Total Pageviews

There was an error in this gadget

Thursday, February 05, 2015

Um Narciso Amarelo


Morris Kaplan vive num pequeno apartamento por cima de um restaurante muito frequentado. Todas as noites, os sons abafados de mesas a serem postas, de música a tocar, de pessoas a falar e a rir fazem-lhe companhia enquanto prepara e come o seu jantar e enquanto lê o jornal da tarde. Morris adormece com frequência na sua poltrona, junto à janela, com o jornal estendido sobre os joelhos, como se fosse um cobertor. Dorme lá toda a noite, ainda de roupão e chinelos.
De manhã, acorda cedo, mesmo antes de entregarem o leite e os legumes no restaurante. Veste-se com cuidado e come um pequeno-almoço de torradas, geleia e chá, que toma num copo. Depois sai, liga a carrinha e começa a longa viagem até ao mercado das flores.
Hoje, Morris caminha devagar por entre os enormes recipientes cheios de íris, margaridas, cravos, rosas e lírios. Inspira o ar cheio de fragrâncias. Escolhe um cravo vermelho numa das tendas. Passa a mão devagar pelas pétalas, examina o caule e afasta-se. Morris tem por hábito escolher apenas as flores mais frescas e bonitas para a sua loja.
Olha em volta. Os baldes, as tendas e as paredes são cinzentos e apagados. A maioria das pessoas está vestida com fatos escuros ou tem aventais. Só as flores emprestam algum colorido ao
mercado. Morris pensa num tempo distante, quando tudo à sua volta era escuro e triste. Numa manhã de Primavera, viu uma flor de um amarelo vivo a crescer num lugar estranho. A flor deu--lhe esperança e coragem. Morris acredita que essa flor lhe salvou a vida.
Enxuga uma lágrima e dirige-se a outra tenda, que tem baldes de rosas. Escolhe uma rosa e cheira-a. Depois sacode-a com gentileza.
Uma hora depois, a carrinha está cheia de flores. Morris regressa à loja e leva-as para dentro.
Ainda é muito cedo. São poucas as pessoas a passar diante da loja. Morris rasga um pedaço de um rolo de papel de embrulho e forra a sua mesa com ele. Coloca uns raminhos de gipsófila sobre o papel, seguidos de cravos brancos e vermelhos. Embrulha as flores e coloca o arranjo num recipiente. Rasga então um novo pedaço de papel.
Quando o recipiente está cheio, Morris coloca no frigorífico com porta de vidro os arranjos que acaba de fazer, juntamente com o resto das flores que comprou no mercado.
Lá fora, há mais pessoas a passarem diante da loja. As crianças vão a caminho da escola e Morris põe-se à porta a vê-las.
─ Sr. Kaplan! ─ chamam um rapaz e uma rapariga. ─ Bom dia! Bom dia, Sr. Kaplan!
Morris acena às crianças, que vêm ter com ele.
─ Hoje estamos atrasados. Não podemos parar para conversar. Voltamos mais tarde, no caminho de regresso a casa.
Morris sorri.
─ Bem sei. Hoje é sexta. Até logo.
Morris vê-as afastarem-se. Quando deixa de vê-las, entra na loja.
Logo entra uma cliente.
─ Queria um ramo bonito para o meu marido. Faz anos hoje.
Morris abre a porta do frigorífico e mostra-lhe os arranjos que fez. Também lhe mostra os baldes de rosas, cravos e crisântemos.
─ Levo doze cravos ─ diz a mulher. ─ Será que pode juntar brancos e vermelhos?
Enquanto Morris arranja as flores, a cliente olha em redor para os muitos vasos e plantas da loja. O florista mistura os cravos: seis vermelhos, seis brancos, e seis cor-de-rosa. Rasga uma folha de papel de embrulho e adiciona alguma gipsófila.
A mulher exclama:
─ Que bonito! Mas eu só queria uma dúzia de flores!
─ As flores brancas e vermelhas são um presente seu. As cor-de-rosa são o meu presente para o seu marido.
Ao início da tarde, as crianças começam a voltar da escola. A rapariga e o rapaz que cumprimentaram Morris de manhã entram na loja.
─ Olá, Sr. Kaplan ─ saúda a menina.
─ Olá, Ilana. Olá, Jonathan.
Ilana conta:
─ Hoje tivemos teste a Matemática. Era sobre fracções. Foi difícil. E também tivemos um
ditado. Mas isso foi fácil.
Tira uma bolsinha da mochila.
─ Precisamos de algumas flores. Só nos sobraram dois dólares das mesadas. Podia vender--nos algumas flores velhas? São só para hoje e amanhã.
Morris diz, a sorrir:
─ Eu sei. Têm de estar bonitas para o Sabbath.

