e, muitas vezes, considera-a como algo hostil ou degradada, que deve ser "salva" ou mesmo combatida.

Está também a crescer na Europa o interesse pelo budismo: na realidade, por enquanto, não existem estatísticas fiáveis ​​sobre o número. A União Budista Europeia declarou que na Europa de hoje existem entre 1 a 3 milhões budistas.

Outro fenómeno a considerar é aquele dos grupos religiosos alternativos e as formas de neo-paganismo. Este tipo de retorno atual ao religioso e ao sagrado é naturalmente profundamente ambíguo. Expressa uma nova busca da transcendência, mas é também um sinal de que o verdadeiro rosto de Deus não foi ainda encontrado e, por isso, a busca está aberta a qualquer tipo de resultado, mesmo àqueles mais desviantes e dramáticos.

Este pluralismo religioso coloca à pastoral das migrações grandes questões: como promover a coexistência? como contribuir para a sociedade como um todo? que tipo de diálogo? qual evangelização?


5.3. Integração: o diálogo intercultural

Estes pressupostos sugerem as orientações que a nossa solicitude pastoral deve assumir, a partir da linguagem, pela qual devemos falar de interculturalidade mais do que de multiculturalidade. Na verdade, não pretendemos simplesmente constatar a presença de duas ou mais culturas num mesmo espaço geográfico, mas, sobretudo, indicar as relações elaboradas entre as culturas presentes em determinado território e insistir em atitudes com vista aos objetivos a atingir e sobre os itinerários educativos que conduzem a esse encontro de culturas[10].

Ora, um dos documentos mais recentes do nosso Conselho é a Instrução Erga Migrantes Caritas Christi, publicado em 2004, onde se afirma que a integração dos migrantes no país de acolhimento nunca é sinónimo de assimilação, que esquece ou elimina a sua história, cultura e identidade. É necessário, pelo contrário, avaliar positivamente a cultura de cada migrante, embora reconhecendo as suas limitações, esforçando-se para conhecer serenamente, e sem preconceitos, a cultura do outro, considerando-a como um fator de enriquecimento. Na verdade, as ocasiões de proximidade são importantes, mas muito mais o são aquelas de mútuo intercâmbio. E não apenas um intercâmbio daquilo que se tem, mas muito mais daquilo que se é. Integração, então, não é um processo unidirecional. Autóctones e imigrantes são encorajados a percorrer caminhos de diálogo e de enriquecimento recíproco, que permitem valorizar e acolher os aspetos positivos de cada um, tendo o cuidado de garantir que nenhum elemento inerente às diversas culturas seja contrário aos valores éticos universais, ou aos direitos humanos fundamentais.

Em tudo isso, para ajudar especialmente as gerações mais jovens, dois instrumentos me parecem indispensáveis: o diálogo e a educação intercultural. Na verdade, trata-se de dois elementos complementares dum único modelo educativo, que visa ensinar a respeitar e a apreciar as diversas culturas, descobrindo os elementos positivos que possam esconder; ajudar a mudar os comportamentos de medo ou de indiferença para com diversidade; instruir para o acolhimento, para a igualdade, para a liberdade, para a tolerância, para o pluralismo, para a cooperação, para a corresponsabilidade, para a não-discriminação; levar a valorizar positivamente tanto o diálogo como a escuta; ajudar a superar as generalizações, preconceitos e estereótipos; superar o individualismo e isolamento em grupos fechados, favorecer personalidades maduras, abertas e flexíveis e, por fim, evitar "as mentalidades fechadas".


Conclusão

O estrangeiro que cruza as fronteiras tem sede de relações novas e universais, tornando atual o mistério do Pentecostes. É por isso que as Igrejas locais, confrontados com uma presença crescente de pessoas vindas de outras áreas geográficas e culturais, não podem ficar indiferentes. É necessário, portanto, assumir novas formas de pastoral intercomunitária, onde as minorias são respeitadas e não se limite a promover apenas um pouco de folclore étnico nas “Festas dos Povos” periódicas e nas iniciativas, ainda que louváveis, que algumas vezes, ao longo do anos, dão espaço e visibilidade também aos grupos de imigrantes.

Na verdade, o migrante obriga cada um de nós a "emigrar" de nós mesmos para comunhão e universalidade. Na experiência de um acolhimento autêntico, a presença do migrante torna-se providencial para todos.

No campo missionário das migrações, o operador pastoral – sacerdote, religioso ou leigo – move-se entre a ação de guia na maturação da sua própria gente e aquela de animação da Igreja de chegada, assumindo também a função de "ponte" e de ligação entre a Igreja de origem e a de acolhimento.

