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Thursday, February 09, 2012

Abusos Sexuais: Internet é aposta para prevenção


Centro de ensino à distância vai oferecer formação a padres, professores e pessoal das instituições católicas

D.R.
Roma, 09 fev 2012 (Ecclesia) – A criação de um portal multimédia, em várias línguas, para ajudar na prevenção de casos de abusos sexuais domina hoje o final do simpósio internacional de quatro dias, sobre o tema, que decorre em Roma.
A nova página na Internet foi apresentada esta manhã pelo cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique (Alemanha), diocese que financiou e vai sediar a iniciativa, revelando que o projeto de ensino à distância “está desenhado para um período de três anos”.
“O objetivo do portal multilingue é facilitar informações com base na Internet e oferecer formação para sacerdotes, diáconos pessoal pastoral e professores de religião”, indicou o cardeal alemão.
Este ‘Centro para a Proteção de Menores’ conta com a colaboração da Universidade Pontifícia Gregoriana, da capital italiana, envolvendo especialistas em Psicologia, Pedopsiquiatria e Psicoterapia.
O arcebispo de Munique lamentou, na sua conferência, que se tenham ignorado “sistematicamente” as vítimas, no passado, com tentativas de “ocultar a terrível verdade, em vez de a reconhecer em toda a sua amargura”.
“Uma coisa é clara: teremos de continuar a lidar com o debate dos abusos e a crise está muito longe de ter acabado”, prosseguiu.
Aos responsáveis católicos, observou, compete evitar “técnicas obstrucionistas, a trivialização e a relativização” dos abusos que tiverem ocorrido, para que se possa “recuperar a credibilidade”.
“Abertura, transparência e veracidade são, portanto, insubstituíveis”, sublinhou.
O simpósio internacional ‘Rumo à cura e à renovação’, que se conclui esta tarde, reúne representantes de 110 conferências episcopais, incluindo a portuguesa, e 30 ordens religiosas.
A iniciativa é organizada pela Universidade Gregoriana, contando com o apoio da Santa Sé, em particular da Congregação da Doutrina da Fé (CDF), que em 2011 solicitou aos episcopados católicos de todo o mundo a elaboração de diretivas próprias para tratar os casos de abusos sexuais, a serem entregues até final de maio deste ano.
D. Reinhard Marx revelou que vão ser lançados “oito projetos-pilotos” em várias áreas geográficas e culturais.
“Isto demonstra que nós, como Igreja mundial, queremos trabalhar, juntos, como uma rede, para garantir a saúde física e mental das crianças e jovens”, afirmou.
Para este responsável, é preciso “atuar de forma positiva e desenvolver novas perspetivas para o futuro”.
OC
Notícia atualizada às 14h08

Vaticano: Porta-voz refuta acusações sobre «lavagem de dinheiro»

Padre Federico Lombardi diz que a Santa Sé tem colaborado com as autoridades italianas no esclarecimento de todas as dúvidas

Cidade do Vaticano, 09 fev 2012 (Ecclesia) – O porta-voz do Vaticano refutou em comunicado as acusações de ocultação de operações de ‘lavagem de dinheiro’ por responsáveis do Instituto para as Obras de Religião (IOR) e da Autoridade de Informação Financeira (AIF) da Santa Sé.
Segundo o padre Federico Lombardi, as informações divulgadas esta quarta-feira pelo jornal italiano ‘l’Unità’ revelam uma “notável falta de seriedade”.
Em causa, segundo o periódico, estariam investigações a quatro padres, que teriam utilizado o IOR em operações ilegais, alegadamente marcadas pelo “silêncio do Vaticano”.
nota oficial do diretor da sala de imprensa da Santa Sé fala em “notícias velhas” e “afirmações infundadas”, frisando que tem existido, por parte do Vaticano, cooperação com “a magistratura e as outras autoridades italianas”.
Segundo o padre Lombardi, terá sido a ação do diretor-geral do IOR (conhecido como Banco do Vaticano) a permitir “a acusação de uma das pessoas indicadas”.
O porta-voz do Vaticano diz que “não é verdade” que o IOR não tenha fornecido informação à Autoridade de Informação Financeira da Santa Sé e que esta, por sua vez, tenha ocultado essas informações à Unidade de Informações Financeira da Itália.
“O efeito difamatório do artigo resulta da utilização do termo ‘incriminado’, em relação ao presidente do IOR, Ettore Gotti Tedeschi, e do diretor-geral, Paolo Cipriani. Nem um nem outro foram alguma vez incriminados, mas sim indagados”, assinala o documento.
O padre Federico Lombardi conclui com a informação de que um dos padres mencionados foi declarado inocente em julho de 2011, “com sentença confirmada em apelo”.
Em dezembro de 2010, Bento XVI criou a AIF, para garantir maior transparência nas finanças da Santa Sé (órgão de governo da Igreja Católica) e combater o crime económico.

OC

Mandume-ya-Ndemufayo, rei dos Kwanhamas



 
Ondjiva - O povo da tribo Ambo, localizado no sul de Angola e norte da Namíbia, celebrou  segunda-feira o 95º aniversário da morte, por suicídio, do rei Mandume-ya-Ndemufayo, destacado líder da resistência contra a ocupação colonial portuguesa na região Sul de Angola, que preferiu a morte para não ser dominado.

Rei Mandume morreu há 95 anos

Hoje, passados 95 anos, o rei é venerado por preferir suicidar-se a ser capturado e, consequentemente, colonizado pelos portugueses, após o enfraquecimento do seu Estado, em 1917, pelas forças ocupacionistas.