Shabbat
─ corrige Ilana.

Shabbat
─ repete Morris.
Abre o frigorífico e tira um dos arranjos que fez de manhã. Coloca-o sobre a mesa e rasga o papel de embrulho. Volta ao frigorífico para ir buscar alguns cravos vermelhos, cor-de-rosa e brancos, aos quais adiciona alguns crisântemos. Embrulha o arranjo em papel novo. Depois entrega-o a Ilana.
─ São muitas flores por dois dólares ─ comenta esta, enquanto dá o dinheiro a Morris.
Morris sorri:
─ Quando se compram flores velhas, leva-se maior quantidade.
É Dezembro e a noite cai cedo. Morris fica na loja até estar bem escuro. Antes de sair, verifica as flores que sobraram. Ainda há muitas para o dia seguinte.
Ainda bem. Ao sábado faz-se
muito negócio.
Guia de volta a casa. Vive perto da loja e podia ir a pé, mas gosta de ter a carrinha com ele, para o caso de necessitar dela. Nos seus quase quarenta anos de vida naquele apartamento e naquela loja, nunca teve de ir a correr a lado algum. No entanto, gosta de ter a carrinha por perto.
A neve cai durante toda a noite de domingo. Segunda de manhã, a caminho da loja, Morris ouve as notícias sobre o estado do tempo, sobre as condições de circulação nas estradas e
sobre o encerramento de algumas escolas. A escola de Ilana e de Jonathan está aberta. Morris fica contente. Tem saudades deles.
Uma vez na loja, faz mais arranjos de flores e depois vai até à porta, a tempo de ver as crianças irem para a escola.
No dia seguinte, de tarde, Jonathan e Ilana vêm à loja.
─ Gostávamos de comprar algumas flores ─ diz Ilana.
─ Mas hoje não é terça? ─ estranha Morris.
─ É.
─ Mas vocês compram sempre flores para o Sabbath. O Sabbath só começa sexta à noite.
─ Bem sei ─ sorri Ilana ─ mas hoje é a primeira noite do Hanukkah.
Morris abre a porta do frigorífico:
─ Escolham o que quiserem.
─ Só temos cinco dólares ─ avisa Ilana.
─ Escolham o que quiserem. Quando tiverem escolhido cinco dólares de flores, mando--vos parar.
Os irmãos escolheram flores suficientes para um grande ramo. Morris embrulhou-as e deu-as a Ilana.
─ Não celebra o Hanukkah? ─ perguntou Jonathan.
─ Não.
─ Celebra o Natal?
─ Não ─ respondeu Morris, suavemente. ─ Não celebro nenhum deles. Quando era rapazinho e vivia na Polónia, celebrava o Hanukkah. Mas isso foi há muitos anos.
Depois das crianças saírem da loja, Morris senta-se à mesa e pensa nos seus Hanukkah na Polónia. Foi há muito tempo que andou na escola, que estudou o Talmud e os outros livros sagrados. Lembra-se de ajudar o pai na alfaiataria, de acender velas no Hanukkah, e de receber algumas moedas como prenda. Pensa nos seus pais, no seu irmão, nas suas duas irmãs ─ e no que lhes aconteceu.
Na tarde seguinte, os irmãos vêm de novo à loja.
─ Não pode ser! ─ exclama Morris. ─ Compraram tantas flores ontem que não podem precisar de mais já hoje. Não murcharam, pois não?
Ilana respondeu:
─ De modo algum. As flores estão óptimas. São muito bonitas. Mas a Mamã disse que tínhamos de o convidar para nossa casa hoje à noite. Janta connosco e acendemos juntos as velas do Hanukkah.
