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Friday, May 18, 2012

CARDEAL DO NASCIMENTO ELUCIDA A LENDA DE TER SIDO AUTOR DA PRIMEIRA LEI CONSTITUCIONAL

De facto, chegou a produzir um esboço entregue a Nito Alves para remeter a Agostinho Neto, mas a sequência é outra cantiga.

Aconteceu nas vésperas da independência, segundo o próprio Cardeal Alexandre do Nascimento, ora emérito e, naquela época, apenas uma das figuras sacerdotais soltas pelo 25 de Abril. O esclarecimento consta do prefácio, subscrito por si, no livro “Experiência Constitucional Angolana e a Justificação dos Direitos fundamentais”.

«Por  sinal, o título avizinha-se de um trabalho por mim escrito pelos finais dos anos 60, quando aluno do Professor Marcelo Caetano, na Faculdade de Direito de Lisboa. Confesso que já então eu pensava na Constituição de Angola, e até cheguei a falar com o Dr. Agostinho Neto, sobre a intenção de redigir um esboço da nossa Lei de Nacionalidade. Por ocasião do histórico encontro de Nakuru, Nito Alves, um dos integrantes da delegação angolana, foi portador do texto a que me refiro. Daqui a lenda de que eu sou um dos autores da nossa Primeira Constituição», elucidou Sua Eminência.

E completou com a seguinte achega pessoal: «A verdade, porém, é que ordenado Bispo, os problemas inadiáveis do governo de uma Diocese obrigaram-me a pôr de parte os intentos de contribuir para o Projecto da nossa Primeira Lei Constitucional. Afinal sempre me ficou no ânimo como um voto não realizado. – Não há muito, a nossa Assembleia Nacional brindou o País com um texto, que nos honra. Refiro-me à Constituição da República de Angola, há pouco promulgada».   

Ordenado sacerdote a 20/12/ 1952, em Roma, o então Reverendo Alexandre do Nascimento foi consagrado bispo a 31 de Agosto de 1975. A 3/2/1977, ascendeu a Arcebispo e ao Cardinalato em 2/2/1983.

Cada homem é PESSOA

Da autoria do padre António Lungieky Pedro Bengui, o livro “Experiência Constitucional Angolana e a Justificação dos Direitos fundamentais” foi lançado terça-feira última numa sala da Universidade Católica de Angola (UCAN).

O seu teor exime os principais momentos da legislação normativa de Angola desde a colonização, incluindo «uma avaliação complexa dos direitos fundamentais, expressos na Lei Constitucional da II República de Angola de 1992».

O autor acha problemática a falta de observância e aplicação dos princípios sancionados na Lei Mãe.
Daí, a sua tese de que «os direitos humanos são um factor de desenvolvimento  (…) os instrumentos legais (…) não devem ser peças de museu, mas verdadeiro instrumento para a convivência pacífica».

«Se existe uma outra (via mestre de elaboração de novos textos), pensamos naquela que passa pela CONSCIÊNCIA de que todos devem contribuir a defender que o homem é garantido verdadeiramente somente quando todos os direitos que lhe vêem reconhecidos sejam reconduzidos a um único, estável e fundamental: o direito de ter os direitos, e reconhecer que cada homem é PESSOA –imagem e semelhança de Deus!», concluiu o autor da obra.

De 108 páginas, editada na ‘Mayamba’, está a venda na praça ao preço de 2 mil Kwanzas.

Nascido em Damba – Uije  a 12/12/1973, P. Lungieki é licenciado em Direito Civil e Canônico pela Pontifical Universidade Lateranense de Roma. Cumula actualmente os cargos de Chanceler da Arquidiocese de Luanda, Vigário Paroquial, Assistente da Santa Casa da Misericórdia e Professor no Seminário Arquidiocesano.

O lançamento foi presenciado, além do público, pelo Cardeal, o Núncio Apostólico, o vice-presidente da CEAST, o Arcebispo de Luanda e Reitor Magnifico da UCAN e o Bispo auxiliar da mesma Arquidiocese.