Pertencente ao reino mais poderoso da tribo Ambós, o rei Mandume –ya-Ndemufayo, comandou os destinos do povo Kwanhama num dos períodos mais difíceis da história da região sul, de 1911 a 1917.

Desde então, o seu nome e feito ficaram marcados na tradição dos Ambós, que o apelidaram de "O cavaleiro incomparável".

A sua determinação dificultou o projecto de implantação da administração colonial, impondo duras derrotas às tentativas de ocupação do seu território, o que levou os europeus a aliarem-se contra o seu reino.

Durante o reinado de Mandume, as guerrilhas entre os povos africanos acabaram e passaram a ser apenas contra os portugueses que, a todo custo, tentavam ocupar a parte sul de Angola.

Antes da ocupação colonial, os Ambós estavam divididos pelos reinos, Kwanhama (o mais importante), Kuamatuis (pequeno e grande), os dois estados do Evale, Dombala e Kafima. Estes estados viviam unidos e não havia guerras entre si, salvo alguns conflitos por causa das guerrilhas no sul de Angola.


Além de Portugal, a Alemanha também queria dominar aquela parte de Angola, rica em recursos minerais e gado.

Depois da realização da conferência de Berlim, em 1885, os dois contendores firmaram um acordo sobre a fronteira sul de Angola, assente na delimitação actual.

Apesar do acordo, os alemães ainda alimentavam esperanças de vir a apoderar-se do sul de Angola, situação que fez com que Portugal ocupasse efectivamente o território. De 1886 a 1915 os colonizadores não tiveram a possibilidade de conquistar o Ambó, devido à resistência no reino vizinho do Humbe.

Por seu turno, os alemães faziam comércio e vendiam armas ao reino, esperando por uma oportunidade para o ocuparem.

Com o início da primeira guerra mundial, em 1914, Portugal apressa-se em ocupar o reino dos Ambós com o fito de evitar que outras colónias europeias o fizessem.

No ano seguinte, 1915, os portugueses ocupam o reino do Humbe, lançando de seguida um ataque surpresa a Ondjiva, capital do reino Kwanhama, do qual Mandume, na altura Soba, foi forçado a fugir.

Esta situação, aliada ao flagelo da fome que assolava a região, agravou o sofrimento do povo Kwanhama.

Em resposta, Mandume começa a reunir as tribos de todo o Ambós e fala-lhes da necessidade da luta contra os colonos.

A par destas actividades e tirando partido da rivalidade entre os alemães e os portugueses, Mandume dialoga com os primeiros, de quem recebe armas e outros apoios, visando a luta e, se possível, a expulsão dos portugueses da região, planos que agradaram então aos germânicos, também com interesses no Sul.
A partir daquela altura, 1915-1916, sob comando do rei Mandume, os africanos infligem então uma série de derrotas aos portugueses, que foram obrigados a abandonar grande parte dos territórios ocupados.

Contudo, os portugueses organizaram-se e solicitaram reforços que não tardaram a chegar. Ao mesmo tempo fomentaram a corrupção entre os africanos e estimularam lutas entre si para enfraquecimento do reino.

Passados alguns meses, os portugueses, já com mais armas e homens, além de contarem com a colaboração de alguns chefes africanos, lançaram uma ofensiva contra a região Sul.

Nesta ofensiva, os Ambós foram derrotados na batalha do Môngua, 66 quilómetros a norte da cidade de Ondjiva, na mesma altura em que outro exército nativo, OKwamatui, foi igualmente aniquilado.

Foi então que Mandume, apercebendo-se que a tribo havia de ser dominada pelos portugueses devido à traição de alguns dos seus próximos, suicidou-se, em 1917.

Para enaltecer a figura do rei, o executivo angolano construiu, em 2000, na localidade do Oihole, o complexo turístico em memorial ao rei, cujo acto inaugural foi em 2002 presidido pelo Chefe de Estado angolano, José Eduardo dos santos ladeado pelo antigo Presidente da Namíbia Sam Nujoma.

E no seu túmulo lêem-se as suas célebres palavras: "Se os ingleses me procuram, eu estou aqui, e eles podem vir e montar-me um ardil, não farei o primeiro disparo, mas eu não sou um cabrito nas mulolas, sou um homem (...) e lutarei até gastar a minha última bala".

Entretanto em Agosto de 2010 foi apresentado a maquete da estátua do rei, que mostra um jovem rei montado num cavalo branco, empunhando na mão direita uma arma, simbolizando a guerrilha contra o colono português e ao lado do cavalo o seu cão de guarda.

Os trabalhos encontram-se na fase final, no que toca o desenho da estátua, aguardando somente o parecer do Ministério da Cultura para tornar real a iniciativa, cujas obras vão durar seis meses.

A estátua será erguida na praça de Ondjiva, antiga ombala do rei Mandume.

Para saudar a data, o governo da província do Cunene agendou (domingo) um serão subordinado ao tema ”Reinado de Oukwanhama, possibilidades da reactivação”, que decorreu no memorial turístico do Oihole, local onde foi sepultado.

