Total Pageviews

There was an error in this gadget

Saturday, April 07, 2012

A construção de Angola depois do Luena - 04 de Abril, 2012


Horizontes
Benjamim Formigo |

 A 30 de Março de 2002, com a assinatura dos Acordos de Luena que seriam ratificados em Luanda, no edifício da Assembleia Nacional, na semana seguinte, a 4 de Abril, renasceu a esperança da paz em Angola. Uma paz tornada certeza por entre imensas dificuldades, considerando o estado em que o pais se encontrava a seguir ao final do conflito armado.
O processo de transformação política em Angola teve porém início à meia noite de 15 de Maio de 1991, depois de, no início desse mês, terem sido rubricados, por representantes do Governo e da UNITA, no final da última ronda de conversações na Escola de Hotelaria de Bicesse, perto do Estoril, em Portugal, os “Acordos de Bicesse”.
Antes da data prevista para a cessação de hostilidades voei para Saurimo e no dia seguinte de helicóptero até Luena. Aterrámos nos arredores sob ataque de morteiros à posição militar onde o “Mi” nos deixou. No Quartel-General da Frente Leste estavam os coronéis Higino Carneiro, Sanjar e Neco entre outros militares, designadamente o actual comandante militar de Luanda, então tenente-coronel Marques.
Conheci a cidade de Luena no tempo colonial, então Vila Luso, e regressava pela primeira vez desde 1972. Haviam passado quase 20 anos mas não era por isso que eu não reconhecia os locais por onde passávamos. A destruição de 50 dias de bombardeamentos era desoladora. As ruas cortadas por trincheiras onde os homens se abrigavam. Na delegação do Banco Nacional de Angola, uma construção mais sólida, centenas de pessoas abrigavam-se dia e noite por todo o lado, incluindo nas escadas.
A esperada noite de 15 surgiu finalmente. A cidade do Luena seria decisiva para o que se iria seguir. A UNITA concentrara as suas forças em volta da cidade que bombardeava havia quase dois meses numa tentativa de controlar uma capital provincial no momento da cessação de hostilidades. Nem tudo correu bem nessa noite. Um acalmia é certo, mas pelo amanhecer vinham notícias de que um grupo de UNITA se havia infiltrado e estava perigosamente perto das FAPLA. Seguimos até ao local, no Sangondo, com o falecido major Venceremos. Após algumas horas de conversações e com a ajuda de um rádio da UNITA trazido por William Tonet foi possível estabelecer as regras. O perigo parecia afastado.
Na delegação da Rádio Nacional de Angola, encontrámos o correspondente da RNA, cujo nome não tenho presente na minha memória, que durante esses quase dois meses desmentiu com os seus despachos as notícias que a UNITA fazia circular de haver ocupado a cidade. Graças ao seu rádio conseguimos contactar a UNITA e, nesse contacto, se transmitiu através dos jornalistas as primeira mensagens entre o brigadeiro Consagrado da UNITA, que tinha a seu lado Ben-Ben, e o então coronel Higino Carneiro.
Em Luena, em frente ao Banco Nacional, duas primas que não se viam havia dois meses por receio de saírem de casa abraçavam-se. Viviam a 200 metros uma da outra. A caminho do rio a população aventurava-se para buscar água e lenha. Até um mercado abriu. Luena voltara à vida.
No dia seguinte, parti com o grupo de jornalistas e um pequeno destacamento militar para preparar, junto do rio Sangondo, um encontro entre o general Ben-Ben e Higino Carneiro. Junto com o Tonet, colocámos a mesa de forma a que ninguém tivesse o sol na cara, as cadeiras no terreno irregular foram distribuídas de forma a que cada interlocutor estivesse à mesma altura do outro, ninguém devia ter de olhar para cima ou para baixo.
No regresso a Saurimo adormeci nos bancos em fibra do heli mesmo com as portas abertas. Um avião trouxe-nos de volta a Luanda nesse mesmo dia. O clima era de festa em Luanda. As pessoas queriam acreditar que era mesmo verdade.