Portanto, hoje, sentimos a urgência de uma pastoral de formação-promoção que se proponha estabelecer um verdadeiro sentido de igualdade e de diálogo entre culturas e expressões religiosas, que só é possível quando todos estão conscientes de sua identidade específica. Isto permite a passagem do migrante, visto como "objeto" de assistência e proteção, a "sujeito" de cultura e protagonista, capaz de ser ele mesmo sem se assimilar mimeticamente com a cultura maioritária da população local e com os seus comportamentos.

Concluo observando que hoje a questão de fundo da nossa solicitude pastoral não é mais "qual pastoral" e "qual missão", mas "voltada para qual eclesiologia" que nos estamos encaminhando tendo como banco de teste a própria pastoral do acolhimento.


Fátima, Portugal, 22 de janeiro de 2012

Padre Gabriele F. Bentoglio, subsecretário do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes


NOTAS
[1] J.M. Pizarro – L.R. Finardi – M.S. Contrucci, Los derechos concedidos: crisis econômica mundial y migración internacional, CELADE/CEPAL (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, serie población y desarrollo 89), Santiago de Chile, 2009.

[2] Cf. R. Adams e J. Page, The Impact of International Migration and Remittances on Poverty, in S.M. Maimbo e D. Ratha (a cura di), Remittances. Development Impact and Future Prospects, World Bank, Washington DC, 2005, pp. 277-306.

[3] O dado foi elaborado pela Divisão da População do Departamento de Economia e Serviços Sociais da Secretaria das Nações Unidas e está disponível em http://esa.un.org/migration/index.asp?panel=1.

[4] Cf. J. Smits, “Changing Gender Roles, Shifting Power Balance and Long-distance Migration of Couples”, Urban Studies vol. 40 (no. 3, 2003) 603-613; A. Kadioglu, “The impact of migration on gender roles: findings of field research in Turkey”, International Migration vol. 32 (no. 4, 1994) 533-60.

[5] Cf. A. Canales, “Remesas y desarrollo en América Latina. Una relación en busca de teoría”, Migración y desarrollo vol. VI (no. 11, 2008) 5-30; R. García Zamora, Desarrollo económico y migración internacional: los desafíos de las políticas públicas en México, Colección Ángel Migrante, Zacatecas 2009.

[6] Benedetto XVI, Messaggio per la celebrazione della Giornata Mondiale del Migrante e del Rifugiato 2011, People on the Move 113 (2010) 13-47.

[7] Benedetto XVI, Messaggio per la celebrazione della Giornata Mondiale del Migrante e del Rifugiato 2012, People on the Move 115 (2011) in fase di pubblicazione.

[8] Giovanni Paolo II, Esortazione apostolica post-sinodale Ecclesia in Europa, 28 giugno 2003, n. 116.

[9] Cf. Ibidem, n. 117.

[10] “«Intercultura» reenvia para a existência e para a justa interação das diversas culturas, assim como para a possibilidade de construir expressões culturais partilhadas pelo diálogo e pelo respeito recíproco” (UNESCO, Convenção sobre a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais, 20 de outubro de 2005, art. 4.8).


Bento XVI pretende Igreja mais missionária

Mensagem papal recorda estímulo dado pelo Concílio Vaticano II e convida a superar «crise de fé» na humanidade


Cidade do Vaticano, 25 jan 2012 (Ecclesia) – Bento XVI apelou hoje a uma maior dinâmica de evangelização da Igreja Católica num momento em que aumenta o número dos que não conhecem a mensagem cristã, elogiando a ação dos missionários em todo o mundo.
Na mensagem para o Dia das Missões, que a Igreja Católica vai celebrar a 21 de outubro, o Papa fala numa “crise de fé, não só no mundo ocidental, mas em grande parte da humanidade”.
“É preciso renovar o entusiasmo de comunicar a fé, para promover uma nova evangelização das comunidades e dos países de antiga tradição cristã, que estão a perder a referência a Deus, de forma a redescobrir a alegria de crer”, sustenta.
Este esforço, destaca o texto, transforma-se em “intervenção de ajuda ao próximo, justiça com os mais pobres, possibilidade de instrução nas aldeias mais dispersas, assistência médica em lugares remotos, emancipação da miséria, reabilitação dos que estão marginalizados, apoio ao desenvolvimento dos povos, superação das divisões étnicas e respeito pela vida em todas as suas fases”.
Bento XVI aponta como meta que “o Evangelho chegue até aos confins extremos da terra”, frisando que o anúncio da mensagem cristã “deve envolver toda a atividade da Igreja”.
“Temos necessidade de retomar o mesmo fervor apostólico das primeiras comunidades cristãs que, pequenas e indefesas, foram capazes de difundir o Evangelho, com o anúncio e o testemunho, em todo o mundo então conhecido”, assinala.
O documento recorda o decreto ‘Ad gentes’ (Vaticano II), o início do Ano da Fé e a realização de um Sínodo dos Bispos sobre o tema da nova evangelização, elementos que, segundo o Papa, servem para “reafirmar a vontade da Igreja em empenhar-se com maior coragem e ardor na missão”.
Para Bento XVI, o Concílio Vaticano II (1962-1965) foi “um sinal luminoso da universalidade da Igreja”, promovendo uma visão missionária do catolicismo que se desenvolveu desde então.
“Isto exige que se adequem constantemente estilos de vida, planos pastorais e organizações diocesanas a esta dimensão fundamental do ser Igreja, especialmente no nosso mundo em constante mudança”, pode ler-se.
No dia em que a Igreja celebra a festa litúrgica da conversão de São Paulo, o Papa diz que, como o apóstolo, os católicos devem “estar atentos aos que estão longe, aos que ainda não conhecem Cristo”.
“Muitos sacerdotes, religiosos e religiosas de todas as partes do mundo, numerosos leigos e mesmo famílias inteiras deixam o seu próprio país, as suas comunidades locais e partem para outras Igrejas para testemunhar e anunciar o nome de Cristo”,constata.
Bento XVI considera que essa decisão é uma “expressão de profunda comunhão, partilha e caridade”, agradecendo ainda a atividade das Obras Missionárias Pontifícias, que promove a cooperação entre as dioceses de todo o mundo.
OC



Vaticano: Papa pede «unidade visível» entre os cristãos

Bento XVI assinalou conclusão da Semana de Oração


Cidade do Vaticano, 25 jan 2012 (Ecclesia) – Bento XVI pediu hoje aos católicos que procurem a “unidade visível” entre todos os cristãos, assinalando o fim da Semana de Oração por esta causa, que decorre anualmente entre os dias 18 e 25.
“Peçamos o dom da unidade visível entre todos os crentes em Cristo  - que invocamos com força nesta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - para estarmos prontos a responder a quem procura as razões da esperança que está em nós”, disse, na audiência pública desta semana, que decorreu na sala Paulo VI, do Vaticano.
As principais divisões entre as Igrejas cristãs ocorreram no século V, depois dos Concílios de Éfeso e de Calcedónia (Igreja Copta, do Egito, entre outras); no século XI com a cisão entre o Ocidente e o Oriente (Igrejas Ortodoxas); no século XVI, com a Reforma Protestante (Luteranismo, Calvinismo) e, posteriormente, a separação da Igreja de Inglaterra (Igreja Anglicana).
O Papa afirmou que a unidade “é uma realidade secreta habita no coração dos crentes”, mas deve também “aparecer com toda a clareza na história” e ser “a fonte da eficácia da sua missão no mundo”.
A Semana de Oração é dedicada em 2012 ao tema ‘Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo’, frase apoiada na carta bíblica de São Paulo aos Coríntios.
Bento XVI prosseguiu esta manhã o ciclo de catequeses sobre a “oração de Jesus”, abordando os momentos que antecederam a sua morte, nos quais “pede sobretudo a unidade futura de todos os que acreditarem nele”.
“Esta unidade deriva da unidade divina que chega até nós do Pai pelo Filho e no Espírito Santo”, declarou.
Em português, o Papa observou que “a chamada ‘Oração Sacerdotal’ de Jesus na Última Ceia é inseparável do seu sacrifício, no qual se consagra inteiramente ao Pai” e “reza pela Igreja, pedindo a unidade de todos os cristãos”.
“Sacerdote e vítima, Cristo reza por si mesmo, pelos Apóstolos e pela Igreja de todos os tempos: Para Si próprio, pede uma obediência total ao Pai, que O conduza à plena condição filial. Para os Apóstolos, pede a consagração na verdade, para continuarem a missão dele; para isso, devem ser consagrados, isto é, segregados do mundo, colocando-se à disposição de Deus para a missão que lhes está reservada, e, deste modo, postos à disposição de todos”, prosseguiu.
Neste sentido, indicou Bento XVI, “a Igreja continua a missão de Cristo: conduzir o mundo para fora do pecado, que aliena o homem de Deus e de si mesmo, para que volte a ser o mundo de Deus”.
O Papa saudou os peregrinos de língua portuguesa, propondo como “modelo de vida” o Apóstolo São Paulo, cuja conversão hoje se celebra, no calendário litúrgico católico, deixando “um abraço que se alarga a todos os cristãos na conclusão do Oitavário de Oração pela sua Unidade”.
“A conversão, nos arredores de Damasco, do Apóstolo dos Gentios [Paulo] é a prova que, em definitivo, é o próprio Deus a decidir sobre a sorte da sua Igreja”, sustentou.
Esta tarde, às 17h30 (horário de Roma), na Basílica de São Paulo fora dos Muros, Bento XVI preside a um momento de oração para o qual estão convidados representantes de todas as Igrejas e comunidades cristãs da capital italiana.
OC