Wednesday, February 08, 2012

EUA: Casa Branca vai discutir medidas sobre meios contracetivos e abortivos com Igreja Católica


Lisboa, 07 fev 2012 (Ecclesia) - O presidente norte-americano, Barack Obama, está disposto a trabalhar com universidades e hospitais católicos na implementação de novas regras sobre a disponibilização de meios contracetivos e abortivos aos seus funcionários.
A informação foi avançada hoje pelo assessor da campanha presidencial, David Axelrod, em declarações ao programa «Morning Joe», do MSNBC.
No final de janeiro, a Casa Branca anunciou medidas que davam o prazo de um ano às instituições religiosas para acatarem a obrigação de incluir serviços contracetivos e abortivos nos seguros de saúde dos funcionários que trabalham nas mesmas.
A medida mereceu forte contestação da hierarquia católica, retratada no programa televisivo, com vários bispos a acusarem Obama de lhes dar, na prática, um ano para encontrar formas de “violar” as suas consciências.
“Certamente não queremos restringir a liberdade religiosa de ninguém, pelo que vamos procurar uma forma de avançar para garantir às mulheres o cuidado básico preventivo de que as mulheres precisam e, ao mesmo tempo, respeitar as prerrogativas das instituições religiosas”, afirmou Axelrod, em resposta.
A página da Conferência Episcopal dos Estados Unidos da América na Internet apresenta uma secção especial dedicada a este tema, sugerindo aos católicos que escrevam ao Congresso norte-americano, em protesto.
Os bispos criticam Obama e a sua administração pelo “mandato generalizado de contraceção e esterilização nos planos de saúde privados”.
OC

Vaticano: Limitar escolha de cardeais a critérios geográficos seria «injusto»

Diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja comenta próximo consistório

D.R.
Lisboa, 07 fev 2012 (Ecclesia) – O diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais (SNCS), organismo da Igreja Católica em Portugal, defendeu hoje que a avaliação das decisões de Bento XVI sobre a criação de novos cardeais deve ultrapassar “análises geoestratégicas e estatísticas”.
“É injusto considerar que o Papa está distraído ou menos interessado no contributo que pode receber de quem vive geograficamente mais longe ou se confronta com realidades diversas”, escreve o cónego João Aguiar Campos, no editorial desta semana da Agência ECCLESIA.
Bento XVI convocou a 6 de janeiro um consistório para a criação de 22 novos cardeais, incluindo o português D. Manuel Monteiro de Castro, marcado para o dia 18 deste mês, no Vaticano.
Entre os escolhidos estão 16 europeus, incluindo sete italianos; dez dos novos cardeais ocupam cargos na Cúria Romana.
Admitindo que “abundam leituras e interpretações” sobre as decisões do Papa, o diretor do SNCS opta por deixar de parte “qualquer ‘geografia curial’”.
“Creio, sobretudo, que o Espírito continua a ser capaz de entrar em todas as salas, estejam ou não abertas as portas, suscitando impertinências que nunca o deixam prisioneiro”, escreve.
O próximo consistório está em destaque na mais recente edição do semanário Agência ECCLESIA, na qual o cónego José Paulo Abreu, professor da Faculdade de Teologia na Universidade Católica Portuguesa, destaca a “internacionalização da Cúria Romana” e do Colégio Cardinalício.
“Na eleição do Papa João XXIII, em 1958, participaram 17 cardeais italianos, num total de 51, o que significa um peso percentual italiano na ordem dos 33,3%”, recorda, um valor que será, a partir de dia 18, de 24% (30 italianos em 125 eleitores). 
O Colégio Cardinalício vai passar a ter representantes de 70 países, 51 dos quais com cardeais eleitores, ou seja, com menos de 80 anos e, por isso, com direito a voto na eleição de um novo Papa (conclave).
OC

Abusos sexuais: Bento XVI fala em «tragédia»

Papa enviou mensagem a participantes em colóquio internacional, com participação de responsáveis católicos e testemunho de vítima irlandesa

D.R.
Cidade do Vaticano, 07 fev 2012 (Ecclesia) – Bento XVI considera que os casos de abusos sexuais que envolveram membros do clero ou instituições eclesiais são uma “tragédia” para a Igreja Católica, que exige uma “salvaguarda efetiva” e apoio às vítimas.
“A atenção pelas vítimas deve ser uma preocupação prioritária na comunidade cristã e deve andar lado a lado com uma profunda renovação da Igreja, a todos os níveis”, indica uma mensagem papal, enviada esta segunda-feira pelo Secretário de Estado aos participantes no simpósio sobre os casos de abusos sexuais na Igreja que decorre em Roma, até quinta-feira, com representantes de 110 conferências episcopais, incluindo a portuguesa, e 30 ordens religiosas.
A iniciativa é organizada pela Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma, contando com o apoio da Santa Sé, em particular da Congregação da Doutrina da Fé (CDF), que em 2011 solicitou aos episcopados católicos de todo o mundo a elaboração de diretivas próprias para tratar os casos de abusos sexuais, a serem entregues até final de maio deste ano.
As diretivas da Conferência Episcopal Portuguesa sobre esta matéria estão em fase de discussão e elaboração, referiu à Agência ECCLESIA o secretário do organismo, padre Manuel Morujão, aquando do anúncio deste simpósio.
Os trabalhos, que têm como tema ‘Rumo à cura e à renovação’, foram inaugurados na tarde de segunda-feira pelo cardeal norte-americano D. William Levada, prefeito da CDF, o qual falou em mais de 4000 casos de abusos relatados à Santa Sé, na última década.
Esse número, indicou, revela a “desadequação de uma resposta exclusivamente canónica a esta tragédia”.
Para este responsável, a Igreja deve concentrar-se na prevenção, criando um “ambiente seguro” para as crianças e investindo na formação dos sacerdotes.
O cardeal Levada destacou, por outro lado, o exemplo dado pelo Papa ao ouvir as vítimas “nas suas visitas pastorais na Grã-Bretanha, Malta, Alemanha, Austrália e Estados Unidos da América”.
O prefeito da CDF observou ainda que as autoridades eclesiásticas devem cooperar com as “autoridades civis” relativamente à “denúncia destes crimes” de abusos sexuais.
Esta manhã, os participantes no encontro ouviram o testemunho de Marie Collins, uma irlandesa vítima de abuso aos 13 anos de idade, quando se encontrava num hospital, há mais de meio século.
“É impossível esquecer e não posso escapar aos seus efeitos”, disse, sobre estes acontecimentos.
Collins falou do processo de denúncia, revelando ter sido tratada como “alguém com uma agenda contra a Igreja” e acusando os responsáveis diocesanos de darem prioridade ao “bom nome” do abusador, que acabaria por ser preso, por este e outros crimes.
A vítima irlandesa trabalha, há mais de uma década, com a sua diocese e a Igreja Católica no país para “melhorar as políticas de proteção de menores”.
Hoje, às 18h30 (hora de Roma, menos uma em Lisboa), o cardeal canadiano D. Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, vai presidir a uma ‘vigília penitencial’, na qual responsáveis de sete instituições católicas “culpadas ou negligentes” nestas questões vão pedir perdão, publicamente, às vítimas.
OC

Quaresma: Atenção aos necessitados

Mensagem de Bento XVI alerta contra indiferença e desinteresse face ao sofrimento alheio

D.R.
Cidade do Vaticano, 07 fev 2012 (Ecclesia) - Bento XVI publicou hoje a sua mensagem para a Quaresma 2012, pedindo aos católicos de todo o mundo que façam deste tempo uma oportunidade para “prestar atenção ao outro”, com “preocupação concreta pelos mais pobres”.
“Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda, quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã”, refere o texto, divulgado pela Santa Sé.
O Papa critica “a indiferença” e “o desinteresse que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela ‘esfera privada’” na cultura atual, atitudes que quer ver contrariadas por um “olhar de fraternidade”.
“O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro ‘alter ego’, infinitamente amado pelo Senhor”, pode ler-se.
O documento, com versão em português, intitula-se ‘Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras’, expressão retirada da Carta aos Hebreus, do Novo Testamento.
Bento XVI alerta para o perigo de “uma espécie de ‘anestesia espiritual’”, que impede de atender ao sofrimento alheio com um “olhar feito de humanidade e de carinho”.
“O nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre”, observa.
Recordando o episódio bíblico [livro do Génesis] em que Deus interpela Caim, a respeito do assassinato do seu irmão Abel, a mensagem papal incita a consciência de cada pessoa a sentir-se responsável por quem é “criatura e filho de Deus”: “Também hoje Deus nos pede para sermos o ‘guarda’ dos nossos irmãos”.
“O facto de sermos o ‘guarda’ dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspetiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual”, precisa.
Bento XVI diz que a cultura contemporânea parece ter perdido “o sentido do bem e do mal”, sendo necessário “reafirmar com vigor que o bem existe e vence”.
“O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem”, assinala.
Esse bem, acrescenta, inclui a chamada “correção fraterna”, numa “responsabilidade espiritual pelos irmãos”.
“A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de ‘corrigir os que erram’. É importante recuperar esta dimensão do amor cristão”, escreve o Papa.
mensagem de Bento XVI diz que os católicos não devem “ficar calados diante do mal” e lamenta que alguns prefiram, “por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum”.
“A nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social”, prossegue.
A Quaresma, que este ano começa a 22 de fevereiro (quarta-feira de Cinzas), é um período de 40 dias - excetuando os domingos -, marcado por apelos ao jejum, partilha e penitência, que serve de preparação para a Páscoa, a principal festa do calendário dos cristãos.
OC

O Espírito e a geografia curial

Creio, sobretudo, que o Espírito continua a ser capaz de entrar em todas as salas, estejam ou não abertas as portas, suscitando impertinências que nunca O deixam prisioneiro

D.R.
Realiza-se, dentro de dias, o IV Consistório do papado de Bento XVI. Nele serão criados 22 novos cardeais.
Em Portugal olhamos para o acontecimento com um misto de alegria nacional e eclesial, pois entre os eleitos está o vimaranense D. Manuel Monteiro de Castro.
É normal este regozijo. É, aliás, compreensível que, especialmente em momentos de crise, todos os pretextos sejam bons para levantar o ego e fazer festa. Com uma ressalva, porém: que não se esqueçam, nas dobras do bairrismo, os méritos do eleito - uma vez que a sua escolha pressupõe uma vida pautada por sã doutrina, costumes, piedade e prudência. Nem se desvalorize, na alusão a trabalhos específicos, a grande responsabilidade de eleger um novo Papa; nem esse outro papel que Bento XVI fez questão de apontar no anúncio do Consistório: «os Cardeais têm a tarefa de ajudar o Sucessor de Pedro no cumprimento do seu Ministério de confirmar os irmãos na fé e de ser o princípio e fundamento da unidade e da comunhão da Igreja».
Dito isto, uma palavra para as neblinas em torno da reunião de 18 de fevereiro; sobretudo as que se erguem dos vales de quantos gostam, também na vida da Igreja, de análises geoestratégicas e estatísticas…
Concorde-se ou não, a verdade é que em torno da escolha dos novos cardeais abundam leituras e interpretações.
Realçam, uns, o peso dos italianos e dos funcionários da Cúria e, em contrapartida, uma menor «consideração» pelas Igrejas de África e América Latina, falando mesmo em «escassa universalidade». Outros, ou os mesmos, analisam o perfil dos eleitos, para concluírem que a presença de gestores ultrapassa a de teólogos.
Se se atender aos números, estes parecem dar razão a quem assim pensa. Entendo, porém, que é injusto considerar que o Papa está distraído ou menos interessado no contributo que pode receber de quem vive geograficamente mais longe ou se confronta com realidades diversas. Mas creio, sobretudo, que o Espírito continua a ser capaz de entrar em todas as salas, estejam ou não abertas as portas, suscitando impertinências que nunca O deixam prisioneiro.
Sem prescindir, por isso, do legítimo desejo de ver no Colégio de Cardeais mais Padres e Pastores de Igrejas particulares, faço minha a oração de Louis Fromy, leitor do “La Croix”: «que o Espírito inspire aos cardeais um sensus ecclesiae atual, realista e... missionário».
Isto vence qualquer «geografia curial».
Padre João Aguiar Campos



A função de um consistório

Padre M. Saturino Gomes, professor de Direito Canónico-UCP

O Papa Bento XVI anunciou, a 6 janeiro de 2012, a convocação de um consistório ordinário público para o dia 18 fevereiro, a fim de instituir novos Cardeais.
O Código de Direito Canónico refere-se aos Cardeais na parte II do Livro II do Código de Direito Canónico (cc.349-359), explicando a sua função e também a existência do consistório (cân.353).
Consistório é o lugar onde se está em conjunto; o lugar, onde está o Papa com os Cardeais em audiência ou conselho. Ora, os Cardeais auxiliam o Santo Padre principalmente nos Consistórios, nos quais se reúnem por ordem do Romano Pontífice e sob a sua presidência; podem ser ordinários ou extraordinários. Para os ordinários são convocados todos os Cardeais, ao menos os que se encontrem em Roma, a fim de serem consultados sobre certos assuntos importantes, ou para a realização de atos muito solenes. Para os extraordinários são convocados todos os Cardeais, para se pronunciarem sobre assuntos importantes. Só pode ser público o Consistório ordinário (será o próximo), em que se celebram alguns atos solenes, sendo também admitidos outras pessoas: Prelados, embaixadores, convidados. A anteceder o Consistório, haverá no dia 17, um encontro de reflexão e de oração, convocado por Bento XVI, que terá como tema a nova evangelização.
O Consistório é diferente de um Concílio, de um Sínodo dos Bispos. Ao primeiro pertencem os Bispos do mundo inteiro, ao segundo os representantes dos episcopados, eleitos segundo as normas vigentes. Enquanto que o Colégio dos Bispos exerce de modo solene o poder sobre toda a Igreja no Concílio ecuménico, o Colégio Cardinalício, em Consistório, e o Sínodo dos Bispos são órgãos consultivos, a não ser que o Papa decida de outro modo para determinados assuntos.
 Os Cardeais surgiram dos 25 títulos ou igrejas quase-paroquiais de Roma, dos 7 (mais tarde 14) diáconos regionais e 6 diáconos palatinos e dos 7 (séc.XII: 6) Bispos suburbicários, e que foram conselheiros e cooperadores do Papa. A partir de 1150 formaram o Colégio cardinalício com um Decano, que é Bispo de Óstia, e um Camarlengo, que é administrador dos bens. É em 1059 que assumem as funções exclusivas de serem eleitores do Papa (Conclave).
Além da eleição do Papa, os Cardeais também assistem ao Romano Pontífice quer agindo colegialmente, quando forem convocados para tratar em comum dos assuntos de maior importância, quer individualmente, nos vários ofícios que desempenham, auxiliando o Sucessor de Pedro no governo da Igreja universal. Podem ser incumbidos pelo Papa de o representar nalguma celebração solene ou assembleia, ou então de serem seus enviados especiais para certas missões no mundo.
Esta veneranda instituição espelha a dimensão universal da Igreja, pois é composta por membros de todas as partes do mundo e com cargos eclesiais diversificados. A nomeação compete ao Santo Padre, pertencentes pelo menos à ordem do presbiterado, e que se distingam pela doutrina, costumes, piedade e competência na resolução dos problemas. Os que ainda não forem Bispos, devem receber a consagração episcopal, norma que pode ser dispensada pelo Romano Pontífice. De facto, em consistórios anteriores têm sido instituídos Cardeais que sendo presbíteros, foram ordenados Bispos, enquanto outros, por razões de saúde, solicitaram para não receberem o episcopado.
No consistório secreto de 5 novembro de 1973, o Papa Paulo VI estabeleceu que o número máximo dos Cardeais com a faculdade de eleger o Romano Pontífice, fosse de 120, norma essa confirmada por Papa João Paulo II na Constituição Apostólica Universi Dominici gregis (22 de fevereiro de 1996).
Os Cardeais pertencem aos vários dicastérios da Cúria romana (Congregações, Pontifícios Conselhos, Tribunais), conforme nomeação pontifícia. Os residentes em Roma e fora de Roma são considerados cidadãos da Cidade do Vaticano. Os Cardeais que desempenham qualquer ofício na Cúria romana e não sejam Bispos diocesanos têm obrigação de residir em Roma; os Cardeais que sejam pastores de alguma Diocese vão a Roma todas as vezes que sejam convocados pelo Romano Pontífice. A nível de relacionamento e protocolo são tratados por Eminência.
Para significar a comunhão com a Diocese e o clero de Roma, de onde nasceram os Cardeais, é atribuída pelo Papa a cada Cardeal o título de uma Igreja suburbicária ou uma igreja de Roma. Dela devem tomar posse oportunamente, promovendo com o seu conselho e patrocínio o bem dessas dioceses e igrejas, sem todavia terem sobre elas algum poder de governo.

Padre M. Saturino Gomes, professor de Direito Canónico, Faculdade de Teologia - UCP

Os conselheiros/colaboradores do Papa

Cónego José Paulo Abreu, professor da Faculdade de Teologia-UCP

Nos primórdios da Igreja, os conselheiros do Papa são escolhidos entre os romanos. De facto, muitos são os documentos que nos falam do Presbyterium (= conjunto de presbíteros e diáconos) de Roma, que aconselha e colabora com o Papa. Mais ainda, nessa altura todo o clero romano se sentia colaborador direto do Papa e, eventualmente, até os Bispos de passagem por Roma.
Mais tarde, pelo VI século, o grupo restringe-se unicamente aos presbíteros “titulorum” (ou cardeais), isto é, aos detentores dos “títulos” das principais igrejas de Roma, e aos sete diáconos das regiões em que S. Fabião (+ 250) tinha dividido Roma.
A partir do IV século, começam a realizar-se Sínodos ou Concílios, sempre em Roma, para tratamento de questões de particular importância. Tratam sobretudo de questões relacionadas com a fé e a disciplina eclesiástica. Participam neles os bispos da província eclesiástica e eventuais hóspedes, os presbíteros “titulados” e os diáconos regionais.
Sobretudo a partir de Nicolau II (1059) e de Alexandre III (1179), as funções exercidas pelo Presbyterium e pelos Sínodos ou Concílios passam para um novo órgão consultivo: o Consistorium, composto unicamente por cardeais.
Nos séculos posteriores (XII e XIII) regista-se uma forte centralização pontifícia. Ora o aumento de assuntos a tratar e a necessidade de um cardinalato inteiramente disponível incitam o papado a não permitir a residência dos cardeais nas suas dioceses após a receção do cardinalato. Sabemos que, entre 1198 e 1276, foram criados 81 cardeais, dos quais apenas três eram “exteriores”, isto é, não residentes na Cúria Romana. E sabemos que a maioria deles pertencia à Península Itálica.
Já no passado se recorrera muitas vezes à formação de especiais comissões cardinalícias, fora do Consistório, a fim de se estudarem peculiares questões com a ajuda de prelados particularmente competentes. Tais comissões, uma vez conseguida a autonomia em relação ao Consistório, constituíram os precedentes das Congregações. E assim surgiram: a Sacra Romana e Universal Inquisição (ano 1542), a Congregação para a execução dos decretos do Concílio de Trento (1564), a Congregação do Índice (1571), a Congregação dos Bispos (1572). À frente de cada Congregação, um cardeal.
Mas as movimentações na Cúria Romana não se ficaram por aí. Ainda no séc. XVI o Papa Sisto V multiplicaria abundantemente o número das Congregações. Cada uma deveria ser composta por cinco ou três Cardeais e cada uma tinha o seu próprio campo de ação, no âmbito da administração da Igreja, ou no âmbito da administração temporal do estado e da Igreja, ou em matérias mistas.
Entretanto, Sisto V não deixou de reunir o Consistório, ao qual submetia as questões mais importantes, quer de caráter eclesiástico, quer de caráter político e administrativo.
Dito doutra forma: com o andar do tempo, os cardeais não servem apenas para aconselhar o Papa ou para elegerem um novo Papa. Mais do que isso, ajudam o Papa em todas as tarefas, da administração à jurisdição, da pastoral ao governo temporal…
O Papa Paulo VI (estamos já no séc. XX) reformula a Cúria Romana através da Constituição Regimini Ecclesiae Universae [= REU] datada de 15 de agosto de 1967. Por detrás desse documento está o labor do Concílio Vaticano II e concretamente o Decreto Christus Dominus. Por entre as novidades introduzidas pela REU contam-se: a inclusão de Bispos diocesanos como membros nas Congregações Romanas; uma maior internacionalização da Cúria romana; uma maior ligação entre os Ordinários diocesanos e a Cúria Romana.
Para elucidarmos este fenómeno da internacionalização da Cúria romana, consideremos, à laia de exemplo, os seguintes dados: na eleição do Papa João XXIII, em 1958, participaram 17 cardeais italianos, num total de 51, o que significa um peso percentual italiano na ordem dos 33,3%; na eleição do Papa Paulo VI (em 1963), participaram 29 cardeais italianos, num total de 80 eleitores, o que significa um peso percentual italiano da ordem dos 36,25%; já na eleição do Papa João Paulo I participaram 111 cardeais, dos quais apenas 26 eram italianos (o peso percentual italiano é agora de apenas 23,42%).
Atualmente, o corpo cardinalício é composto por 192 elementos (contando os eleitores e os não eleitores). Desses, apenas 45 são italianos, ou seja, 23,44%.
Neste momento, regozijamo-nos por, no Colégio Cardinalício, contarmos com três ilustres lusitanos: o cardeal D. José Saraiva Martins, o cardeal D. José Policarpo e o recentemente eleito cardeal D. Manuel Monteiro de Castro.
Cónego José Paulo Abreu, arquidiocese de Braga, professor da Faculdade de Teologia-UCP