─ Não posso. Tenho de ficar na loja.
─ A Mamã disse que podia vir depois de fechar.
Morris abana a cabeça.
─ Mas a essa hora já será tarde demais. Só fecho às oito.
─ Não faz mal. Nós esperamos sempre pelo Papá, que só chega depois das oito.
Antes de Morris retorquir de novo, Ilana escreve a morada num papel e diz-lhe:
─ Esperaremos por si, também.
Depois das crianças saírem, Morris olha em volta. Quer levar-lhes um presente, mas a família já tem flores. Pega numa taça de cerâmica da prateleira e coloca-a na mesa. É uma taça muito bonita. Olha para ela longamente. Depois abana a cabeça.
─ Somos parecidos. Estamos vazios. Tenho de arranjar uma bela planta para te encher.
Põe um vaso de hera dentro da taça. Amarra uma fita azul à planta. Começa a escrever um
cartão
Caros Sr. e Sra.…
Mas dá-se conta de que não sabe o nome de família das crianças. Pega
num outro cartão e escreve
Obrigado por me terem convidado para jantar. Morris Kaplan.
Nessa noite, fecha a loja mais cedo. Vai para casa, barbeia-se e muda de camisa. Pega na taça com a hera e conduz até à morada indicada no pedaço de papel. Ilana e Jonathan moram no apartamento 2C. O nome escrito na porta é Becker. Morris bate à porta. ─ Entre, entre ─ convida a Sra. Becker. ─ É o Sr. Kaplan, não é?
Morris entrega-lhe a taça com a hera e depois olha em redor. Há flores por todo o lado.
─ Deu tantas às crianças que não podíamos pô-las todas numa jarra.
Ilana e Jonathan estão junto da janela. Jonathan segura uma caixa de fósforos multicores e entrega-os, um a um, a Ilana.
─ Hoje quero que os meus sejam azuis ─ e dá três velas azuis a Ilana. Esta põe-nas no
candelabro (
menorah
) de Jonathan: duas à direita e uma no centro, um pouco mais elevado do
que os braços laterais.
─ Que cor quer? ─ pergunta Jonathan a Morris.
─ Vou só ficar a olhar ─ responde o velho florista.
─ Temos um candelabro só para si ─ informa Jonathan.
─ Obrigado, mas fico só a ver ─ declinou Morris.
Quando Ilana e Jonathan estão a acabar de preparar os candelabros, o pai chega. Cumprimenta Morris e depois todos se acercam da janela. O Sr. Becker reza as orações e acende as suas velas. Depois é a vez da Sra. Becker, de Ilana e de Jonathan. Cantam juntos
Ha-Nerut Hallalu
(Estas Velas) e
Ma’oz Zur
(Rochedo dos Tempos).
Enquanto as velas ardem, jogam um jogo de dados. Cada um põe uma passa coberta de chocolate no meio da mesa e deita os dados à vez, para ver a quem toca o doce. Quando Jonathan não está a lançar, está a comer.
─ Vamos jantar ─ sugere a Sra. Becker ─ antes que Jonathan coma todas as passas do jogo.
Ao jantar, Morris não pára de falar de flores. A sua favorita é o jacinto.
─ Encho uma taça com seixos e coloco um bolbo de jacinto em cima. Mantenho os seixos húmidos. Quando o jacinto floresce, delicio-me com a sua cor, beleza e cheiro.
─ Teve sempre um interesse assim tão grande por flores? ─ pergunta a Sra. Becker.
Morris olha para o prato e responde:
─ Não. Quando era novo, não havia flores à nossa mesa. Os meus pais estavam demasiado ocupados a pensar na vida. Éramos muito pobres.