TOMÁS APRENDE A LER

Tomás sabia fazer uma vala com troncos de árvore ou cozinhar uma tortilha, mas não sabia ler. Fazia uma mesa de uma árvore e um xarope da sua seiva, mas não sabia ler. Tomás sabia tratar dos tomates, dos pepinos e das maçarocas de milho, mas não sabia ler. Conhecia as pegadas dos animais e os sinais das estações do ano, mas não conhecia as letras nem as palavras. Um dia disse ao seu irmão, José:

— Quero aprender a ler.

— Já estás velho para isso, Tomás — respondeu-lhe José. — Tens filhos e netos e sabes fazer quase tudo.

— Mas não sei ler — insistiu Tomás.

— Já que queres, então aprende! — disse José.

— Quero aprender a ler — disse Tomás a Júlia, sua mulher.

— És um homem maravilhoso, tal como és — respondeu Júlia, fazendo-lhe uma festa.

— Mas ainda posso ser melhor — replicou ele.

— Então aprende! — disse a mulher, a sorrir, enquanto tricotava. — Assim, poderás ler para mim.

— Quero aprender a ler — disse Tomás ao seu velho cão pastor.

O cão fitou-o e depois deitou-se no tapete a seus pés. Tomás começou a pensar: “Como é que vou aprender a ler? O meu irmão não me pode ensinar. A minha mulher não me pode ensinar. Este cão velho também não me pode ensinar. Como é que eu vou aprender?” Pensou durante algum tempo até que, por fim, sorriu.

No dia seguinte, levantou-se ao nascer do sol e fez o trabalho da quinta. Depois do trabalho, lavou a cara e as mãos, penteou o cabelo e a barba, e vestiu a sua camisa preferida. Comeu umas torradas e preparou uma sandes. Depois, despediu-se de Júlia com um beijo e saiu de casa. Pelo caminho encontrou um grupo de meninos e meninas que, à sombra das árvores, se dirigiam para o mesmo local. Quando as crianças entraram na escola, Tomás entrou também. Ao vê-lo, a Professora Garcia sorriu.

— Quero aprender a ler — disse Tomás.

Ela indicou-lhe um lugar vago e ele sentou-se.

— Meninos e meninas — anunciou a professora — hoje temos um novo aluno.

Tomás começou pelas letras e seus sons. Alguns meninos ajudaram-no. No recreio, sentou-se debaixo de uma árvore e ensinou algumas crianças a imitar o canto do melro e o grasnar do ganso. E contou-lhes histórias.

Depressa Tomás aprendeu palavras. Todos os dias copiava os exercícios no caderno, com esmero. Gostava muito que a professora ou as crianças mais velhas lessem em voz alta, na aula. Por vezes, desenhava enquanto ia ouvindo. Tomás ia aprendendo, mas também ensinava. Ensinou os meninos a talhar madeira com uma navalha. E a professora aprendeu com ele a fazer compota de maçã e a assobiar.

Ao fim de algum tempo, Tomás já era capaz de juntar palavras e escrever histórias sobre como salvara um pequeno esquilo, como tomara um banho no rio e como conhecera a sua mulher.

À noite, Júlia ficava a vê-lo fazer os exercícios na mesa depois da ceia.

— Quando é que vais ler para mim? — perguntava-lhe.

— Quando chegar a ocasião — respondia o marido.

Um dia, Tomás trouxe da escola um livro de poemas que falava de árvores, nuvens, rios e gazelas velozes, e guardou-o debaixo da almofada. Nessa noite, quando Júlia e ele foram para a cama, pegou no livro.

— Ora escuta — pediu.

E leu um poema sobre pétalas suaves e o doce perfume das rosas e outro sobre ondas que se esbatiam na orla do mar. Terminou a leitura com um poema de amor.

Júlia olhou o marido nos olhos.

— Oh, Tomás! — disse. — Também quero aprender a ler.

— Amanhã, depois do pequeno-almoço, querida! — respondeu ele a sorrir, apagando a luz.