Consistório 2012: Nomes e números

Bento XVI convocou a 6 de janeiro um consistório para a criação de 22 novos cardeais, marcado para o próximo dia 18, entre os quais se conta o português D. Manuel Monteiro de Castro, de 73 anos, penitenciário-mor da Santa Sé.
Esta é a quarta vez que Bento XVI convoca um consistório (o último tinha sido em novembro de 2010), com o qual vai perfazer um total de 84 cardeais criados (63 com direito a voto, mais de metade dos 125 eleitores).
Entre os 22 cardeais escolhidos estão 16 europeus, incluindo sete italianos; dez dos novos cardeais ocupam cargos na Cúria Romana.
A partir do próximo consistório, o colégio cardinalício passará a ter representantes de 70 países, 51 dos quais com cardeais eleitores, ou seja, com menos de 80 anos e, por isso, com direito a voto na eleição de um novo Papa (conclave).
Os cardeais com menos de 80 anos ficarão assim distribuídos geograficamente: Europa - 67; América Latina - 22; América do Norte - 15; África - 11; Ásia - 9; Oceânia - 1.
Desde 2005, ano da eleição de Bento XVI, a Itália reforçou o seu estatuto de país com maior número de eleitores (30).
Seguem-se os EUA (12), Alemanha e Brasil (6 cada), Espanha (5), Índia, França, México e Polónia (4 cada).
Estes nove países totalizam 75 cardeais com direito a voto, representando um número próximo dos 83 (maioria de dois terços) que são necessários para a eleição pontifícia.

Os novos cardeais
Cúria Romana


D. Fernando Filoni, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos (Itália)
D. Manuel Monteiro de Castro, penitenciário-mor (Portugal)
D. Santos Abril y Castelló, arcipreste da Basílica Papal de Santa Maria Maior (Espanha)
D. Antonio Maria Vegliò, presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes (Itália)
D. Giuseppe Bertello, presidente da Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano e presidente do Governatorato do mesmo Estado (Itália)
D. Francesco Coccopalmerio, presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos (Itália)
D. João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (Brasil)
D. Edwin Frederik O'Brien, pró-grão-mestre da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém (EUA).
D. Domenico Calcagno, presidente da Administração do Património da Sé Apostólica (Itália)
D. Giuseppe Versaldi, presidente da Prefeitura para os Assuntos Económicos da Santa Sé (Itália)
Dioceses
D. George Alencherry, arcebispo-mor de Ernakulam-Angamaly dos sírio-malabares (Índia)
D. Thomas Christopher Collins, arcebispo de Toronto (Canadá)
D. Dominik Duka, arcebispo de Praga (República Checa)
D. Willem Jacobus Eijk, arcebispo de Utrecht (Holanda)
D. Giuseppe Betori, arcebispo de Florença (Itália)
D. Timothy Michael Dolan, arcebispo de Nova Iorque (Estados Unidos da América)
D. Rainer Maria Woelki, arcebispo de Berlim (República Federal da Alemanha)
D. John Tong Hon, bispo de Hong Kong (República Popular da China).
Cardeais com mais de 80 anos
D. Lucian Mureşan, arcebispo-mor de Fagaras e Alba Iulia dos romenos (Roménia)
Monsenho Julien Ries, sacerdote da Diocese de Namur e professor emérito de história das religiões na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica)
Padre Prosper Grech, O.S.A., docente emérito de várias Universidades romanas e consultor na Congregação para a Doutrina da Fé (Malta)
Padre Karl Becker, S.J., docente emérito da Pontifícia Universidade Gregoriana e durante muitos anos Consultor da Congregação para a Doutrina da Fé (Alemanha) [O sacerdote, de 83 anos, não vai poder participar na cerimónia pública do próximo dia 18, por motivos de saúde, sendo criado cardeal “de forma privada, noutro momento”, segundo a Santa Sé].

Novo cardeal português agradece ao Papa

D. Manuel Monteiro de Castro, de 73 anos, fala do serviço a que foi chamado na Santa Sé e da importância do seu trabalho como penitenciário-mor num «tribunal da misericórdia»

D.R.
D. Manuel Monteiro de Castro, de 73 anos, nasceu em Santa Eufémia de Prazins, Guimarães; foi ordenado padre em 1961 e bispo em 1985. O novo cardeal português tem uma longa experiência diplomática ao serviço da Santa Sé, que o fez passar pelo Panamá, Guatemala, Vietname, Austrália, México, Bélgica, Trindade e Tobago, África do Sul e Espanha, onde permaneceu entre 2000 e 2009, acompanhando a subida ao poder do primeiro-ministro José Luis Zapatero; foi também observador permanente do Vaticano na Organização Mundial do Turismo.
Está na Cúria Romana desde julho de 2009, quando assumiu o cargo de secretário da Congregação para os Bispos, tendo sido posteriormente nomeado por Bento XVI como consultor da Congregação para a Doutrina da Fé e secretário do Colégio Cardinalício, antes de, em janeiro, passar a ser o responsável máximo pela Penitenciaria Apostólica, um dos três tribunais da Cúria Romana. A 6 de janeiro, Bento XVI anunciou publicamente a sua criação como cardeal.

Agência ECCLESIA (AE) – Sente que a criação como cardeal é o reconhecimento do serviço que prestou à Santa Sé, ao longo dos anos?
D. Manuel Monteiro de Castro (MMC) – Sim, naturalmente, devo dizê-lo com toda a humildade. Fiquei muito contente e agradeci ao Santo Padre, com quem já tive oportunidade de falar.
Servi a Santa Sé em países com muitas dificuldades, como a Guatemala e o Vietname, em anos de guerra, o México ou El Salvador, na África do Sul com Nelson Mandela. Daí fui para Espanha e sobre a Espanha os senhores em Portugal sabem mais do que eu…

AE – O cargo de Núncio em Madrid terá sido o mais mediático?
MMC – O trabalho foi bom, mesmo nos momentos difíceis: embora tenha falado pouco, resolvemos os problemas. Tenho cartas muito bonitas que agora me chegaram de altas personalidades espanholas. Também já estive com o Papa em Espanha e ele ficou muito contente com o meu trabalho.

AE – Depois dessa missão, acabou por ser chamado por Bento XVI para a Santa Sé.
MMC – Para mim foi uma surpresa, nenhum dos meus antecessores tinha ido para a Cúria, eu tinha tudo planificado para ir para Santa Eufémia. Quando vim [para a Santa Sé], já foi para um cargo muito importante, geralmente daí são nomeados cardeais, mas não necessariamente, até atendendo à minha idade [completa 74 anos em março]. Quanto ao cargo de penitenciário-mor, acontece que sou dos poucos, dentro do corpo diplomático, a ter feito o exame da Rota Romana (tribunal da Santa Sé): o exame dura das 9 da manhã às 9 da noite, são doze horas para dar uma sentença e em latim.
Essas são circunstâncias que talvez tenham facilitado a decisão do Papa, até porque Portugal tinha dois eleitores e agora teríamos só um [D. José Saraiva Martins completou 80 anos de idade em janeiro].

AE – Também sentiu que este é um reconhecimento para Portugal?
MMC – Sim, sim. O Santo Padre ficou com uma impressão muito, muito boa após a visita a Portugal [maio de 2010]. Tudo isso ajudou, naturalmente.

AE – Para si, o que significa ser cardeal?
MMC – Os cardeais são sacerdotes que estão ao serviço do Santo Padre, não importa para o que seja. Somos os seus primeiros colaboradores, com campos definidos. Também temos reuniões plenárias [os encontros de chefes de dicastérios da Cúria Romana] e ainda recentemente [28 de janeiro] participei numa, embora ainda não fosse cardeal: cada um diz o que pensa sobre o que se passa no mundo, sobre como se pode melhorar a situação, tratam-se os temas a nível geral.
O Colégio Cardinalício está ao serviço do Papa, os que estão nos Dicastérios estamos mais ainda, porque estamos num serviço bem determinado. No meu caso, o Santo Padre deu-me praticamente plenitude de resolver todos os casos.

AE – Enquanto penitenciário-mor, vai ser responsável pelo chamado ‘Tribunal da Consciência’, na Santa Sé.
MMC – Tribunal da consciência é já a confissão: quando nos confessamos, há uma penitência, isto é, uma pena dada pelo sacerdote.
A Penitenciaria Apostólica é o dicastério mais antigo da Cúria Romana, vem já do século XIII; é um tribunal ao qual o Santo Padre entrega tudo quanto se refere ao foro interno. Poderemos chamar-lhe quase um tribunal de misericórdia, porque as pessoas que têm algum problema podem dirigir-se a nós.
Hoje, no mundo, tudo vale o mesmo e as pessoas deixam correr, mas chegam a um certo momento em que não se sentem felizes, não se sentem realizadas. Aqui, procuramos ajudá-las.
Ajudamos também na formação de confessores, em todo o mundo e, particularmente, em Roma com 58 penitenciários menores nas basílicas de São Pedro, de Santa Maria Maior, de São Paulo fora de muros e São João de Latrão. Estes elementos trabalham connosco, estão bem formados, e procuram levar as pessoas a sentirem-se felizes, realizadas, com os olhos postos em Deus.

AE – Como é que se procede nas várias situações de concessões de graças, absolvições, dispensas, sanções ou condenações?
MMC – Geralmente, nos casos que podemos resolver, damos uma resposta aos confessores em 24 horas, nos casos que ele não pode absolver, que são comunicados se a pessoa que se confessou estiver de acordo. O padre pode dirigir-se ao nosso dicastério, diz do que se trata, sem mencionar o nome da pessoa, e esta é absolvida. Nós, daqui, mandamos uma penitência.
Quando temos um caso mais difícil, temos uma reunião, com colaboradores: um teólogo, que é sempre um jesuíta, um especialista em direito e outros três, com preparação neste campo. Além da reunião, eles dão um parecer por escrito e depois o penitenciário-mor decide e, se subsistirem dificuldades, pede uma audiência ao Papa.

AE – Dentro dessas funções, há um conjunto de situações que implicam excomunhão.
MMC – Sim, isso faz parte do nosso trabalho, quando se trata do foro interno, porque se for público é com a Congregação para a Doutrina da Fé. Todos os casos que os bispos e os padres não podem resolver, resolvemo-los aqui. Imagine-se, por exemplo, uma pessoa que profanou a Sagrada Eucaristia, sem que ninguém tenha visto, e passados alguns anos, poucos ou muitos, quer pôr a sua vida em ordem. Através de um sacerdote, comunica essa situação e nós damos-lhe uma penitência.



Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2012

«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24)

Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da » (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspetos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.

«Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.
O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspetos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspeto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

«Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.
O facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspetiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).

«Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspetiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica
Vaticano, 3 de novembro de 2011
Benedictus PP. XVI