Ergue a cabeça e continua:
─ Queria ser alfaiate, como o meu pai. Ele tinha umas mãos mágicas. Conseguia pegar num pedaço insípido de tecido e fazer dele um fato digno de um casamento. Mas veio a guerra e não pude pensar mais em tecidos ou fatos.
─ Serviu no exército?
─ Não.
─ Não viu soldados a lutarem?
─ Não.
─ Jonathan, não faças tantas perguntas ─ pediu a mãe.
Enquanto as crianças falam sobre a escola, Morris pensa nos Hanukkah que celebrou há muitos anos atrás.
Depois da sobremesa, Morris agradece a hospitalidade e sai. Uma vez em casa, vai ao armário e tira de lá uma caixa velha. Dentro desta estão um copo de metal, uma camisa rasgada, um chapéu de criança e um velho candelabro. Morris segura-o nas mãos e chora.
No dia seguinte, leva o candelabro com ele para a loja. Limpa-o e põe-no à janela. Olha-o com frequência durante o dia.
Nessa mesma noite, depois de fechar a loja, coloca o candelabro no assento dianteiro da carrinha. Enquanto guia, lembra-se da última vez que o usou. A irmã ajudara-o. Foi antes de os nazis terem vindo à sua aldeia e de o terem levado, juntamente com a família, para um gueto.
Mais tarde foram deportados para Auschwitz.
Morris lembra-se dos horrores daquele lugar. Lembra-se de que foi separado da família.
Uma manhã, quando já tinha perdido toda e qualquer esperança de sobreviver, viu uma pequena flor amarela, um narciso, que tinha desabrochado mesmo à porta do seu barracão. A chuva, que Morris amaldiçoara por causa da lama que trazia, tinha alimentado a flor, que agora
procurava o sol.
Se o narciso consegue sobreviver aqui, talvez eu também consiga,
pensou Morris.
Morris sabe que foi a sorte, mais do que qualquer outra coisa, que o salvou. Mas sente que aquela flor o salvou também.
Pára num semáforo vermelho e dá-se conta de que não vai na direcção de sua casa. Está à porta da casa dos Becker. Estaciona a carrinha, pega no candelabro e entra. Fica um pouco à porta do apartamento 2C antes de tocar à campainha. Olha para o candelabro e bate à porta.
─ Sr. Kaplan! Entre! ─ convida a Sra. Becker.
─ Este é o candelabro que eu usava quando era novo ─ diz-lhe Morris.
Senta-se à mesa e fala-lhes da família que perdeu e do narciso amarelo.
─ Depois da guerra não tinha para onde ir, por isso fui para casa. Estava lá outra família a viver. Estavam a usar a nossa mobília, as nossas panelas e pratos, e vestiam as nossas roupas. Não ficaram felizes por me ver, mas deram-me uma pequena caixa com as coisas que não queriam. O nosso candelabro estava nessa caixa.
Há lágrimas nos olhos de Morris.
─ Pensei que ia encontrar alguns velhos amigos na aldeia, mas não encontrei. Não tinha ninguém.
A Sra. Becker segura as mãos de Morris e diz-lhe:
─ Agora tem-nos a nós.
Morris põe o seu candelabro à janela. Jonathan dá a Ilana quatro velas. Esta põe-nas no candelabro. Os Becker ouvem com atenção enquanto Morris diz as orações, e observam-no a acender as velas para celebrar o Hanukkah.

David A. Adler
One Yellow Daffodil
Orlando, Voyager Books, 1999

A PATINHA E A DOBERMAN 
Embora Jessie, a nossa Doberman preta de quase quarenta quilos, tivesse um ar ameaçador — rosnava sempre que via estranhos e atacava todas as criaturas que aparecessem no pátio das traseiras — era uma cadela extremamente leal e amorosa connosco. Apesar de querermos ter um outro cão, achávamos que a Jessie estava melhor sozinha, porque tínhamos medo de que a inveja a fizesse atacar um qualquer animal que trouxéssemos para casa.
Quando, um dia, o nosso filho Ricky trouxe um ovo da escola, pressentimos que ia haver sarilho. O ovo tinha a ver com um projeto que envolvia a incubação e o nascimento de patos. Como não o ovo não abrira na escola, o professor tinha deixado trazê-lo para casa. O meu marido e eu não pensávamos que o ovo abrisse fora da incubadora, mas deixámos que o Ricky ficasse com ele. O nosso filho colocou-o num pedaço de relva ao sol e ficou à espera.
Na manhã seguinte, acordámos com um guincho bizarro vindo do pátio das traseiras. Quando fomos ver o que se passava, a Jessie tinha o focinho colado ao bico de uma patinha cor de pêssego, acabada de nascer.
— A Jessie vai engoli-la viva! — gritei para o meu marido. — Agarra-a!
Mas o meu marido disse:
— Espera. Dá-lhe tempo. Acho que vai correr tudo bem.
Quando a patinha piou, a Jessie rosnou e fugiu para a casota. A patinha seguiu-a. A cadela enroscou-se na sua cama, ignorando ostensivamente a pequena criatura. Contudo, como a pata já a tinha “adotado” como mãe, enfiou-se na cama dela e aconchegou-se debaixo do seu focinho. A Jessie bem tentou expulsá-la, mas a pata não se deixou intimidar. Com relutância, a nossa cadela lá aceitou o seu novo papel, não sem antes dar um grande suspiro. O nosso filho Ricky deu à patinha o nome de “Pêssego” e rogou-nos que a adotássemos. Embora a Jessie não mostrasse gostar de ter uma filha, também não tinha atitudes ameaçadoras para com ela, e, por isso, decidimos ficar com a patinha e dar tempo ao tempo.
 Nas semanas seguintes, e de forma surpreendente, a Jessie começou a levar a sério o seu papel de mãe. Quando a Pêssego começou a debicar o chão, a Jessie ensinou-a a escavar. Quando a Pêssego começou a perseguir bolas de ténis, a “mãe” ensinou-a a apanhá-las. E quando a Jessie se esparramava no sofá a ver o programa “Planeta Animal”, a Pêssego aconchegava-se debaixo do focinho dela. Após um ano inteiro de escavações, sonecas, e apanhadelas de bolas conjuntas, a Pêssego pesava oito quilos e parecia feliz no seu papel de “cachorrinha” da Jessie. Um dia, porém, a Pêssego deu-se conta de que era uma pata. Começou a pôr ovos uma vez por dia e tornou-se obcecada por água. Durante as refeições, enquanto a Jessie comia, a Pêssego chapinhava numa tina de água.
Certa noite, a Jessie ficou frenética porque a Pêssego desaparecera. Pensámos que tinha sido algum coiote a levá-la, enquanto a Jessie dormia. A nossa cadela ladrou e uivou, como o faria qualquer mãe angustiada que perdesse um filho. Depois de uma busca aturada pela vizinhança, decidimos desistir. Nessa altura, a Jessie correu para o pátio de um vizinho. Seguimo-la e vimos a Pêssego a tomar um bela banhoca quente numa banheira. A Jessie saltou para dentro da casa do vizinho e foi buscá-la. Por muito que quiséssemos conservar a Pêssego connosco, era óbvio que ela precisava de “abrir as asas” e de se juntar ao mundo dos patos. O Ricky atou uma fita vermelha à perna da patinha, colocou “mãe” e “filha” dentro do carro, e fomos até um lago próximo. Durante a viagem, a Jessie aninhou-se junto da Pêssego e lambeu-lhe a cabeça. Era como se soubess e exatamente o que ia acontecer e porquê.
Quando chegámos junto do lago, ambas se precipitaram para junto da água. A Jessie saltou primeiro. A Pêssego seguiu-a, num passo inseguro. Nadaram juntas durante alguns metros, até a Pêssego tomar a dianteira e se juntar a um bando de patos. A Jessie voltou para terra e sacudiu a água do corpo. Sentou-se durante alguns minutos a olhar para a “filha”. Depois, deu um latido e saltou para dentro do carro, como se dissesse “São horas de deixar a minha pequenina voar”.
De regresso a casa, o Ricky colou, na casota da Jessie, fotografias dela e da Pêssego a escavarem, a apanharem bolas e a aconchegarem-se. Durante muito tempo, após a partida da patinha, a nossa cadela foi até junto do lago. Víamos a fita vermelha da Pêssego e pensávamos ouvir também o seu grasnar a dizer-nos “Olá”. A maternidade mudou a Jessie. Outrora insociável e intimidante, cedo se tornou amiga de todos na vizinhança. Sempre que podia, ia brincar com os outros cães, e, quando tínhamos visitas, saltava para lhes lamber a cara. “Rosnar” foi algo que deixou de fazer parte do seu vocabulário.
No dia em que as tínhamos visto juntas, pela primeira vez, temeramos o pior. Nunca imaginámos que uma bolinha de pelo amansaria a nossa enorme Doberman para sempre… Donna Griswold

   

No comments: