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Wednesday, March 21, 2012

Violeta

Aqueles dois nem sequer reparam que Klaus abrira a porta da sala.
Então é aqui que está Niki, escondida atrás de umas costas altas e de uns braços compridos e verdes!
— O namorado da nossa filha tem uns braços de aranha! — costuma dizer o pai. E também diz: — Há três meses que traz vestida a mesmíssima camisola verde! Se calhar só a tira quando ela se desfizer!
— Deixa a Niki em paz — a mãe tenta acalmá-lo. — Tu não percebes! A Niki está apaixonada. O Bruno não tem de te agradar!
— Agradar!?! Deixa-me rir. Até fico cheio de comichão de cada vez que o vejo. Alto como a Torre Eiffel e magro como um esparguete! E é de uma coisa assim que a minha filha gosta? De um Bruuuno!!
“Será que o pai iria gostar mais da Violeta?”, pensa Klaus, à porta da sala.
Ele não se atreve a entrar e ir à prateleira buscar o livro sobre aviões, pelo menos enquanto os dois estiverem enrolados um no outro. Verde-aranha com pintas cor-de-‑laranja. As pintas cor-de-laranja são da t-shirt da Niki.
Porque é que Klaus tem de pensar agora mesmo na Violeta? E porque é que fica com o coração aos pulos? Aquilo ali, no sofá, à frente dele, não tem nada a ver com ele e com Violeta. Ou será que tem? Klaus ainda não beijou Violeta. Beijou, sim. Uma vez num jogo. Como multa, Klaus tinha de dar três beijos na cara de alguém. Claro que não foi escolher o Pedro ou o Martim e muito menos a Helga. Foi a Violeta quem recebeu os três beijinhos minúsculos. E logo de seguida, ficaram os dois vermelhos que nem tomates. Toda a gente se riu!
— O Klaus está apaixonado pela Violeta! — gritaram.
Deixá-los rir!
Estar apaixonado não tem graça nenhuma. É bonito, mas não é engraçado, pensa Klaus, porque Violeta se ofende muito depressa. E quando ela olha para ele só de relance, durante as aulas e depois no intervalo também… até dói! De cada vez que ele olha para Violeta e ela desvia o olhar, Klaus sente uma pontada lá no fundo… Mas agora, há já algum tempo que andam os dois bem, e Klaus tenta não fazer nenhuma asneira que possa zangar Violeta.
Klaus queria ir buscar o livro. Niki e Bruno ainda não repararam nele. Estão abraçados um ao outro e baloiçam-se levemente de um lado para o outro como se se tentassem adormecer mutuamente. Têm os olhos fechados. Estão em silêncio.
“Se calhar”, pensa Klaus, “quando se está mesmo apaixonado não se deve falar. O não falar significa precisamente gosto de ti.”
A dado momento, Niki abre os olhos mas só vê o seu Bruno. Não vê Klaus à porta.
A irmã e o namorado olham-se nos olhos, em silêncio. Continuam a não falar. “Hmm”, pensa Klaus, “eu e a Violeta também fazemos isso. Por acaso, este também é o nosso jogo. Olhamo-nos nos olhos muito tempo e tentamos adivinhar a cor dos olhos do outro porque ela muda ligeiramente todos os dias. Se há sol, se chove, se está claro ou escuro. Se é de manhã, ao meio-dia ou à tarde.”
Violeta acha que Klaus tem os olhos castanhos. Cor de café com leite. Klaus diz que tem olhos pretos. Como café sem leite.
— E os teus são azuis — diz depois Klaus. — Como a minha caneta.
— Não! Não gosto dessa comparação! — Violeta faz uma cara de ofendida e fulmina Klaus com o olhar. — Diz uma coisa mais bonita!
— Azul como o lago de Constança. — Klaus já lá tomou banho.
Violeta fica satisfeita com o lago, mesmo não o conhecendo. O azul de um lago é bonito.
— Como estes dois demoram! — suspira Klaus, apoiando-se na outra perna.
Então, quando se está apaixonado é assim… Agarramo-nos bem. Balançamo-nos de um lado para o outro. Fechamos os olhos por muito tempo. E, depois, abre-se os olhos mas não se pode olhar para mais lado nenhum a não ser para a pessoa que está à frente. A mão esquerda de Bruno percorre suavemente a mão direita de Niki, sobe pelo braço e volta a descer devagar. Também durante muito tempo.
Violeta iria achar isto estúpido. E Klaus, para falar a verdade, também. Já não aguenta muito mais tempo na soleira da porta. Klaus não gosta de ficar a olhar para namorados. Envergonha-se um pouco, mas não sabe bem porquê. Está um tanto agitado, mas não sabe muito bem porquê.
Vira as costas aos dois, mas choca contra a porta. Bum!
— Olha lá, miúdo, tu por acaso andas a espionar-nos?! — ouve-se a voz arranhada de Bruno.
— Há quanto tempo estás aí? — pergunta Niki, sentindo-se atingida.
Klaus encolhe os ombros. Será que deve dizer: “Há uma eternidade”?
— Já posso ir buscar o meu livro?
— Pensei que o teu irmão não estivesse cá hoje!
Bruno levanta-se.
— Da próxima vez que pensares que ele não está em casa, no teu lugar eu ia ver primeiro se, por acaso, não estará metido nalguma gaveta!
A voz de Bruno soa bastante desagradável. Niki também se levanta e segura o namorado pelo braço mas Bruno solta-se.
— Não me sinto bem aqui! — diz. — Tchau!
E vai embora. Nem sequer se torna a virar para Niki. Já não a olha mais nos olhos. Nem muito, nem pouco. Absolutamente nada.
Com Violeta é muito mais bonito. Eles acenam sempre com a mão um ao outro quando vão para casa, depois da escola, e se separam na paragem do elétrico. Pelo menos, nos dias em que Violeta não tenta olhar de relance para Klaus.
Depois, Violeta sorri.
Um sorriso muito amoroso e Klaus consegue ver-lhe os olhos, mesmo que já esteja muito escuro. Brilham, azuis como o lago de Constança. Continuam a brilhar mesmo quando Klaus já está do outro lado da rua, e ele até consegue sentir‑lhes ainda o brilho, muito depois de ter dobrado a esquina.
 
Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
(Tradução e adaptação)

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