Jo Ellen Bogart
Tomás aprende a leer
Barcelona, Editorial Juventud, 1998

(Tradução e adaptação)

Materia vita spirito Teologia e scienze naturali a confronto di Clara Caverzasio Tanzi



(foto iStock)
Il dialogo tra teologia e scienza è sempre stato problematico e spesso, come oggi, unidirezionale: la teologia sembra essere interessata alla scienza, mentre la scienza sembra molto meno interessata alla teologia. Singoli scienziati possono affrontare temi religiosi, ma è più difficile trovare il riscontro di un contributo positivo della teologia alla ricerca scientifica.
Ma che tipo di circolazione intellettuale, di confronto e di scambio, ci può essere tra la teologia e la scienza? E in particolar modo tra discipline come la Fisica, la Biologia e le Neuroscienze che con le loro acquisizioni stanno rivendendo il concetto stesso dell’uomo, della sua responsabilità, della sua libertà, così come il concetto stesso di vita e di morte? In che misura possono offrire contributi alla riflessione teologica? E per converso quali possono essere gli stimoli della Teologia alla Scienza contemporanea?
Per rispondere a queste e ad altre domande il 17 e 18 maggio a Torino si sono incontrati teologi con competenze in ambito scientifico e scienziati, o filosofi, con posizioni opposte: alcuni “dialoganti” con la teologia e il discorso cristiano, altri più propensi a negare qualsiasi compatibilità tra fede e scienza. Obiettivo: valutare possibilità e limiti della reciproca interazione, e comprendere se il discorso scientifico più avanzato sia coniugabile con questioni teologiche fondamentali.

In sintesi

  • Il giardino di Albert
  • domenica 20 maggio 2012
  • ore 10:35 (replica alle ore 22:35)

Sunday, May 13, 2012

A Criança Misteriosa

Era uma vez um senhor do campo chamado Thaddeus de Brakel. Tinha herdado do pai a pequena propriedade de Brakelheim e aí vivia muito sossegado, amado por todos, numa casa pequena mas confortável, com a mulher, o filho Félix e a filha Christlieb.
Uma certa manhã, a família levantou-se muito cedo. A mulher de Sir Thaddeus fez um grande bolo cheio de amêndoas e uvas. Sir Thaddeus vestiu o seu melhor casaco verde, e Félix e Christlieb vestiram as suas melhores roupas, pois iam chegar uns nobres visitantes: o Conde Cyprian de Brakel, primo de Sir Thaddeus, mais a sua mulher e filhos.
Estava um dia lindo, e Félix e Christlieb tinham pena de não poderem ir brincar para a floresta. Em vez disso, tinham de ficar em casa à espera dos visitantes.
Chegaram por fim, numa carruagem luxuosa. O Conde e a sua família tinham maneiras polidas e vestiam roupas caras: o pequeno Hermann usava calças compridas, um chapéu com uma pena e trazia consigo uma curta e cintilante espada, e a saia da irmã Adelgunde tinha muitos laços e fitas.
Infelizmente, os quatro primos não se entendiam muito bem. Os filhos do Conde eram atrevidos e arrogantes. Sabiam tudo sobre história, geografia, zoologia e até sobre astronomia, e gostavam de exibir os seus conhecimentos, enquanto Félix e Christlieb, que tinham crescido livres na floresta, sentiam-se desajeitados e constrangidos diante deles. A Condessa ficou espantada com tal ignorância, e o Conde prometeu a Sir Thaddeus e à mulher enviar um tutor para transmitir um pouco de saber aos seus filhos, dizendo-lhes que tal não lhes custaria absolutamente nada.
Em seguida, o cocheiro entrou com duas grandes caixas. Adelgunde e Hermann entregaram-nas a Christlieb e Félix.
– Aqui tens alguns brinquedos, meu querido primo! – disse Hermann ao primo, fazendo-lhe uma vénia.
Félix ficou atrapalhado, sem saber o que dizer, assim como a irmã, que estava mais perto do choro do que do riso. Apesar disso, a caixa que Adelgunde lhe oferecera cheirava tão bem, que parecia estar cheia de guloseimas. Sultão, o fiel cão de Félix, começou a ladrar e a saltar, e Hermann, que estava muito amedrontado, correu até à outra ponta da sala e começou a soluçar.
– Ele não te faz mal! – disse Félix ao primo. – Não é preciso gritares dessa maneira. – É só um cão e, mesmo que ele te atacasse, tens uma espada, não tens?
Mas Hermann continuou a soluçar até à chegada do cocheiro, que pegou nele ao colo e o levou para a carruagem. Adelgunde também começou a chorar sem razão aparente. Depois, o mesmo fez a pobre Christlieb, e foi ao som de três crianças a chorar que os nobres visitantes partiram.
Mal a carruagem partiu, Sir Thaddeus despiu o seu belo casaco verde e vestiu o de todos os dias. Passou um pente sobre o cabelo e deu um grande suspiro.
– Meu Deus, obrigado por tudo! – disse.
As crianças também despiram os seus belos fatos, sentindo-se libertas e felizes.
– Vamos até à floresta! – gritou Félix.
– Não querem ver os presentes? – perguntou a mãe. Christlieb, que estivera a observar curiosamente as caixas, achou boa ideia, mas Félix não estava assim tão certo.
– Huh! – disse. – Como é que o primo pode ter trazido alguma coisa engraçada? Ele só fala de leões, ursos, elefantes, e depois tem medo do Sultão! A chorar e a soluçar escondido debaixo da mesa, e com uma espada!
– Oh, Félix, meu querido, vamos dar uma espreitadela às caixas! – disse Christlieb.
Félix, que fazia tudo para lhe agradar, concordou. A mãe abriu as caixas e – bem, queridos leitores, só desejo que todos tenham a sorte de ter tantos presentes maravilhosos da vossa família e amigos, no Natal ou no vosso aniversário! Lembram-se de como gritaram de alegria ao verem uns lindos soldadinhos ou os divertidos bonecos mecânicos com um realejo? As bonecas bem vestidas e os coloridos livros de desenho? Pois foi como Félix e Christlieb se sentiram diante daquelas caixas a abarrotar de brinquedos maravilhosos e de guloseimas.
– Oh, que maravilha! – gritavam eles, batendo palmas.
O brinquedo de que Félix mais gostou foi de um forte caçador que levantava a espingarda e apontava para um alvo, quando se lhe tocava nas costas do casaco. A seguir, o melhor foi um pequeno boneco que se inclinava e tocava uma linda melodia numa harpa. Havia uma pistola, uma faca de caça, ambas feitas de madeira e pintadas de prateado, assim como um boné de hussardo e um cartucho de uma pequena espingarda. Quanto a Christlieb, estava fascinada com uma linda boneca e um conjunto de panelas e sertãs. As duas crianças esqueceram-se completamente da ida à floresta e brincaram com os brinquedos novos até serem horas de deitar.
No dia seguinte, tiraram novamente os brinquedos das caixas para brincarem. Lá fora, na floresta, o sol brilhava, os pássaros cantavam e, de repente, Félix gritou:
– Oh, Christlieb, lá fora é mais divertido! Podemos levar os brinquedos!
No entanto, os brinquedos, comparados com as belezas da Natureza, não eram tão interessantes, e as crianças ficaram impacientes e brincaram tão desajeitadamente com eles, que alguns se partiram, incluindo o caçador e o tocador de harpa.
– Vamos fazer uma corrida! – disse Félix.
– Oh sim! – exclamou Christlieb. – E a minha boneca também vai!
E assim, cada um agarrou num braço da boneca e desataram a correr pelo meio dos arbustos, descendo a colina até chegarem a um lago rodeado por altos juncos, onde Sir Thaddeus por vezes caçava patos bravos.
– Porque não paramos um pouco? – perguntou Félix. – Talvez eu mate um pato, como o pai. Afinal até tenho uma pistola!
Mas Christlieb gritou:
– Oh, a minha boneca! O que aconteceu à minha boneca?
Claro que a boneca estava em mau estado. Durante a corrida, as crianças tinham-se descuidado. As roupas estavam espalhadas pelos arbustos e a boneca tinha as pernas partidas. A sua bonita cara de cera estava feita em pedaços.
– A minha boneca! – gemeu Christlieb. – A minha boneca!
– Bem, já vês as coisas estúpidas que os primos nos deram! – disse Félix.
– A tua boneca nem serve para fazer uma corrida connosco. Vá lá, dá cá a boneca!
Triste, Christlieb entregou-lhe a boneca toda estragada, e não conseguia parar de chorar.
– Oh, não! – disse, quando ele a atirou para o lago.
– Anima-te! – consolou-a Félix. – Não chores por causa de uma boneca tão estúpida! Se eu apanhar um pato, dou-te as penas mais bonitas das asas!
Nesse momento surgiu um ruído vindo dos juncos e Félix apontou a sua pistola de madeira, mas baixou-a quase de imediato.
– Sou maluco – disse. – É preciso pólvora e balas para carregar uma pistola e eu não tenho nem uma coisa nem outra, e mesmo que tivesse, como é que ia carregar uma pistola de madeira? A faca de caça também não serve. Não corta! Digo-te uma coisa – o Primo Baggy Breeches está a gozar comigo! Os brinquedos parecem muito bons mas não prestam para nada!
E dizendo isto, Félix atirou ao lago a pistola, a faca e os cartuchos. Quando regressaram a casa, a pobre Christlieb ainda chorava pela boneca e Félix estava de muito mau humor. Quando a mãe lhes perguntou:
– Mas onde estão os vossos brinquedos, meninos?
Félix contou como ele e Christlieb tinham sido enganados pelo caçador, pelo tocador de harpa, pela pistola, a faca e a boneca.
– Meu Deus! – disse a mãe pausadamente. – Vocês não sabem brincar com coisas tão bonitas e frágeis como aquelas!
Contudo, Sir Thaddeus disse:
– Deixa as crianças. Fico contente por vê-las livres daqueles brinquedos que só as baralhavam!
E nem a mãe nem as crianças perceberam o que é que Sir Thaddeus pretendeu dizer!
No dia seguinte, Félix e Christlieb foram bem cedo para a floresta. A mãe disse-lhes que não regressassem muito tarde, pois tinham de estudar alguma coisa, para não se sentirem tão envergonhados quando o tutor chegasse.
– Vamos brincar enquanto podemos! – disse Félix e, começaram a brincar às caçadinhas. Pouco tempo depois, estavam cansados e mudaram de brincadeira. Nada corria bem. O boné de Félix voou e ele apanhou-o com agilidade e endireitou-o. Christlieb tirou alguns espinhos da saia e deu um pontapé num tronco.
– É melhor irmos para casa – disse Félix, de mau humor. Mas, em vez disso, sentou-se à sombra de uma grande árvore e a irmã fez o mesmo. Aí ficaram ambos a olhar tristemente para o chão.
– Oh, mano – suspirou Christlieb – se ao menos ainda tivéssemos aqueles brinquedos tão bonitos!
– Não serviriam para nada – murmurou Félix. – Íamos partir os bonecos outra vez! A mãe tinha razão, Christlieb. Não havia nada de errado com aqueles brinquedos. Nós é que somos tão ignorantes que nem soubemos brincar com eles!
– Sim – concordou Christlieb. – Se fôssemos espertos como os nossos primos, tu ainda tinhas o caçador, o tocador, e aquela linda boneca não estaria agora no fundo do lago! Oh, por que é que somos tão desajeitados e ignorantes?
Começou a soluçar e Félix juntou-se a ela. Choraram ambos bem alto, lamentando-se:
– Se não fôssemos tão ignorantes!
De súbito, pararam de chorar e entreolharam-se espantados.
– Estás a ver aquilo, Christlieb? – perguntou Félix.
– Estás a ouvir aquilo, Félix? – perguntou Christlieb.
 
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria - Baltar

Os doze irmãos


Em tempos idos, pensava-se que cada um dos Doze Dias de Natal, de 26 de Dezembro a 6 de Janeiro, funcionava como um prenúncio do que os doze meses do ano seguinte viriam a ser. As pessoas analisavam o tempo meteorológico desses doze dias e faziam previsões, jogos, trocavam histórias, e divertiam-se, com o intuito de que o novo ano fosse benéfico.
Esta história da República Checa recorda-nos que cada mês do ano é especial, e que o conjunto dos doze meses formam o círculo, ou ano. A mudança das estações reflete o ciclo da existência humana, começando pelo início da vida (solstício de inverno), e passando pela infância (primavera), a idade adulta (verão), a maturidade (outono), a velhice e a morte (de novo o inverno).
O destino das duas irmãs da história recorda-nos também que uma vida que respeita a Natureza contém as suas próprias recompensas, enquanto uma vida que a desrespeita pode acarretar consequências desastrosas.


* * *

Numa floresta longínqua, viviam uma viúva e duas raparigas. Uma era a sua filha, Holena, e a outra era a sua enteada, Marusha.
Holena era feia e mimada, enquanto Marusha era bonita e tinha de desempenhar as tarefas todas. Era ela quem ia ao poço, todas as madrugadas, buscar água, quem esfregava e cozinhava, e quem fiava e tecia até ao anoitecer.
À medida que as raparigas iam ficando mais velhas, a reputação de Marusha como jovem bela e trabalhadora ia crescendo, enquanto a reputação de Holena como moça indolente aumentava. Em breve a viúva deu-se conta de que, a não ser que a enteada saísse de casa, ninguém iria casar com a preguiçosa Holena. Num dia de inverno rigoroso, a madrasta chamou Marusha e disse-lhe:
— A tua irmã quer violetas. Vai buscar-lhe algumas.
Era sua intenção que a enteada fosse devorada pelos lobos esfaimados que costumavam errar pela floresta.
— Mas onde vou eu encontrar violetas em pleno inverno? — exclamou Marusha, enquanto a empurravam para fora de casa, envergando ela apenas um fino vestido.
A tremer, devido ao vento agreste do norte, Marusha caminhou até ao cair da noite, cheia de medo do uivar dos lobos, que pareciam aproximar-se cada vez mais. Estava quase a desistir da busca, a deitar-se na neve e a adormecer para sempre, quando se apercebeu do cintilar de uma luz no cimo da colina. Então, cambaleou até à luz acolhedora na esperança de encontrar abrigo.
Contudo, quando Marusha atingiu o cume da encosta, recuou, espantada. A cena com que deparou era diferente de tudo o que presenciara até então, e parecia uma história dos tempos antigos.
Diante dela ardia uma enorme fogueira. À volta, sentados em silêncio num círculo de doze pedras, doze homens fitavam-na. Também eles não se pareciam com nenhum homem que Marusha vira antes. Três eram idosos, com longas barbas brancas, e vestiam de azul--escuro. Os três vestidos de púrpura eram de meia-idade e outros três vestiam de escarlate. Os três mais jovens vestiam de branco e verde. Na pedra maior de todas, estava sentado o mais velho de todos, com um bordão na mão.
Marusha fez-lhe uma vénia respeitosa e pediu:
— Por favor, senhor, será que posso aquecer-me junto da fogueira?
O velho respondeu numa voz grave:
— Quem és tu, minha filha, e porque caminhas pela floresta à hora a que os lobos vagueiam?
Marusha falou-lhe das violetas e o velho disse:
— Vieste ter ao lugar certo, pois somos os Doze Irmãos do ano. Eu sou Janeiro, chefe de todos os outros. Não posso dar-te violetas, mas o meu irmão Março pode.
O velho Janeiro levantou-se e cedeu o lugar a um dos jovens de branco e verde. Mal este se sentou no lugar do chefe, a neve em torno deles derreteu. Despontaram, então, árvores e violetas.
— Depressa, leva-as contigo! — ordenou o jovem Março, com uma voz tão penetrante como o vento.
A rapariga colheu as violetas e, depois de lhe agradecer, correu de volta para casa.
A viúva olhou, incrédula, para as flores de cor púrpura que a enteada trazia nas mãos.
— Onde encontraste violetas em Janeiro? —quis saber.
— Acolá, na colina — respondeu a rapariga.
Uns dias mais tarde, a viúva tentou um novo estratagema. Desta vez disse:
— A tua meia-irmã precisa de morangos. Vai e não voltes sem eles!
E empurrou Marusha para fora de casa, sem que esta tivesse os sapatos calçados. A madrasta achava que, apesar de ter sido possível encontrar algumas violetas por entre a neve, não haveria decerto morangos nenhuns.
E a rapariga regressou para junto das figuras silenciosas que circundavam a fogueira na colina. Os Doze Irmãos escutaram em silêncio o seu pedido e, de novo, o velho Janeiro pediu a um irmão mais jovem que tomasse o seu lugar. Mal Junho, vestido de escarlate, se sentou no lugar do chefe, espalhou-se pela colina um Verão glorioso. As abelhas começaram a zumbir em torno das flores brancas dos morangueiros, que logo desabrocharam e originaram frutos maduros.
— Leva os que quiseres — disse Junho, soltando uma gargalhada alegre.
Marusha colheu os frutos e agradeceu a Junho a sua bondade. Quando regressou a casa, deu os morangos a Holena, que os comeu avidamente.
— E, já agora, onde encontraste estes? —perguntou a viúva, com o olhar desconfiado.
— Sob as árvores do abrigo da montanha —foi tudo o que Marusha lhe respondeu.
Alguns dias mais tarde, Holena pediu maçãs à mãe, que enviou a enteada em busca delas, sem sequer um lenço para proteger-lhe a cabeça. O vento soprava ainda mais fortemente e a neve estava cheia de cristais de gelo. À medida que caminhava com custo, Marusha tentava não prestar atenção aos olhos brilhantes dos lobos por entre as árvores escuras. Quando chegou ao topo da colina, pela terceira vez, pediu de novo ajuda aos Doze Irmãos. E, de novo, Janeiro cedeu o seu lugar, desta vez ao magnífico Setembro, vestido de púrpura. De repente, ei-los rodeados pelo Outono. As folhas ficaram de cor laranja, amarela e vermelha, e uma macieira carregou-se de frutos.
— Abana-a, minha filha — encorajou-a Setembro, com um sorriso doce e uma voz madura.
Marusha abanou a árvore e caíram duas maçãs perfeitas. Depois de agradecer a Setembro a sua amabilidade, a rapariga levou as maçãs para casa. Holena engoliu as maçãs num ápice e pediu mais, pois tinha-as achado ainda mais deliciosas do que os morangos. Enquanto a viúva congeminava novas formas de se livrar da enteada, Holena pediu à mãe:
— Mãe, empresta-me o teu melhor casaco de pele e as tuas luvas. Tenho a certeza de que a Marusha guarda a maior parte da fruta para ela e quero ir procurar o seu esconderijo.
Depois de muito protestar, a viúva acabou por aceder ao desejo da filha. Holena embrulhou-se no casaco de pele com carapuço e saiu de casa. A arfar, e com o nariz vermelho do frio, atingiu, por fim, o topo da colina. Sem sequer cumprimentar os Doze Irmãos, ou pedir-lhes permissão, aproximou-se da fogueira para se aquecer.
O velho Janeiro perguntou:
— Quem és tu, minha filha, e o que queres de nós?
Holena sacudiu a cabeça e respondeu:
— O que eu quero não é da tua conta, velho tonto!
Janeiro, com a barba branca cheia de gelo, levantou-se, zangado, e lançou um grito que mais parecia o prolongamento dos ventos sibilantes do inverno. Holena caiu de costas, aterrorizada. Mal o velho volteou o seu bordão em torno da cabeça da rapariga, começaram a cair enormes flocos de neve. Holena fugiu do círculo de pedras e foi em busca do lugar de onde viera. Mas os flocos tinham coberto as suas pegadas e ela não conseguia encontrar o caminho. Enquanto fugia da raiva do velho, a neve ia-se acumulando em seu redor. Acabou por cair num buraco fundo, que a soterrou.
Em casa, a viúva aguardava, cada vez mais ansiosa, o regresso da filha. Vestiu o seu segundo melhor casaco de pele, calçou as segundas melhores luvas, e foi em busca de Holena. Como a fúria de Janeiro ainda não tinha abrandado, a tempestade de neve durou a noite inteira e nunca mais ninguém viu a viúva ou a filha.
Marusha continuou a ser diligente: fez o jantar, deu de comer à vaca e encheu o fuso de linha. Quando a madrasta e a meia-irmã não voltaram à noite, foi à janela ver o tempo: a neve tinha cessado e as estrelas cintilavam no céu limpo, no silêncio da noite. Curiosamente, não sentia medo ou solidão, porque sabia que os Doze Irmãos tomavam conta do ano.
Viveu sempre com as bênçãos deles no seu coração e, quando se casou e foi mãe, ensinou os filhos a ver cada mês como um tio, com diferentes prendas para oferecer, e a agradecer sempre as graças próprias de cada estação do ano.

Caitlín Matthews; Helen Cann
Fireside Stories
Bath, Barefoot Books, 2007
(Tradução e adaptação)

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Saturday, May 05, 2012

Mãos de mãe

Noite após noite, a minha mãe vinha aconchegar-me, mesmo quando eu já deixara há muito de ser criança. Tal como outrora, inclinava-se sobre mim, afastava o meu cabelo comprido e beijava-me a testa.
Não me lembro de quando o gesto das suas mãos a afastar o meu cabelo começou a irritar-me. Mas aborrecia-me deveras que ela passasse as mãos ásperas e gastas pelo trabalho sobre a minha pele macia. Uma noite gritei, zangada:
Não faças mais isso! As tuas mãos são muito ásperas!
A minha mãe não disse nada, mas nunca mais aquele gesto de amor rematou os meus dias. Continuei acordada muito tempo depois de ter proferido aquelas palavras, que agora me perseguiam. Contudo, o orgulho abafou a consciência e não consegui dizer-lhe o quanto lamentava tê-las proferido.
Os anos foram passando, sem que a memória daquela noite se apagasse. O incidente, que ora parecia recente ora se afigurava longínquo, nunca me saiu da mente e eu comecei a ter saudades daquele gesto que reprimira.
Hoje a minha mãe já ultrapassou os setenta anos e as mãos que outrora achei tão ásperas ainda trabalham para mim e para os meus. É ela que tem sido a nossa médica, ao procurar no armário o remédio para aliviar uma dor de estômago ou de um joelho ferido dos mais novos. É ela que faz o melhor frango frito do mundo, que tira as nódoas das calças de ganga como eu nunca consegui, que ainda insiste em servir gelado a qualquer hora do dia ou da noite. Ao longo dos anos, as mãos da minha mãe trabalharam durante horas incontáveis, muito antes de haver máquinas de lavar e tecidos resistentes que não engelham.
Agora, os meus filhos já são crescidos e independentes e o meu pai já faleceu. Em ocasiões especiais, vou passar a noite com ela.
E foi assim que, numa véspera do Dia de Ação de Graças, quando eu começava a adormecer no quarto da minha infância, senti uma mão conhecida, que passava, hesitante, pelo meu rosto, para afastar o cabelo da minha testa. Quando um beijo, sempre igualmente gentil, pousou no meu sobrolho, recordei, pela milésima vez, a noite em que a minha voz jovem e ríspida soara indignada:
Não faças mais isso. As tuas mãos são muito ásperas!
Então, segurando a mão da minha mãe, disse-lhe o quanto lamentava aquela noite. Pensei que, como eu, ela se lembrasse... Mas a minha mãe não sabia do que eu estava a falar, pois há muito que tinha esquecido e perdoado.
Naquela noite, adormeci profundamente grata pela presença da minha mãe e pelo carinho das suas mãos.
E a culpa que eu tinha carregado durante tantos anos desvaneceu-se.
Louisa Godissart McQuillen
Jack Canfield, Mark Victor Hansen
A Second Chicken Soup for the Woman’s Soul
HCIbooks, Deerfield Beach, 1998
(Tradução e adaptação)