Como é sabido, não foi assim. A guerra regressou após as eleições, apesar dos esforços para a evitar. Nenhuma cedência, nenhum compromisso foi suficiente. Contudo, em Luanda havia um GURN integrando políticos de um partido que estava em guerra contra o Governo. Um contra-senso difícil de conceber. Todavia prevaleceu algo muito importante: o multipartidarismo e a tolerância. Pontes reconstruídas para as eleições foram de novo destruídas, estradas desminadas voltaram a estar minadas. A violência da nova guerra foi inusitada. Pouco países, poucos povos terão sido sujeitos a uma tal violência. A destruição foi viciosa. Os meios de produção, a economia foi destruída ficando totalmente dependente do petróleo.
Quando em 2002, primeiro em Março, depois a 4 de Abril, a Paz foi formalizada, o país estava intransitável. Os meios de produção destruídos, quer directamente pela guerra quer indirectamente pela impossibilidade de ter energia, de ir trabalhar. A agricultura havia desaparecido. Antes de 1975 Angola era auto-suficiente em produção agrícola, desde a Independência, com as ingerências norte-americana e sul-africana, a vida no campo foi-se tornando impossível. As populações tiveram de fugir para as cidades para onde, durante anos, o Governo enviou bens alimentares.
Acabada a guerra, a herança era pesada. A situação das infra-estruturas rodoviárias (estradas, pontes e aquedutos), ferroviárias (linhas, pontes, pontões), água e energia, era particularmente gravosa e não era recuperável a curto ou médio prazo. As estradas, asfaltadas ou em terra batida, foram destruídas pela acção directa da guerra e indirectamente pela impossibilidade de proceder a quaisquer manutenções. Estradas e pontes foram destruídas mais de uma vez. Em 2005 cerca de 64 mil quilómetros de estradas asfaltadas, terra batida ou picadas estavam, segundo dados do PNUD, interditadas por minas ou eram suspeitas de poderem estar contaminadas. Acrescentem-se as pontes rodoviárias e as pontes e pontões das linhas-férreas.
À destruição directa causada pela guerra somou-se a degradação de equipamentos derivada da ausência de técnicos ou sobressalentes para os quais a economia de guerra não deixava margem financeira para aquisição. Daí que, em muitas províncias, equipamentos de vário género, sobretudo na área da produção local de electricidade, se tenham degradado ao ponto de necessitarem de substituição no final da guerra. Uma outra destruição que não serviu quaisquer propósitos tácticos ou estratégicos foi a destruição de escolas, postos e centros de saúde e hospitais.
A remoção das minas, armadilhas e outros engenhos explosivos não só foi e ainda é uma operação difícil e extremamente onerosa como exige meios em quantidade e qualidade. O custo da operação de desminagem variava em 2004 entre os três a quatro dólares por metro quadrado numa operação manual, 1,5 a 2,5 dólares por metro quadrado na operação mecânica. A ordem de grandeza da minagem e os custos financeiros e humanos da remoção de minas e UXO, tornam este sector o mais gravoso da guerra que terminou em 2002.
A herança foi excessivamente pesada, mesmo para um país que pode produzir mais de dois milhões de barris de petróleo por dia. Por quantificar ficam os custos sociais. A imensidão de desenraizados que não tem qualquer ligação à terra de origem dos pais e até dos avós, que nasceu e cresceu por entre as contingências da guerra, sem a sentirem enquanto conflito armado, nos subúrbios das cidades, em especial de Luanda. A recuperação dessa massa humana não terá custo.
A guerra acabou há 10 anos mas tenho dúvidas que as suas sequelas não se prolonguem bem para além da minha vida. Tive no entanto o prazer de voltar a poder viajar de carro até ao Huambo, Uíge, Benguela, Namibe e por aí fora. Mas a normalidade desejável está ainda a alguma distância. 

No comments: